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domingo, 20 de julho de 2025

A fruta e a fome

 A fruta caía de madura no chão limpo

à sombra das árvores. Depois apodrecia

ao sol do respeito pelo dono.


Os filhos esbugalhavam os olhos

mas não pude matar a fome – 


O pai tinha uma alma para dar

a Deus, e os filhos podem esperar.


Não era sua fruta – 


                                  

    (Inédito)

30/06/2015

   José Almeida da Silva

sábado, 5 de janeiro de 2013

Ano Novo - um poema de José Almeida da Silva




ANO NOVO

Andou o ano todo
a envelhecer –

As noites e os dias
desnudados
e enxertados na vida
distraída

E o caminho a fazer-se
momento a momento
como se fosse único

A luz e a sombra
cresciam
como a Lua e o Sol

O choro e o riso
repetiam-se
e o sofrimento
e também a alegria

E como por magia
as doze badaladas
a soarem repetidas

E como o crepúsculo
se faz noite levemente
a madrugada desvela
da alegria a luz

Andou o ano todo
a envelhecer –

O tempo sempre outro
não cessa de nascer –

2012.12.28
José Almeida da Silva

sábado, 22 de dezembro de 2012

Um poema de Natal por José Almeida Silva


   Imagem daqui

Neste Natal é imenso o frio

Neste Natal é imenso o frio –
Belém é um denso nevoeiro
E um obscuro e tímido silêncio
E o orçamento das famílias
Não suporta o calor

Da mensagem de amor
Que em Belém de Judá
Foi anunciada
Faz tanto tempo já.

O frio então era natural
Tão diferente do frio
Cúmplice e artificial
Dos pastores e reis magos
Destes tempos –

O Menino continua o mesmo
Mas os carneiros e as ovelhas
Estão gordos com as pastagens
Dos outros, já tão magros.

Há de crescer o Menino,
Assim o creio,
E na mão um chicote
Para afastar a tirania
E devolver a Esperança.

Não é da cabeça a sua essência,
O Natal é do coração –
Simplicidade e fraternidade
Não cabem no prodígio frio da razão – 
                                                 
19.12.2012
José Almeida da Silva

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Cantar de amigo - um poema de José Almeida Silva




Cantar de Amigo

Não mais, meu amigo,
O passado ido –

O caminho feito
Revelou a luz

E trouxe o presente
Voltado ao futuro.

Sei que não rasuro
O medo e a miséria,

Nem a ignorância
Nem a opressão

Que foi o passado
De dor e sem pão.

Não mais, meu amigo,
O passado ido –

Sei que estou atento
Ao frágil momento –

Velados desejos
De um tempo perverso,

Vestido de outrora
E bandeira preta.

Mas se for preciso
Há luta na hora

Que os dias são outros
E a consciência acesa –

O cansaço é muito,
Muito o desencanto

Mas há muita força
Para defender

O grande poder
Que é a liberdade –

Não mais, meu amigo.
Vem cantar comigo –

                     2012.06.11
    José Almeida da Silva

sexta-feira, 1 de junho de 2012

7

                                Katerina Bodrunova

Fecham-se as persianas
À ternura urge o lusco-fusco.
E os olhares ácidos
Do crepúsculo
Não saboreiam
Silêncios subtis
Num sabor feito de ardor
E arco-íris.

Fecham-se as persianas.
A ternura invade o chão nu
Numa união sempre original
De corpos doces a saber a sal.

Fecham-se as persianas.
Arde a luz.

                                10.07.1991

José Almeida Silva in Amanheceste em mim pelo poente, Editora Moura Pinto, 2007

quarta-feira, 30 de maio de 2012

A verdade sobre os guarda-chuvas














A verdade sobre os guarda-chuvas

A chuva voltou de entre nuvens de fogo – amanhã
Vai estar calor, o céu tem nuvens róseas, o negro
Que as circunda é quadro para as mostrar aos olhares
Nuas – uma beleza inesperada na tempestade oculta
Por dentro das nuvens – tanta chuva por chover recolhida
Na abóbada que devia ainda ser azul celeste pouco antes
Do crepúsculo. A chuva há de chegar com bagas grossas,
Ou miudinhas, forte e fustigada pelo vento norte enregelado
De frio como vagas encrespadas de um súbito mar enfurecido –

E eu estou à janela esperando contemplar o espetáculo tão belo
E singular que as nuvens sempre oferecem no final do ciclo da água
– Não acho piada nenhuma aos guarda-chuvas de todos os tamanhos
E cores. Os guarda-chuvas impedem que a Natureza se mostre no seu
Esplendor e que a chuva lave as impurezas que as cidades depositam
Nos homens – A sujidade assim agarra-se à pele e instala-se no coração
E até na alma – Um incómodo para a chuva miudinha que tem de fazer
Muito mais esforço. Não sei bem para que servem os guarda-chuvas.
Não guardam nada e não deixam que a chuva se cumpra na sua função.

Estava eu debruçado na janela quando a chuva começou a cair a rodos.
Fechei a janela e saí para a rua – precisava de me lavar, e não me manter
Ali abrigado como se abrisse um guarda-chuva e deixasse as impurezas
Agarrarem-se a mim como lapas nos rochedos ou bolores nas paredes.

Todo molhado, da cabeça aos pés, sentia-me lavado e leve, e comecei a
Chamar por toda a gente como se estivesse a suplicar aos céus a bênção
Da água quando as secas se abatem sobre as florestas como furiosos fogos
Devastadores de mãos sujas. As pessoas vieram mas trouxeram os usuais
Guarda-chuvas e as botas de borracha. E eu fiquei sozinho no meio delas.
Parou de chover, e eu ri muito da inutilidade dos guarda-chuvas. Como o azeite,

Toda a verdade ilumina o poema, lucerna de sons, de ideias e versos acesos –
                                                                                                                           (2012.03.06)
                                                                                                                                      José Almeida da Silva

sábado, 21 de janeiro de 2012

Arrepio




imagem daqui

.......................A superstição é a poesia da vida.
....................................................................Goethe

Corro por fora da vida
Pensando que a vivo
Por dentro. Dizem-me
Que não sou livre e sou
Comandado por aqueles
Que já partiram. Eu digo
Que não, que sou eu
Que ando, que penso,
Que falo e que escrevo
Poesia. Às vezes, duvido
Do que afirmo, sim, não
Tenho a certeza se sou eu.
Mesmo quando escrevo.

Não sou supersticioso, não
Sou. Arrepio-me, todavia,
Se me falam em bruxas
Em que não acredito. Não
Sei porquê, mas receio
Que me assombrem a vida.

Era tudo o que não queria –
Ser uma marioneta movida
Por fios invisíveis –

2012.01.13
José Almeida da Silva

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Castanhas e chocolate




Estava a comer castanhas cobertas
De chocolate. Devorava-os, feliz,
As castanhas e o chocolate, e era
Muito bom. Sem cascas, as castanhas,
Sem prata, o chocolate, comem-se
Facilmente – pensava eu. E era assim.
O gosto delas e o gosto a chocolate.

Uma voz – a da minha mãe – soou alta
E ameaçadora: – Vais ficar com dores
De barriga e os dentes podres, guloso!

Encolhi-me como pude – as castanhas
De chocolate na boca – para não ouvir,
Pelo menos muito bem, aquelas palavras
E senti por momentos os dentes podres
A cair e muitas, muitas cólicas intestinais.

Uma luz habitual de todas as manhãs
Beijou-me os olhos ensonados. Terna.
Espreguicei-me e surgiram-me uns lábios
Pé-ante-pé e sorridentes na testa morna
Ainda adormecida. Fiquei contente. Sorri.

A minha mãe prometeu-me um chocolate
Se eu lavasse os dentes depois de o comer.
Não pude esperar para me deliciar.

Dormira comigo um sonho generoso e cruel.
A minha Mãe já morreu. É mentira, sim, é
Mentira. Trago-a doce sempre no coração –
2011.11.09
José Almeida da Silva

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Cansei-me desta chuva miudinha



















"Golconde", René Magritte, 1898-1967
.
Cansei-me desta chuva miudinha,
Teimosa e poalha venenosa –
Molha sempre a minha poesia
E enruga a folha lisa onde mora.
.
Fechei a janela e a gelosia,
Mesmo assim aquela miudinha
Entra-me em casa sem pedir
Licença, curiosa e atrevida.
.
Pousa-se logo ali na mesa
De trabalho e olha a tinta
Como uma rival – as palavras
Entende-as como quer e pode.
.
Afinal, tanto lhe faz se estão
Deitadas ou se estão de pé,
O que ela quer é encharcá-las
Todas. Sim, mesmo até à alma
.
E fá-lo sempre com a calma
De um crítico de literatura.
A criatura lê tudo a direito
Sem respeito por quem
.
A pensou e escreveu. Enfim,
Presunção e água benta,
Tem-na ela à flor dos olhos:
Lê e insensível diz – não presta.
.
E esgueira-se de aresta em aresta
Feliz e rindo da patifaria. Eu fico,
Já se vê, como o sol no deserto
Capaz de a matar de insolação.
.
Mas sem demora guardei a poesia
Enrugada na gaveta, e fui para a janela
Exorcizar a chuva para que fosse embora.
.
E mesmo tímido, o sol iluminou-lhe o caminho –
.
2011-06-06
José Almeida da Silva
.

Reflexão à chuva

.
Foi de chuva intensa esta manhã, eu sei,
E a noite de caudalosas lágrimas.
.
Não sei que te diga. Tu sabes, a chuva
Aborrece e depura, apesar da lama a correr
Pelas ruas [é verdade, as sarjetas entopem,
Não são limpas – o verão distrai quem é já
Propenso à distracção e à monotonia]
Enlameando os degraus das casas e as caves.
.
Às vezes, nutre a chuva, sobretudo
Se surpreende as pessoas que a não
Esperavam, distraídas, e que correm
Às lojas chinesas que pululam na
Cidade como os cogumelos nas terras
Húmidas e quentes, e compram baratos
Guarda-chuvas de qualidade duvidosa.
A lama é também aluvião, fertiliza a terra.
.
Queixas-te muito de que a chuva incomoda.
E as lágrimas desassossegam-me ainda mais,
Brotam do magoado coração como a elegia,
Um coração que pensa somente em remoinho,
Sempre a mesma ideia, sempre a mesma força
Centrípeta confundindo a lucidez do espírito.
.
Melhor teria sido ir para a rua festejar
Como as crianças chapinando nas poças
E molhando os sapatos e as meias, rindo –
.
[Vejo-me no espelho de uma poça a brincar,
Sapatos encharcados até aos pés, e as calças
Molhadas nas bainhas, tudo uma emoção,
E felicidade por esses momentos de alegria.
.
Sei bem o que custa assim a liberdade,
A minha mãe vem lá de mãos atrás das costas –
.
E tu sorriste ao sol do meu sorriso –
.
2011-06-04
José Almeida da Silva
.

Toquei de leve a chuva

.
Toquei de leve a chuva
Caída no teu rosto
.
Somente à transparência
O teu olhar de luz
Era frágil inocência
.
Abandonada a beleza
É ainda mais bela
E iluminada
.
Repousa a chuva
Na manhã de rosas
E tu resplandeces
.
Afrodite não estaria
Mais sublime –
.
2011-06-08
José Almeida da Silva
.

sábado, 12 de março de 2011

Palimpsesto



Palimpsesto

-------------------------------------------------2001: Odisseia no Espaço



Ilumina-se o espelho do meu espírito –
Reflecte fantásticos momentos e o meu
Extasiado olhar – ao fundo o mar
Onde bailam paisagens distraídas e eu
Tranquilo e só nas húmidas areias;
Voam gaivotas beijando as águas ávidas
De pão que apazigua a fome
E a aventura –

De súbito as ondas são fogo a deslizar
Em direcção à praia
Deixando para trás as tintas que desmaiam
Amalgamando-se nas águas lá longe na linha
Do horizonte.
Incapaz de me mexer, fico aflito e preso
À beleza aterradora – o medo imobiliza,
Lugar armadilhado –

E fugir não é remédio, movo-me apenas dentro
Da vontade atada, e o fogo cresce e desaparece
O mar – um grito é o bastante para estilhaçar
O espelho –

Do sono criador – soube-o depois – ergue-se
O palimpsesto –


2011.01.13
José Almeida da Silva

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Tempo


Fotografia retirada da internet

Tracei a linha por onde caminhara
E no fim o abismo –
Apaguei a luz e acendi estrelas,
Sentei-me a pintá-las no vazio –
Ilusório balão de oxigénio –
Então o horizonte era um intenso frio.

O tempo não é como a primavera. Faz a sua viagem
Sem retorno, e eu vou com ele, ainda que não queira.
Vou de mão dada contra o medo –

Move-se o fantasma viajante diante do abismo.
Acordo nesse instante em vigoroso tiquetaque
E acendo a luz do quarto. Não há ninguém por perto.

– A morte é uma ilha no deserto que terei de descobrir
Sozinho e a seu tempo –

2010.10.27
José Almeida da Silva

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Trago o Natal no fundo do olhar


Cartier Bresson


Trago o Natal no fundo do olhar
Esse tempo em que a alegria
Era um lugar de crença seguro
E protector e os doces o calor
Da ternura que a casa oferecia.

Trago o Natal no fundo do olhar
Esse tempo a correr pela cidade
[Evocando o amor e a fraternidade
E esquecendo o frio e a dor]
– Agora, desumanidade e elegia.

Trago o Natal no fundo do olhar
Esse tempo que foi simplicidade
E em que eu acreditei num mar
De gestos que eram então realidade.
Hoje, o Natal é apenas utopia –

Promessa à espera da alegria
Aqui tão perto e no Mundo inteiro.
A Fome e a Guerra são no entanto
Ameaça séria e duradoura, um pranto.
Não há ouro que baste aos senhores!

Trago o Natal no fundo do olhar –
Natal, 2010
José Almeida da Silva

sábado, 24 de julho de 2010

Sete Pecados de José Almeida da Silva


Hieronymous Bosch " A mesa dos sete pecados"



A exactidão do sal

Não sei falar de pecado. Sei
a angústia da norma – o prazer
do desvio doloroso.

Poetizar o pecado é reinventar
o fino fio da lâmina – consciência
da minha divina humanidade.

Por que chamar pecado ao humano
precipício da acção?

O excesso ilumina a exactidão do sal
que anima a vida.
2010.06.03
José Almeida da Silva



Pão sem fermento?

Por um pecado – não digo o nome –
Percorro quilómetros e desmarco
Compromissos da minha inadiável
Solidão. É a minha perseverança
No pecado – um prazer inexplicável.

Por uma virtude fico estático a imaginar
O futuro. Fica para amanhã o presente.
Também eu. Inexplicavelmente. É um
Doce o pecado, o lado de fora de mim,
Morando dentro, bem no fundo. De mim.

– O que seria o pão sem fermento?
2010.06.04
José Almeida da Silva




Pecado

Pensei nisso depois. Agir é tão diferente
de pensar. [Peca agora e pensa depois.
Assim se tece a teia.]

Pensar é afastar o que faz parte – nasce
assim o pecado. É assim a gramática do ser
gregário – o facto origina a norma e o desvio.

Mas enquanto o acto vai e volta, folga o prazer.
Ser humano é controverso – argila e sopro.

– A sombra é contra-luz.
2010.06.05
José Almeida da Silva




Desconcerto

O desconcerto da norma é sempre
Outro caminho por onde se caminha
Olhando o sol do bem e do prazer –
Manhã primaveril que veste o olhar
E traça o perfil da breve circunstância
Que liberta o ser do deserto da forma
E da elegância.

Não sei se é pecado mas sei que é
Humano.

– E alcança-se assim a divindade.
2010. 06.12
José Almeida da Silva








Sofrimento insuportável

A vida assim é um beco sem saída.
Sem luz e sem sentido é a morte
Arrastando os grilhões do que resta
Sem dó sem piedade sem respeito
Pela dignidade dos ainda fragmentos
De humanidade – Uma tragédia ignóbil
De amor – é assim o inútil sofrimento.

Amei-te a vida toda com um inexplicável
Medo de te perder. Não admira a minha
Estupefacção por desejar-te o fim. A ti,
O meu princípio. A vida [dizem-me] é
Um valor acima de todos os valores.
E sei disso muito bem. Respeito a vida.
Mas eu olhava-te amorosamente e não
Sabia como lidar com aquele sofrimento
Insuportável ao meu olhar, ao meu amor.

Tu sofrias tanto. A luta era tão desigual
Que eu não desejava senão a paragem
Do coração. Do sofrimento. O medo?
– Os insondáveis mistérios da alma
Sussurravam-me o pecado contra a vida.
A luta era agora desigual só dentro de mim –
Sensível à dor do amor, cruel penar,
Ou submisso à utópica metafísica da alma? –
[Aquela que me angustia o dever do amor.]

– Pecado é não amar com o coração.
2010.06.06
José Almeida da Silva




Se eu tivesse um relógio

Se eu tivesse um relógio
Abri-lo-ia para lhe ver as entranhas.

[Há horas de amor e horas de solidão e dor;
Há horas de luz e horas de sombras e elegia;
Há horas de prazer e horas de choro e luto;
Há horas de esperança e horas de amargura e morte.]
………………..

Um dia encontrei o meu relógio que eu não sabia que tinha
Mas que, disseram-me depois, me fora dado na infância.
Então abri o relógio cheio de esperança. Descobri que não tinha
Coração. Pelo menos o coração que tinha na minha infância.
[Pelo menos o que eu acreditava quando era criança.]
Sempre os ponteiros desequilibrados como os pratos da balança
Que pesa os pecados e as virtudes ou a bem-aventurança.

Olhei-o penosamente. Depois deitei fora o relógio. Não me serviria.
Não me compreenderia. Não me orientaria para lugar nenhum.

Sem coração para que serve um relógio? Não sei acertá-lo.
2010.07.01
José Almeida da Silva





Dissonância

É como um maremoto o pecado,
Só força insubmissa da argila deslumbrada,
Dissonância musical da divina humanidade,
E sopro adormecido – a luz da intensa sombra.
2010.07.12
José Almeida da Silva

sábado, 22 de maio de 2010

Rua João das Regras - número cinco


Gustav Klimt "Castelo sobre a água" 1908

A casa é a harmonia pentagonal,
As estrelas debruçadas à janela,
Dinâmicas cozinham iguarias
Enfeitadas com flores de hortelã.

A casa é reunião de treze comensais
– A força do poder e do sublime –
Estimando as leis universais regidas
Pelo céu, e sempre cinco no total –
Cores, sabores, tons, metais
Vísceras, planetas, orientes
E do espaço cinco regiões,
Cinco sentidos, não seis que são demais –
Eis a Terra toda em sensível plenitude.

A casa é também Poesia, Vinho e breve Spleen
E a Alegria de estar assim em união, nutrindo
O corpo, o espírito e a magia surgida da cozinha
Transtagana. Janeiro em Abril é Mulher e é Viola
E acordes em estreia absoluta. Em tudo melodia.
Melodia é ainda a casa toda – há ecos do direito
E monarquia – as Cortes de Coimbra, os discursos
Exaltados a favor do Grão Mestre de Avis –
a eloquência na argumentação, a força do braço
Em Aljubarrota, as fontes da Lei Mental de D. Duarte
– Um baluarte, o João das Regras!

Bendito seja quem assim recebe.
Abril, 2010.
José Almeida da Silva

Acorde ou sinfonia




Quero um acorde de serenidade.
A vida é um ruído em sobressalto,
E chaga dolorosa o dia-a-dia,
E a alma do meu corpo radiosa
É quaresmal em pleno carnaval.

Sei bem que um acorde será pouco,
Mas mais é impossível por agora;
Senão pedia-te uma sinfonia – talvez
A Pastoral ou a Nona de Beethoven
– Um hino ao choro e à alegria de viver.
2010.05.19
José Almeida da Silva

Efémera eternidade





Soa a música vinda do universo
E entra na alma serenando-a
Ou agitando-a. O pensamento
Entra assim na cadência do verso
Ou do anverso do ser. Transfigura –

O bater do coração acelerado ou calmo
É sinal de lá maior ou menor em fusa
Ou semifusa, em sorriso ou lágrima,
O sossego de toda a agitação –

Lembro de Beethoven a sua Pastoral,
Lembro-a aquietando a dor da morte,
Lembro-a exultando a alma em festa,
Sinfonia bifronte – o choro e a alegria.

A música é o divino no humano, essa força
Que reforça os laços com a efémera eternidade.
2010.05.19
José Almeida da Silva

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Suspenso do teu nome





Suspenso do teu nome
Que indelével me retine
Na lembrança sinto
O veludo das tuas mãos
Serenando-me a insónia
Do medo que em criança

Chamava por ti.
Vinhas e então vinha o sono
Para exorcizar o medo
E tranquilizar a noite.

O sonho fazia o resto,
Sorria-me como tu fazias
Com o veludo das tuas mãos
E dos teus lábios pousando
Um beijo na minha testa.

É música o teu nome
Ecoando em mim a harmonia
Desde menino, agora vinda
Da eternidade que te dou.

O medo hoje é a tua ausência
Anoitecendo-me o coração.

(2010.04.21)
José Almeida da Silva

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Perecível o rumo dos meus passos







«… ao desviar-se a rota,
Se rasga a perfeição»
Ana Luísa Amaral




É perecível o rumo dos meus passos,
Sinto-o no caminho que me toma,
Sinto-o nos nervos lassos
Ainda há pouco hirtos como traços.

Sei muito bem que a rota que tracei
São caminhos diversos da emoção –
Descalço-me na areia e penso-me a voar.

É perecível o rumo dos meus passos,
O meu caminho é feito de embaraços,
De laços e de nós como coluna vertebral,
Que com o tempo se curva para o chão,

Assim a perfeição
E a vontade se esbate e gasta o véu,
Transformando-o em rede esparsa
– Sombrios precipícios onde cai a luz.

José Almeida da Silva