segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Debruçado em mim até ao mar (Passeio das Virtudes)


Em cuidado de vós
não vos debruceis nessa varanda
que é pouco segura a cascata de ferro
a tremer até ao Douro

olhai bem este sítios queridos
vede-os com derradeiro olhar
em copas de tormento tomai
o que de chão vos restar
que nesta rua não há baloiço
que não vos lance em alto mar

cinco janelas, cinco cavaleiros
a cavalo em gaivotas que relincham
levam esta carta à minha infância
e todos espreitam na rua
o candor que nela vai bordado:
o teu olhar de baloiço à janela
que outrora embalava a cidade ao meu lado

aqui regresso
em vela caída que chama
a fruta demasiado doce à mercearia
e ao rio a verdade que resvala na rua

segura em aperto de mãos
entre bons dias e passadas suspensas à noite
como o violino de uma criança
que vencesse o carrilhão dos Clérigos
ou o Outono que abandonaste
debruçado em mim até ao mar


em cuidado de vós
não quereis ser desta rua sem o serdes
que não há verdes em equilíbrio
que aqui não tombem
em murmúrio de nevoeiro quando há luar

por aqui passai de um verso a outro
como um soldado de chumbo
sem hesitar, cantai aos cavaleiros
e bailai com as gaivotas sobre o gelo
mas não pouseis, visitante, com elas
que asas não vos chegarão para levantar

a mim deixai-me quieta
que o tempo agora é este:
uma rua inclinada para as tuas mãos

Joana Espain

Foto retirada daqui 

NASCIMENTO

Acordei e és a minha casa
O meu colo embala-te em vida
Sonhei e és o meu sorriso
O meu coração a tua música

Cresces dentro, bem perto
Numa história nunca escrita
Há um tempo diferente na minha pele
Que se estende na tua

Um tempo eterno e tão breve
Que nos muda e em nós fica
Uma magia infinita
A colorir de amor
A cor cinzenta da dor.


Liliana de Castro

AS CASAS

Dentro de nós as casas habitam-nos
Casas de nós mesmos somos deuses
Os lugares dos outros em nós
Repousam nos quartos íntimos da dor

Dentro de nós os outros habitam-nos
Casas de nós mesmos entranham-se na pele
Pertencem ao mesmo respirar do nosso nome
Repousam-nos no ventre e dançam

Dentro de nós as horas habitam-nos
Casas de nós mesmos gravam-se em rugas
Repousam no tempo vivido da memória
No vai e vem do coração apressado

Dentro de nós só o amor conta histórias
Casas de um poema e de poetas que se juntam
Pertencem ao mesmo respirar do nosso nome
Embalados nas artérias do sentir
A sorrir pensamos: como é bom chegar a casa!
Liliana de Castro

As Casas

Não sei o que dizer. Não sei. Desde o início da semana ando a ruminar no tema. Olho para ele, dou a volta, volto a olhar. E não sei por onde lhe pegar. Se pelo telhado, se pelo chão, se pelas paredes, ou se pelo que existe dentro das casas e só se vê quando olhamos com os olhos do coração. Raio de tema este. Não lhe encontro poesia. Pronto! Talvez alguma, naqueles grãos de areia que servem para ajudar a cimentar os tijolos. Ai se apanho quem fez a escolha do tema…
Posso começar por falar da minha casa. Uma senhora casa, com vida própria e muito independente. Existe há 63 anos e está de boa saúde. Foi a casa que os meus pais construíram quando casaram. Sempre vivi nela. Nunca tive outra. Nasci onde agora é a sala de estar. E pensando bem, acho que já dormi em quase todos os compartimentos, menos na casa de banho e na cozinha, claro. Sei que a nossa casa não tem de ser um espaço rígido e fixo. A casa é onde estamos e onde nos sentimos bem. Mas reflectindo na minha experiência, eu, tão aparentemente solta e desligada, quando fora alguns dias e retorno a casa tenho uma sensação inigualável. É como voltar ao embalo dos braços da minha mãe. A minha casa tem a minha identidade, a minha marca, regista todas as minhas vivências e memórias. Voltar a casa é voltar para mim própria, para dentro de mim. Voltar à minha infância. Ao tempo em que tomava banho com o meu irmão numa banheira branca de plástico no pátio em frente à cozinha. Ao tempo em que me armava em cantora pimba e cantava acompanhada pelo mesmo irmão que sacava sons dignos de uma bateria aos baldes virados ao contrário. Escusado será dizer da vida curta desses baldes. Ao tempo em que juntávamos primos vizinhos em duas equipas de hóquei e com troços de couve fazíamos belos exemplares de sticks. Ao tempo em que tomávamos banho no tanque de lavar a roupa com direito a camara de ar de pneu e tudo. Depois, os espaços diminuem na mesma proporção com que nós crescemos. E fico-me a olhar para o tanque e até rio a pensar que já tive medo de me afogar ali naquele nico de espaço.
Talvez seja a minha casa o alicerce que me acompanha desde que sou gente. Faz parte de mim e do meu crescimento. Disso não tenho qualquer dúvida.
Não sei se fará algum sentido comparar as casas a uma pele. À pele que nos reveste o corpo. Mas também não tem de haver sempre sentido nas coisas. Quando existe poesia e liberdade de escolha podemos comparar até o incomparável. Afinal, sempre parece haver alguma poesia. Alguns grãos, bem boleados de areia, que insistem em entrar na engrenagem deste texto. Quem fez a escolha do tema pode dar passo em frente. Está desculpado!
Sim. Definitivamente, as casas, do sítio onde me sento para observar, são a pele que revestem o nosso corpo. Se dizemos que os olhos são as janelas da alma podemos bem dizer que cada um de nós é uma casa. Uma construção feita diariamente e em constante manutenção. A pele é a parte exterior das paredes das casas que somos nós. Protege e confina a um único espaço o que está dentro. Mas, ao mesmo tempo que é a linha que separa o interior para o exterior e vice versa, é o ponto de contacto entre essas duas realidades. Tal qual uma ponte, uma linha fronteiriça. Une as duas margens. Por essa ponte existem trocas constantes. Algumas até conseguimos percepcionar outras, nem nos damos conta. A pele é um registo diário de todas as nossas vivências, em especial um registo dos nossos afectos. Um mapa afectivo. Haverá forma mais absoluta de demonstração de afecto que um abraço silencioso e sentido? Mesmo que a roupa impeça o contacto direto de pele com pele, a forma como nos entregamos no abraço faz desaparecer qualquer outra necessidade de comunicação. Um toque de mãos diz tanto sem serem precisas palavras. É com a pele mais do que com outro sentido que nos ligamos ao outro e ao mundo que nos rodeia. Que somos casas complexas, pois somos. Tantas vezes nos destruímos e reconstruímos. Tantas vezes a precisar de valente limpeza e arejamento interior. Sempre em mutação diária. Sempre em descoberta do mistério que albergamos dentro de portas e que somos nós.
Resta agradecer à Ana Luísa pela generosidade com que abre ambas as portas das suas casas. Bem, depois disto, e a precisar de um abraço, continuo sem saber o que dizer. Para a próxima vez, quem escolhe o tema sou eu!


claraoliveira 2016.01 


A casa

A casa está desabitada –
Não há calor nem frio
Não há emoção nem sentimento
Ninguém a habita e eu estou aqui
Sozinho. Se passeasse pelo interior,
Talvez o fogo me aquecesse
Mas não, o fogo está apagado

A casa é somente ideia,
Se ao menos fosse nítida,
A ideia torna iguais
Todas as casas, e essa casa
Nítida vive apenas na minha memória,
Ou na minha saudade

Quando aqui cheguei pude reparar –
As heras haviam tomado todas as paredes,
E olhando as heras pensei em ti
E na destruição da casa –
Entrei na sala das teias do tempo,
A um canto num fio pendente de uma teia
Cintilava o teu sorriso
A outro canto, a maciez dos teus afetos,
E o frio tomou-me o coração

Havia mais dois cantos habitados –
Coisas do dia-a-dia acumuladas 
E o teu sofrido cansaço
Mas a tua sombra escondeu a teia
E os fios da vida e os caminhos –
A cada memória sucede um abismo –
O vazio encheu o espaço da minha alma

De súbito, a sorrir-me enigmática
Veio a Morte, visita costumeira desta casa
Agora definitivamente
Despojada do fogo primordial – 

José Almeida da Silva
22.01.2016