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quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

  "De Sapiãos"

em riste
sem olhos, ouvidos, dedos
ou não, ironia
riste, que disfarce
o resto, entenderia à mesma
não fico a ver
 .......................................................................................................
Alguém que achava ter sentido de humor, com saudade de sereias, nunca foi de regresso, por ser imaturo e sem si nem dó, tudo não quererá.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012



2avioes2004Círculos imperfeitos

Pensava ser a conta-gotas, não chegavam claros dias a descoberto, nem teve de ser para sempre

Quebradados
e mais


Quebrados laços
e mais

Quebrados laços imaginados
e mais

eu permaneço

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Ode à Mentira





Crueldades, prisões, perseguições, injustiças,
como sereis cruéis, como sereis injustas?
Quem torturais, quem perseguis,
quem esmagais vilmente em ferros que inventais,
apenas sendo vosso gemeria as dores
que ansiosamente ao vosso medo lembram
e ao vosso coração cardíaco constrangem.
Quem de vós morre, quem de por vós a vida
lhe vai sendo sugada a cada canto
dos gestos e palavras, nas esquinas
das ruas e dos montes e dos mares
da terra que marcais, matriculais, comprais,
vendeis, hipotecais, regais a sangue,
esses e os outros, que, de olhar à escuta
e de sorriso amargurado à beira de saber-vos,
vos contemplam como coisas óbvias,
fatais a vós que não a quem matais,
esses e os outros todos... - como sereis cruéis,
como sereis injustas, como sereis tão falsas?
Ferocidade, falsidade, injúria
são tudo quanto tendes, porque ainda é nosso
o coração que apavorado em vós soluça
a raiva ansiosa de esmagar as pedras
dessa encosta abrupta que desceis.
Ao fundo, a vida vos espera. Descereis ao fundo.
Hoje, amanhã, há séculos, daqui a séculos?
Descereis, descereis sempre, descereis.

Jorge de Sena, in 'Pedra Filosofal'

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Por

Terra vista do Céu 1 - Yann Arthus-Bertrand
Coração de Voh em 1990, Nova Caledônia, França (20°56’ S – 164°39’ L)

Por não saber como dizer-me O Que É Que Foi?
tão perto, e frisada, seja

única a metáfora sobre o Amor

a haver instante sem quase

levantar-se-ão dias, Completos

Anabela  brasinha

domingo, 18 de novembro de 2012

Se adianta

 


Como folha a cair me falas, a seguir há geada, depois a queimadura, que não sabes nada de primavera.
E sim, voltas, mas falta sempre essa estação. Correu a água, foram, as chuvas, os ventos, que são paralelos a ti, e é na sombra que detesto te dar a mão, que aliás, nem queres, só que não posso te ver no chão.
Já nem sei se é o melhor, se adianta, já nem penso, seja o que for, se deus existisse, fosse como deus quisesse.


                                                      Anabela Couto Brasinha



Conto-te

Paris Torre Eiffel fim de tarde, fotógrafo Luis Prado, São Paulo
Paris, Torre Eiffel, fim de tarde, fotógrafo Luis Prado (São Paulo)

 
  Desci a rua ao fim da tarde para ver aquelas cores, esse azul e laranja matizado, e desejei encontrar-te nas ruas da baixa.
Quando passei na rua onde estava a sala de jantar, onde também tinha estado acompanhada, temi que aparecesses. É que nessa sala tinha-se enchido o som do piano, e do outro lado da mesa foi repetido, Se quisesses vias como esperam que o teu olhar pouse sobre eles. Muito mais tarde pensei, então era isso, capricho! Chorei, e lembrei que se calhar, só mesmo o pianista teria percebido a pontinha de tristeza e a minha ilusão de pensar que me iria despedir dela.
Voltei a passar no largo da lapa, para ir visitar uma mulher. Estava frio nessa noite, também estava frio enquanto subia a escada a meia-luz. E quando entrámos na sala, essa mais iluminada, é que vi, metade do seu rosto e pescoço, e o meu olhar foi pousar na sua mão, com a pele também enrugada pelas queimaduras. Chorei compulsivamente, ela abraçou-me. Quando nos sentámos na mesa redonda, já com as duas chávenas de chá, perguntei-lhe quando soube. Ela disse, Ainda faltavam uns dias para voltar ao Porto quando me disse que eu queria partir, que tinham sido os seus dias mais felizes mas que eu queria partir, percebi que para ele eu não era... Terminei-lhe a frase, e ela recomeçou a falar, Não me lembro bem da viagem de regresso, nem de chegar a casa. Só me lembro de acordar no hospital. Tive algumas visitas, foi muito constrangedor para elas, não perguntavam... Disse-lhe, Pois, pensaram que querias morrer. Devagar ela esboçou um sorriso para dizer-me, A coragem só existe quando temos medo, e não temo a morte... Mas… lamento ter agido de impulso, só quando voltei a casa e me despi em frente ao espelho... Levantei-me da cadeira, contornei a mesa para a abraçar. Depois ela disse-me, Tens de ser... Sorri-lhe a confirmar.

(2010-2011)

                                                                           Anabela Couto Brasinha

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Emília

O trapézio Emília!
Tom de pele não vira, por Dignidade Emília, por Dignidade Emília!

O trapézio Emília!
Ser Bom é extravagante, é também sem perdão, sem perdão Emília!

Paul klee

Ar gasto, vértebras, mãos, pés e o resto sobre os ombros! O trapézio Emília!

O Trapézio Emília!





domingo, 14 de outubro de 2012

Partida, largada, fugida!

Paul klee, Le leve



Chegada!

Também se despedaçou neste tempo que deu para tudo. 

Por contínuo Sentir Romper Palavras. 

Dentro troca e acrescenta-se!                                                                                                                                                   

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Assinalo para não repetir

Foi como se não tivesse aprendido que não volto, deixei rasgar-me, e levantei-me todos os dias por não querer sentir quase nada.
Por terra queria deixar a mágoa, queria também viver.
Icei as velas do que tinha, pareceu pouco. Mas houve quem me disse ter tudo, quem me ama. E que me perdoem ter sido eu cruel, tentarei depois resgatar alegria para a partilhar, pois, larguei-me a deriva. Lancei-me à tempestade.
E era, é, navegar sem destino no deserto do mar. Aí eu senti quase tudo, até não ter palavras. Os dias foram noites, as noites claras como dias.
Foi como fome. Da dor, essa lâmina, sobrou sofrer. Às vezes disse, Que puta de vida. Não foi bonito, por tudo que deixou de ser bonito. Também não houve qualquer distorção.
E das vezes que chegara a ânsia de dias claros, de terra firma sob os pés, vinham também palavras à cabeça, palavras que me ditaram mal. Tenho eu de afastar certas palavras todos os dias, estou completamente só. A solidão não faz bem, ela só pode ser uma passagem.
Tem de haver a serra onde viver, por onde andar descalça sobre chão de terra, sobre chão de erva. Fazer fogueira com as tábuas, do barco partido onde correm águas do mar.
E só estou eu, para as compor enquanto tento que passe a saudade do bater do meu coração tranquilo. Caí no logro por isso esta horrível parte da viagem, a saber que é melhor não estar ninguém.
Que quero eu chegar, meu corpo largar o barco, a nado alcançar a praia, subir a serra. Desejo o calor da fogueira, gente que festeja à volta. Honrar a terra, que sou terra, para depois adormecer e acordar abraçada a quem de ser generoso.
Já estou eu... partida, largada, fugida! Por sorte não volta. Nem sei se chegará, mas dá-me tempo para conseguir seguir comigo em frente. Ainda sinto a contrariedade de não querer que estas últimas palavras sejam verdade. Ainda estou no barco, e confio que esteja só e apenas por mais algum tempo.




("dou" este escrito ao Zémanel, claro!)

domingo, 30 de setembro de 2012

De ironias

   
De ironiashttp://sometimesaki.no.sapo.pt/Imagens/Reflexo%20Pedro%20Gomes.jpg

 
É que no mundo das aparências... que é o mundo em geral!
Umas vezes se passa por ser a melhor pessoa;

outras, pela pior... isto na maior parte do tempo!
Vão reciclando.

E pondo de um lado os que falam, e do outro quem é falado,
como acha que foi quem é falado?
Quando do outro lado estava, desse onde ninguém é meigo (depois inofensivos se acham), onde afirmam tanto ter razão, mas escondem a cara o melhor que podem se sozinhos;
e ainda, onde cada um, achará que terá cuidado, e nunca passará a ser falado!
É extraordinário pensar ser-se assim tão especial...
assim como a surpresa de como foi possível, ser a mim que chamou caprichosa!
Adeus.

sábado, 28 de julho de 2012

Existe

                                    


    Não serão os mesmos seixos que a água deixa ver, nem os mesmos fentos que amparam a água a correr devagar, como toda a que passou antes sob a ponte.
    Mas ainda são as mesmas pedras, talhadas e carregadas para se sobrepor à armação de madeira que as sustentam. As pedras, elas no esqueleto de madeira que fez o avô carpinteiro do meu avô que foi lavrador, também não serão eternas.
    O Meu avô compunha também as rodas dos carros de bois, menos vezes quando fui para a primária da aldeia, mas já muito antes de eu ir para a escola. Também vendia gado de puxar carros de bois na feira. O caminho era curto, meia hora a pé com companhia. Ele nunca vendeu os bois pelo preço justo, coisas... hoje vejo bem melhor isso.
    Por vezes falam-me da ingenuidade do campo, falam-me as pessoas da cidade. Ou como agora se perdeu... E eu, eu acho graça, e imagino como a feira deveria ser um jogo estranho para o Fanfa, o meu avô. Era apenas um homem, um homem que não jogava.
    Diz-se ainda hoje que sob a ponte muita água há-de passar. Esta, neste preciso momento, está a passar.
    Já agradeci a quem me ouviu. E se o meu avô estivesse vivo, teria também dito, deve ser proibido desrespeitar.
    Na aldeia, à noite gosto de ouvir o som da água, e é perfeito quando o céu está limpo, e deixa ver o estrelar, como a água que de dia deixa ver os seixos. E a ponte, não se deixa ouvir, nem ver, é silêncio. De todos os silêncios, o silêncio perfeito

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Bem

«Aqueles de vós que correm atrás do poder
despótico (...) eu exorto a mudarem de direcção e a cedo fugir
do que é considerado “felicidade” [eudaimonisma] por homens de ânsias
insaciáveis e mentes vazias (…)»

Platão

segunda-feira, 2 de julho de 2012

low cost



Deve ser verdade que a natureza enche, o vácuo, o zero, o nada, o vazio?!


É que às vezes pensa
Como também precisaria de adormecer

No final desse dia lembrou ter ele dito
Vou por uns dias
Imaginou que no caminho da ponte iria
Ver aquela pouca neve na serra
As poucas nuvens
E também as cores de fim de tarde
(só que ele foi por outro caminho)

Gostaria tanto de descrever por palavras
Ou de outra maneira que fosse
O que via 


Anabela Couto Brasinha
(2011)

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Do que Nada se Sabe

 






A lua ignora que é tranquila e clara
E não pode sequer saber que é lua;
A areia, que é a areia. Não há uma
Coisa que saiba que sua forma é rara.
As peças de marfim são tão alheias
Ao abstracto xadrez como essa mão
Que as rege. Talvez o destino humano,
Breve alegria e longas odisseias,
Seja instrumento de Outro. Ignoramos;
Dar-lhe o nome de Deus não nos conforta.
Em vão também o medo, a angústia, a absorta
E truncada oração que iniciamos.
Que arco terá então lançado a seta
Que eu sou? Que cume pode ser a meta?

Jorge Luis Borges, in "A Rosa Profunda"

domingo, 3 de junho de 2012

O vagar


O vagar do que dizia soava ao escorrer do azeite, no lagar da ainda aldeia. No entanto, não morrera ele no chão, onde caíram as azeitonas deixadas. As que não se apanharam deram-se à terra. E ele ficou, com quem ficou, mas foi como azeite entornado fora de prato. Aceitou, mesmo depois de entender, até ao fim. É isso o que mais lamento.
Quase incógnito, impotente, como tantas mulheres de todos os tempos, e na inversão de papéis, mesmo assim, quando disse que não, foi não. Essas poucas ocasiões foram poucas demais, mas há quem se lembre.
Os tempos de hoje são parecidos aos dele em muitos lugares, é isso que me surpreende muitas vezes.
E se tudo pode mudar, deu o aviso, o que não muda. E o vagar do que dizia soa ainda como azeite, verde, velho, sensato, e a tempo, mesmo que ele morto. Morreu fora de casa e fora de terra. No entanto, ironicamente, ficou a esperança nesse aviso, e também tanto a agradecer. 
Anabela Couto Brasinha

sábado, 19 de maio de 2012

Maio 2012




"Aqueles que não se lembram do passado estão condenados a repeti-lo".
George Santayana

"A memória guardará o que valer a pena. A memória sabe de mim mais que eu; e ela não perde o que merece ser salvo."
Eduardo Galeano

"Somos responsáveis, porque matamos noutros o que os outros matam em nós mesmos".
Jorge de Sena, "Elegia por certo", in Visão Perpétua

Por além mares,
na terra como num barco,
o extremo do extremo,
sobreviveu quem veio, e
quem ficou da outra maneira.

Por toda a vida a viver,
não vós esqueço.

Anabela Couto Brasinha