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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Alguém pensou que nascer é felicidade? - um poema de Walt Withman




Alguém pensou que nascer é felicidade?
Apresso-me a informar, a ele ou a ela, que o é tanto como morrer, e eu sei que é assim.

Morro com os moribundos e nasço com um bébé que foi lavado há pouco, e não existo apenas entre o meu chapéu e as minhas botas,
Observo os vários objectos, não há dois iguais e todos são bons,
A Terra é boa e boas as estrelas, e tudo à sua volta é bom também.

Eu não sou um mundo nem o que existe à sua volta,
Sou um camarada e um companheiro das pessoas, todas são imortais e insondáveis como eu próprio,
(Elas não sabem como são imortais, mas eu sei.)

Cada espécie para si e pra o que lhe é prório, para mim o homem e a mulher são meus,
Para mim os que foram rapazes e que amam as mulheres,
Para mim o homem que é altivo e que sente como dói o que é ser desprezado,
Para mim a amada e a solteirona, para mim as mães e as mães das mães,
Para mim os lábios que sorriram, os olhos que derramaram lágrimas,
Para mim as crianças e os que geram as crianças.

Despe-te! para mim não és culpado nem decrépito nem posto de parte,
Vejo através do pano fino e do algodão fino, quer queiras ou não,
E ando em volta, persistente, ávido, incansável e nada pode afastar-me.

Walt Whitman, As folhas da Erva, Relógio d’Água, 2010

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Kalamus



Jean-Michel Folon "A propósito da terra e do céu" 1989



Full Of Life Now (original)

Full of life now, compact, visible,
I, forty years old the eighty-third year of the Sates,
To one a century hence or any number of centuries hence,
To you yet unborn these, seeking you.

When you read these I that was visible am become invisible,
Now it is you, compact, visible, realizing my poems, seeking me,
Fancying how happy you were if I could be with you and become your comrade,
Be it as if I were with you. (Be not too certain but I am now with you.)

From “Kalamus” – Leaves Of Grass



Pleno de Vida Agora (tradução)

Pleno de vida agora, concreto, visível,
Eu, aos quarenta anos de idade e aos oitenta e três dos Estados Unidos,
A ti que viverás dentro de um século ou vários séculos mais,
A ti, que ainda não nasceste, me dirijo, procurando-te.

Quando leres isto, eu que era visível, serei invisível,
Agora és tu, concreto, visível, aquele que me lê, aquele que me procura,
Imagino como serias feliz se eu estivesse a teu lado e fosse teu companheiro,
Sê tão feliz como se eu estivesse contigo. (Não penses que não estou agora junto a ti.)


Tradução José Agostinho Baptista

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Estão todas as verdades à espera em todas as coisas


Camille Pissarro " Vista de Eragny" 1888


Estão todas as verdades
à espera em todas as coisas:
não apressam o próprio nascimento
nem a ele se opõem,
não carecem do fórceps do obstetra,
e para mim a menos significante
é grande como todas.
(Que pode haver de maior ou menor
que um toque?)

Sermões e lógicas jamais convencem
o peso da noite cala bem mais
fundo em minha alma.

(Só o que se prova
a qualquer homem ou mulher,
é que é;
só o que ninguém pode negar,
é que é.)

Um minuto e uma gota de mim
tranquilizam o meu cérebro:
eu acredito que torrões de barro
podem vir a ser lâmpadas e amantes,
que um manual de manuais é a carne
de um homem ou mulher,
e que num ápice ou numa flor
está o sentimento de um pelo outro,
e hão-de ramificar-se ao infinito
a começar daí
até que essa lição venha a ser de todos,
e um e todos nos possam deleitar
e nós a eles.

Walt Whitman, in "Leaves of Grass"

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Esta é forma fêmea



Salvador Dali "Vénus e cupidos" 1925

Esta é a forma fêmea:
dos pés à cabeça dela exala um halo divino,
ela atrai com ardente
e irrecusável poder de atração,
eu me sinto sugado pelo seu respirar
como se eu não fosse mais
que um indefeso vapor
e, a não ser ela e eu, tudo se põe de lado
— artes, letras, tempos, religiões,
o que na terra é sólido e visível,
e o que do céu se esperava
e do inferno se temia,
tudo termina:
estranhos filamentos e renovos
incontroláveis vêm à tona dela,
e a acção correspondente
é igualmente incontrolável;
cabelos, peitos, quadris,
curvas de pernas, displicentes mãos caindo
todas difusas, e as minhas também difusas,
maré de influxo e influxo de maré,
carne de amor a inturgescer de dor
deliciosamente,
inesgotáveis jactos límpidos de amor
quentes e enormes, trémula geléia
de amor, alucinado
sopro e sumo em delírio;
noite de amor de noivo
certa e maciamente laborando
no amanhecer prostrado,
a ondular para o presto e proveitoso dia,
perdida na separação do dia
de carne doce e envolvente.

Eis o núcleo — depois vem a criança
nascida de mulher,
vem o homem nascido de mulher;
eis o banho de origem,
a emergência do pequeno e do grande,
e de novo a saída.

Não se envergonhem, mulheres:
é de vocês o privilégio de conterem
os outros e darem saída aos outros
— vocês são os portões do corpo
e são os portões da alma.

A fêmea contém todas
as qualidades e a graça de as temperar,
está no lugar dela e movimenta-se
em perfeito equilíbrio,
ela é todas as coisas devidamente veladas,
é ao mesmo tempo passiva e activa,
e está no mundo para dar ao mundo
tanto filhos como filhas,
tanto filhas como filhos.
Assim como na Natureza eu vejo
minha alma refletida,
assim como através de um nevoeiro,
eu vejo Uma de indizível plenitude
e beleza e saúde,
com a cabeça inclinada e os braços
cruzados sobre o peito
— a Fêmea eu vejo.

Walt Whitman, in "Leaves of Grass"