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sábado, 24 de dezembro de 2011

feliz natal

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"feliz natal"
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vinteequatro.dezembro.doismileonze | raquel patriarca
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Ladainha dos póstumos Natais

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito

David Mourão-Ferreira

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Poema menino

Éramos dois, seis, vinte.
Entrámos, inseguros, expectantes,
Ávidos de procura e de partilha.
Não era Dezembro, nem presépio havia,
Em cada um de nós
O poema menino adormecido.
Ouro, incenso, mirra.
Palavras, música, emoção.
A sós ou de mãos dadas,
O presépio pressentia-se.

Entrámos, confiantes, ansiosos
De dádiva, de revelação.
Éramos vinte, cem, muitos.
Na manjedoura,
O poema menino deitado.
Não porque era Natal,
Mas porque é Poesia.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Carta de Natal a Murilo Mendes

Querido Murilo: será mesmo possível
Que você este ano não chegue no verão
Que seu telefonema não soe na manhã de Julho
Que não venha partilhar o vinho e o pão

Como eu só o via nessa quadra do ano
Não vejo a sua ausência dia-a-dia
Mas em tempo mais fundo que o quotidiano

Descubro a sua ausência devagar
Sem mesmo a ter ainda compreendido
Seria bom Murilo conversar
Neste dia confuso e dividido

Hoje escrevo porém para a Saudade
- Nome que diz permanência do perdido
Para ligar o eterno ao tempo ido
E em Murilo pensar com claridade -

E o poema vai em vez desse postal
Em que eu nesta quadra respondia
- Escrito mesmo na margem do jornal
Na baixa - entre as compras de Natal

Para ligar o eterno e este dia.

Lisboa, 22 de Dezembro de 1975

Sophia de Melo Breyner Andresen (Porto, 1919-2004)
in O Nome das Coisas (1977)

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

A data festiva

Um silêncio de prata e velas acesas
na data festiva.

Olhos grandes ruminam a presença de Reis
andrajos de púrpura, coroas sujas de areias
outrora cegas de luz. As orelhas altas de
asno, o sopro quente, os dentes largos
os invisíveis laços a elevar braços, mãos
e o sorriso do Menino junto a sua Mãe:
manto azul, debrum de pelo, rosto terno
de sentir as ideias concebidas sem... o
pecado de vaidades e sinos dos publicitos
paraísos; reais lugares de tudo querer.

A estrela sem fio de balão a fugir
e o medo do Inverno, do frio,
dos falsos mimos na época festiva.

O Pai, homem de tábuas, aplaina a árvore
torna macia a natureza rugosa da casca
alisa o fuso e a roca, entalha o encaixe,
a cruz de pau que ampara o leito-berço
de calor seguro nas palhas deitado. Agora
usa o cajado de posição elevada, controla
perigo, o imprevisto susto de pés de cabra
nos raios de ouro, incenso, mirra e o fumo
do turíbulo, o hino, o murmúrio a ladainha.

Só não se assusta o Menino, palmas exaustas
dedos de sina, rosto aberto, lábios de menina
e os restos de um trinado e um sorriso que
abre e fecha, enleia e não termina.

Sendo assim esta certeza - a do Menino
também devo acreditar, ser capaz, ser maior
do que a barreira, perna longa de desertos.
Ser mais oásis e miragem de bossas cheias
nos hiatos de remorsos na passagem.
Ser mais macio que choro de nuvem de gotas
desesperadas, desamparadas no chão ao cair
e mais ricas nas misturas do ventre mãe
nas fissuras dos magmas interiores onde
se espraia a lava e se expande a fogueira
fluída de um vulcão.

Sendo, sempre sendo mais
que pó amorfo nas bocas secas do vento.

No manto céu
uma miríade de estrelas, a constelação
(pontas de alfinete no veludo azul)
e os pirilampos faróis alumiam
o barco à deriva.

As ondas divinas guiam
ao colo seguro das baías
nos dias do Menino
na data festiva!

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Não se esqueça de mim!

Embora não sendo poesia, há poesia e muita emoção neste texto, nesta memória, que partilho convosco.

«Quando eu morrer não se esqueça de mim». A memória esvai-se. Quero-me lembrar da expressão, do sorriso límpido, de uma beleza despovoada como o deserto. Da tua juventude. Não tinhas vinte anos, isso é seguro. «Não se esqueça de mim!» Lembro-me da combina: «Só quero durar até ao Natal». Porquê o Natal, Deus meu? Tu que irias ter com os anjos todos os dias, e contar coisas da Terra e dos homens, tu que fazes já parte do paraíso e sempre fizeste. «Até ao Natal, doutor», depois pare as torneirinhas que regam as minhas veias, tentando manter o verde da vida, das plan­tas com viço que no meu jardim, à míngua de seiva, soluçam em tons de castanho. «Não se esqueça de mim». Não me esqueço de ti meu menino Jesus feito menina. Tu só querias viver até ao dia em que nasceu aquele que dá sentido às coisas. Porquê meu Deus? Cumpri a minha parte e tu cumpriste a tua. Não mais qui­mioterapia depois do Natal, só a tranquilidade dos que têm fé e sobem, devagarinho, perante nós. «Não se esqueça de mim». Como te posso esquecer? És só uma voz, uma esperança, um fio de coragem, coisa pequena, apenas regato. E no entanto, amo-te como a uma visão, uma miragem que deixasse uma marca de pri­vilégio por ter tocado a tua mão. Tenho a memória exacta do can­cro. Começava no pescoço. Devagarinho subia através da nuca, silencioso, determinado como fera no capim. Penetrava o osso, abria o embrulho que esconde e protege a tua alma, e em tons de branco e cinzento, devagarinho, corroía o cérebro. Primeiro encostou-se, depois embuste, como erva daninha, começou a ali­mentar-se do teu sangue, sorveu a tua vida, entrou sem pedir licença. Conheci-te porque ao tocar o teu íntimo, a doença, cal­cula, fazia-te ver estrelas. Pequeninas, brilhantes e fugazes. Estra­nhas, contudo, porque surgiam durante o dia. «Doutor, não se esqueça de mim». Não me esqueço, nem do remorso pela pirueta de artista amestrado que se enche de orgulho pelo diagnóstico certeiro, ainda que seja o de uma flecha implacável que marca o destino. As estrelas que vê, minha querida, não habitam o céu, são fogo de artifício da doença que a consome. Coisa estranha a epilepsia. O cérebro invadido cria por momentos a ilusão de um firmamento. Eu vou tratá-la, quero dizer, trazer as estrelas à terra e apagá-las com um sopro. Como velas em dia de anos. Ao mesmo tempo, minha querida, apagar a ilusão. Eu próprio bate­rei palmas ao golpe de mágica que faz desaparecer as estrelas como te afastasse, te adiasse o Céu que no fundo desejavas. «Até ao Natal, doutor, e depois, não se esqueça de mim».Agora, onde estiveres, de certeza que há Mar. Brincas com o Menino Jesus que querias conhecer, a cuja festa de anos não que­rias faltar, menina que espera o nascimento do irmão. Escavam na areia crateras que a maré enche. Ouvem o adeus das ondas e sentem o abraço do seu retorno. De certeza que discorrem sobre coisas de somenos importância, quem sabe disputam pás e anci­nhos, clamando pela Nossa Senhora que ponha ordem naquela disputa. Estou certo que levaste a melhor, e o menino Jesus, a cujos anos não querias faltar, faz carranca e beicinho. Nossa Senhora irá decerto lembrar a generosidade que é necessário te: com quem se convida para os anos.» Deixa a menina brincar». «Só até ao Natal, doutor, e não se esqueça de mim». Não te esqueças tu de mim. Onde estás lembra-te de que cumpri a minha parte, lutei contra a besta que te consumia e de mim te apartava, apa­guei as luzes que pareciam estrelas e criei a ilusão de adiar a eternidade. Como se fosse possível, meu Deus, haver vida para além do Natal.

Nuno Lobo Antunes, in Sinto Muito

Al di la


Al di la

Para além das luzes do pinheiro de Natal
Para além dos fios das cabeleiras de prata
Para além da chama que sobe no castiçal
E do brilho dos cristais das bolas em cascata

Para além do aroma dos sonhos e doçuras
Para além da melodia que entoa o disco antigo
Para além das renas sobrevoando nas gravuras
E do esquecimento e do gesto a um amigo

Para além da esperança deslizando no telhado
Para além do segredo do presente embrulhado
Magia, recordação, noite sem igual

Para além da saudade etérea e infinita
Para além da carta que deixaste escrita
Que seja hoje e sempre Natal

Pi

Natal, e não Dezembro

Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio
no prédio que amanhã for demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.

Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave...
Entremos, despojados, mas entremos.
Das mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.

David Mourão-Ferreira (Lisboa, 1927-1996)
Cancioneiro de Natal

Natal

Leio o teu nome
Na página da noite:
Menino Deus...
E fico a meditar
No milagre dobrado
De ser Deus e menino.
Em Deus não acredito.
Mas de ti como posso duvidar?
Todos os dias nascem
Meninos pobres em currais de gado.
Crianças que são ânsias alargadas
De horizontes pequenos.
Humanas alvoradas...
A divindade é o menos.

Miguel Torga (S. Martinho de Anta, Vila Real, 1907 - Coimbra, 1995)
S. Martinho de Anta, 24 de Dezembro de 1966