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sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

o mar espelha-se nos olhos do céu ou da noite . um poema de Paul Eluard


Man Ray

...

E a terra cobriu-se
Da tua carne clara e eu senti-me leve
Vieste a solidão fora vencida
Eu tinha um guia na terra
Sabia conduzir-me sabia-me desmedido
Avançava ganhava espaço e tempo
Caminhava para ti dirigia-me incessantemente
para a luz

A vida tinha um corpo a esperança desfraldava

O sono transbordava de sonhos e a noite
Prometia à aurora olhares confiantes
Os raios dos teus braços entreabriam o nevoeiro
A tua boca estava húmida dos primeiros orvalhos
O repouso deslumbrado substituía a fadiga
E eu adorava o amor como nos meus primeiros
tempos

Os campos estão lavrados as fábricas irradiam
E o trigo faz o seu ninho numa vaga enorme
A seara e a vindima têm inúmeras testemunhas
Nada é simples nem singular
O mar espelha-se nos olhos do céu ou da noite

A floresta dá segurança às árvores
E as paredes das casas têm uma pele comum
E as estradas cruzam-se sempre
Os homens nasceram para se entenderem
Para se compreenderem para se amarem
Têm filhos que se tornarão pais dos homens
Têm filhos sem eira nem beira
Que hão-de reinventar o fogo
Que hão-de reinventar os homens
E a natureza e a sua pátria
A de todos os homens
A de todos os tempos.

Paul Eluard, "Algumas das Palavras",Trad. António Ramos Rosa, Dom Quixote,1977

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

em primeiro lugar - IV - um poema de Paul Eluard




Disse-to pelas nuvens
Disse-to pela árvore do mar
Por cada onda pelos pássaros nas folhas
Pelos calhaus do ruído
Pelas mãos familiares
Pelos olhos que se volvem rosto ou paisagem
E o sono dá-lhe o céu da sua cor
Por toda a água da noite
pelas linhas das estradas
Pela janela aberta por uma fronte descoberta
Disse-to pelos teus pensamentos pelas tuas palavras
Toda a carícia toda a confiança sobrevivem.

Paul Eluard "Algumas Palavras" trad. António Ramos Rosa

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Quero sentir brotar a espiga do universo - um poema de Paul Eluard




(...)
Quero sentir brotar a espiga do universo

Tenho o sublime instinto da chuva e do fogo
Fecundo a terra e restituo à luz
O leite dos seus anos férteis em milagres
E devoro e alimento o esplendor do céu

Apenas temo a sombra atroz do silêncio

Pronuncio pedra e aí se aninha a erva
Aí se reflecte a vida excessiva e móvel
A penugem de um pássaro é musgo no granito
Uma débil trepadeira devora um muro de pedra

O canto do rouxinol diminui a noite

Presa do alto a baixo em minha voz flexível
A floresta aglutina-se ou então entra em férias
Ravinas e pântanos em minha voz renascida
Aligeiram-se como um corpo que se despe e canta

Mares planícies desertos nasce o dia na terra

Vitoriosa aventura das cores dos sabores
A flor é o fermento da minha língua faladora
O tempo não passa quando o ruído cintila
E refaz cada aurora com o nome de uma flor

(...)


Paul Eluard, Algumas das Palavras, Trad. António Ramos Rosa e Luiza Neto Jorge, Dom Quixote, 1977

domingo, 30 de outubro de 2011

A noite


Antonio Carneiro


Acaricia o horizonte da noite, busca o coração de azeviche que a aurora recobre de carne. Ele te porá nos olhos pensamentos inocentes, chamas, asas e verduras que o sol ainda não inventou.
Não é a noite que te falta, mas o seu poder.


LA NUIT

Caresse l'horizon de la nuit, cherche le coeur de jais que l'aube recouvre de chair. Il mettrait dans tes yeux des pensées innocentes, des flammes, des ailes et des verdures que le soleil n'inventa pas.
Ce n'est pas la nuit qui te manque, mais sa puissance.



Paul Eluard lido aqui

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Um poema de Eluard a Pablo Picasso- Palavras Pintadas


Pablo Picasso


Para tudo compreender
Tudo
A árvore adorada dos cipós e lagartos
Para compreender o fogo
Para compreender o cego

Para reunir a asa e orvalho
Coração e nuvem dia e noite

Para abolir
A careta do zero
Que amanhã rolará sobre o ouro

Para talhar
As pequenas maneira
Dos gigantes que se alimentam de si mesmos

Para ver todos os olhos reflectidos
Por todos os olhos

Paul Eluard "Algumas das palavras" Antologia organizada por António Ramos Rosa, Dom Quixote, 1977

segunda-feira, 11 de abril de 2011

A curva dos Teus olhos


Isabelle Hupert

A curva dos teus olhos dá a volta ao meu peito
É uma dança de roda e de doçura.
Berço nocturno e auréola do tempo,
Se já não sei tudo o que vivi
É que os teus olhos não me viram sempre.

Folhas do dia e musgos do orvalho,
Hastes de brisas, sorrisos de perfume,
Asas de luz cobrindo o mundo inteiro,
Barcos de céu e barcos do mar,
Caçadores dos sons e nascentes das cores.

Perfume esparso de um manancial de auroras
Abandonado sobre a palha dos astros,
Como o dia depende da inocência
O mundo inteiro depende dos teus olhos
E todo o meu sangue corre no teu olhar.

Paul Eluard,"Algumas das Palavras" Trad. de António Ramos Rosa Dom Quixote 1977

domingo, 10 de abril de 2011

Second Nature - XVII


Edouard Boubat

Dignité symétrique vie bien partagé
Entre la vieilesse des rues
Et la jeunesse des nuages
Volets fermés les mains tremblantes de clarté
Les mains comme des fontaines
Et la tête domptée.


Dignidade simétrica bem partilhada
Entre a velhice das ruas
E a juventude das nuvens
Janelas fechadas mãos trémulas de claridade
Mãos como fontes
e a cabeça dominada.

Paul Eluard "Algumas palavras" Trad. António Ramos Rosa Dom Quixote 1977

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

O amor é o homem inacabado






Todas as árvores com todos os ramos com todas
[as folhas
A erva na base dos rochedos e as casas
[amontoadas
Ao longe o mar que os teus olhos banham
Estas imagens de um dia e outro dia
Os vícios as virtudes tão imperfeitos
A transparência dos transeuntes nas ruas do acaso
E as mulheres exaladas pelas tuas pesquisas
[obstinadas
As tuas ideias fixas no coração de chumbo nos
[lábios virgens
Os vícios as virtudes tão imperfeitos
A semelhança dos olhares consentidos com os
[olhares conquistados
A confusão dos corpos das fadigas dos ardores
A imitação das palavras das atitudes das ideias
Os vícios as virtudes tão imperfeitos

O amor é o homem inacabado.

Paul Eluard, in "Algumas das Palavras"
Tradução de António Ramos Rosa

sábado, 6 de junho de 2009

Paul Eluard



Pintura de Eluard efectuada por DALI


Paul Eluard - Poeta

Eugène-Émile-Paul Grindelul
* Saint-Denis, França - 1895 d.C
+ Paris, França - 1952 d.C

O poeta Paul Éluard nasceu no ano de 1895 em Saint-Denis, hoje um subúrbio ao norte de Paris.
O poeta francês foi autor de poemas que circularam clandestinamente durante a 2a Guerra Mundial, contra o nazismo.

Participou no movimento dadaísta, foi um dos pilares do surrealismo, abrindo caminho para uma ação artística mais engajada, até filiar-se ao partido comunista francês. Tornou-se mundialmente conhecido como O Poeta da Liberdade.

Aos 16 anos, Paul Eluard contraiu tuberculose, o que o obrigou a interromper seus estudos.

No sanatório de Clavadel, na Suíça teve o primeiro encontro com Manuel Bandeira. Foi o primeiro encontro de Éluard com um grande artista brasileiro.

Na Suíça, no Sanatório de Davos, ele conhece uma jovem russa, Helena Diakonova, que ele chama de Gala. Os dois casaram-se durante a guerra, em 21 de fevereiro de 1917. Sua impetuosidade, seu espírito decidido, sua cultura impressionam o jovem Éluard, que encontra nela seu primeiro impulso de poesia amorosa. Juntos, eles lêem poemas de Gerard de Neval, Baudelaire e Apollinaire. Em 11 de maio de 1918, nasce sua filha Cecile. Viveram juntos até 1929. Gala em seguida se casaria com o pintor espanhol Salvador Dalí.

O “Éluard”, adotado depois, era o sobrenome de sua avó materna.

Embora o trabalho de Paul Éluard tenha conhecido várias fases - foram dezenas de títulos publicados entre 1913 e 1952, ano de sua morte -, Paul Éluard tornou-se conhecido principalmente pela sua poesia surrealista. O poeta formou-se num momento extraordinário da vida cultural francesa.


André Breton e Louis Aragon

Conviveu intensamente com poetas como André Breton e Louis Aragon e artistas plásticos como Picasso, De Chirico, Dalí, Magritte, Miró, Man Ray e Chagall



Liberdade

Nos meus cadernos de aluno
Na minha carteira e nas árvores
Na areia e na neve
Escrevo o teu nome.
(…)

Nos campos do horizonte
Sobre umas asas de pássaro
Sobre o moinho das sombras
Escrevo o teu nome
(…)

Na vidraça das surpresas
Nos lábios que estão atentos
Muito acima do silêncio
Escrevo o teu nome.
(…)

Na ausência sem desejo
Na solidão despojada
Na escadaria da morte
Escrevo o teu nome.
(…)

Sobre a saúde refeita
Sobre o perigo dissipado
Sobre a esperança esquecida
Escrevo o teu nome.
(…)

E pelo poder da palavra
Recomeço a minha vida
Nasci para te conhecer
Nasci para te nomear
Liberdade