quarta-feira, 18 de novembro de 2009

(des)inspiração de chuva.

E sento-me em divagações lacónicas
prostrações canónicas
e ausências de ti.
Inspiro -
e sorrio se transpiro -
se por acaso de luas
ou sintaxes do destino
se abriram outras gavetas
e em tecido
(ou meias pretas)
me surgi.
Sonhei-te algures por aí.

Amanheci.
E em sombras vãs,
horas despidas,
perdi-te as linhas de insónias
em estruturas mal cosidas.
Expiro -
e as palavras em retiro.
Se acaso não for de luas
então de uvas ou de amoras
que eu espero em curtas demoras
e cruéis morfologias.
E partias
sem conceitos ou estruturas
em versos de chuvas amenas
e tardes de luz.
Por fim deserta.

E anoiteceu na casa do poeta.

Inês Beires

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Olá a todos. Só para que saibam que eu, Clara Oliveira, tenho o grande prazer de fazer parte dos Aprendizes de Poetas:

Vozes capazes de rasgar sorrisos
Vozes repletas de promessas efémeras
Vozes alquímicas, transformam o que tocam em quimeras irreais
Vozes de sonho, transportam-nos em bolas de sabão, leves, suaves, cristalinas

o hábito do silêncio


William Turner "Chegada a Veneza" 1844

ainda há o hábito do silêncio
que habita o recreio da mente
de batas brancas e tintas azuis;
cenas de filosofia e giz
num quadro negro
antepassado
de uma mesma cidade
onde nasci
sem partida anunciada.

sábado, 14 de novembro de 2009

(des)inspirar por fora

lagos escuros
luz de gotas em fuga
nuvens à chuva

(des)inspirar por dentro

bocados vermelhos de ser
pequenas dobras livres
saltos esgrimistas lá dentro
à escuta

será que entrei
- devo ter entrado-
tudo à mesma marcação
eu o espaço
o tempo da palavra
a entropia

não trouxe nada
nada me enviesou
nem pássaros ou navios
só o mundo
em nó vermelho de mim

lembro água
ou areia ainda liquida
a desintegrá-la por precisar
e linhas em fuga de mim
que partem

como chegam olhos baixos
de rostos que habitava
e comboios
de encontros subitamente lúcidos
que não souberam parar,
e pele, sei que há pele
- ainda devo ter pele-
sinto-lhe o grito a transpirar

não trouxe nada,
encosto-me a ver passar linhas
em dolorosa minúcia de ti,
agarro a linha do tempo
e enrolo-a ao pescoço
na esperança que te repita em si

mas o fluxo desata a vibrar
a meada doba irritada
em vez de linhas, ondas,
a velocidade aumenta, deriva
o espaço das palavras
e já nada chega ou se parte
só elas a rir de mim

perdi os olhos,
a pele vermelha,
o comboio
e a precisão da areia

Não sei sair
à roda o tempo
fechou-me cá dentro
a um canto neste poema

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Wave



Vou contar-te das estrelas
Belas e únicas nos espaços do céu.
Esquecer o vazio da calçada
Tão sólida, linear, indiferente.
Saudade da casa das rosas
Essa nuvem de aroma
Que juntava à imperfeição do rosto,
O meu rosto, à maresia, o mar sereno
Onde te via subir, descer, aparecer
De algas presas
Como tatuagens.
O olhar perfeito.

Por isso vou contar-te das estrelas
No ar de dez mil metros
De corpo leve, tão leve…
Ao longe os pormenores
De cada árvore, de cada ave
De cada braço de um rio
A clareira de um prado
Os jardins intensos, uma cabana
O paraíso, enquanto desço.

Vou contar-te das estrelas
Esquecer os anos de sombras
E de silêncios
Sentado numa voz quente
Que soa de sonhos
E se sonho, se sonho
Não quero que pare
Que tropece ou caia
Antes que embale
E eu prometo que só lembro
Das estrelas, enquanto desço.

Vou contar-te dos alpendres
Dos vidros das janelas
Das superfícies transparentes
E também dos verdes bosques
Descobrir nas penumbras claridades
O que escondem os chapéus dos cogumelos
Num entrançado de linhas, protegidas.
Vaguear a luz rectilínea dos arbustos
Em Novembro.

Vou contar-te das cegonhas e dos ninhos
No cimo dos postes, em recorte.
Do borbulejar das nascentes
A fonte próxima, a suavidade
De um mar. E sei que haverá
Uma túnica comprida, branca
Uma asa de cada lado.
E sei que haverá
Em cada um dos nossos passos
Um anjo de dois lugares.

Vou contar-te das estrelas

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Balanço

Passeio o meu olhar
nesta imensidão de água queda
enfeita-se de sombras de luz
que coroam qual rainha
água calma
nela me vejo reflectida
tão diferente.
em mim tempestade sem fim
ventos ciclónicos
águas transbordantes
redemoinhos de pensamentos
atropelos de vontades.
preciso de ti
para essa calma encontrar.
quero a suavidade de movimento
do moliceiro ao crepúsculo
quero a doçura do toque do casco na água
quero balanço de embalar
e embalada nos teus braços dormir
um sono fundo e apaziguado.
encontrar na força do teu abraço
a minha força também
sermos ambos a força que precisamos
para continuar esta nossa viagem juntos.

Clara Oliveira

segundo ensaio sobre a "desinspiração"

deserto de palavras
não as consigo tecer
entrançar umas nas outras
formar imagens de cor

aridez de palavras
mergulho os dedos nestes grãos
escorrem sem dono
por entre as minhas mãos

vazio de palavras
atravessar esta lonjura
por dentro sinto-me rasgar
derrete-me a mente nesta loucura

deserto cheio
de aridez vazio
de palavras

Clara Oliveira

parábola de balas


(retirada da internet)

eram horas e partias

no fundo dos teus olhos o espírito
o desejo louco de abrir asas
mas os envólucros na mente oca
como bolas pendulares de ping-pong
o feitiço de vingança de Saddam
ao soltar os arquétipos de Jung
os desertos complexos de Freud

eram horas e partias

as marquesas, centenas de marquesas
jovens soldados enrolados de tinturas
as alas obscuras das mentes, dementes
de águias, abutres do Egipto, hienas
e as vozes de cantata dos comandos;
queriam fechar as asas, as tuas asas
e sabias os medos, as sentenças
das terras secas, do ouro preto

eram horas e partias

a luz, de um sol gélido de Maomé, a luz
nas asas brancas, a esvoaçar, a esvoaçar
nas tuas, nas deles, inocentes
um mar de milhares de penas
uma parábola de balas a cruzar, a cruzar
a tarde grave de ruídos, gritos e sangue
e a camisa de linho, a mais bonita
tingida, no seu último dia

eram horas e partias


P.S.- Este poema é sobre o caso do Major psiquiatra que assassinou
jovens soldados ao ter conhecimento que estava destacado para o
Iraque. Achei por bem pôr este esclarecimento porque, para aqueles
que não participam no curso de escrita criativa, será agora mais
fácil seguir os vários trabalhos que concerteza vão chegar.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Informações

ola a todos! queria saber qual é o trabalho de casa desta semana! e quando é a proxima reuniao já agora! (estou a rezar para que seja neste sabado so a partir das 5 e 15! ou noutro dia qualquer).
Já estou a reaprender a falar (ou a escrever) e vou esta semana fazer os mil trabalhos de casa em atraso (perdoem-me o exagero, mas mil é como os sinto).
Presumo que seja um haiki, mas queria saber mais detalhes!

Um grande beijinho e saudades,
Maria Inês Beires

Haikai

"O haikai é uma composição poética japonesa
que pretende sugerir um máximo de sensações
através de um mínimo de palavras. Na sua
forma clássica, apresenta apenas 17 sílabas,
organizadas em terceto, com uma métrica de
sete sílabas no segundo verso e de cinco sílabas
no primeiro e terceiro versos"
(Da ficha de trabalho da última sessão)

Ex.

Furu ike ya
Kawazu tobikomu
Mizu no oto

Matsuô Bashô (1644-1694)

Traduções:

Ah!o velho poço!
uma rã salta
som da água.

Armando Martins Janeira (1914-1988)



Quebrando o silêncio
do charco antigo a rã salta
n'água - ressoar fundo.

Jorge de Sena (1919-1978)


Um templo, um tanque musgoso;
Mudez, apenas cortada
Pelo ruído das rãs,
Saltando à água, mais nada...

Wenceslau Moraes (1854-1929)


Ah! o velho lago
...o baque na água.

Paulo Murillo Rocha (publicada em 1970)

Exercício na Sala:

Foi submetido a apreensão o seguinte haikai, famoso, de Ezra Pound (1913)

"The apparition of these faces in the crowd:
Petals, on a wet, black bough"

(este poema é sobre o Metro)


Os meus primeiros haikai

Sombras são faces na cor da pedra
Os braços são ramos no chão.


Crescem faces húmidas na escuridão
Fora cai chuva no chão.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

duas possibilidades

duas possibilidades de alteração ao meu final:


matas o concreto
viverá para sempre
o devaneio


o corpo cessa de pulsar
e de mim...que sobra...

Clara Oliveira

primeiro ensaio sobre a "desinspiração"

"















"

Haikai

nada se escreve
tanto se entende

Clara Oliveira

Nada nem uma metáfora




Inspira, inspira, apenas o gato
Sossegado na corda da cauda
Que alisa o tecido de um e outro lado
da almofada.

Nada nem uma metáfora.

Os dedos aprumados na caneta
De superfície lisa, permanente
Tinta de uma “Parker” 75
Prenda de outros anos;
Despedida do Alexandre
Entrada na Universidade.

Mas nada, a folha em branco.

E agora depois de tanto tempo
Nem que queira, a tinta seca;
Os batimentos de cadência
O ritmo de pontos brancos
Que se iluminam de novo
Na cor preta
E não era assim costume –
Azul a cor
Os dias, a força, o presente sorriso
E um livro irónico e supremo
De um “Conde Sandwich”, aceso
Na invenção do piquenique;
O pão de forma, o ovo fatiado
Queijo, presunto, o tomate de salada.

E nada nem uma única palavra.

A folha em branco picotada
De bico seco e o tormento
De nem uma, uma única
Qualquer ideia. Nada.

De súbito olho o gato
Que estende a pata e solta as garras –
Penso logo, claro - a selva.
E abre a boca, uma língua de víbora
Dentes sinuosos, os olhos vedados
Claro, claro que vejo – as feras.

Agarro os olhos no cimo da mesa
Procuro de novo o tricot da caneta
E eis que alguém chega, abre a porta
Salta o gato, eriça-se a cauda
Cai a almofada, sopra o vento
Esconde-se a folha
E nada, desgraça.

Alguém chama –

Berlim


Lecha Walesa inicia a simbólica queda do muro (retirado da internet)


Erguer numa única palavra
a queda do muro
em cada pedra caída
a boa história - HUMANIDADE.
"I still have a dream"
de sementes largas
sorrisos brancos
um dominó gigante
nas ruas de Berlim.