quinta-feira, 19 de abril de 2012

a carta que te escrevo ( VI )



Escrevo-te esta carta para que a guardes
sem pressa, para que a mantenhas na mão e que a recomeces
como um umbrella, uma pequena protecção
um afecto, neste dia em que a chuva foi farta e o céu não acontece.
vou-te contar, começa assim:

a noite correu como um carro avariado no meio de uma auto-estrada
ninguém parou. As forças caíram-me dos braços e não surgiram os versos.
quando acordei tinham partido todos os autocarros, andei e andei.
três horas de sono e havia uma música de tambor em cima da cabeça
uma festa popular, uma batuta engasgada, uma nota só, pom, pom, pom –

mas bem sabes da minha natureza, a impossibilidade de uma zanga
um sorriso na adversidade, ensinado pelo tempo e pela existência de um sol.
refugiei-me numa tarde de quatro passos, desencontrados e em gargalhadas
brincando com as folhas bem dispostas, dando voltas num lampião –

lembras-te daquele senhor de boina verde, improvável como um meteorito de Londres
falava sozinho com os seus botões e tomava notas apressadas numa sebenta
com todas as letras em diagonal; uma distância rítmica de 30 cm e um certo balanço
o levantar da cabeça como se os prédios ou as nuvens ou o céu , fossem livros abertos
e as paredes páginas impressas de iluminações –

a distracção foi o tal attimo que te prendeu dentro dos meus braços
e foi assim porque queríamos, porque o senhor da boina verde, se existiu
foi para que existisse do mesmo modo a dança das tuas mãos
as ruas menos pálidas e aquele fogo parado a consumir-nos olhos
a juntar, uma, duas, três, três vezes os lábios –

mas escrevo-te, e ao escrever é como se pousasse de novo um gato nos meus ombros
subisse escadas como um papagaio e no fim esperasse pelo colo ou o sol, um raio de sol –

os teus cabelos, lembrei-me agora, como os tens hoje?
e a roupa, uma gabardine, um carapuço privilegiado na sombra do teu rosto?
e os sapatos, baixos, naquela forma delicada que descobre o pé ou antes uma meia-bota
acima do tornozelo, larga, ou mesmo uma sapatilha das que afastam a água
e confortam o pé, preparando uma corrida, um esconderijo de uma porta
quando a chuva aperta e em mil gotas se desfaz por todas as ruas desertas –

os parágrafos longos de letras e as ideias a escorrerem como uma torneira aberta
quando penso no teu colo a adormecer-me estes nervos aqui dentro
que me consomem, e com as mãos tapando-me as orelhas e os medos
na ternura de tornar quietos estes cabelos estremunhados pelas marcas da almofada –

és uma fada, bem sabes, uma fada única de milagres, nesta era do vazio, da desordem
da falta de oásis –
és uma fada, não cesses nunca a sedução, aquele lugar escrito no alto do inverno
sobrevivente, deslizante e forte como um vulcão, no alto do inverno
do descontentamento, da chuva que permanece mas não vence, não –

desculpa-me, fada, fada grande, fada boa e fada certa para ser mágica.
canso-te de novo, egoísta como um ovo, quando o que queria era ser-te onda
uma wave de som afagando o teu cabelo; colocar e tirar e colocar de novo
uma dália, uma dália branca, e pôr e retirar e guardar, e num jogo
de novo voar sobre o teu olhar para colocar de novo, a dália
a dália branca, para tirar e pôr de novo –

não estou ao teu lado e escrevo-te, mas vejo-te sorrir
e quando a roda dos teus olhos ganham uma ruga feliz, fico de cristal
tão sensível como um néctar de muitos anos, único,
feliz para as tempestades para os raios e para todos os males.
vejo-te sorrir –

descansa pois com os teus anjos fundamentais e sonha muito
sonha com uma seda de hermés ou um camisa longa de algodão
ou com a troca de uma t-shirt minha que te cubra e descubra
um pouco abaixo do umbigo num jogo de sedução
um storytelling, uma narrativa sussurrada ,sem sonos, de mãos nas mãos –

e não paro, desculpa, shhhh…, shhh…, para mim, para que descanses
e para que os teus olhos em Rem se movimentem com dream-on
a sonhar com um campo e flores e amoras e árvores de bolotas
com carapuças castanhas, ou mesmo romãs, que são vermelhas –

sonha muito, movimenta os olhos dentro das pálpebras como se fosse uma massagem
vou fazer o mesmo e quem sabe encontramo-nos no lado esquerdo, a mesma margem
ao mesmo tempo, no suspiro certo –

dorme, descansa, beijo-te muito –

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Se ... - um poema de Ana Luísa Amaral




IV

Se tudo fosse só êxtase súbito,
o papel intocável e intacto,
como o meu espaço e tu entrando devagar,
as portas que te abri
abrindo para a luz

Se tudo fosse só papel de prendas,
laços e colorido,
a festa do meu espaço
- e de ti no meu espaço -
as coisas consonantes

Ana Luísa Amaral "Entre dois rios e outras noites", Campo de Letras, 2007

terça-feira, 17 de abril de 2012

Poesia

Com palavras no olhar
O poema lava o rosto
Contempla-se ao espelho
Vê rimas imperfeitas
Rugas pequenas de vida
Os olhos brilham de versos
Face ao reflexo de si
O poema interroga-se, procura
Dança no seu ritmo
Suspira nos silêncios
O poema está cansado
Todo ele é sono e sonho
Fala alto, decide cantar
O poema ri
Ri-se da sua dor
Olha a sua forma em mutação
Abraça o tempo que pára
E ecoa nos livros do tempo
Como uma eterna canção.

a carta que te escrevo (V)




escrevo-te esta carta para que a guardes
agora mesmo, que a respires no momento
como a essência de um aroma, um aroma azul
de lábios lentos percorrendo a testa.
vou contar-te, começa assim:

reparaste no vento invasor pelas primeiras horas do dia?
saí descalço, com o impulso de uma alma célere.
encontrei olhos desconhecidos e ruídos de carros,
solavancos nos passeios da avenida como se fossem margens
e rios secos invadidos de barcos estranhos
na chiadeira das borrachas –

o sol brilhava e desta forma abundavam os óculos escuros.
saí descalço, com a alma à mostra na melancolia do rosto
e o vento invasor a percorrer-me os bolsos
a descobrir as palavras amarrotadas, os poemas por dizer –

um dia gostaste de um que falava do algodão doce de uma feira de aldeia
uma outra vez de uma mota parada na porta de uma porta que se abre
uma noite gostaste de um sonho de ser peixe num meio de um aquário
uma outra de um rio silencioso, nocturno, de ouvidos de água,
para que todos os peixes saibam –

um dia falámos de livros por ler e escrever num cimo de um monte
olhando clareiras e gatos de cauda oscilante no ronronar de ralos de searas
um dia falámos de olhos na frente dos olhos sem nos tocarmos,
uma outra encostámos os rostos como se fôssemos duas luas que se encontravam,
com os lábios órfãos acendendo a noite, uma noite nos jardins do Palácio
subindo às árvores, imitando os pássaros –

um dia sonhámos nos olhares cruzados e os pés recuavam
naquela forma impossível de se encontrarem;

intermezzo, intervalo, um picollo espaço, um attimo
é assim que nos vejo no meio das palavras
suspensos no medo das verdades. linhas, linhas, somos linhas
linhas muito finas escorregando sobre o peso de chumbos
escorregando do alto dos rochedos para se esconderem no fundo mar –

poderão as algas unir-nos? reencontrar-nos? levar-nos ainda vestidos
para um deserto de uma praia, num universo de braços
para que as roupas se percam, náufragas, sem a preocupação do útil
e do sem sentido, em alguns minutos de eternidade?
ou então para sempre, depois dos primeiros passos
porque duvido dos sonetos da separação, há músicas que nos abrem
teclas de pianos que batem nas cordas
incessantes, como as cartas e os versos que te escrevo –

desculpa, sei que te cansas, que te aborreces destas lavas rápidas
demasiado líquidas, que vês improváveis, sem marcas sólidas, sem pés de estrada –

a noite seria de olhos sempre abertos se te soubesse triste -

se te cansas
deixa cair as pálpebras com estas palavras vulgares de alguém que te ama
– e é uma palavra tão pesada,
uma brasa e uma chama, a palavra que se junta numa outra palavra,
de tudo ou nada, esta de quem ama –


se te cansas
diz-me, sem qualquer receio, como um sussurro de ar que passa por um limoeiro: calaaa-te…
deixaaa-me dooormir … com o meu anjo da guaaarda….

escrevo-te esta carta para que a guardes
mas se o desejas, rasga-a em mil pedaços, em bocados de farinha, um pó que colapse
serei um silêncio parado sobre a tua alma,
inconhecível como uma lira suave, uma canção de embalar
um rosto de mãe se assim quiseres
para que adormeças sob o brilho de diademas
no maior dos sossegos
e em paz –

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Metade do Mundo - um poema de Leonard Cohen




Todas as noites ela vinha ter comigo
Eu cozinhava para ela, servia-lhe chá
Ela tinha trinta e tal naquela altura
conseguira fazer algum dinheiro, vivera com homens
Deitávamo-nos para dar e receber
debaixo do mosquiteiro branco
E uma vez que nenhuma contagem começara
vivíamos mil anos num só
As velas ardiam, a lua descia
a colina polida, a cidade leitosa
transparente, sem peso, luminosa,
destapando-nos aos dois
naquele chão fundamental,
onde o amor é fortuito, desatado, desencarcerado
e do mundo perfeito se acha metade.

Leonard Cohen "O Livro do Desejo"

domingo, 15 de abril de 2012

o barco de vela vermelha




procurei um poema que pousasse certo na hora longa
na noite aberta que roda lenta como um relógio de pêndulo
num tica-tac de batimento por dentro do corpo –

não surgiu um espelho de letras e as costas cansadas ligaram-se nos dedos
uma frase, uma frase de um filme : “tenho para ti uma surpresa
sempre quiseste um barco de vela vermelha” –

era um barco pequeno de princípio de séc. como as fotografias de Doisneau
mas a cor naquelas velas altas
corria as águas e dirigia-se para o mar.

no interior do barco, dois vultos num espaço desenhado, exacto
deitados frente a frente e de lado. Os olhos supunham-se ligados
na hipnose e no silêncio, sem pressa, não diziam nada
davam braços, ela de vestido de rendas ele de camisa branca.
a câmara de plano picado seguia a cena
a cena de um barco de vela vermelha que vogava–

tenho as ideias pesadas e há palavras que guardo, uma ideia
uma ideia minha, de uma medida sem contraditório
por vezes um vislumbre, uma brisa e sinais
sinais no interior das estrelas e nas madrugadas quando se afastam
como um novelo nas almofadas das patas dos gatos, que se desenrola –

há palavras pesadas que caem por dentro
tão por dentro que por vezes julgo que caem num poço fundo, tão fundo de uma terra
e que tem iluminações de magma, a incandescência
um rebuliço de brasas –

apercebeste a hora do lince, dos sonhos e das quimeras
o debater da cegonha que tem um bico grande
o peso do elefante, a suavidade das passadas felinas –

cada um entende à luz do seu segredo as mãos nos cabelos
no rosto, no corpo, no meio de uma praça
na cinta e no ombro no meio de uma dança
um segredo que não tem chave e vive num cofre
um cofre que ninguém abre
como a explicação de ser aquele o dia da gravidade na maçã de Eva
ou o poder da impulsão em Arquimedes –

as madeiras de verniz brilhante sulcam as águas
os corpos permanecem deitados
em frente e de lado
a brisa e o vento embalam –

ouve-se a frase
“tenho para ti uma surpresa
sempre quiseste ter um barco de vela vermelha”
o barco segue com suavidade
a brisa e o vento embalam –

estou cansado como um girassol, branco como uma magnólia
os ombros são um guindaste no limite da noite
não adormeço mas doem-me os olhos –

a bicicleta deve ter um cadeado
deve estar presa a uma coluna na garagem
e chove, chove um pouco, dez graus de temperatura
não quero música
penso no barco –

sábado, 14 de abril de 2012

le velo du Printemps


Robert Doisneau "le velo du Printemps", 1948

a fotografia de um par, de tonalidades e não de cor
completa-se no olhar
escreve-se de símbolos na presença da velo
e lembra a mais antiga e mais conhecida de Doisneau –

seria muito opressivo se fosse directo e sem delicadeza, falar-te dela
a objectiva sobre o beijo no fim da guerra
falo antes da bicicleta e de um lugar muito diferente
nem sequer Paris, nem sequer o jardim das Tulherias
nem sequer Versalhes e uma Fête de Nuit com trajes de época –

o lugar pouco interessa; as pedras, as casas sem graça
um muro de argamassa, o presumível zinco de uma chapa –

apenas o sorriso marca, a mão apoiada na terra
o modelo de linhas e quadrados
o paralelismo de duas almas –

nos termos de um especialista, a fotografia
une características de gelatina e prata
uma probabilidade de morangos e de brilhos brancos
de espelhos e de mil palavras –

surpreende acreditarmos tanto na consequência e na continuidade
a transição de um primeiro passo –

naquele sorriso que marca
a falta de gesto e o encontro dos braços
é uma onda atrasada
na mão fechada
na vasta possibilidade –

a velo um símbolo
sabe tudo mas não diz nada –

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Quando o infinito não tem tempo

Onde o tempo se esconde nascem ondas
Que tecem segredos e memórias lentas
Não há pessoas na dobra dos poemas
Apenas luzes escondidas à espreita
Como amantes nos dilemas doces do amor.

Um outro espaço de saudade
(há nas horas a pressa da vida)

Nos poemas o tempo baloiça
Colhe flores e escreve cartas
(há um outro tempo na beleza)
o tempo da luz original
a aura acesa na escura folha branca
(há falta de tempo e de espaço na vida)
(nos poemas não).

Há luz transparente
Feita de sonhos e risos de crianças
Brilhante na escuridão do olhar
À espera do desdobrar dos versos em danças
Num leve berço de embalar.

a carta que te escrevo (IV)




escrevo-te esta carta para que a guardes
dobrada no meio de um livro
a servir de marca, página quatro.
vou-te contar, começa assim:

sento-me sempre perto de ti
mesmo que imagine a decisão dos cabelos
a forma como se enfeitam ;
se se colocam de um e de outro lado dos ombros, em trança
ou se se misturam na desordem dos dedos
na moldura do rosto
no sorriso de um beijo –

os teus cabelos são uma presença
como se corrêssemos pelas veredas e encontrássemos amoras
como se as colhêssemos maduras e as trocássemos uma a uma nos lábios
como se não tivéssemos braços, apenas asas, como os pássaros –

os pássaros e o canto com os pés segurando os ramos
a impaciência e o voo
e seríamos do mesmo tamanho, por dentro
na presença de um ninho –

uma presença, enquanto insisto no desenho das letras
na tinta permanente, na chuva miudinha
na bicicleta, pedalando contra o vento
descendo uma estrada larga, uma Boavista
de bicicleta em vez de um eléctrico amarelo
onde se estica um cordel
e se faz soar a campainha –

como se pode parar o som, a voz de um búzio que não tem garganta
e que apenas sabe que o mar invade e existe num tamanho grande
que nunca acaba e sempre canta, a canção das ondas e da semelhança ?
como se pode parar o mundo? pensaste como seria?
Noite noite, dia dia –

não seria importante se náufragos numa ilha
se construíssemos uma casa numa árvore
se conseguíssemos partir os côcos e enrolássemos folhas
para servir de palhinha
não seria importante, não, não seria importante
se tivéssemos um iate de troncos para visitar a ilha
se tivéssemos uma viola ou um ukelelê para vibrar as cordas
em músicas construídas por noites noites ou dias dias –

e os livros seriam as pedras definitivas ou um chão de terra
em traços provisórios de poemas ou cartas sentidas
e inventaríamos um jogo
30 hectares de mensagens para serem vistas pelos aviões:
estamos assim bem, os dois –

um dia sonhei com um banho de espuma no cimo de uma colina
uma vista sem cimentos, tábuas ou gente
sem os linhos da camisa sem o aperto de botões
a espalhar um sabão de tangerina e a soprar balões –

um dia sonhei com um panamá e um chapéu largo de fita
um dia sonhei com a aquele banco corrido de pinho
um dia sonhei com uma parede de azulejos azuis
um prato típico de cerâmica com um pão estaladiço de trigo
e aquele barro estreito onde se assa uma alheira ou um chouriço
e se acompanha com um copo de vinho –
um dia sonhei que saías e que voltavas sempre como agora
quando sempre me sento contigo –

estrelas e estrelas
não decido quais as constelações que melhor cintilam
quais a que melhor são capazes de te sossegar os ouvidos
massajar as maçãs rosadas do teu sono
amaciar os teus medos, acertar o teu ritmo -

talvez um aroma
um aroma de uma flor nocturna
o aroma de uma flor pequena
o aroma de um sonho por um campo de relva fresca
por uma seara ainda verde, ou de nardos no Alentejo
ou prímulas como há muito tempo, crescendo, tornando-se diferentes –

dorme, dorme com os anjos afastando os pedaços de vento que por vezes ardem
dorme com os olhos fechados e os seios envolvidos no meu peito
dorme de lado ou de frente no silêncio puro de um lago
dorme no silêncio mais perfeito –

sabes ,quando me deito, por vezes com os olhos cansados
e as mãos ainda sujas de alguma tinta, deito-me
da mesma forma como me sento, sempre –

e escrevo-te –

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Tempo em suspensão

É cedo para renascer
Há vontades e desejos contrafeitos
Sonhos apertados nas paredes
Beijos pendurados no ar.

É cedo para voar
O tempo parado aguarda a manhã
O colo da mãe redesenha-se
Os braços são berços de embalo.

É cedo para partir
Há calor nos espaços vazios
O ar é visível e as pontes móveis
As casas movem-se incertas com o vento.

É cedo para amar
Uma liberdade desconhecida
A que se conquista
Na doce dança dos olhares.

É cedo para falar
As palavras não dizem, escondem apenas
Nos muros guardam-se os medos cimentados
Segredos a desflorar na mente
É cedo para os contar
Agora que é tarde para apagar a lenta sombra da desilusão.

a carta que te escrevo ( III )


Matisse

escrevo-te esta carta para que a guardes
é a terceira e espero que nunca pare.
vou-te contar começa assim:

é curioso, hoje fechei o guarda-chuva para receber as águas
no rosto
gotas que caíam sem ser de orvalho, mornas, como se presas pelo sol
do outro lado das nuvens –

possuído pelo íman de uma estranha abstracção
escutava os ruídos contínuos nas calçadas
e pensava na forma exacta de vencer a tempestade:

"bem sei que as nuvens estão cinzentas e não faz sentido recebê-las soltas
as gotas, marcando um casaco largo carregado de letras
pedaços de versos, incompletos, fragmentos de futuros poemas –

não são doces estas gotas que o céu expulsa
e sinto o sabor de sal, e sinto como caem grossas
incompreendidas como se fossem falsas –

com a água e os papeis molhados, os bolsos estão pesados
e esse peso faz pesar a alma;
por um momento estes cimentos da cidade parecem lama e os pés afundam-se
como se tivessem toneladas de chumbo, parados – "

imagina o ridículo: um guarda-chuva grande de mulher, não tinha outro:
uma franja bege, um corpo bordeaux , como uma bengala de Charlot;
a inclinação do dorso, o cabelo líquido
e a chuva caindo, vinda de cima, de uma fúria imprevista –

imagina o ridículo, as pessoas que passavam diziam, deve ser promessa
ou então será louco e não parece, tem os olhos fechados –

sabes, tinha esquecido o facto de usar aquela tinta antiga, um azul destoado
uma tinta que engrossava e difusa escondia as palavras, as datas, os primeiros dias –

na sombra de uma varanda, do lado de fora de uma janela
abri com cuidado os quatro cantos dos quadrados, de guardanapos
folhas de linhas e folhas brancas, cuidadosamente
esperei que secassem –

os fragmentos vivos das letras pulsavam vermelhas
em batimentos cardíacos, um ritmo contínuo nas artérias
um sorriso nas orelhas, como se debaixo da mesma varanda
estivesse um lençol nocturno, uma fuga de um palácio
e nos teus olhos de princesa morasse o mundo –

escrevo-te esta carta com toda a força dos braços
com os cantos dos lábios crescidos e salientes
com o rosto iluminado
e desejo que todas as estrelas estejam a teu lado
cintilantes, para que adormeças e feches as pálpebras
na febre de um sonho sem pecados e um sono verde
de trevos de quatro lados –

terça-feira, 10 de abril de 2012

os pássaros estão calados, não falaram esta tarde


Zhu YiYong

na descida da serra soa a compasso, uma campainha
na cabeça oca, não muito longe, na porta de uma rua.
um som metálico no vidro que inclina a paisagem, uma tontura –

as giestas estão cobertas de flores amarelas
resistem no meio das pedras,em muito pouca terra mas de boas raízes
e os pássaros estão calados, não falaram esta tarde.
o lilás das urzes mais forte que as glicínias
lembra de novo o teu rosto, os olhos e o brilho
como um poema essencial, uma música
a previsão certa de um signo –

e a estrada inclina nas curvas do lado esquerdo
que soam agora súbitas na intensidade dupla
por detrás dos óculos escuros
por detrás das nuvens junto do invisível
antes do nascer da lua –

a lua, a lua branca
como aquela faia de tronco despido em direcção ao rio
como aquela cabana no meio dos pinheiros por cima das carumas
como aquelas magnólias de uma árvore sem folhas enfeitando um muro
um muro alto e uma água fluida –

um muro alto e uma água fluida
como as memórias mais antigas:

dedos inquietos e torcidos
os cabelos,as nucas distendidas, o desvanecimento idêntico
a noite no segredo de um areal preenchido
o ruído dos búzios nas ondas que chegavam
nas ondas que partiam -

tenho o coração apertado como um punho a segurar palavras
para que não fujam -

os poemas que te escrevo são o símbolo
o cálice e o néctar de um vinho maduro
poemas que despem poemas e que se juntam
para que fiquem mais fortes
para que fiquem mais puros -

segunda-feira, 9 de abril de 2012

palavras para que vos quero, o terceiro

.
.
"palavras para que vos quero"
3º encontro de literatura infanto-juvenil da s.p.a. 
dia 14 de abril - biblioteca municipal almeida garrett
entrada livre.
.
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Enquanto não alcançares não descanses - um poema de Miguel Torga




Recomeça...
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcançares
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
E vendo
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.

Miguel Torga, Diário XIII

domingo, 8 de abril de 2012

a árvore tranquila


Magritte

ao subir a serra pela tarde adversa
não pude olhar o teu rosto na forma habitual;
o sorriso e o mar ;
dedico-te a cor lilás das urzes que enfeitavam o caminho –

na frente do vidro corriam as plantas baixas, as rochas calvas
os pinheiros altos –

na frente do vidro duas histórias, palavras na cabeça e a estrada
razões e falhas, o passado que existe e o futuro que se desenha;
o sonho é uma realidade escondida –

a estrada é lenta, a natureza prende os sentidos
era preciso parar esta lata mecânica e encostar as costas numa rocha
sujar as mãos na terra, colher uma alfazema, escutar o melro e o corvo
que se sentam nas pedras e oscilam as cabeças, pensar melhor as palavras
a forma como as digo, a forma como escondo o grito –

hoje falta-me o tempo para tecer as sedas
não porque não queira, sim pelas pedras, pelo vidro, pelo caminho –
entrego-te o sussurro nocturno das flores
o seu aroma de meses preferidos, um maio colorido
o primeiro mês das praias quando não há barracas às listas
e as marés silenciosas invadem de mãos juntas o areal vazio –

impossível negar a lua, o seu nascimento branco
a circunstância infinita da rotação do mundo
o insustentável no imprevisível humano, o súbito
a seta aguda –

pela noite das estrelas
desejo-te o bom relâmpago, um sono sem temor
o reconforto e o sossego
na mesma forma como me sinto
uma árvore tranquila com uma lua dentro -