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terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Fragmento XVI - Ternura para um dia terno



TERNURA. Prazer, mas também a valoração inquietante dos gestos ternos do objecto amado, na medida em que o sujeito compreende que não tem o privilégio.

1. Não é apenas a necessidade de ternura, é também a necessidade de ser terno para com o outro: fechamo-nos numa bondade mútua, somos reciprocamente maternais; regressamos à raiz de toda a relação, aí onde a necessidade e o desejo se confundem. O gesto terno diz: pede-me seja o que for que possa adormecer o teu corpo, mas não te esqueças também que te desejo um pouco, ligeiramente, sem nada querer para mim imediatamente.

Roland Barthes "Fragmentos de um discurso amoroso", ed. 70, 1981

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Fragmento XV - a queimadura suave


Richard Avedon


Languidez:estado subtil do desejo do amor, experimentado na ausência deste, fora de todo o querer-para-si

«...pois desde que te sinto um instante, não consigo articular mais nenhuma palavra: mas a minha língua quebra-se e, sob a minha pele, desliza entretanto um fogo subtil: os meus olhos não têm olhar, as minhas orelhas zumbem, o suor corre-me pelo corpo, um calafrio apodera-se de mim: fico mais verde do que a erva e pouco falta para me sentir morrer.»
...
«...todo o meu eu é retirado, transferido para o objecto amado que fica em seu lugar: a languidez seria esta passagem extenuante da líbido narcisista para a líbido objectiva. ( Desejo do ser ausente e do ser presente: a languidez sobreimprime os dois desejos, coloca a ausência na presença. Daí um estado de contradição: é a "queimadura suave" »

Roland Barthes "Fragmentos do discurso amoroso" Ed. 70,

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Fragmentos XIV - mexerico


Manet "O Bar de Folies Bergéres" 1882


Mexerico.Dor experimentada pelo sujeito apaixonado quando verifica que o ser amado está envolvido num «mexerico» e ouve falar dele de um modo vulgar.

(...)

O mexerico reduz o outro a ele/ela e uma tal redução é-me insuportável. O outro não é para mim nem ele nem ela ; apenas tem o seu próprio nome. O terceiro pronome é um pronome mau: é o pronome da não pessoa, afasta, anula.

(...)

Roland Barthes "Fragmentos do discurso amoroso", ed. 70, 1981

domingo, 8 de janeiro de 2012

Fragmento XIII - «e a noite iluminava a noite»


Cindy Sherman

noite. Todo o estado que suscita no sujeito a metáfora da obscuridade (afectiva, intelectiva, existencial) em que ele se debate ou tranquiliza


1. Atravesso sucessivamente duas noites, uma boa e outra má. Sirvo-me por assim dizer, de um distinção mística: estar a oscuras (estar as escuras) pode produzir-se sem que para isso haja motivo, porque privado da luz das causas e dos fins; estar en tinieblas (estar nas trevas) acontece-me sempre que fico cego pela ligação às coisas e pela desordem que daí resulta.
Na maior parte das vezes, estou na própria obscuridade do meu desejo; não sei o que ele quer, o próprio bem é para mim um mal, tudo ressoa, vivo momento a momento: estoy en tinieblas. Mas, também por vezes, é uma outra noite: sozinho, em atitude de meditação ( é talvez um papel que me atribuo) penso calmamente no outro, tal como ele é; suspendo toda a interpretação; entro na noite do não sentido; o desejo continua a vibrar ( a obscuridade é translúcida ), mas nada quero agarrar; é a noite do não lucro, do dispêndio subtil, invisível: estoy a escuras: estou ali sentado simplesmente e calmamente no interior negro do amor.

Roland Barthes " Fragmentos de um discurso amoroso "

domingo, 20 de novembro de 2011

Fragmentos XII - os óculos escuros


Nathan Altman



ESCONDER. Figura deliberativa: o sujeito apaixonado interroga-se, não sabe se deve declarar ao ser amado que o ama (não é uma figura de confissão), mas em que medida lhe deve esconder os «cuidados» (as turbulências) da sua paixão: os desejos, as aflições, em poucas palavras, os excessos (no dizer de Racine: o furor.

Roland Barthes "Fragmentos do discurso amoroso" ed.70 1981

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Fragmentos XI - um pequeno ponto no nariz


Renoir 1876

ALTERAÇÃO. Aparecimento breve no campo do amor,
de uma contra imagem do objecto amado. Devido a
ínfimos acidentes ou leves traços, o sujeito vê a boa
Imagem subitamente alterar-se e transformar-se.


Seria o outro assim vulgar, ele, a quem eu devotadamente incensava a elegância e a originalidade? Ei-lo a fazer um gesto que descobre nele uma outra raça. Estou aturdido:oiço um contra-ritmo: qualquer coisa semelhante a uma síncope na bela frase do ser amado, o ruído de um rasgão no envelope liso da Imagem.
....................
Uma vez, falando de nós, disse-me o outro: "uma relação de qualidade"; esta palavra desagradou-me. Surgia repentinamente do exterior, vulgarizando a especialidade da relação numa fórmula conformista.
É muitas vezes pela linguagem que o outro se altera; diz uma palavra diferente e oiço sussurrar ameaçadoramente todo um outro mundo, que é o mundo do outro.
....................
...vejo-o, durante a conversa, agitar-se, multiplicar-se,querer fazer muito, dar-se ares de grande interesse aos olhos de um terceiro, como se estivesse tentado a seduzi-lo. Reparai bem em tal reunião: vereis este sujeito louco(discretamente,mundanamente)por esse outro, decidido a com ele estabelecer uma relação mais calorosa, mais interessada, mais aduladora: surpreendo o outro, por assim dizer, em flagrante delito de inflação de si próprio.
....................

O discurso do amor é, normalmente, um envelope liso colado à Imagem, uma luva macia que rodeia o ser amado
.// Quando a imagem se altera dilacera-se o envelope da devoção; um tremor modifica a minha própria linguagem.

Roland Barthes "Fragmentos de um discurso amoroso" Ed. 70 1981

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Fragmento XI - Quando o meu dedo por inadvertência





Por inadvertência, o dedo de Werther toca no dedo de Carlota; os pés sob a mesa, encontram-se. Werther poderia abstrair-se do sentido destes acasos; poderia concentrar-se corporalmente nestas fracas zonas de contacto e gozar este pedaço de dedo ou de pé inerte de modo fetichista,sem se inquietar com a resposta. Mas: Werther não é perverso, é um apaixonado: sempre e em toda a parte, Werther dá sentido a um nada e é o sentido que o faz estremecer: está no ardor do sentido. Todo o contacto, para o apaixonado, levanta a questão de resposta: pediu-se à pele que responda.

Roland Barthes " Fragmentos de um discurso amoroso" ed. 70

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Fragmento X - A espera


Matthias Schriefl - © by: ACT / Gerhard Richter

"...o acto I; está cheio de suposições: e se tivesse havido um mal-entendido quanto à hora ou lugar? Tento recordar-me do momento em que se combinou o encontro, dos pormenores que foram acordados. Que fazer (angústia de acção)? Mudar de café? Telefonar? E se o outro chegar durante estas ausências? Não me vendo, pode partir de novo, etc. O acto II é o da cólera; dirijo violentas censuras ao ausente: " Apesar de tudo, ele(ela) bem teria podido..." "Ele (ela) bem sabe..." Ah! se ela (ele) ali estivesse, para poder censurá-lo de ali não estar! No acto III, atinjo (obtenho?) a angústia pura: a do abandono; acabo de passar, num segundo, da ausência à morte; o outro está como morto: explosão de luto: estou interiormente lívido. Assim é a peça; pode ser encurtada pela chegada do outro; se chega durante o acto II, temos uma "cena"; se chega durante o acto III, é o reconhecimento, a acção de graças: respiro profundamente, qual Pelléas a sair do subterrâneo, reencontrando a vida, o perfume das rosas.

( A angústia da espera não é continuamente violenta; tem os seus momentos mornos; espero e tudo o que rodeia a minha espera está salpicado de irrealidade: no café, vejo os outros que entram, cavaqueiam, gracejam, lêem tranquilamente: esses não esperam)

A espera é um encantamento: recebi a ordem de não me mexer."


Roland Barthes " Fragmentos de um discurso amoroso " Ed. 70

domingo, 19 de junho de 2011

Fragmentos IX- Na calma dos teus braços amantes

É pois um apaixonado que diz:

"Na calma de dos teus braços amantes"(Jean Lahor)


Marc Chagall 1916


Abraço: O gesto do abraço apaixonado parece preencher, num momento para o sujeito, o sonho da união total com o ser amado.

Roland Barthes "Fragmentos de um discurso amoroso", Ed. 70, 1981

terça-feira, 24 de maio de 2011

Fragmentos VIII- O inconhecível II


Kasimir Malevitch

Não é verdade que quanto mais se ama, mais se compreende; o que a acção de amor obtém de mim é apenas esta evidência: que o outro não é para conhecer; a sua opacidade não é apenas a tela de um segredo mas sim uma espécie de evidência em que está abolido o jogo da aparência e do ser. Vem-me então esta exaltação de amar a fundo alguém desconhecido e que assim permaneça para sempre: movimento místico: alcanço o conhecimento do inconhecível.

Roland Barthes "Fragmentos de um discurso amoroso" Ed. 70 1977

terça-feira, 10 de maio de 2011

Fragmentos VII - O inconhecível


Bill Brandt

Estou envolvido nesta contradição: por um lado, creio conhecer o outro melhor do que ninguém e afirmo-lhe isso triunfalmente (“Conheço-te bem. Só eu te conheço bem!”); e, por outro lado, sou muitas vezes assaltado por esta evidência: o outro é impenetrável, irreconhecível,intratável; não posso abri-lo, chegar à sua origem, desfazer o enigma. De onde vem? Quem é? Esgoto-me, nunca o saberei.
..............
"Não consigo conhecer-te", quer dizer:"Nunca saberei o que verdadeiramente pensas de mim". Não posso decifrar-te, pois não sei como tu me decifras.



Roland Barthes "Fragmentos de um discurso amoroso" ed. 70

terça-feira, 26 de abril de 2011

Fragmentos VI - Atopos



Guy Bourdin

Perante a originalidade brilhante do outro, nunca me sinto "atopos", mas sim classificado (como um dossier muito conhecido). Por vezes, no entanto, consigo suspender o jogo das minhas imagens desiguais (Não posso ser tão original, tão forte como o outro!); adivinho que o verdadeiro lugar da originalidade não está no outro, nem em mim, mas na nossa própria relação. O que é necessário conquistar é a originalidade na relação.

Roland Barthes "Fragmentos de um discurso Amoroso" Ed. 70 1981

terça-feira, 5 de abril de 2011

Fragmentos V - Adorável ou o bom humor do desejo


Isabelle Adjiani

1. Num belo dia de Setembro saí para fazer compras. Paris estava adorável nessa manhã…, etc.»
Um ror de percepções acaba por formar bruscamente uma impressão deslumbrante (deslumbrar é, afinal, impedir de ver, de dizer):o estado do tempo, a estação, a luz, a avenida, o caminho, os parisienses, as compras, tudo isso concentrado no que já tem a vocação de recordar: um quadro, em suma, o hieróglifo da boa vontade (tal como Greuze o pintaria), o bom humor do desejo.
….
Tocado por uma impressão da noite, acordo enfraquecido por um pensamento feliz:
« X… estava adorável ontem à noite. » É uma recordação de quê? Do que os gregos chamavam o charis: «o brilho dos olhos, a beleza luminosa do corpo, o esplendor do ser desejável» ; talvez mesmo, como na charis antiga, acrescente a ideia - a esperança - de que o objecto amado se entregará ao meu desejo.

Roland Barthes "Fragmentos de um discurso amoroso" Ed. 70

domingo, 27 de março de 2011

Fragmentos IV - Ternura


Marc Chagall "Enchantement"

Ternura. Prazer, mas também a valoração inquietante dos gestos ternos do objecto amado, na medida em que o sujeito compreende que não tem o privilégio


1. Não é apenas a necessidade de ternura, é também a necessidade de ser terno para com o outro: fechamo-nos numa bondade mútua, somos reciprocamente maternais; regressamos à raiz de toda a relação, aí onde a necessidade e o desejo se confundem. O gesto terno diz: pede-me seja o que for que que possa adormecer o teu corpo, mas não te esqueças também que te desejo um pouco, ligeiramente, sem nada querer para mim imediatamente.

Roland Barthes "Fragmentos de um discurso amoroso"

terça-feira, 22 de março de 2011

Fragmentos III - A dedicatória


José Torrent

O presente de amor procura-se, escolhe-se e compra-se na maior excitação - excitação essa que parece ser da ordem da felicidade. Calculo activamente se este objecto dará prazer, se não desiludirá ou se, pelo contrário, parecendo muito importante, ele próprio não denunciará o delírio - ou o logro - em que estou preso. O presente de amor é solene; arrastado pela metonímia devorante que regula a vida imaginária, transporto-me inteiramente nele.

Roland Barthes "Fragmentos de um discurso amoroso" ed. 70

terça-feira, 8 de março de 2011

Fragmentos II - A-REALIDADE


David Hockney


A-REALIDADE. Sentimento de ausência, fuga da realidade experimentada pelo sujeito apaixonado face ao mundo

I. Espero um telefonema e essa espera angustia-me mais do que é habitual. Tento fazer qualquer coisa mas não consigo. Passeio no meu quarto: todos os objectos - cuja familiaridade normalmente me reconforta - , os telhados cinzentos, os ruídos da cidade, tudo me parece inerte, separado, siderado como um astro deserto, como uma Natureza onde o homem nunca tivesse existido.
II. Folheio o álbum de um pintor que apreço; não posso fazê-lo senão com desprendimento. Aprovo essa pintura mas as imagens estão geladas e isso aborrece-me.
III. Num restaurante a abarrotar, na companhia de amigos, sofro (palavra incompreensível para quem não está apaixonado). O sofrimento vem-me das pessoas, do barulho, da decoração (kitsch). Um manto irreal, vindo dos lustres, dos tectos de vidro, atinge-me.
IV. Estou sozinho num café. É domingo, à hora de almoço. Do outro lado do vidro, num anúncio mural, Coluche faz caretas e faz de imbecil. Tenho frio.
( o mundo está cheio sem mim, como em La nausée (Sartre); aprende a viver por detrás de um vidro; o mundo está num aquário; vejo-o perto e, no entanto, afastado, feito de uma outra substância; caio continuamente na precisão, fora de mim próprio, sem vertigem, sem nevoeiro, como se estivesse drogado)
…………..


Roland Barthes " Fragmentos deum discurso amoroso" Ed. 70 1981

segunda-feira, 7 de março de 2011

Fragmentos I


Guy Bourdin


Esta noite regressei só ao hotel; o outro decidiu regressar mais tarde, já noite dentro.Aí estão as angústias, como o veneno preparado (o ciúme, o abandono, a inquietação); apenas aguardam o tempo suficiente para se declararem. Vou buscar um livro e um soporífero, «calmamente». O silêncio deste grande hotel é sonoro, indiferente, idiota (ronrom distante das banheiras que se esvaziam); os móveis, os candeeiros, são estúpidos; nada de amigável onde nos possamos aquecer («Tenho frio, regressemos a Paris»).

Roland Barthes "Fragmentos de um discurso amoroso" Ed. 70 1981