Bahia
É lata
É bairro
É barro
É borra
E café
Mulher da manhã
Com dança no pé
Bahia
Dos carros
Dos ossos
Dos pobres
Dos podres
De amores
Que bebem as dores
Num copo sem fundo
Bahia é o guincho
Que acorda
O sono profundo
Bahia é o bicho
Que morde
E mia no escuro
Bahia é o mundo
Que segue
De passo
Inseguro
A coxear
Um Futuro
Manco
Bahia segue
De perto
O seu Orixá
Bahia do preto
Perdida de branco
Devota a Iemanjá
Bahia é pra já
Bahia imediata
Sem espera ou data
Sem plano de acção
Bahia canção
Multidão
Temores
De tambores
E dança
Balança
Sem esperança
Só samba
Só mar
Só morte e criança
Com fome na pança
Bahia bamba
De pernas compridas
Bahia descalça
Que salta
Ou assalta
Mostrando
As feridas
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terça-feira, 5 de maio de 2026
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
tento não pensar muito nas coisas
.
tento não pensar muito nas coisas
que quero fazer porque - as mais das vezes - se penso, penso demais e não as faço. e, se não as faço, fica-me uma sensação de perda por nunca as ter feito. como uma constante inconclusão de mim própria. outras vezes faço-as, sem pensar, mas na verdade não as devia fazer. e depois de já as ter decidido e começado, não consigo voltar atrás. numa espécie de mudança de ideias que não muda nada. como se cada decisão implicasse a recompensa ou o castigo de a ver realizada. feita. cumprida. e agora que penso nisso,
pergunto-me o que estou a fazer - e porquê - que não tenho ideia de o ter decidido
.
tento não pensar muito nas coisas
que quero fazer porque - as mais das vezes - se penso, penso demais e não as faço. e, se não as faço, fica-me uma sensação de perda por nunca as ter feito. como uma constante inconclusão de mim própria. outras vezes faço-as, sem pensar, mas na verdade não as devia fazer. e depois de já as ter decidido e começado, não consigo voltar atrás. numa espécie de mudança de ideias que não muda nada. como se cada decisão implicasse a recompensa ou o castigo de a ver realizada. feita. cumprida. e agora que penso nisso,
pergunto-me o que estou a fazer - e porquê - que não tenho ideia de o ter decidido
.
raquel patriarca | vinteedois.setembro.doismileonze
.
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
FOTOGRAFIA À BEIRA-MAR - POEMA

FOTOGRAFIA À BEIRA-MAR
à beira-mar.
e é da interrupção deste desejo
que nasce este desejo;
é da interrupção desta capacidade
que se realiza esta capacidade;
é da organização do som
que se mede o poder do embate;
é do soluço desta peixidez
que fazemos por fim nosso
o nosso mar;
sempre uma coisa na dependência
dessa mesma coisa ou algo
à beira-mar.
sempre uma nova pessoa
que nasce dela mesma.
Sylvia Beirute
em Uma Prática para Desconserto (4Águas, 2011)
terça-feira, 5 de abril de 2011
SENTIMENTO PRIMAVERIL (SYLVIA BEIRUTE)

SENTIMENTO PRIMAVERIL
não sei o que é este sentimento
mas se o tentar dizer
sem pensar
e com as palavras que me vierem
à boca
será um dia de semana em voz alta
na cabeça de uma criança que não
distingue os sons,
a sua respiração que se desintegra
desde a sua infância velha. intemporal.
ou então um quarto de mim mesma
na adivinhação plena e simples
do teatro negro
antes de a acção começar a interrogar-se,
ou as flores que
parecem encobrir o ar das cinco da tarde.
não sei.
não sei o que é este sentimento
mas sei o que quer dizer.
Sylvia Beirute
inédito
quarta-feira, 17 de junho de 2009
Como começa um conto
Comecei a ler um conto de Máximo Gorki que se chama " O pequeno pastor e a fadazinha "
com tradução de Egito Gonçalves e publicação da Quasi. Resolvi partilhar.
" As histórias que os homens contam são frequentemente tristes, não procuremos conhecer a razão deste facto e ouçamos antes uma delas, um conto sobre um tema antigo, que se pode ouvir nas margens do Danúbio, do rio azul...
Ao longo deste rio há uma floresta, velha e poderosa. Começa na própria margem e mergulha na profundidade das planícies; as ramagens prolongam-se por cima das ondas azuis e sonoras e as raízes nodosas e enrugadas deixam-se beijar e lavar pelas águas que acorrem à margem com um ruído suave e acariciador.
Na floresta viviam elfos, fadas e velhos gnomos, sábios, que tinham construído sob as raízes palácios onde meditavam acerca da vida e de todos os outros assuntos em que convém meditar para se ser sábio. À noite saíam para as margens sombrias e sentados em pedras recobertas por um macio musgo verde-escuro ou em velhos troncos abatidos pela tempestade, contemplavam as ondas que corriam para o mar, vindas de um longe incompreensível, tenso como uma cortina de trevas enevoadas, e prestavam atenção ao murmúrio do rio. "
com tradução de Egito Gonçalves e publicação da Quasi. Resolvi partilhar.
" As histórias que os homens contam são frequentemente tristes, não procuremos conhecer a razão deste facto e ouçamos antes uma delas, um conto sobre um tema antigo, que se pode ouvir nas margens do Danúbio, do rio azul...
Ao longo deste rio há uma floresta, velha e poderosa. Começa na própria margem e mergulha na profundidade das planícies; as ramagens prolongam-se por cima das ondas azuis e sonoras e as raízes nodosas e enrugadas deixam-se beijar e lavar pelas águas que acorrem à margem com um ruído suave e acariciador.
Na floresta viviam elfos, fadas e velhos gnomos, sábios, que tinham construído sob as raízes palácios onde meditavam acerca da vida e de todos os outros assuntos em que convém meditar para se ser sábio. À noite saíam para as margens sombrias e sentados em pedras recobertas por um macio musgo verde-escuro ou em velhos troncos abatidos pela tempestade, contemplavam as ondas que corriam para o mar, vindas de um longe incompreensível, tenso como uma cortina de trevas enevoadas, e prestavam atenção ao murmúrio do rio. "
terça-feira, 16 de junho de 2009
Palavras mínimas
De palavras mínimas assim é a poesia
largos sentidos, vastos mares, nuvens
raios solares a perder de vista.
Feitas de giras células em carapaças
químicas; sente-se o ruído de asas
em fim de ciclo, o ciclo da seda
casulos de borboletas cor de cera.
As palavras mínimas, as poesias
abrem de cuidados as dermes, soltam
o mais íntimo sentir do centro
que se espalha fluorescente
luz clara de corpos que cresce e sobe
em teia de tecidos, céu de vitrais
nos fios finos que unem as estrelas
ao núcleo de veste branca
musa de um mar de veludos.
Nas palavras mínimas dos poemas
não há o perigo fugaz dos líquidos
as asas são sólidas não de Ícaro.
largos sentidos, vastos mares, nuvens
raios solares a perder de vista.
Feitas de giras células em carapaças
químicas; sente-se o ruído de asas
em fim de ciclo, o ciclo da seda
casulos de borboletas cor de cera.
As palavras mínimas, as poesias
abrem de cuidados as dermes, soltam
o mais íntimo sentir do centro
que se espalha fluorescente
luz clara de corpos que cresce e sobe
em teia de tecidos, céu de vitrais
nos fios finos que unem as estrelas
ao núcleo de veste branca
musa de um mar de veludos.
Nas palavras mínimas dos poemas
não há o perigo fugaz dos líquidos
as asas são sólidas não de Ícaro.
Porque um dia voltaremos

Gostava de partilhar convosco um poema muito especial para mim. Aconteceu na última aula de Português de uma das minhas turmas de 10º Ano. Um poema da autoria de todos os alunos, tocados pela magia da palavra poética, neste último mês de aulas. Um texto que poetiza momentos do percurso escolar, deles e meu. Um texto cheio de reminiscências, minhas e deles. Um texto/poema que dá resposta a um dos desafios que lhes lancei - enquanto escrevemos, permanecemos...
Obrigada a eles por aceitarem o desafio, obrigada a vós por os receberem neste espaço dedicado à poesia e protegido pelos poetas...
Um dia cheguei
não sei bem como, ainda,
e permaneci.
sou escritor de mim.
enquanto escrevo
permaneço.
e houve um tempo em que escrevi
sob baloiços de outono,
passando pelos contos
até ao poema,
aquele que cresce na carne.
nas páginas de uma aula
aprendi a voar.
reencontramo-nos (intrinsecamente)
num abrir de asas.
Porque um dia voltaremos.
Alunos da Turma D/E, Colégio Luso-Francês
domingo, 14 de junho de 2009
Dedicatória a um amigo
Não queria o telefonema, o encontro.
Alguns minutos, como amigo.
Impossível recusar.
Sabia que a dor seria mútua
no previsto problema
adivinhava as paredes desfeitas
os estilhaços, as ruínas;
ninguém gosta das partes más
o inverter de horizontes
a gravidade ao contrário
que afoga na queda dos mares
e projecta a alma nua de agulhas
nas pontas das estrelas
quando se perdem as luas.
As verdades já não eram.
Um abraço
forte, apertado, sentido.
Falei dos jogos de ténis, das férias em Ibiza
das noites no fim das praias
do "rouge" das queimaduras
mas não querias, não era esse o motivo.
Disseste: "Senta-te como amigo."
Tentei de novo, tinha receio do fungo
o cogumelo anelar que crescia, colocava
a cabeça perto de nuvens densas.
Falei da origem de uma viagem a Elvas,
os comícios políticos, o comboio, outros amigos.
Tu nervoso, um sorriso ténue, por fim
o grito:"Não digas nada! Ouve-me!
Por um instante! Como amigo!"
Eu sabia
eu e a tua barba de três dias
por isso falava de um resto de outras vigas
férreos alicerces onde tinhamos nascido:
o mesmo bairro, a bola de trapos
o jogo da casquinha, as caricas
das águas do Cruzeiro (mais estáveis
nas curvas devido aos vazios.
Os sumos Cristalina, as gasosas
os bailes de aldeia, as fugas
nas cavas rochas,abrigos de pastores
e do calor, o calor imenso das lareiras
dos caldeirões de pernas metálicas, pretas.
Tu: "Como amigo!"
Pedi um Whiskie, baixei os olhos
na dança das pedras frias. Ouvi.
"Sabes a Isabel, o Matias, a Maria...
...comigo!"
E por aí fora, não era uma história nova
durava, parava, retorcia, aviltava
aqui um pouco mais de sal, ali escura
ou clara na expressão de um facto
o excesso de pimenta. Uma hora. Ouvi.
Como amigo. O balão esvaziava no rodopio
até ao nível de uma lágrima.
Silêncio. Silêncio. Silêncio.
As minhas palavras : "Tem calma!"
Nascia em mim outro desejo
um outro universo que consumia
emergente, a vontade, a mão no ombro
e o retorno aos anteriores lugares
não das derrotas modernas que doíam
mas sim das vitórias antigas
e das outras que viriam.
"Tem calma! Se hoje há chuva amanhã é dia!"
Não havia mais pedras na roda do copo.
Cessa o frio.Disseste:
"Sabes é bom ter um amigo!"
Alguns minutos, como amigo.
Impossível recusar.
Sabia que a dor seria mútua
no previsto problema
adivinhava as paredes desfeitas
os estilhaços, as ruínas;
ninguém gosta das partes más
o inverter de horizontes
a gravidade ao contrário
que afoga na queda dos mares
e projecta a alma nua de agulhas
nas pontas das estrelas
quando se perdem as luas.
As verdades já não eram.
Um abraço
forte, apertado, sentido.
Falei dos jogos de ténis, das férias em Ibiza
das noites no fim das praias
do "rouge" das queimaduras
mas não querias, não era esse o motivo.
Disseste: "Senta-te como amigo."
Tentei de novo, tinha receio do fungo
o cogumelo anelar que crescia, colocava
a cabeça perto de nuvens densas.
Falei da origem de uma viagem a Elvas,
os comícios políticos, o comboio, outros amigos.
Tu nervoso, um sorriso ténue, por fim
o grito:"Não digas nada! Ouve-me!
Por um instante! Como amigo!"
Eu sabia
eu e a tua barba de três dias
por isso falava de um resto de outras vigas
férreos alicerces onde tinhamos nascido:
o mesmo bairro, a bola de trapos
o jogo da casquinha, as caricas
das águas do Cruzeiro (mais estáveis
nas curvas devido aos vazios.
Os sumos Cristalina, as gasosas
os bailes de aldeia, as fugas
nas cavas rochas,abrigos de pastores
e do calor, o calor imenso das lareiras
dos caldeirões de pernas metálicas, pretas.
Tu: "Como amigo!"
Pedi um Whiskie, baixei os olhos
na dança das pedras frias. Ouvi.
"Sabes a Isabel, o Matias, a Maria...
...comigo!"
E por aí fora, não era uma história nova
durava, parava, retorcia, aviltava
aqui um pouco mais de sal, ali escura
ou clara na expressão de um facto
o excesso de pimenta. Uma hora. Ouvi.
Como amigo. O balão esvaziava no rodopio
até ao nível de uma lágrima.
Silêncio. Silêncio. Silêncio.
As minhas palavras : "Tem calma!"
Nascia em mim outro desejo
um outro universo que consumia
emergente, a vontade, a mão no ombro
e o retorno aos anteriores lugares
não das derrotas modernas que doíam
mas sim das vitórias antigas
e das outras que viriam.
"Tem calma! Se hoje há chuva amanhã é dia!"
Não havia mais pedras na roda do copo.
Cessa o frio.Disseste:
"Sabes é bom ter um amigo!"
À memória de Fernando Pessoa
Se eu pudesse fazer com que viesses
Todos os dias, como antigamente,
Falar-me nessa lúcida visão -
Estranha, sensualíssima, mordente;
Se eu pudesse contar-te e tu me ouvisses,
Meu pobre e grande e genial artista,
O que tem sido a vida - esta boémia
Coberta de farrapos e de estrelas,
Tristíssima, pedante, e contrafeita,
Desde que estes meus olhos numa névoa
De lágrimas te viram num caixão;
Se eu pudesse, Fernando, e tu me ouvisses,
Voltávamos à mesma: Tu, lá onde
Os astros e as divinas madrugadas
Noivam na luz eterna de um sorriso;
E eu, por aqui, vadio de descrença
Tirando o meu chapéu aos homens de juízo...
Isto por cá vai indo como dantes;
O mesmo arremelgado idiotismo
Nuns senhores que tu já conhecias
- Autênticos patifes bem falantes...
E a mesma intriga: as horas, os minutos,
As noites sempre iguais, os mesmos dias,
Tudo igual! Acordando e adormecendo
Na mesma cor, do mesmo lado, sempre
O mesmo ar e em tudo a mesma posição
De condenados, hirtos, a viver -
Sem estímulo, sem fé, sem convicção...
Poetas, escutai-me. Transformemos
A nossa natural angústia de pensar -
Num cântico de sonho!, e junto dele,
Do camarada raro que lembramos,
Fiquemos uns momentos a cantar!
António Botto
Poema de Cinza
As Canções de António Botto
Editorial Presença
1999
Todos os dias, como antigamente,
Falar-me nessa lúcida visão -
Estranha, sensualíssima, mordente;
Se eu pudesse contar-te e tu me ouvisses,
Meu pobre e grande e genial artista,
O que tem sido a vida - esta boémia
Coberta de farrapos e de estrelas,
Tristíssima, pedante, e contrafeita,
Desde que estes meus olhos numa névoa
De lágrimas te viram num caixão;
Se eu pudesse, Fernando, e tu me ouvisses,
Voltávamos à mesma: Tu, lá onde
Os astros e as divinas madrugadas
Noivam na luz eterna de um sorriso;
E eu, por aqui, vadio de descrença
Tirando o meu chapéu aos homens de juízo...
Isto por cá vai indo como dantes;
O mesmo arremelgado idiotismo
Nuns senhores que tu já conhecias
- Autênticos patifes bem falantes...
E a mesma intriga: as horas, os minutos,
As noites sempre iguais, os mesmos dias,
Tudo igual! Acordando e adormecendo
Na mesma cor, do mesmo lado, sempre
O mesmo ar e em tudo a mesma posição
De condenados, hirtos, a viver -
Sem estímulo, sem fé, sem convicção...
Poetas, escutai-me. Transformemos
A nossa natural angústia de pensar -
Num cântico de sonho!, e junto dele,
Do camarada raro que lembramos,
Fiquemos uns momentos a cantar!
António Botto
Poema de Cinza
As Canções de António Botto
Editorial Presença
1999
sábado, 13 de junho de 2009
Sempre a luz
Porque murcham as flores
e os verdes do jardim?
Será do Sol de brasa
da noite, da Lua
da água mole
da pedra dura?
Logo passa
logo volta a andorinha
a estação e o jardim.
Na nossa mãe natureza
só há meios
nunca fim.
Nem sempre o dia se levanta
de amarelos vestido
nem sempre as nuvens
nem sempre o frio.
Sempre existe mudança
a lonjura que aproxima
a seguir à noite escura
sempre a luz
de um novo dia.
e os verdes do jardim?
Será do Sol de brasa
da noite, da Lua
da água mole
da pedra dura?
Logo passa
logo volta a andorinha
a estação e o jardim.
Na nossa mãe natureza
só há meios
nunca fim.
Nem sempre o dia se levanta
de amarelos vestido
nem sempre as nuvens
nem sempre o frio.
Sempre existe mudança
a lonjura que aproxima
a seguir à noite escura
sempre a luz
de um novo dia.
Sou de vidro
Meus amigos sou de vidro
Sou de vidro escurecido
Encubro a luz que me habita
Não por ser feia ou bonita
Mas por ter assim nascido
Sou de vidro escurecido
Mas por ter assim nascido
Não me atinjam não me toquem
Meus amigos sou de vidro
Sou de vidro escurecido
Tenho fumo por vestido
E um cinto de escuridão
Mas trago a transparência
Envolvida no que digo
Meus amigos sou de vidro
Por isso não me maltratem
Não me quebrem não me partam
Sou de vidro escurecido
Tenho fumo por vestido
Mas por assim ter nascido
Não por ser feia ou bonita
Envolvida no que digo
Encubro a luz que me habita
Vale a pena ouvir este poema na voz de Clara Ghimel "Entre mares"
Sou de vidro escurecido
Encubro a luz que me habita
Não por ser feia ou bonita
Mas por ter assim nascido
Sou de vidro escurecido
Mas por ter assim nascido
Não me atinjam não me toquem
Meus amigos sou de vidro
Sou de vidro escurecido
Tenho fumo por vestido
E um cinto de escuridão
Mas trago a transparência
Envolvida no que digo
Meus amigos sou de vidro
Por isso não me maltratem
Não me quebrem não me partam
Sou de vidro escurecido
Tenho fumo por vestido
Mas por assim ter nascido
Não por ser feia ou bonita
Envolvida no que digo
Encubro a luz que me habita
Vale a pena ouvir este poema na voz de Clara Ghimel "Entre mares"
sexta-feira, 12 de junho de 2009
quinta-feira, 11 de junho de 2009
Encontro-te
Encontro-te sempre no sítio certo;
na galeria de arte, no bazar antigo
na fila do teatro, no grupo animado
de um bar novo.
Costuma ser ao sábado
cruzamos o olhar,sabemos o sorriso
onde se apaga o lápis dos versos
e sobresssai a tinta permanente
do desejo ... a noite longa.
De frente vejo o grande aquário
um mundo pequeno: uma praia, duas luas
as estrelas, o mar suspenso
e dois corpos sem toalhas
vestidos de águas breves
(h)ora descendo num balanço
(h)ora subindo em desafio
ao sal mais salgado dos lábios
infindável beijo.
As mãos acenam e os teus olhos levam
o meu sonho dentro deles
esvoaçam as doces ancas, os cabelos
as marés dos teus seios
e os meus receios de que não chegue
o dia das cerejas, das certezas;
essa barca dos perfumes
que me leve com eles.
na galeria de arte, no bazar antigo
na fila do teatro, no grupo animado
de um bar novo.
Costuma ser ao sábado
cruzamos o olhar,sabemos o sorriso
onde se apaga o lápis dos versos
e sobresssai a tinta permanente
do desejo ... a noite longa.
De frente vejo o grande aquário
um mundo pequeno: uma praia, duas luas
as estrelas, o mar suspenso
e dois corpos sem toalhas
vestidos de águas breves
(h)ora descendo num balanço
(h)ora subindo em desafio
ao sal mais salgado dos lábios
infindável beijo.
As mãos acenam e os teus olhos levam
o meu sonho dentro deles
esvoaçam as doces ancas, os cabelos
as marés dos teus seios
e os meus receios de que não chegue
o dia das cerejas, das certezas;
essa barca dos perfumes
que me leve com eles.
quarta-feira, 10 de junho de 2009
Dia de Portugal
Metáfora malvada
Ao acordar a chuva intensa em telhado de zinco
falso granizo, berlindes metálicos de ruído.
Nos olhos líquidos um céu claro, claro de cio
húmido e branco escorrendo rios no azul cinzento
céu sem chama e o sol assim tão pouco
a luz insuficiente.
As ideias secas e a impressão que devia pousar a caneta:
"Hoje não! Hoje não escrevo!"
A chata tinta obrigando as lentes, os olhos
os dedos obrigando sempre o correr das letras:
metáfora, a nova metáfora, que ninguém conheça:
"Onde estás?Metáfora malvada!"
Ânsia e sede de uma gota mágica, gota metáfora:
"Onde estás?Metáfora malvada!"
Crina esvoaçante de uma estátua de pedra
que fluída expanda as células vivas
levante os cascos dos sentidos
leia o vento dos segredos nas narinas
o prazer frémito de cavalo de corrida!
"Onde estás?
Metáfora, metáfora, metáfora malvada!"
falso granizo, berlindes metálicos de ruído.
Nos olhos líquidos um céu claro, claro de cio
húmido e branco escorrendo rios no azul cinzento
céu sem chama e o sol assim tão pouco
a luz insuficiente.
As ideias secas e a impressão que devia pousar a caneta:
"Hoje não! Hoje não escrevo!"
A chata tinta obrigando as lentes, os olhos
os dedos obrigando sempre o correr das letras:
metáfora, a nova metáfora, que ninguém conheça:
"Onde estás?Metáfora malvada!"
Ânsia e sede de uma gota mágica, gota metáfora:
"Onde estás?Metáfora malvada!"
Crina esvoaçante de uma estátua de pedra
que fluída expanda as células vivas
levante os cascos dos sentidos
leia o vento dos segredos nas narinas
o prazer frémito de cavalo de corrida!
"Onde estás?
Metáfora, metáfora, metáfora malvada!"
terça-feira, 9 de junho de 2009
Pérolas
São como pérolas
no fundo do meu mar
oceano de brilhos
janelas de vida
poesia de gestos
o teu olhar.
Levantas leves as meninas
as pupilas do desejo;
desce uma nuvem do céu
nos ampara e eleva
acima ao Sol
onde se solta a luz...
nasce o sonho!
no fundo do meu mar
oceano de brilhos
janelas de vida
poesia de gestos
o teu olhar.
Levantas leves as meninas
as pupilas do desejo;
desce uma nuvem do céu
nos ampara e eleva
acima ao Sol
onde se solta a luz...
nasce o sonho!
segunda-feira, 8 de junho de 2009
Pedro de Santarém
Querida
rapariga
primitiva
que eu sou
fui
e hei-de ser
Minha
querida
rapariga
para ti
os girassóis
são giros
e giram
e é o amor
que move
o Sol
que move
o girassol
E
é o girassol
que move
o Sol
Querida
rapariga
imperativa:
gira, Sol
gira, girassol
E
Deus
é
o girassol"
rapariga
primitiva
que eu sou
fui
e hei-de ser
Minha
querida
rapariga
para ti
os girassóis
são giros
e giram
e é o amor
que move
o Sol
que move
o girassol
E
é o girassol
que move
o Sol
Querida
rapariga
imperativa:
gira, Sol
gira, girassol
E
Deus
é
o girassol"
Retrato de uma cena alguns anos atrás
Ali de tridente
frases de encanto
inverdades de efeito letal.
Porque vejo lianas
piruetas de troncos
gritos surdos de Jane?
Porque só eu ouço
de rosto fixo e alma traçada?
Porquê o ridículo gesto do chapéu
esgar cínico olhar de Bogart?
Saímos juntos na noite fria
ainda de mão dada
estranha liberdade.
Comentários banais
circunstância esquecida
invenção de véspera
contagem final
do dia que termina.
frases de encanto
inverdades de efeito letal.
Porque vejo lianas
piruetas de troncos
gritos surdos de Jane?
Porque só eu ouço
de rosto fixo e alma traçada?
Porquê o ridículo gesto do chapéu
esgar cínico olhar de Bogart?
Saímos juntos na noite fria
ainda de mão dada
estranha liberdade.
Comentários banais
circunstância esquecida
invenção de véspera
contagem final
do dia que termina.
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