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terça-feira, 28 de outubro de 2008

Arco-íris cristal de velas acesas

Podias ser tu a bater hoje
não o granizado na cúpula de ferro
branca melodia em pausas rítmicas.
podia ser o som leve de nós de dedos
ecoando pela sala, amortecendo no tapete
cor tela lã de Arraiolos no leve rufo
de tambor, reciclando as notícias tolas,
de gente tola em vidas tolas...
e de uma só vez despisse a noite toda,
te trouxesse toda à minha porta tola!

Saltaria do sofá, acrobacia de mola,
esquecido dos minutos vagos,
escoando metros largos,
no desejo insano de um trinco que
se abre, uma aresta que aparta e
desvenda a silhueta, o riso aberto,
puro realce transparente,
arco-íris cristal de velas acesas,
candelabro arte nova de gente
nos passos ténues de encosto de lados,
de faces, de lábios, saciando
os húmidos sonhos de vãs intensidades!

Podias ser tu do outro lado
mas não eras... nem tu nem nada...
para lá da porta, o silêncio...
e... só agora reparo um bago de uva
caído do cesto da vizinha
junto à porta
e quanto ao ruído surdo
era o trinco da outra que fechava!

bilhete

quero outra vez desculpar-me. esqueço que os preliminares devem durar todas as horas de todos os dias. não é que não te tenha carinho. só não sei como to hei-de entregar. a tensão faz-me cobrar-te aquilo que não devo. sempre foste o melhor desta minha vida confusa e cinzenta e preciso de sentir que ainda me pertences. quero sentir-me em controlo, segurança, em paz. quero ser quem mereces. a maior parte dos dias sinto apenas cansaço, desencanto, abandono. não desisti mas já não tenho expectativas. já reparaste que nos transformámos em lugares comuns? não tem importância. continuo a amar-te como antes. talvez não como antes, mas tu és ainda a minha verdadeira casa. logo chego tarde. janta e não esperes por mim.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Aqui fica o texto do 4º Trabalho de casa, expurgado de estereótipos

Porto, 21 de Outubro de 2008
Olá! Boa noite!

A minha gratidão pela confiança que em mim depositaste: abriste-me os alçapões da tua alma e entreabriste-me o universo das tuas preocupações.
Não sei se alguma vez pensaste nisto, mas eu julgo que a partilha harmoniosa dos corpos depende, essencialmente, do verdadeiro amor mútuo. Quando há, no nosso quotidiano, a necessidade de não facultar ao outro as ilhas da nossa alma, isso pode significar o crescimento da distância entre os que se amam. É verdade que o tempo inscreve nas almas dos amantes a cor da monotonia e as suas resistências. E que, se se não estiver atento, provoca erosão nos sentimentos como o vento sibilino nas rochas mais duras. O tempo não é, todavia, o maior carrasco do amor e das relações interpessoais. As pessoas escondem debaixo do amor incompreensões e egoísmos que não sabem controlar. E vivem atormentadas e atormentam os que amam, porque não conseguem superar esses pequenos nadas que se vão agigantando, dia após dia, a infernizar a sua vida e a dos outros. Com o medo de perderem a partilha, engavinham-se no outro e não o deixam respirar em plena liberdade. Sufocado, o outro começa a criar a distância, e o silêncio cresce. E, ao amor, as palavras são importantes! A linguagem não transparece o amor na sua essencialidade, mas está lá, bem no seu interior: nos gestos, no olhar, nas mãos, nos lábios, nos corpos acesos, linguagens que dizem, tacitamente, os sentimentos mais profundos e os mais humanos.
As mulheres entendem o amor como uma contínua paixão. Não o compreendem senão como constante ardor do corpo e da alma. Não entendem que a paixão seja efémera devido à sua intensidade e ao desgaste que provoca. A paixão não conhece as fronteiras do tempo. A paixão confunde o dia e a noite. Não é má, a paixão! A paixão é boa. Mas não há espírito nem corpo que comporte a paixão ao longo de toda a vida. A paixão oferece-nos a morte múltipla, muitas vezes. A paixão não dá espaço para viver, sossegadamente. O sossego e a calma são-nos oferecidos pelo amor. Porque o amor é a paz. E os homens precisam de paz interior para uma relação estável, para a placidez do espírito. O amor contém dentro de si a vida, o companheirismo, a fraternidade, a partilha autêntica e desinteressada. O calor dos corpos é tão-só um complemento desse estado de partilha mútua, que possibilita o entrelaçamento do espírito e do corpo, para um crescimento sereno do par amoroso.
Às vezes, os homens esquecem-se também da paixão por dentro do amor. E correm desenfreadamente por outras paixões, efémeras, que, dizem, não interferem no amor que partilham. Esse, crêem, foi o escolhido e, por isso, eterniza-se por ele mesmo, não precisa de ser alimentado. Mas a paixão corrompe o amor e estilhaça o bem-estar, a serenidade que a vivência do amor exige constantemente. O amor precisa de todo o espaço espiritual dos amantes. Exige deles uma verdadeira partilha exclusiva.
Eu sei que não foi toda esta filosofia que me pediste. Mas, se calhar, eu não sou capaz de responder concretamente às tuas angústias e às tuas preocupações. O amor é como o respirar: cada um tem de saber dedilhá-lo à sua maneira. A vida depende de ambos. Por isso, cada um tem de encontrar as soluções que melhor se adaptem ao seu caso concreto. O médico não cura ninguém. Propõe caminhos que o paciente percorrerá ou não. A cura está sempre dentro de nós. O teu caso exige uma grande reflexão a dois. A harmonia tem de surgir de vós mesmos. Se não forem capazes dessa harmonia, não valerá a pena caminharem para o caos relacional. É bem melhor que cada um de vós saiba encontrar a sua harmonia, mesmo que implique a separação e a busca subsequente da harmonia individual.
Tenho a certeza de que encontrarás a melhor das soluções. Deixo-te um solidário abraço de muita amizade, e fico à tua inteira disposição.

(José Almeida da Silva)

domingo, 26 de outubro de 2008

Macho


fotófrafo: Hans Neleman

Quando te descrevo
Envolvo-me no aroma que me deixas
Fica a memória da tua posse de macho
Que me invade sem pressa, que me consome
Explorando a minha nossa profundidade.


filinta