Durante a última sessão foram acordadas duas datas possíveis para a sessão aberta seguida de jantar. Esta sessão, como a anterior, é extensiva a todos os participantes de outras fases do curso. Espera-se que venham muitos de forma a manter viva esta chama que há mais de um ano alimenta este "Mar de Azeite".
Era importante responderem com a maior brevidade para ser efectuada a marcação definitiva com a Ana Luísa. As datas propostas são as seguintes:
16 de Dezembro 18H00
ou
21 de Dezembro 18HOO
Um grande Até Breve a todos
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Não estou pensando em nada
.jpg)
Kasimir Malevitch "Meia figura" 1932
Não estou pensando em nada
E essa coisa central, que é coisa nenhuma,
É-me agradável como o ar da noite,
Fresco em contraste com o verão quente do dia,
Não estou pensando em nada, e que bom!
Pensar em nada
É ter a alma própria e inteira.
Pensar em nada
É viver intimamente
O fluxo e o refluxo da vida...
Não estou pensando em nada.
E como se me tivesse encostado mal.
Uma dor nas costas, ou num lado das costas,
Há um amargo de boca na minha alma:
É que, no fim de contas,
Não estou pensando em nada,
Mas realmente em nada,
Em nada...
Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa
Informação urgente
Conforme estava destinado a próxima sessão do curso de escrita criativa realiza-se
na próxima quarta-feira, 2 de Dezembro às 19h00. Relativamente ao jantar ficou adiado e será acordada uma nova data e local durante a próxima sessão. Até lá toneladas de poesia para todos vós.
na próxima quarta-feira, 2 de Dezembro às 19h00. Relativamente ao jantar ficou adiado e será acordada uma nova data e local durante a próxima sessão. Até lá toneladas de poesia para todos vós.
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
Nirintimba pintava - o pobre louco
Nirintimba perdia-se no clima azul-
a parede, uma de quatro, que sempre pintava.
De pupilas dilatadas reescrevia uma história-
minuciosas figuras, traços de paisagens.
Visitado de espírito na noite, acordava
premente de imagens que saíam de dentro
em sonhos de desenhos, linhas, sequências.
O seu mundo que colocava estático
de tigres, leões, elefantes
circunscritas serpentes em ramos altos
hienas primitivas de terapias futuras
rinocerontes vesgos iludidos nas distâncias
leões despenteados em rugidos de navios
girafas de orelha ao lado, ruminantes, calmas;
o seu mundo, ao centro, de uma selva africana.
A cor de um sol quente no país de Nirintimba
povoava um lugar sem ser o nosso e admirava
no sonho das suas diferenças, as pequenas
as pequenas diferenças que desde a manhã
na única das quatro Nirintimba pintava.
Diziam-no louco, o pobre louco, artista
que pena, louco.
Nirintimba só perdia a luz e sentia a sombra
quando algum pincel em teimosia de cerdas
esborratava a precisão de pés descalços
a ingénua infância. persistente nos erros
(quem os diria) perdia-se obsessivo.
E terminava todos os dias, todos os dias
ao fim do dia, cansado e sentado
na cadeira suja, de palha esfiapada.
De madrugada aquele outro pintor deslumbrado
chegava de máquina curiosa, película impressionada;
recolhia de objectiva a parede pintada, a vida breve
de um mural, os cimentos animados de um quadro.
Em todos os cantos, em todos os lados, um ritual
aos círculos no quarto, antes de Nirintimba acordar.
Um sonho louco, uma nova atmosfera, o clima azul
a selva que sabia ao primeiro raio de sol
seria destruída, aniquilada, para que Nirintimba
o homem louco, louco que sonhava, cobrisse
de uma nova camada. pois já não seria esse
o seu sonho na madrugada.
Diziam-no louco. o pobre louco. o artista
que apagava o indício, a mais ínfima memória
e ele sorria, revestia o dia, a bata
recomeçava -
Até quando?
domingo, 29 de novembro de 2009
Saudade
.jpg)
Edgar Degas "Retrato de M. Duranty" 1879
Saudade - O que será... não sei... procurei sabê-lo
em dicionários antigos e poeirentos
e noutros livros onde não achei o sentido
desta doce palavra de perfis ambíguos.
Dizem que azuis são as montanhas como ela,
que nela se obscurecem os amores longínquos,
e um bom e nobre amigo meu (e das estrelas)
a nomeia num tremor de cabelos e mãos.
Hoje em Eça de Queiroz sem cuidar a descubro,
seu segredo se evade, sua doçura me obceca
como uma mariposa de estranho e fino corpo
sempre longe - tão longe! - de minhas redes tranquilas.
Saudade... Oiça, vizinho, sabe o significado
desta palavra branca que se evade como um peixe?
Não... e me treme na boca seu tremor delicado...
Saudade...
Pablo Neruda, in "Crepusculário"
Tradução de Rui Lage
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
o clip de prata
.jpg)
Kasimir Malevich "Pressentimento complexo: meia figura numa camisola amarela" 1932
Gostava de te mostrar aquela pintura
feita de colagens, tecidos e mais
reflecte no fundo de aguarela
aquele mar que chega à praia
transparente, perdendo espessura
deixando os fios de alga, as espumas
brancas e breves, se puras.
Sentado no capacete sem cabeça
inscrevo a marca oval
como desafio do subir das ondas
e em cada movimento de água e sal
as cores permeáveis no pincel
rodeando as colagens, os tecidos
e um clip de prata.
era sim aquela praia deserta
de muitas dunas e mãos despertas:
"não confortável"- disseste-"mas que importa?
se são macios os olhares e na pele
a cadência dos gestos, a descoberta
depois de ausências dos heróis de silêncios
sobreviventes de horas mortas"-disseste e mais
que me ocorre, que sabemos, que tememos
quando caiu a corda surreal, imagética
magnética de dois hinos, o coro de vozes
lá fora e lá fora nada e mais
quando de novo o mar sobe e cede o areal
um pouco de granulometria seca e suja
um pó mate que sobe enquanto ergo o capacete
sem cabeça.
Esmoreço. já não meço aquela onda
que inunda os pés, capilar e húmida
invade a parte mais clara do indigo
reescreve uma auréola, granulada, branca
uma auréola de saudade na escura ganga.
quase terminada- a pintura - tamanho A4
rodeada de claridade, de linhas de luz
e a distância, feita de ondas, de sombras.
não te disse do lenço, o lenço de renda
sim esse, de linho. estava perdido
encontrei-o há três dias, no casaco de lã
de ritmos e agulhas nas noites mornas
e motivos de vasos gregos ou de Creta;
um pequeno triângulo no bolso do lado
em três anos de viagem pendurado no cabide
de um único guarda-vestidos onde caem calças
escorregadias, desamparadas, teimosas
nos sinais, nas dobras. nem sequer ligo.
O lenço. o adormecido amuleto sem sentido.
três anos passados. "E que interessa?"
- dirias- " escreves, descreves, o que foi dito.
"poemisas" aéreo os lugares agora interditos.
nem sequer me sabes. um jogo de ironias."
dirias.
É verdade. tudo. mas mesmo assim
gostava de te mostrar a pintura
as colagens de tecido, o clip de prata
as cores de água, de mar salgado e mais
o lenço de renda, de linho e mais
a proximidade em crescendo que invade
o tamanho das ondas nos meus olhos
e saber -
Será que? -
O futuro? -
a carta rodeada de nomes
.jpg)
René Magritte "A corda sensível" 1960
Pensei em guardá-los dentro de uma carta
- os pensamentos, os versos
quando caem na primeira página
um nascer de águas nos ritmos brancos de flúor
seguidos de gavetas indecisas na cor de camisas
nas calças justas ou de vincos; não se usam já
bocas de sino presas nos joelhos largas no fundo.
guardá-los na primeira prateleira
de olhar distante enquanto aqueço o leite
ou meço a consistência da manteiga
no pão fresco ainda estaladiço.
alguém me fala do tempo: “parou a chuva
ficou o vento, os primeiros frios”
não compreendo no receio de perdê-los
- os versos, os pensamentos.
assim escondidos em pequenos gestos
são segredos e sei-os de serem ternos
de estar comigo como folhas de fetos
ainda verdes, a crescerem e serem filhos.
plenos de sentimento são companhia
bater de dedos no tampo da mesa
contar degraus um a um de granitos
saber quantos os pássaros na longitude dos postes
no correr dos fios ou estudar as nuvens
as suas formas e feitios, vagas de espumas
mousse de cortinas no vagar da velocidade
esticar de rede que descobre o lugar do céu
imaginário, etéreo.
o medo de os perder – os versos, os pensamentos
não os tornar a ver, não mais conversar com eles
tirá-los da testa, alisar-lhe os cabelos.
por isso pensei que é melhor guardá-los numa carta
e nessa carta, para que cheguem a casa, pôr um selo
e rodeá-lo de muitos nomes, muita gente dentro deles.
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Melodias de um desconhecido
Não são muitas as minhas melodias.
surpreendo-me quando chegam
perdidas como ilhas
num mar de faróis
de outras, tantas, tantas melodias.
pérolas, pérolas minhas.
são como células distraídas
que descem e sobem o meu corpo
sem a noção exacta de uma força
íntima, sísmica, que ensina acima
as estrelas, a lua de melancolias.
as minhas melodias sempre são
uma âncora em qualquer sítio
no recanto de uma rua, na livraria
no vidro entreaberto de uma limousine.
surprendem-me as minhas melodias.
talvez as achem ridículas.
mas mesmo assim sinto-as
sinto-as tanto, tanto tanto
que, se tivessem vida
da mesma forma que as canto
cuidava delas se tivessem frio.
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
Os pássaros de Londres
.jpg)
William Turner "Londres" 1809
Os pássaros de Londres
cantam todo o inverno
como se o frio fosse
o maior aconchego
nos parques arrancados
ao trânsito automóvel
nas ruas da neve negra
sob um céu sempre duro
os pássaros de Londres
falam de esplendor
com que se ergue o estio
e a lua se derrama
por praças tão sem cor
que parecem de pano
em jardins germinando
sob mantos de gelo
como se gelo fora
o linho mais bordado
ou em casas como aquela
onde Rimbaud comeu
e dormiu e estendeu
a vida desesperada
estreita faixa amarela
espécie de paralela
entre o tudo e o nada
os pássaros de Londres
quando termina o dia
e o sol consegue um pouco
abraçar a cidade
à luz razante e forte
que dura dois minutos
nas árvores que surgem
subitamente imensas
no ouro verde e negro
que é sua densidade
ou nos muros sem fim
dos bairros deserdados
onde não sabes não
se vida rogo amor
algum dia erguerão
do pavimento cínzeo
algum claro limite
os pássaros de Londres
cumprem o seu dever
de cidadãos britânicos
que nunca nunca viram
os céus mediterrânicos
Mário Cesariny, in "Poemas de Londres"
terça-feira, 24 de novembro de 2009
"Há quanto tempo não nos víamos"
.jpg)
Georgia O'Keefe "Abstracção Rosa branca" 1927
Enquanto adormecias eu lia o livro
livro grande, novecentas páginas.
Apreciava o descer do teu sorriso
o oscilar de pálpebras, os olhos verdes
quase deitados. Eram três horas.
As teclas de um piano nos dedos de Martha
um adágio, de Schumann.
Ainda não dormias. Em que pensavas?
Na música? Na loucura do livro?
O livro grande?
Lia incerto algumas frases:
“espátulas, caviares, arenques, vodkas aromáticos”
as estepes, os obstáculos
as cartas de Praga antes de Kafka.
Já dormias. Telefonou o Alexandre.
Eu lia o livro, o livro grande
Novecentas páginas.
Quatrocentas e cinquenta três
Connstantino beijava a mão de Kiti
Pela terceira vez:
“Há quanto tempo não nos víamos?”
Instantaneamente : “Porto 2001”
Claramente : 1º Balcão
Misha Maisky de túnica branca
“Como se fosse uma espécie de santo”
A música. Schumann. O romântico.
Pousei o livro, o livro grande.
Soprei a chávena.
Uma pequena nuvem quente de vapor
o sabor acre de ervas de Londres;
a insistente cor vermelha
de um autocarro de dois andares
no mesmo sítio onde comprámos a pena
de caligrafia, e um papiro. Lembras-te?
“Há quanto tempo não nos víamos?”
Mas tu dormias
e eu tinha que ler o livro,
o livro grande:
novecentas páginas
as notas do autor
o posfácio
traduzir a epígrafe -
sábado, 21 de novembro de 2009
Um choro de criança ou o caso da casa que queria ser reconstruída

"Bem sabes que estou morta
vai para três anos
quando cairam as traves
os telhados nos tectos
os tectos aos bocados no soalho."
Abriram-se as portas da casa
de noites negras e redondas.
os redemoimhos entraram.
encontraram os lugares do vento
ficaram, qual alicerce fúnebre.
As cortinas habitam, inquilinas
no ar cinzento, esventrado, dentro,
fora conversam com as gárgulas
guiam os dias de segredos pardos.
Na velha cozinha, na mesa de chapa,
jaz deitada a chaminé,
a chaminé de um velho samovar,
escuro, no pouco brilho do esmalte,
soçobrado.
Na névoa fina a casa chora
chora como choram as crianças
convulsa de soluços, sem saída
agitada, sem futuro.
Por ali, quando passo, cissia:
"Viajante, caminheiro, amigo
se passares por mim não olhes,
não provoques os destroços brancos,
as caliças nas escadas.
como bem sabes estou morta
vai para três anos."
Há palavras que nos beijam

Sonia Delaunay "Projecto para quatro xailes"
Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperançar louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.
Alexandre O'Neill, in 'No Reino da Dinamarca'
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
Disinspiração constipação
Musa inspira-me
Está ali a máscara de oxigénio
A droga ao lado
Injecta-me com a caneta bico de esfera oval
A tinta azul, verde e o tinto
Já me sinto
Melhor
Querida musa
Perdoa as tosses
Agradeço os cuidados
Prepara agora o papel e diz aos poetas
desesperados no passeio do vale:
Sucumbiu a larva na taça de arroz em tempo de
comer a língua para matar a fome e
uma dor de estômago a pico de cacto na
barriga descalça subiu
cozida a vapor
Digo aos poetas no passeio de pedra sentados ou aos que se passeiam?
Sei lá Musa, na verdade estou hoje tão desinspirado como constipado.
Que se plagiem uns aos outros, como eu os plagiei!
Ana Janeiro
Está ali a máscara de oxigénio
A droga ao lado
Injecta-me com a caneta bico de esfera oval
A tinta azul, verde e o tinto
Já me sinto
Melhor
Querida musa
Perdoa as tosses
Agradeço os cuidados
Prepara agora o papel e diz aos poetas
desesperados no passeio do vale:
Sucumbiu a larva na taça de arroz em tempo de
comer a língua para matar a fome e
uma dor de estômago a pico de cacto na
barriga descalça subiu
cozida a vapor
Digo aos poetas no passeio de pedra sentados ou aos que se passeiam?
Sei lá Musa, na verdade estou hoje tão desinspirado como constipado.
Que se plagiem uns aos outros, como eu os plagiei!
Ana Janeiro
Subscrever:
Mensagens (Atom)