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terça-feira, 19 de novembro de 2013

existem dois mil livros

Shakespeare and Company Bookstore, Paris, France.
imagem daqui

chegou  a saudade dos violinos com a quebra de luz na janela.
o escuro invade a sala, o computador e a cadeira ocupada;
uma penumbra que se abre -
onde andas borboleta de mil folhas?
onde andas estrela cintilante de tantos dias e tantas noites?
porque parou a luz agora, neste instante?
arrefecem os pés com o inverno à solta, o frio não voa

e existem dois mil livros que nos chamam pelos nomes  -

josé ferreira    19 novembro 2011

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

o mar como a poesia

imagem daqui


sabes,
acordei com o som de ondas enroladas num colar branco
e um aroma verde de limos e algas,  a maresia –

o mar tem destas coisas, toca-nos pelo olhar e pelo som
pela imensidão
pela linha definida que junta o azul
pelo segredo que se esconde na viagem dos peixes
pela quilha que avança, no movimento dos barcos
 e no voo planado de gaivotas pelo ar –

o mar tem destas coisas, sublima, da terra ao céu
como em Turner
entre o naufrágio e o sublime, ou determina 
o dia seguinte
entre o crepúsculo laranja que despede o dia
 e o silêncio das estrelas que nos olham de cima  –

o mar tem destas coisas, liga
está para além da rotação dos astros
da cultura dos livros
o mar é o espelho de Olimpo mesmo que não exista –

 no descer  das pálpebras, escutam-se os búzios, e imagina-se–

o mar tem destas coisas, como a poesia
uma emergência que não se domina, uma realidade e uma sina –

sabes,
acordei com o ombro quieto e o teu rosto paralelo
mas não despertes, peço-te
queria colocar-te um colar branco de espuma
soletrar-te o mar e entregar-te o brilho  de uma pérola original –
a tua mão é uma concha aberta aos primeiros raios de sol.
permanece -

lá fora, as ondas continuam enroladas –

josé ferreira 27 de agosto 2013

quinta-feira, 18 de julho de 2013

procurar poemas

flickr.com
flickr aqui


procurei poemas no sol incansável do meio-dia
e nenhum  surgiu sem  sombra
na verticalidade própria de uma hora exacta
como instante único na cor do dia –

foi ingenuidade querer encontrá-los numa única vontade
os poemas são sempre de mãos juntas ou de lutas.
os poemas estão para além de quartos nas cidades
e de ruas a ferver nos semáforos.
os poemas são redondos e completos
numa analepse do mundo, de Ítaca a um céu futuro -
os poemas são a proximidade possível com a natureza
na essência que exige água e luz
a superfície de um planeta -

os poemas todos juntos escrevem o mundo -

josé ferreira

domingo, 7 de julho de 2013

escrevo-te (XXI) - sobre o mar

Amadeo Modigliani


escrevo-te sobre o mar no poema vinte um.
quero que o guardes junto de uma macieira vermelha
protegido num rolo de aguarela, enrolado na forma de papiro.
tem os cantos queimados como costumava fazer na mesma idade do poema
incinerando os  vazios do papel que se desprendiam num fumo que subia
e depois caíam exaustos, separados entre cinza e espírito
como se dividissem a alma
entre o eterno,  que colocava a moldura da forma
e o momento da aura,  de terminar a obra de arte, depois de soltar as palavras fugidias
nos recantos da praia, nas relvas dos jardins, na solidão das paredes insensíveis
e de uma luz eléctrica transformada na sensualidade de um teatro  de sombras
como se decorresse um filme à luz de lamparinas  –


se lhe chamo obra de arte não é um elogio, tenho a consciência dos limites.
houve dias e dias, horas e horas, numa existência morta.
casualidades e banalidades pelos interstícios de muitos anos perdidos.
sem resultados, sem linhas escritas -

os poemas são a obra de arte que significam sem a preocupação de medida.
uma efervescência, uma ebulição, um assobio, o lugar de um número ímpar;
serei sempre um desconhecido do tempo, um vagabundo da luz e da poesia –


para além do mar e desta cidade parada na foz de um rio
escrevo-te sobre a revolução  das glícinias
quando  lançam os braços doces nas noites propícias.
como uma luz âmbar na cor lilás do teu  sorriso, o teu sorriso
irrepreensível de sentido, natural, solto, em frente de um chá de camomila
depois de colocares os lábios num copo de vinho
após o desfazer dos brincos de cereja, primeiro de  par em par
e depois um a um,  caindo –

o mar está ali à minha frente, sei que o vês nitidamente
da esplanada de folhas brancas manuscritas, por detrás dos óculos escuros
com os olhos de brilho.
o mar persistente de ruído branco e sal infinito –

sei que o vês nitidamente enquanto recordo o teu baixar das pálpebras
os meus lábios aflitos
e as horas fugitivas como se fossem minutos e segundos pequeninos –

calo-me, deixo que as lágrimas caiam, e sim, são esses borrões de tinta.
não, não é um momento triste, porque na memória reside o vivido
o campo risonho de margaridas, as nuvens, o céu azul, o sol  e a chuva
a protecção de um bosque e uma casa escondida
de cortinas de renda e lenha acesa, na luz tremeluzente
como a das lamparinas –

dançaste a noite inteira, derrubaste cadeiras na coreografia
percorreste a sala iluminada como se fosse uma corrida
e depois paraste, abriste os braços e teu coração batia.
era a noite dos milagres,  a lua estava cheia e as estrelas protegiam –

calo-me, e dou lugar às ondas. caminho. a areia escorrega
a água esgota-se na clepsidra
os pés vestem-se de branco e as veias apertam.
calo-me e o mar avança, cobre-me de limos
adivinho-te na rocha mais distante como uma figura de mitologia
os cabelos reluzentes, a pele em contraluz, os raios procurando aberturas
chegando com as ondas e partindo num som imperceptível –

josé ferreira 7 julho 2013

segunda-feira, 24 de junho de 2013

poema da noite de S.João

                                          imagem da internet  


cheiravas a manjerico
o teu rosto trazia a suavidade da seda
os olhos brilhavam mais do que a lua
que sendo assim se tornava pequena
para o tamanho do meu mundo -

foi como se um puzzle se completasse
a peça de muitos milhares que faltava
e os meus braços abraçaram-te tanto
no teu tamanho exacto  -

foi como se um anjo descesse à terra
e não fosse a madrugada
de novo a noite grande imensa
de novo a noite de balões que sobem
de foguetes que disparam
de novo o rio, a ponte e a cidade
de novo a noite iluminada -

josé ferreira 24 junho 2013

terça-feira, 2 de abril de 2013

escrevo-te XV - a rua das gaivotas e a metamorfose dos pássaros



imagem daqui 


escrevo-te no primeiro dia de abril
no simbolismo de inscrever verdades e negar mentiras.
não sei  dos teus olhos nem qual o mar em que navegam
quais as ondas, quais os ventos, quais os últimos caminhos
sei que andam soltos e sei que brilham –

vou-te contar: num pinheiro perto de moinhos e de sargaços
havia um pássaro pousado, recortado na cor da sombra contra o mundo
e fazia soar uma melodia, numa transparência tão cristalina que comovia.
sabes, não chovia e algumas linhas de sol abriam. fiquei parado
surpreendido, naquela dicotomia:
um silêncio na rua e o fluir seguro de uma melodia.
o que  diria a ave na árvore e naquele dia?
seria uma carta sem  palavras na metamorfose da música?
a quem escrevia?

escrevo-te e digo-te, as cores de acordes eram luminosidades perto do mar
sequenciais:  sol de sétima, si bemol, dó maior.
magnífica melodia. fiquei parado
sabes, fiquei petrificado, preso pelos ouvidos –

vou-te contar: à volta daquela redoma de sons nada ousava tocar
e ficámos parados, eu, o silêncio e a árvore.
depois de cinco minutos naquela quietude completa
por detrás de uma janela
numa casa abraçada de ambos os lados, por irmãs gémeas
por detrás de uma janela, uma cortina oscilava de nascente a poente
na perpendicularidade do mar da Apúlia, onde ondas chegavam e partiam
sem ganharem qualquer protagonismo, envolvidas e mudas
nos cristais da melodia –

a luz de fora das janelas escondia as mãos, os dedos, a fisionomia
mas não escondia a leveza de gestos, a sensibilidade feminina.
sabes, fiquei parado, qual mármore em estátua, e a melodia subia, subia -

a ave depois da cortina oscilar, cantava mais expressiva, esdrúxula e afirmativa
como uma ópera de Puccini, como  um uníssono sem vozes no deslizar de cerdas
sobre cordas de violinos –

escrevo-te e digo-te, foi uma surpresa de rouxinol, uma história infantil
reassumida na memória dos primeiros livros, Andersen, o nórdico
e outras histórias em que se acredita em fantasias
em que não queremos crescer para os mundos modernos, tão frios
sem qualquer poesia -

 lembro-me e digo-te o que me ocorreu naquele dia
naquela hora parada de uma tarde de sábado
em que o mar estava demasiado longe para que juntasse a força das ondas
provavelmente povoado de búzios em dunas de areias sozinhas
e em que se ouvia no lado esquerdo do pinheiro
o pulsar da melodia, cristalino, interminável
enquanto a cortina, segura nos dedos femininos, escutava e escutava
na mesma linha, sem desistência, sem movimento e em silêncio -

sabes, talvez fosse um príncipe
talvez fosse um príncipe que cantava e uma princesa que ouvia
e vão ser felizes, vão ser felizes
na rua das gaivotas e na metamorfose dos pássaros -

josé ferreira 1 de abril de 2013

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

os meus gatos não estão aqui


                                        imagem da web

os meus gatos não estão aqui
não miam nos meus ouvidos
não me roçam as pernas
e seria impossível
os ruídos do café são uma fronteira intransponível
os meus gatos não estão aqui –

portanto quando o nevoeiro se expande branco
e cobre a rua com mil gotas invisíveis
os meus gatos não estão aqui –

e estão sempre
com o seu pêlo branco, cinzento ou preto
trazendo nesta distância de luz todas as cores dentro –

os meus gatos não estão aqui
não sobem os móveis para atingir a altura das mãos
não se aninham no colo para ronronarem canções
não fecham os olhos nos seus sonhos de prados
nos seus sonhos adormecidos de rodarem os olhos e esticarem as patas –

os meus gatos não estão aqui
não fazem asneiras para que me lembrem que existem
e que sentem
os afectos das mãos, o aconchego do colo ou a cobertura das lãs –

e estão sempre
de olhos azuis ou castanhos como lampiões na noite escura
como sombras protectoras, como anjos nas manhãs brancas –


josé ferreira 13 dezembro 2012

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

escrevo-te (IV) - a importância da luz


                                imagem daqui

escrevo-te no frio flagrante de uma manhã de inverno
apesar de ser o princípio de dezembro
quando as árvores ainda deixam cair folhas e se tornam transparentes –

escrevo-te com as minhas mãos abertas e na nudez dos ramos
para te dizer que a luz é importante
que as cidades podem ser todos os dias
os cabelos dos sonhos e um mar infinito
ou montanhas brancas 
ou lagos luzidios –

josé ferreira

domingo, 9 de dezembro de 2012

escrevo-te (III) - 366 pedaços de céu



                       imagem em http://expresso.sapo.pt/366-pedacos-de-ceu=f737374

escrevo-te na sensibilidade nas palavras
não encontro melhor forma de dizer
ficamos sempre aquém do que nos sobe na cabeça
em 366 pedaços de céu –

ficamos sempre aquém
aquém do amor que dizemos em plumas que sobrevoam
que se imobilizam como se um cisne voasse, pousasse  e falasse
e do seu bico saíssem palavras
palavras escritas em pequenos círculos no espelho de um lago –

ficamos sempre aquém da pele que nos abraça
quando os dedos se tocam e há um homem
e há uma mulher  –

escrevo-te sabendo da fronteira e dos limites
das portas e das janelas
dos quiosques, das escolas, dos escritórios e dos cafés;
aquelas mesas cheias de olhos –

e das bibliotecas
da imensidão das prateleiras, paralelas
na longitude das folhas
na curvatura dos livros onde se deitam as histórias –

sei bem dos limites e das asas que não voam
e no entanto, vejo-te  e escrevo  
e dou-te a mão sem pressa
em 366 pedaços de céu –


 josé ferreira 9 dezembro 2012

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

duas almas


                                   Imagem retirada da web

um voo de espírito e um pousar pesado
assim com as duas mãos e os dois pés
mão a mão e passo a passo
à vez e sob o sol que acompanha o espaço
entre laranjas
escondidas nas árvores

almas unidas que ninguém separa –

josé ferreira 4 dezembro 2012

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

escrevo-te

                                        imagem daqui

escrevo-te directamente no princípio da noite
não como amigo mas como amante
desconhecendo-te o corpo, pensando-o pelo voo
pela asa que se ergue e pousa
naquela árvore junto da janela
um braço castanho, um braço de seiva
um braço de penas
leve como a brisa em tardes imaginadas -

escrevo-te no intervalo do sono de olhos iluminados
e tantas são as cores
luzem -

canso-te de palavras, bem sei, e falo-te por metáforas
campainhas que podem ser flores
margaridas, bem-me-queres, jacintos flutuantes em frascos -

até que despertes
até que afastes o lençol bordado
até que surja a primeira torrada
até que a luz seja autêntica e muito clara
até que segures o cabelo depois de entrares no carro -

josé ferreira 23 novembro 2012





quarta-feira, 14 de novembro de 2012

o sensível lugar


                                    Imagem daqui
                                       
tenho-te pensado de todas as formas
e não será nunca a hora dos caixões
essa será sempre uma hora dos outros
a não-hora dos meus aviões
a não-hora  de um  febril sonhador –

a hora do pensamento será sempre de querer
de querer a hora imoldável, a hora  impenetrável
a hora sossegada  mais forte que a  tempestade –

porque não há fragilidade no olhar
quando a planície é a promessa
o ramo de oliveira, o sensível  lugar –

josé ferreira 14 Novembro 2012


quarta-feira, 7 de novembro de 2012

alma




a alma é complexa
a alma é um mito como as deusas do Olimpo
a alma é uma desconhecida com braços e boca de neblina
a alma é uma aura sem corpo no corpo que habita
a alma tem faces indivisíveis:
bela como Fontana de Trevi
em ruína, como o Circo
 a alma é uma construção contínua –

penso na alma quando os meus cabelos se prendem na erva e ganham raízes
qual é qual: o inorgânico, a terra, o fluxo de células, o ser vivo, o espírito
penso na alma quando os olhos me abandonam e voam invisíveis
e são asas de vento
e flutuam, sem peso,  durante muito tempo  –

josé ferreira 6 Novembro 2012




quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Um dia

                             Peter Rand


ouve,  digo-te com todas as letras
um dia podemos ser únicos no cimo de um monte
entre o nevoeiro, as pedras buriladas pelo vento
e a paisagem difusa do horizonte.
um dia podemos ou não podemos realizar o sonho –

conto-te de todos os poemas:  os que nascem sem nascente
os que são de água que cai de cima
os que são de pó suspenso –

ouve,  digo-te
um dia podemos ter os dedos abertos sobre todos os medos
um dia livre sem estações nem horas
sem nuvens nem rodas
sem o escape dos ponteiros do relógio
sem  a ânsia eterna dos pêndulos,  que não param –

ouve, digo-te
um dia podemos ser mais no intervalo mais comprido, ouço músicas
o intervalo subitamente cristalino
para que a pergunta surja mais afirmativa
porque não antes?
porque não sempre?

josé ferreira 1 de Novembro de 2012



quinta-feira, 11 de outubro de 2012

o desejo e a geometria


                            Tamara de Lempicka

acordo com a música de leonard
hoje é o dia, o dia plácido, sereno, sossegado –

o teu rosto ainda descansa no berço dos braços
um louro luminoso em raios de sol
a tranquilidade de um  sonho –

acordo calmo, na brevidade de sons de leonard
a manhã é um laço apertado, uma rotina de espaços
 migalhas sobre o mármore, as torradas  -

não sei se sais, não sei a cor dos sapatos
qual a seda que te envolve –

parto no estado encoberto
pelo interstício entre o corpo e a sombra inelutável
entre cada um dos dedos e o que os separa
parto pelo indefinível, pelo desejo e pela geometria
parto sempre
pela arquitectura da alma –


josé ferreira 11 de outubro 2012

terça-feira, 9 de outubro de 2012

o mar e as histórias mágicas



                             John Wiliam Waterhouse


o mar pode ser reinventado e ter as cores dos poetas.
pode ter a pele eriçada de ondas que se aproximam da praia
e pode ter ao mesmo tempo o sol, o céu, o vento
escrevendo  histórias mágicas
de peixes, algas  e águas
e sereias –

josé ferreira

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

só as árvores sabem


                             Felix Mas                       

os raios de sol de novo sobre a testa e as palavras.
o outono entrou pela chuva e espalhou as folhas.
mas há luminosidades
os teus olhos, os teus lábios –

escrevo-te na mágoa da ausência
na página branca
através de dedos coloridos e tinta permanente
e escrevo-te  para construir a seiva, sempre
para que ela circule e se liberte
na expansão mais célebre –

só os ouvidos das estátuas, sabem
só os versos quando escritos, sabem
só as músicas , sabem
só as cores espalhadas nas mesmas margens, sabem

só as árvores, só as árvores
sabem –


josé ferreira 27 Setembro 2012

terça-feira, 25 de setembro de 2012

o urgente azul


                                     Felix Mas

é urgente
fazer crescer os braços de uma árvore para te abraçar os cabelos
é urgente
uma girândola de aromas
a árvore e os cabelos
as flores brancas de Trás os Montes é urgente
é urgente
fazer crescer cogumelos tão altos que se tornem seguros
um tronco alto e macio, é urgente
para proteger das poeiras e não fechar o paraíso é urgente

o céu, a lua e a incandescência  das estrelas é urgente –

é urgente a urgência de navegar no lado esquerdo –

 josé ferreira 24 Setembro 2012

terça-feira, 18 de setembro de 2012

o frágil vidro




por vezes
pelo interstício das células faz-se o caminho
como se colocasses os pés dentro de água, impermeável
ao líquido e à escama que desliza  –

a cidade não te surge como destino.
por vezes, a  cidade é uma rua deserta
não tem qualquer significado
quando caminhas sozinho –

há um banco no jardim do universo
há uma física emoldurada de tílias
há um horizonte que se constrói na planície do sonho
e uma realidade difícil
que se ultrapassa todos os dias.

sempre que a parede, muro, líquen ou vidro
se ergue como a Babel do incompreensível
procura o fio, a curiosidade de descobrir o infinito
procura o linho, a mão unida, a sede dos olhos
a luz no caminho

há sempre uma saída –


josé ferreira 18 de setembro 2012

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

azul



                                                            Matisse Le Cirque 1947

     "Cheirava a maresia e a fruta. 
     Longas músicas pareciam suspensas das árvores e das estrelas. 
     E entre as casas brancas, na noite escura e azul, passava o rolar do mar."
                                                                                                                                                       Sophia Mello Breyner Andresen


azul,  sempre azul, digo-te
como num circo de Matisse
ou numa fantasia de Chagall;
onde os peixes podem ter asas 
onde a lua sabe tocar guitarra
e onde em vez de sapatos posso ter crina e ser um cavalo
que te leve no dorso nu pelas descobertas 
pelos lugares e não lugares do mundo
pelos prados virgens e pelas paisagens  imprevisíveis do sonho:
o sonho azul, inteiro, sem fragmentos  
 que faça esquecer todos os medos –

azul, sempre azul, digo-te
para que o céu exista nos ponteiros soltos do relógio
para que as estrelas sejam reais no espelho das faces
e queimem as mãos com a pele que arde
nessa pressa dolorosa do amor que não esmorece
e acontece de cada vez mais para se tornar maior –

e acontece
como células brilhantes que se acrescem
para serem enormes  e únicas, de seda, sede e febre
para que se tornem doença, doce vício e urgência
a boa urgência e o sossego –

azul, sempre azul, digo-te
como o flamejante álcool de um laboratório
que flutua e inebria na destilação dos fluidos mais leves
para que as temperaturas evidenciem as essências
e ciciem poemas na ebulição mais importante –

azul, sempre azul, digo-te
com os braços distendidos e a galope
até  que o mar nos leve juntos pela praias de Sofia –

josé ferreira




                                       Marc Chagall  Le Cirque Bleu 1950