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quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

"O MAR PARECE AZEITE” ATELIER DE POESIA COM ANA LUÍSA AMARAL

“A poesia começa quando um idiota olha para o mar e diz: «parece azeite»”. 
O Atelier de poesia
conduzido pela poeta Ana Luísa Amaral, realizar-se-á nos dias 27 e 28 de janeiro de 2018, e terá a duração total de 10 horas: Sábado dia 27, das 10:00 ás 17:00, com intervalo para almoço, e Domingo dia 28 de Janeiro das 10:00 ás 14:00.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Carta à Minha Filha

Pormenor do quadro de Renoir imagem daqui


Lembras-te de dizer que a vida era uma fila? 
Eras pequena e o cabelo mais claro, 
mas os olhos iguais. Na metáfora dada 
pela infância, perguntavas do espanto 
da morte e do nascer, e de quem se seguia 
e porque se seguia, ou da total ausência 
de razão nessa cadeia em sonho de novelo. 

Hoje, nesta noite tão quente rompendo-se 
de junho, o teu cabelo claro mais escuro, 
queria contar-te que a vida é também isso: 
uma fila no espaço, uma fila no tempo 
e que o teu tempo ao meu se seguirá. 

Num estilo que gostava, esse de um homem 
que um dia lembrou Goya numa carta a seus 
filhos, queria dizer-te que a vida é também 
isto: uma espingarda às vezes carregada 
(como dizia uma mulher sozinha, mas grande 
de jardim). Mostrar-te leite-creme, deixar-te 
testamentos, falar-te de tigelas - é sempre 
olhar-te amor. Mas é também desordenar-te à 
vida, entrincheirar-te, e a mim, em fila descontínua 
de mentiras, em carinho de verso. 

E o que queria dizer-te é dos nexos da vida, 
de quem a habita para além do ar. 
E que o respeito inteiro e infinito 
não precisa de vir depois do amor. 
Nem antes. Que as filas só são úteis 
como formas de olhar, maneiras de ordenar 
o nosso espanto, mas que é possível pontos 
paralelos, espelhos e não janelas. 

E que tudo está bem e é bom: fila ou 
novelo, duas cabeças tais num corpo só, 
ou um dragão sem fogo, ou unicórnio 
ameaçando chamas muito vivas. 
Como o cabelo claro que tinhas nessa altura 
se transformou castanho, ainda claro, 
e a metáfora feita pela infância 
se revelou tão boa no poema. Se revela 
tão útil para falar da vida, essa que, 
sem tigelas, intactas ou partidas, continua 
a ser boa, mesmo que em dissonância de novelo. 

Não sei que te dirão num futuro mais perto, 
se quem assim habita os espaços das vidas 
tem olhos de gigante ou chifres monstruosos. 
Porque te amo, queria-te um antídoto 
igual a elixir, que te fizesse grande 
de repente, voando, como fada, sobre a fila. 
Mas por te amar, não posso fazer isso, 
e nesta noite quente a rasgar junho, 
quero dizer-te da fila e do novelo 
e das formas de amar todas diversas, 
mas feitas de pequenos sons de espanto, 
se o justo e o humano aí se abraçam. 

A vida, minha filha, pode ser 
de metáfora outra: uma língua de fogo; 
uma camisa branca da cor do pesadelo. 
Mas também esse bolbo que me deste, 
e que agora floriu, passado um ano. 
Porque houve terra, alguma água leve, 
e uma varanda a libertar-lhe os passos. 

Ana Luísa Amaral, in 'Imagias (Um pouco só de Goya: Carta a minha Filha)' lido aqui

terça-feira, 5 de abril de 2016

Leite-Creme


Mostrar-te Leite-creme 
é um prazer - e fácil: 
açúcar à colher, 
leite a ferver, 
em poalha a farinha 
e muito grácil.

Na cozinha, 
os teus olhos: 
duas chávenas meias
de razão.
As palavras totais 
e todas claras. 

Não te posso, infinita, 
proteger, 
evitar-te o fogão. 
Mentir-te sobre, às vezes, 
minha filha, 
a vida: 
um batedor sem varas

Só deixar-te
poalha de farinha:
amor 
em Via-Láctea. 


Ana Luísa Amaral in Epopeias 

quinta-feira, 17 de março de 2016

Ana Luísa Amaral na Ronda da Noite

Ana Luísa Amaral  traduziu 31 Sonetos de Shakespeare, nos 400 anos da morte do autor inglês à conversa com Luís Caetano, na Ronda da Noite. 
A Ronda da Noite

(clicar no link para aceder ao video)

domingo, 24 de janeiro de 2016

DA SOLIDÃO DA LUZ



A casa em ruínas que vejo daqui
salta da janela, entra nesta sala,
mas não tem janelas que a façam brilhar,
as molduras rotas carregadas de ar,
as portas cobertas da hera mais pura,
as telhas brilhantes de ausência de cor,
e um buraco imenso onde o coração
devia luzir, se as ruínas não –

Morre devagar, como o universo,
galáxias e mares de estrelas e sóis:
política rara sem reis nem senhores,
mas tenso equilíbrio de forças sem luz.

Morrem devagar o tempo e os livros,
as estantes todas que habitam a sala:
pobre microcosmo do Bem e do Mal,
e do que nem isso, que é o mais vulgar.

Lembra-me, escarlate, só pela memória,
um livro maior de forças a sério:
o claro e o escuro de um igual terror

À casa em ruínas salvam-na essas asas
que vejo daqui, saltam da janela
e entram nesta sala. Não são as do anjo,
mas têm nas penas um sistema hidráulico
que as faz oscilar e rasar os ventos.

Olham-me, sombrias, dentro de um futuro
liso e sem ruínas – só de um chão mais puro
onde a casa houve, de janelas rasas
carregadas de ar. Só ele é comum
ao anjo e a elas, elas cheias dele,
ele, transportado e oscilando em paz.

Quando for sem ser? Só um limpo instante
de equalizador: ruínas e ventos,
janelas e anjo, heras e senhores
em mudas frequências, enxutos os sons?

E um poço vazio onde o coração
foi visto bater: partícula igual
ao pó de um cometa que um dia rompeu,
devorando o ar. E a casa em ruínas
abrandada em tempo, vogando no branco
de resplandecentes seis sílabas. Sós.


Ana Luísa Amaral, in Vozes, 2011

imagem retirada daqui

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Correntes d'Escritas 2014


 Isabel Pires de Lima, Ana Luísa Amaral e Golgona Anghel
Revista em homenagem a Maria Teresa Horta
 
José Almeida da Silva
 Manuel Jorge Marmelo prémio Correntes d'Escritas 2014





Não é para nos gabar, ou se calhar é, mas O nosso MAR que PARECE AZEITE esteve presente nas Correntes d'Escritas, que decorreu na Póvoa de Varzim - esse maravilhoso buraco do mundo - entre os dias 19 e 22 de Fevereiro.
Antes de mais, estivemos presentes na pessoa da nossa mentora, a poetisa Ana Luísa Amaral que, apesar da enorme constipação que levou consigo, fez duas magníficas intervenções. A primeira sobre Maria Teresa Horta, homenageada nesta edição das Correntes, e a segunda, na Mesa 4 com o tema “De correntes e cont(r)a-correntes se faz a Poesia”.
Foi por esta altura que ouvi a Ana Luísa dizer o nosso nome, depois de afirmar que a poesia se move em espaços que não podem ser controlados nem confinados, que escapam sempre à lógica habitual da linguagem e da vida biográfica, e que a poesia é verdade, no sentido de estar aberta para o ser, (e estou a citar mais ou menos livremente que é difícil tomar notas quando a cabeça só está importada em escutar e perder-se no que escuta), foi por essa altura, contava eu, que a Ana Luísa falou em e nós. Por sermos elos de uma corrente de pessoas presas umas às outras, sem razão nem lógica a não ser por essa outra corrente que é a poesia.
A correnteza dO MAR que PARECE AZEITE já arrasta muita gente e agradece a todos e, sobretudo, à Ansa Luísa que, sem razão nem lógica, nos reuniu e mantem juntos.

Raquel Patriarca
vinteequatro.fevereiro.doismilecatorze

terça-feira, 2 de julho de 2013

Ana Luísa Amaral - Fechar os olhos e por dentro ecoar


Erica Hopper


Fechar os olhos e por dentro ecoar em passado.
Pensar «podia ter outra cor de pele, outra pelagem»
E o tempo virar-se do avesso, e entrar-se ali,
em vórtice, pelo tempo dentro.
Escolher.

Trazer cota de malha e de salitre,
ter chorado quando o porto ao longe se afastara,
milhares de milhas antes,
meses em sobressalto para trás.

As febres e tremuras durante a travessia,
 a água amarga, as noites
carregadas de estrelas,
 junto ao balanço do navio, um astrolábio.

Numa manhã de sol, do porto de vigia,
ver muito ao fundo, em doce oval,
a linha, quase tão longínqua como constelação.
Gritar «terra», gritar aos companheiros
ao fundo do navio, do fundo dos pulmões gritar,
e o bote depois, os remos largos,
a cama de areia e o arvoredo.

Ou trazer na cabeça penas coloridas,
conhecer só a fundo a areia branca
e o mar sem fundo, peixes pescados ao sabor dos dias,
uma língua a servir de subir a palmeiras,
a servir de caçar e contar histórias.

Moldar um arpão, começar por um osso
ou pedra e madeira,
entrelaçar o corpo da madeira, e o afiado da extremidade.
Contemplar devagar o resultado do trabalho
e da espera.
Ou a beleza. Escolher.

Trazer o fogo na mão, escondido pela pólvora,
fazer o fogo na orla da floresta.
Os risos das crianças, tocar a areia branca, tocar
a outra pele. Cruel,
o medo, vacilar entre a fome e o medo.
Ou não esco1her.

As penas coloridas sobre um elmo,
a cota de malha lançada pelo ar como uma seta,
os sons dos pássaros sobre a cabeça,
imitar os seus sons,
num lago de água doce limpar corpo e
pecados de imaginação,
sentir a noite dentro da noite,
a pele junto da pele,
imaginar um sítio sem idade.

Trocar o fogo escondido pelo fogo alerta,
o arpão pelo braço que se estende,
gritar «eis-me, vida»,
sem ouro ou pratas.
Com a prata moldar um anel
e uma bola de fogo a fingir,
e do fogo desperto fazer uma ponte a estender-se
à palmeira mais alta.

Esquecer-se do estandarte no navio,
depois partir da areia branca, nadar até ao navio,
as penas coloridas junto a si,
trazer de novo o estandarte e desmembrá-lo.
Fazer uma vela, enfeitá-la de penas,
derretidos que foram, entretanto,
sob a fogueira a1ta e várias noites,
elmo e cota de malha.

Serão eles a dar firmeza ao suporte da vela,
um barco novo habitado de peixes
brilhantes como estrelas.

Não eleger nem mar, nem horizonte.
E embarcar sem mapa até ao fim
do escuro.


ana luísa amaral  vozes  dom quixote    2011 lido aqui

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

A Verdade Histórica - um poema de Ana Luísa Amara

                              Fotografia de Stephanie Fry




A minha filha partiu uma tigela

na cozinha.

E eu que me apetecia escrever

sobre o evento,

tive que pôr de lado inspiração e lápis,

pegar numa vassoura e varrer

a cozinha.


A cozinha varrida de tigela

ficou diferente da cozinha

de tigela intacta:

local propício a escavação e estudo,

curto mapa arqueológico

num futuro remoto.


Uma tigela de louça branca

com flores,

restos de cereais tratados

em embalagem estanque

espalhados pelo chão.


Não eram grãos de trigo de Pompeia,

mas eram respeitosos cereais

de qualquer forma.

E a tigela, mesmo não sendo da dinastia Ming,

mas das Caldas,

daqui a cinco ou dez mil anos

devia ter estatuto admirativo.


Mas a hecatombe

deu-se.

E escorregada de pequeninas mãos,

ficou esquecida de famas e proveitos,

varrida de vassouras e memórias.


Por mísero e cruel balde de lixo

azul

em plástico moderno

(indestrutível)



ANA LUÍSA AMARAL,

"Minha Senhora de Quê", Quetzal Editores, Lisboa, 1999

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Ode ao divino que aí mora - um poema de Ana Luísa Amaral




Como posso dizer que o teu corpo é divino?
Nele eu faria o pino até insensatez,
romperia as comportas até tocarem sinos
que, num tom muito fino, te cantassem os pés.
(Falei agora em pés por causa de aqui estar,
com dor em pé direito e tom quase de Orfeu;
mas deixa-me falar, permite-me voltar
a falar do teu corpo como a fingir de céu).
Como posso dizer que o teu corpo é divino
sem cair no lugar do mais comum mortal?
Que eu queria fazer pino além de Escorial
no sítio do teu corpo mais fundamental,
ou seja, o teu tendão onde se assenta o pé,
onde se assenta a mão e o sítio mais central,
ou seja, o teu olhar, ou seja, outro qualquer
(divino por divino, permite-me dizer
que tanto vale pino como vale destino
ou outro desatino conjugado a viver).
Deixa-me então falar do teu corpo: num hino,
tecer-lhe algumas glosas em tom de malmequer,
dizer-lhe que assim tanto por êxtase divino,
é difícil manter-me rimada e sem arder
em chamas muito altas pouco celestiais,
mais perto de outros cantos que não sejam o céu,
mas que o sejam também, porque entre inferno e céu,
a diferença não há: descerre-se-lhe o véu
e o que sobra por certo é um excesso de amor,
que não está muito longe do divino rubor
que habita no teu corpo e que divino o faz.
Como posso dizer que o teu corpo é divino
se o divino é sem nome, se o nome lhe é fugaz?
Rimarei com divino o que puder. E então:
sino, menino, tino, desatino ou até
(ainda que mais rime) a planta do teu pé,
a mais leve tremura que habita a tua mão.
E o tom que iniciou sobre o teu corpo o hino
desviou-se, subiu a lugar de outra cor:
romantizou-se o tom, enterneceu-se o amor,
e já não me apetece falar-te que não seja
de uma forma macia, redonda de cereja
e doce como nêspera em humano fulgor.
Por isso volto aqui, por isso este poema
tem que se contentar com ser o que eu quiser:
um tempo de ternura, um tempo de colher
frutos tão sumarentos que o Verão invejaria
e os deuses no Olimpo seriam deslumbrados,
e nem fúrias do Hades, e nem Melancolias,
e nem as Parcas todas - todos silenciados!
Por isso aqui persisto, em lugar que talvez
interrogue a certeza do lugar do divino,
mas onde eu faço o pino até insensatez,
e depois me detenho, em mil e um cuidados.
E onde são divinos os deuses que não vês,
mas muito mais divinos podem ser os teus pés,
porque assim tão amados, até insensatez,
como os teus dedos podem sê-lo insensatamente,
até pico maior que os faça de repente
uma explosão de estrelas em poético furor.
Preparou-se o poema para assim: "meu amor",
e um beijo muito impuro, e tão incastamente
que se rasgue o divino até humana festa,
forma de aqui te ter - porque ter-te presente,
maneira de dizer-te que o que resta é tu seres:
flecha onde o arco mora e a língua se demora
na palavra mais longa, diluviana e tudo:
um sítio de veludo bordado a horizontes
de corpóreos limites, de sonhos consistentes,
de uma matéria igual à matéria em que o tempo
faz, lentamente, o pino, e elege, ao fazê-lo,
outro lugar divino: esse teu tornozelo
- onde se encostam, calmas,
as matérias que digo.


Ana Luísa Amaral lido aqui

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Se ... - um poema de Ana Luísa Amaral




IV

Se tudo fosse só êxtase súbito,
o papel intocável e intacto,
como o meu espaço e tu entrando devagar,
as portas que te abri
abrindo para a luz

Se tudo fosse só papel de prendas,
laços e colorido,
a festa do meu espaço
- e de ti no meu espaço -
as coisas consonantes

Ana Luísa Amaral "Entre dois rios e outras noites", Campo de Letras, 2007

sábado, 18 de fevereiro de 2012

MALHAS QUE OUTRO IMPÉRIO TECE - Ana Luísa Amaral (Jornal Público, 17 de Fevereiro de 2012)


António Cruz

MALHAS QUE OUTRO IMPÉRIO TECE - Ana Luísa Amaral (Jornal Público, 17 de Fevereiro de 2012)

Contra o costume, cheguei cedo demais à estação de Santa Apolónia, onde vou apanhar o comboio para o Porto. Comprei o bilhete e, contra o costume, fiquei ainda com tempo à minha frente para tomar um café. O pequeno bar da estação está cheio de jovens. Sentaram-se três à minha mesa. Um deles segura entre as mãos um pequeno tambor colorido e marca um ritmo; sempre o mesmo, assim me parece. Os outros dois bebem galões e comem sandes tiradas das mochilas. Noutras mesas, outros grupos. Falam todos pouco e têm olheiras. São sete da manhã e o concerto deve ter acabado há umas horas. Estes jovens vêm de fora de Lisboa e passaram a noite na estação, à espera do comboio que os há-de levar de volta a suas casas.
Nestes tempos que são nossos, haverá quem lhes critique o cabelo e a forma de vestir. Todos de igual, de calças muito largas, as cores que predominam não variam muito: o cinzento, o preto, ou o azul-escuro. Alguns têm trancinhas, muito finas, enfeitadas, algumas, com missangas coloridas. Haverá ainda quem, olhando estes jovens, pense em lhes dizer coisas como «vai trabalhar!», sem pensar que não há trabalho que lhes valha; ou haverá quem os olhe com olhos de inveja pelo dinheiro gasto no concerto, pelo ócio, ou pela pura juventude.
Não há muitos anos, neste lugar que é nosso, a jovens como eles chamaram-se nomes, denegrindo a sua geração, sem se pensar que não há gerações espontâneas, a não ser em teoria, e que as genealogias têm sempre progenitores. Há muito pouco tempo, uma outra geração de jovens como eles, quem sabe se incluindo alguns destes que aqui estão, agora sentados no chão da estação, haveria de aproveitar o epíteto e com ele brincar, em jogo de palavras. E esta nova geração saiu às ruas, e a ela juntaram-se as gerações de seus pais e avós. E cantaram nas ruas, ao lado de outras idades, canções talvez diferentes destas que agora trazem no ouvido, pedidas emprestadas ao concerto, mas de um igual empenho na alegria da vida e no reclamar de um lugar melhor e mais justo. Foi essa a sua palavra de ordem: justiça. Podia ser também o direito à alegria.
Entro agora no comboio e eles entram também. Quase enchem a carruagem. Há um que se senta a meu lado. São todos muito jovens e alguns muito bonitos. E têm, pequenos de cansaço, tremores de alegria. Dois deles mostram-se gentis, quando passa uma senhora de idade. Outros gracejam sobre as aulas; por vezes, palavrões a meio, sorriem; ou, um pouco mais refeitos pelo bem-estar da carruagem, dançam, em arremedo do ritmo que há algumas horas os animou. Estava à procura de uma palavra para os descrever. Talvez seja «vulneráveis»; ou «inseguros», como somos todos. À procura das coisas, e de sentidos para as coisas. Como nós todos.
Noutros tempos, iam para as Cruzadas; e lá matavam e morriam, alguns acreditando que havia razões para matar e morrer, outros, descrendo. Em todos os tempos têm sido forçados ou convencidos a coisas que contra eles são. Muitas vezes a eles tem pertencido a capacidade de uma generosidade sem limites. Estive uma vez num cemitério inglês, que era enorme e tinha uma lápide gigante com os nomes dos mortos das duas grandes guerras que mais assolaram o século há pouco acabado de passar. Entre os nomes que desciam, à medida que descia o meu olhar, alguns apelidos eram iguais, só as datas mudavam, indicando que àqueles nomes correspondera um jovem pai que fora morto, e, vinte e poucos anos mais tarde, o seu filho, morto também, desperdiçado. Uma geração os separara. Uma geração de vida gerando a morte. E era, nesse dia raro de sol, uma visão impressionante, o resultado da luta de povos contra povos, mas também de combate contra uma liberdade ameaçada e contra a invasão da barbárie.
Mas nunca nenhuma guerra fez de facto sentido e sempre houve quem se aproveitasse, do seu lugar de privilégio e bastidores, de jovens como estes. Lembrou-me então o poema do jovem soldado, de cujo bolso caíra, breve, a cigarreira. Inteira e boa. E ele, o desperdício, ele a já não servir, a não ser os desígnios que não traçara, feitos de malhas por outros tecidas. Estes jovens que estão agora ao meu lado, neste lugar que é nosso, estão vivos e não os ameaça ainda, ao que parece, a guerra feita de bombas, mísseis e camuflados, embora os ameace uma outra guerra feita de números e uma nova barbárie, e camuflada de rigor e uma assustadora precisão, no que toca ao que de mais humano temos, que é a alegria e a capacidade de pensamento, de inquirição e de espanto. Mas estes jovens estão vivos. E são jovens.
São jovens, e é justo que cantem e vibrem com a música que é a deles. Noutras culturas, os tremores que sentem terão outras razões. Seja como for, é justo que tremam de alegria. Injusto é quando lhes dizem, cinicamente, que o futuro está só em outros lugares e não nas casas a que agora voltam; ou quando o seu olhar se enche de coisas avessas a este cansaço de memórias boas de partilha e tambores coloridos. Injusto é quando os levam a desacreditar, por circunstâncias várias, que um quadrado de papel, numa urna a não evocar morte, pode mudar o mundo, ou quando os impelem a duvidar que as palavras podem servir como motor de mudança e resistência. Injusto é quando deles se espera a cega obediência, sem perguntas nenhumas, e que esta sede de partilha, este tremor ainda de alegria seja já, nestes tempos que são nossos, ameaçado pela raiva e pela desesperança.
Passaram duas horas. As vozes na carruagem afrouxaram de volume, tornaram-se escassas, à medida que o sol entra com mais força pelas janelas. Está calor. No assento ao meu lado, o meu jovem companheiro de viagem adormeceu. Veste umas calças muito usadas, de corte estranho, que eu elogiei e ele me disse ter comprado baratas, numa feira. As calças têm um fecho éclair que sobe desde a bota até à anca. Só enfeite, não serve para nada o fecho éclair. O seu dono, porém, ao que parece, está inteiro e bom. E dorme, ainda sossegado. Ao seu lado e ao meu, teimam-se os tempos que são nossos. Destes tempos me pergunto se ele sabe se ainda, e ao que, serve –

Ana Luísa Amaral