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quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Embalo


I  
Dorme meu tesouro dorme
Anjo leve do meu ser
Dorme que eu morro em vida
Canto o teu adormecer

II 
Dorme meu tesouro dorme
O meu grito é o meu viver
Canto a chorar a noite
Canto e embalo
E não vivo

III
Dorme meu tesouro dorme
No silêncio que é só teu
O céu não cai
A terra não treme
Eu canto e embalo
E não grito


Liliana Castro e Raquel Patriarca
17.XII.2008

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

A forma do desejo

Olho o teu corpo. Respiro o teu corpo no meu ar. Os meus pulmões inundados de ti. O meu sangue a bombear-me a carne da tua visão. Rompe-me de desejo a pele. A erecção dos meus sentidos no êxtase do teu ombro nu. O decote suave a desenhar-te as curvas onde perco a lucidez. Num misto de hipnose e embriaguez de desejo fecho os olhos. Imagino-te nua em mim. Violo a tua brancura em pensamento. Violo a tua brandura em pensamento. Abraço com força a tua fragilidade. Imponho-te a minha protecção e roubo-te beijos dos teus lábios doces, vermelhos e lisos. Mordo-os. Respiro-te. Penetro o teu templo e resgato-te a mente, a alma e liberdade. Tenho-te por instantes. Possuo-te mesmo que não me olhes do outro lado do café. Possuo-te mesmo sem despires o vestido que te desce do ombro. Peço um café enquanto sais. Magoa-me a erecção nas calças justas. Magoa-me não te ter.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Nu Masculino

Olho-me ao espelho na minha nudez
A barba firme que me enfeita o rosto
Os ombros largos da insensatez
Com que o desejo me consome o gosto

Sou forte, pai, líder, chefe ou herói
Cumpro o destino da força maior
do musculado corpo sem temor
Mostro só força mesmo quando dói

Tudo o que esperam talvez possa dar
O corpo erecto na vida a lutar
Se o meu destino é o penetrar

na dor que vejo sem poder olhar
nos olhos guardo lágrimas em par
mas não me deixam nem sequer chorar!

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

reflexão curta

"O mar/no seu lugar pôr um relâmpago." Quem ousaria suprimir o mar por luz? Acto de loucura fugaz na troca da visão pela forma, pelo conteúdo e pela água. A insanidade do nosso pensamento é livre na sua cela. Pudesse eu ser só água e ondas nos dias de chuva e tempestade, para me revolver na luz dos relâmpagos. Mas nunca esta troca de mar por relâmpago. Jamais o fim do mar. O mar é o meu berço e o meu túmulo. É a prisão do nosso medo, da nossa fragilidade. É a liberdade do nosso sonho, da aventura de partir e quebrar barreiras. O mar somos nós todos os dias nas nossas ilhas de sentimentos e cognições. Nunca, mas nunca me ousem roubar o mar!Nem por um relâmpago!

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

O mar no seu lugar por um relâmpago

Quem pôs o mar no seu lugar?
Gostava de ter sido eu por instantes.
Brincar a Deus.
Pôr cada coisa em seu lugar.
Num relâmpago criar vida, luz, mar, terra e estrelas.
O mar.
O mar é tudo.
O princípio.
Essa casa abrigo que nos abraça e empurra em cada onda
num ir e vir de força
O relâmpago.
Luz que rasga o céu em energia de cor.
A vida em gotas de água.
A vida em ondas de sal.
Luz. Luz. Luz.
O lugar certo das coisas.
O lugar incerto das coisas.
O meu lugar é aqui.
Junto ao mar.
Contigo.

O mar no seu lugar por um relâmpago

Um relâmpago.
Surge a luz.
A vida ressurge numa estrela.
As estrelas escondem segredos que me contas ao ouvido com a tua luz.
O meio ser do meu ser.
Os outros que me completam.
O lugar incerto da vida.
Em todo o lado a vida.
Como um mar que nos rodeia.
O lugar da nossa alma talvez seja o mar.
Um buraco negro cheio de cor.
A caixa dos mistérios da vida.
O pequeno lugar das coisas simples que guardam as nossas chaves.
O mar no seu lugar por um relâmpago.
O amor no seu lugar por um relâmpago.
O nosso lugar em nós.

O mar no seu lugar por um relâmpago

Hoje não há trovões.
Só relâmpago.
Só a tua luz sem a tua voz.
O mar no seu lugar.
Calmo e sereno.
A maresia indiscreta dos teus sentidos.
As ondas do teu cabelo.
O meu lugar em ti.
As caves perdidas dos nossos pensamentos
Como velhos porões de um navio afundado.
Perdidos no fundo do mar das nossas memórias.
O brilho das nossas histórias
em relâmpagos de memória que nos abraça em encontros.
Luzes, luzes, luzes
Os nossos lugares.
Os amigos, portos de vida.
Âncoras macias e firmes.
O abraço do mar.
O mar em nós.
Os nossos mares.
Os lugares do nosso afecto.
Somos quase só água.

O mar no seu lugar por um relâmpago

A calma madrugada
onde as rotinas não existem
o nada é tudo
o sono, o sonho e os abraços
os laços
o amadurecer do silêncio na noite
o lugar do abraço
o relâmpago sonoro da dor
o mar, guardião de contos, aventuras e heróis
o lugar das fadas, das sereias e dos tesouros perdidos de piratas
guardo o mar no meu lugar interior
os meus lugares de calma
tu és o mar nos dias quentes
relâmpagos em mim que se moldam em cor
a energia em abraços
tudo o que não sabemos no mar
o mar em nós
a vida em pequenas partículas
quase invisíveis
grandes como nós

domingo, 5 de outubro de 2008

Desenlaça-me a dor

a insensatez do teu desdizer de alma
a forma lenta como me chamas nessa doçura infantil

foge do mundo até te cansares
depois volta e faz as pazes com o rio
com a lenta rotina dos automóveis
com o café do outro lado da rua
com a mesma velha calçada de sempre
a imensidão das horas nos dias cheios de sol
no trabalho pragmático que nos capa os sentidos
na mecanização enganosa da produtividade
embrulhada em presentes com muitos laços
desenlaça-me a dor de te ver partir

Se não te pensasse

Se não te ouvisse não te sentia
Se não te visse já não morria
Não era amor o que me consome
Se não soubesse que tens um nome

Hoje só durmo se não pensar
Se me despeço num abraçar
Da paixão rude que rompe o medo
Desse desejo do teu enredo

Quem me refaz se eu me quebrar?
Quem recompõe o meu olhar?
Quem me repinta se eu apagar
O meu retrato, o meu sonhar?

Se adivinhasse que tudo cai
Se fosse certo que temos fim
Parece fácil acreditarSei afinal que me minto a mim

Não é certa a minha dor

Não é certa a minha dor
É um incerto sentir sem medo
Perdida entre o desejo e a bravura
Entre a coragem e a brandura da tua fuga

Já não sei mais a tua cor
A máscara lenta que pões e tiras
Como um fardo de dor insolente e fria
Como uma alma vazia que descarregas em sentir
Onde estão as tuas mãos que ainda agora sentia?
O teu calor estranho se desfez em ar
Teus beijos etéreos são vazio em nada
Puro vácuo de abstracção

O meu ar sem o teu ar
O meu nome sem o teu nome
A pura e delicada incerteza da existência
Perdida num descorrer de sentido caótico
Do acaso em que alguns acreditam sem pensar
Da fé que alguns apregoam sem dizer
Do nada que carregamos às costas
Nos segundos de pausa do relógio do tempo.

Amarra a minha alma à tua
Grita num repente que queres viver rápido
Que agarras tudo num segundo para perder a cor da lógica
E agarrar os números soltos da insensatez
Com um travo de doçura e loucura
Com um esgar de dor e saudade
Sem lágrimas nem arrependimento
Sem fome nem sustento
Só dias de riso, música e dança
Em que o coração não se cansa de bater
nem se ouve na cadência louca da arritmia
Desde aquele dia em que te perdi,
na desafogada confusão da mente indecisa
A teia de pensamentos que nos prende ao chão e nos arranca do céu
O breu de cada perda
A calma aceitação da realidade num entardecer
Ao ritmo enluarado do asfalto que se perde nas ruelas
Das curvas soltas do teu riso
Da dança incauta do teu beijo
Um sopro aberto num sorriso
Em que me vês e eu te vejo.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Ar

ar
o artigo do ar
resto de excesso e calor
se o ar percorresse o interior
penas mais leves
libertar o novo
ossos invadidos por penas
aéreos, terríveis e ocos
o elefante do ar
esse elo de origem
recente linhagem
isoladamente o primo próximo
aves, aves e aves
do rio e do ar
só pele e ar