sábado, 21 de janeiro de 2012

Capital humano...


Capital humano…

“Tu, que me traças o perfil e me desenhas o fundo, ensina-me a cair nele, porque estás mais perdido do que eu”.
                                                                                                                                             Pastor Alemão

I.

Eram doze os irmãos do Renascimento português.
Onze deles: os irmãos do amolador romeno, estão à porta de hipermercados, cada um à frente de um supermercado do grupo Jerónimo Martins. Desceram a Europa. Ocuparam o lugar que antes pertencia aos lobos. Vão fumando os cigarros que o segurança lhes enrola. À noite juntam-se à volta da sopa e do pouco pão que há, o vinho fica todo para o pai que é doente e não pode trabalhar e quando não há vinho há problemas e os vizinhos chamam a polícia. Mas o amolador optou por outro caminho, outro canal de comunicação com a realidade portuguesa, um trabalho mais técnico. A de amolador de facas. Na Roménia tinha estudado música, mas o violoncelo já há muito vendido ocupava agora uma vitrina de uma loja de artigos em segunda mão em Constança. Levava o seu cão atrás e a bicicleta que foi  roubando às peças e construindo, só teve de esperar dois dias até encontrar o guiador que formava o conjunto. Foi trabalhar para o aeroporto e no amplo espaço vazio onde se cruzavam viajantes, o amolador oferecia os seus serviços. Era raro alguém ter uma faca, mas alguns iam com facas na mão, mas ainda mais raro era que  aqueles que as traziam, não as levassem suficientemente afiadas para os serviços que delas pretendiam (cortar o pão, o queijo – para as sandes da viagem, golpear um homem na barriga, descascar um ananás trazido da Madeira). Mas era compensador este trabalho sem remuneração, era especializado e nem só do local certo se faz o destino.

II.

À entrada de um aeroporto lusitano está o pastor alemão – os aeroportos lusitanos são os mais asseados, de longe os mais limpos e os melhores – São um espelho fiel da realidade do país e por isso o pastor alemão escolheu um destes (e não outro do continente europeu) para a sua partida. O pastor alemão encontrava-se cá fora, táxis, grupos a fumar à pressa, relógios nos pulsos.
Ele não tinha a certeza se ia começar uma viagem ou se tinha acabado de a fazer. Estava cá fora o herói desta narrativa, sem saber se entrava num avião ou se tinha acabado de chegar – Na verdade isso era um pormenor, porque a viagem é sempre contínua e nem sempre é feita de movimento mas de uma simples motivação do fundo. O pastor alemão olhou para o fundo, mas não havia fundo – Nenhuma rota traçada – Nenhum sinal de destino, apenas uma certa apatia feita de muitas pegadas, um delírio controlado que lhe deu vontade de beber. Na sua mala que abriu apenas havia búzios pequeninos e um livro verde e grande – Talvez a Montanha Mágica … Foi até aos quartos de banho, e ao seu lado um homem urinava – reparou que o urinol dele era de prata, o seu não. Era de cerâmica das Caldas – importada do interior para Lisboa onde outros estrangeiros a colocaram com todo o cuidado – O homem trazia uma mala – Na mala tinha búzios pequenos e dentro dos búzios novas histórias – Isso permitia-lhe construir um novo passado assim que chegasse ao Brasil – Construir uma vida nova – com um passado limpo – A “ficha limpa” era a sua obsessão, como se a a ficha fosse uma entidade paralela ao processo que corria no tribunal. Demoraria 10 anos a resolver e prescrevia – Mesmo assim era necessário ter todo o cuidado. Os aeroportos lusitanos são seguros para quem foge - têm urinóis de prata para quem os merece – O processo de branqueamento de capitais, o tráfico de relíquias de Cristo – sudários, dentinhos, rótulas recheadas de musgo – Era mais seguro ir para o Brasil que é grande, muito grande e depois as autoridades perdem o rasto e a ficha fica limpa, limpa e branca como um lençol.
O caso do pastor alemão não tinha paralelismo possível com o deste homem determinado e consciente do seu caminho, que já ia a meio (No Céu, dentro do avião da TAP a ler o Capital). O Pastor não. Não sabia do que fugia, nem se fugia, e muitas vezes fugimos sem saber que o estamos a fazer, é quase mecânico, tão mecânico como um espasmo, muitas vezes estamos realmente longe, realmente longe de tudo.

III.

Na actual conjuntura económica o grupo Jerónimo Martins trava uma luta enorme com uma cadeia de hipermercados rival, é então que um grande grupo de peritos em marketing é contratado e esse grupo reúne-se e decide-se por uma campanha promocional: vários cabazes de produtos a preços económicos – É feita uma lista de trinta cabazes de produtos, a preços muito baixos, um desses cabazes incluí 50 facas de cozinha, todas elas mal afiadas, mas a um preço compensador. O anúncio passa na televisão e o amolador romeno que estava num snack-bar ao lado do aeroporto vê-o e decide-se pela viagem até um Pingo Doce da capital; aí cria a sua pequena banca, a bicicleta, o som do aboio, com um pequeno organino chama os clientes, a música está recheada de um magnetismo animal que atrai os clientes para fora do supermercado, todos eles muito contentes com os seus cabazes optam pela primeira solução que lhes aparece: afiar as facas ali logo, e compensa porque o preço do cabaz com as 50 facas mal afiadas mais o preço que o amolador leva para as afiar não chega a 60% do preço dessas facas. E há esperança que um dia haja pão em casa e aí vão ser precisas facas para o cortar. O grupo Jerónimo Martins pensou nisso e começou a levar uma pequena percentagem ao amolador pelo serviço prestado, 40% do lucro do romeno era metido num pequeno saco e esvaziado nas seis registadoras do supermercado. Facilitava os trocos.

IV.

O pastor alemão lembra-se subitamente da sua namorada – Dá-lhe um baque tremendo esta recordação magnética – Puxa-o para o fundo – Várias cordas – Sente necessidade de uma ponta, uma ponta segura que o ligue aos canais da realidade, BAQUE, é violento o que uma memória-fêmea pode trazer, um tornado-menina a calçar-se, a percorrer todo o aeroporto lusitano de um susto maior que por o ser, não deixa de ser doce. Os seus olhos iluminam-se, o branco dos olhos desaparece. Foi todo para as nuvens que os aviões rasgam, numa dessas viagens podia já estar ele, mas está de certo o fugitivo da justiça portuguesa a pensar na ficha limpa que associa ao branco. Se calhar já chegou e começou uma vida nova, gere um vasto capital humano. O pastor alemão não tem ficha e nisso lembra-se, as fichas são caras, tudo tem o seu preço. E novamente a recordação da namorada e o sangue a correr todo ao coração onde uma aparição mariana lhe desperta todos os sentidos, lhe bombeia a música para as extremidades. E ele lembra-se – Não estou aqui pela viagem, mas para saber um pouco mais sobre a morte. E por isso vim. Não porque vou ou porque acabo de regressar. Mas para saber mais, o amolador de facas sabe muito sobre a morte e é com ele que devo falar.


V.

Procura-o, em todo o lado, e não há sinal dele, uma das empregadas da limpeza diz que não o vê há muito tempo mas que acha que ele emigrou para o Pingo Doce mais próximo porque é o que todos fazem a conselho dos nossos ministros. E o pastor corre com a sede toda nos olhos, avisam-no que o Douro subiu, há muitos anos, na verdade foi muito tempo a espécie de hibernação no aeroporto, trazia a mala, os búzios, sem passado dentro. O gondoleiro ajudou-o a subir para a barca, perto da estação de São Bento, depois seguiram pelos canais estreitos do Porto. Ali uma torre torta, gémea de uma outra torre torta, ali um barco ambulância a rasgar as águas, ali uma gôndola funerária a perder-se pelos canais, perto da Rua das Flores. E é estranho o ideal que os move, os braços seguros do gondoleiro, o remar forte que cria a rota onde nada se escreve. Não fica registo de nada, de nada. Mas há ainda a mala com os búzios sem passado e um desassossego tão português atravessa os canais, contorna a cidade e avisa o pastor alemão que é impossível ver de cima. O desconforto prende-se aos pulsos, serve de óculos, uma radical armação que filtra a realidade, são todos os ângulos dentro da mala, não convém abri-la. O som do organino que o romeno toca alerta o gondoleiro e o pastor que está para breve o conhecimento da morte. Ele sabe, como qualquer amolador, muitas coisas sobre ela. O som está cada vez mais alto. À porta do Pingo Doce muitas gôndolas paradas, e os homens saem com os seus cabazes. O amolador já lá não estava. Tinha reunido o dinheiro suficiente para o dia e agora os doze irmãos em casa, uma cegonha no lugar do pai - ela não bebia. Esperavam o pastor. A assembleia foi honesta, sincera com o seu próprio fundo, como só um animal paciente pode ser. Discutiu-se o capital humano, o inumano de tudo isto, estabeleceu-se um plano de fuga. Não passava pelo aeroporto. 

Nuno Brito

Poema inútil com montanha


Vejo a montanha à minha frente pousada
Sobre a água sempre verde, e penso na inutilidade
De tudo o que ela é, e na inutilidade de estar pensando nisto,
Quando um pensamento inútil me sugere
Que a montanha pode ser
Um pormenor pensado por ela
Na paisagem do meu próprio pensamento, para
Com isto me levar a pensar sobre pensamentos,
E não sobre montanhas, ficando ela, como antes,
Pousada na água sempre verde, sem ser
Pensada por ninguém.

Rui Costa 
em A Nuvem Prateada das Pessoas Graves (2005)



Soneto a uma fotografia do calendário Pirelli


(fotografia do Calendário Pirelli 2012)

O seu cabelo preto parece escutar,
sua forma prendida em concha,
a praia nua espreita o véu na onda
escurecida na areia tremeluzente.

É o vazio que ajusta a própria luz
e na calma dobrada o banho adorna.
O fio de espera nos lábios agarrando-se,
contendo em recuo o som da corrente.

A rebentação nasce como arrepio e sal,
retém o centro, como rocha, rodeada
pelas vénias de rastejamento aquático.

A música que ela escuta e não vês
é barco que gela quando naufraga a tal,
batendo na espiral que talha o teu mar.

um poema para adormecer - freud conhece as linhas da mão


imagem daqui

freud conhece as linhas da mão
fala sempre que me aproximo e ergue olhos de céu
na exigência de muitos dedos, na pele e nos pêlos, que são imensos -
e deita-se sobre as mesas, as cadeiras e os muros mais pequenos;
tudo por causa de um afecto e um pequeno tremor, um sossego
como a cor dos versos de alguns poemas -

e deita-se bem dentro da cama, sobre o colo das pernas
e quando muito quente, espreguiça-se e lento
sobe com toda a ternura pela raiz dos cabelos
e apaga os desertos -

freud compreende bem
e se fosse mesmo grande, tinha um ombro do tamanho do meu
e se fosse mesmo grande, tinha também, cabelos e mãos
e se fosse mesmo grande, era tudo o que sonhei, e sempre
uns lábios grandes de muitas palavras doces, no silêncio dos meus
uns lábios grandes de muitas palavras doces, para contar histórias
antes de adormecer -

e no fim, quando as pestanas caíssem na brancura de uma linha, mesmo branca
se ouviria um som, lá ao longe, um shh…! shh…! shh…! um sonho bom
e um ligeiro tremor, que não seria o seu

um ron-ron…um ron-ron…
um ron-ron que fosse o meu -

josé ferreira 20 Janeiro 2012

Arrepio




imagem daqui

.......................A superstição é a poesia da vida.
....................................................................Goethe

Corro por fora da vida
Pensando que a vivo
Por dentro. Dizem-me
Que não sou livre e sou
Comandado por aqueles
Que já partiram. Eu digo
Que não, que sou eu
Que ando, que penso,
Que falo e que escrevo
Poesia. Às vezes, duvido
Do que afirmo, sim, não
Tenho a certeza se sou eu.
Mesmo quando escrevo.

Não sou supersticioso, não
Sou. Arrepio-me, todavia,
Se me falam em bruxas
Em que não acredito. Não
Sei porquê, mas receio
Que me assombrem a vida.

Era tudo o que não queria –
Ser uma marioneta movida
Por fios invisíveis –

2012.01.13
José Almeida da Silva

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

espero-te
plantada no rochedo mais alto
farol solitário
derramo guia luz
fios em prata escorrem
meu corpo de pedra e sal
prolongamento distante
teia tecida
guardiã sem nome
não tens como te perderes
na demanda de me encontrares


claraoliveira12.01.20

história antiga feita hoje

.
era uma vez
o joanete rabanete
com cabeça de alfinete
e cara de biscoito.

que era vizinho da frente
do chocolate larate
com nome de disparate
que vivia no número oito.

eram grandes
amigos de há muito tempo:
passeavam juntos,
partilhavam de tudo,
conheciam-se bem,

e não escondiam nada nada nada
um
do
outro…
excepto que
um era caprichoso
e o outro supersticioso,
mas qual deles era
o quê ou o porquê
não sabiam eles nem ninguém.

um dia -
sem estar sol nem ser feriado -
o joanete rabanete e o chocolate larate
passeavam nos arrabaldes do bairro,
lá para os lados do laranjal azul,
quando foram, de repente, atacados
por uma horda de jábastassins plim-plins
corridos das terras arrepiadas do sul.

muito assustados e atrapalhados
o joanete rabanete com cabeça de alfinete
e o chocolate larate com nome de disparate
correram pelo caminho de volta
a gritar que o fim do mundo andava à sólta
e tropeçavam e rebolavam
mas nem precisavam
que os jábastassins plim-plins
não vão daqui                                                     ali
sem papéis assinados,
dois atestados,
três decretos e afins.

correram, correram
muito depreeessa!
quem os via, dizia:
lá vai
o joanete larete com cabeça de disparete
e o chocolate rabanate com nome de alfinate!

chegaram a casa estourados,
coitados!
e esconderam-se logo, muito assustados.
um
na cave trancado, com um olho fechado
na sua cara de biscoito,
o outro
debaixo de um travesseiro da cama do quarto traseiro
da casa do número oito.

nunca mais ninguém os viu.
dizem por aí que o chocolate larate
por medo ou superstição
fez uma dieta de chás e temperos
com grandes desesperos
e agora está magrinho,

e o joanete rabanete
por capricho do acaso,
escreve papéis assinados, decretos e atestados,
nas terras arrepiadas do sul
onde hoje é meirinho.
raquelpatriarca|treze.janeiro.doismiledoze
.

Duas canções portuguesas


                                                           O mais humano sentimento são.
Márcia[1]

A meio caminho de um falso império
alguém diz: tu que tudo desatas, leva-me contigo
o teu corpo é feito de viagem – e repete que a pele não é uma fronteira
a sua cara é a de todos e enrola-se na paisagem
o mais honesto animal – caem-lhe do bico sementes de sésamo e girassol
cabe toda no fio de um cabelo:
a mais magnética das memórias do fundo
puxa-nos para baixo

O Cristo de Mantegna parece o Che morto –
as mantas de lã que estavam nos baús da CIA
 e nas arcas douradas dos Alexandrinos
esvaziadas das rendinhas, servem-lhes de última morada
O mesmo baptismo no Rio de Los Remédios,
o mais sujo da América Latina
Relíquias, granadas, missais,
pontas e molas que lhe servem de fundo
o musgo que cresce com ou sem ideais
Os mesmos e grandes olhinhos enrolam a paisagem
Derrubado o muro fica outro muro:
Invisível, Maior, Interior
De um lado o amor e o ódio - Do outro lado o amor e o ódio –
Em Fátima as pumas entram na capelinha das aparições
e estão entre os sacerdotes que as domesticam e as inserem no ritual
As pumas e as peregrinas seguem o cortejo das velinhas
Revitalizam o ritual
e as pumas e as peregrinas cantam
Sabendo que toda a frase é incompleta
feita para ser esquecida e reinventada,
estranho recheio este, um ideal,
se em nada ele toca, mas se tudo ele liga

A meio caminho de um falso império
 alguém diz:
Tu que tudo desatas prende-me novamente
Puxa-me para o fundo
Animal invencível: amor.

Ouço uma música portuguesa do século XXI que acaba assim:
A razão de ser de um poeta é.[2] [Fim da canção].


                                                      Nuno Brito




[1] Letra de música do álbum – Dá.
[2] Manuel Cruz – Foge Foge Bandido.

Manet e a carta a Olympia


Manet "Olympia" 1863

enquanto recebo o calor da celeuma
lembro letra a letra a carta de Olympia
a surpresa de a ver assim (in)vestida
de nudez, nas cores do seu poema
o adeus:

"manet meu ingénuo e querido amigo

beijo a tua mão direita

comovi-me

naquele divã de donzela
o lugar das minhas linhas.
sentida perfeita no meu corpo
no meu olhar felino que domina.

maria vestida de flores
escondida no seu olhar de noite
guarda os segredos daqueles que autorizo
os meus melhores momentos
a voz aguda dos amantes
e são tantos.
não os quero loucos nem distantes
de fogueiras impertinentes
ou amores frios
trato-os como filhos nos meus seios
a quem sugo os receios, os seus medos
na falta dos berços.

comovi-me

na largura dos traços
nas camadas de tinta
por sobre a tela virgem
de muitas horas e anseios.

beijo a tua mão direita

a do laço de cetim
trémula de pudor
quando inclinavas o rosto
e pousavas a paleta.

meu querido e ingénuo amigo
espero não te ver
sob pena de não ser
olympia-

e assim será manet
serei o poema
o teu espelho
e só meu o teu olhar
até ao fim -

beijo a tua mão direita
olympia

p.s. envio-te a flor "

josé ferreira ( out 2009)

(desculpem republicar mas achei apropriado porque este quadro de Manet é colocado em paralelo com a Vénus de Urbino de Tiziano)

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Soneto a uma Vénus de Tiziano


O seu cabelo preto parece cantar,
seus membros cintilam brancos como natas,
como se o gracioso corpo adivinhasse
que era a doce soma de graciosos sons.

Está deitada na sua longura implorante,
apoiada num género de otomano,
como se fosse um estandarte alto e delgado,
amavelmente inclinado para os homens.

Um ramo de violetas sorri-lhe nas mãos,
endereçando ao observador odores,
a serva ajoelhando-se perante o altar.

Ó, olhar de novo aqueles cabelos
e ainda uma vez mais a magnífica
imagem humilde do seu doce lombo.

Robert Walser, em histórias de imagens, Cotovia (2011)

Castanhas e chocolate




Estava a comer castanhas cobertas
De chocolate. Devorava-os, feliz,
As castanhas e o chocolate, e era
Muito bom. Sem cascas, as castanhas,
Sem prata, o chocolate, comem-se
Facilmente – pensava eu. E era assim.
O gosto delas e o gosto a chocolate.

Uma voz – a da minha mãe – soou alta
E ameaçadora: – Vais ficar com dores
De barriga e os dentes podres, guloso!

Encolhi-me como pude – as castanhas
De chocolate na boca – para não ouvir,
Pelo menos muito bem, aquelas palavras
E senti por momentos os dentes podres
A cair e muitas, muitas cólicas intestinais.

Uma luz habitual de todas as manhãs
Beijou-me os olhos ensonados. Terna.
Espreguicei-me e surgiram-me uns lábios
Pé-ante-pé e sorridentes na testa morna
Ainda adormecida. Fiquei contente. Sorri.

A minha mãe prometeu-me um chocolate
Se eu lavasse os dentes depois de o comer.
Não pude esperar para me deliciar.

Dormira comigo um sonho generoso e cruel.
A minha Mãe já morreu. É mentira, sim, é
Mentira. Trago-a doce sempre no coração –
2011.11.09
José Almeida da Silva

Página de diário ou quase




– Oito de setembro.
Nunca visto em S. Félix da Marinha.
Na sala da Teresa, entrou solícito o Mar –
Trazia Vozes – cheio de poemas, e vozes
Muitas vozes na rebentação das ondas – FA4 –
Algumas exibiam Um mar com cidade dentro,
Encrespada espuma nos rochedos, revolta e branca,
E houve piquenique na maresia sob o olhar subtil
Do Preto e do Branco, olfato estimulado
Pelo generoso odor a mar e a guloseimas na mesa postas

As ondas deram voz às palavras do horizonte que no poema
Era suave linha branca – Abraço ténue do céu e do mar
No nosso olhar. Di-lo a nossa memória de era uma vez…
… a nossa infância. Dizem-no os habitantes do mar que nos seduzem
E ergue-se, bela, a memória da Menina do Mar a correr
Para nós trazendo nas mãos acesas corais e cavalos-marinhos
E a evocar-nos que somos adultos e sempre meninos;
Atravessada pela paixão, outra voz acendeu um longo eco
Da alentejana voz de Florbela: “Queria amar-te como o mar/

Numa entrega de perpétua maresia”, e todos vibraram muito
De alegria. Depois chegou do mar dolorosa voz e as cores assim
Lá longe diluídas, para a seguir serem azul só no olhar como o
Amor ao sentir. De repente pula um peixe encarnado mas um
Caranguejo, coitado, pincelou-o. Fotografou este insólito momento,
Um fotógrafo ambulante e era janeiro. Se fosse junho, e o calor viesse,
Os meninos na praia, ou na sala da Teresa se o mar voltasse, assustariam
O caranguejo que começaria andar para o lado, impedindo-o de ir contra
O peixe encarnado. Por falar em fotógrafo, lembro-me de uma voz
Encantada que contava a história de um fotógrafo – O homem
De Imilchil que herdara uma máquina e que tinha um fogo ateado
Na alma: “Ver uma fotografia do mar”. Há poetas que inventam
Estes sonhos e têm máquina fotográfica e fotografam os sonhos.
São “pele e outros temperos”. As saudades que tenho da Inês. Será
Que o Natal trará a luz e que vai amanhecer “sem mais salina”?

De novo o mar a entrar pela varanda. E sorrateiros os fumadores
Aproveitaram essa nesga de azul por onde entrara o Mar. E uma
Voz de palavras e dor oculta no peito soltou um dó menor no ar de luz:
“Era minha dor o mar / (…) /Pena azul, revolta e terna.” Eterno, este
Vaivém: “O meu mar são os teus olhos / Onde me perco e me alcanço /
(…) // (…) azul é a cor do meu amor”. E isto é dor? E é prazer e alegria?
Muitas vezes, o revisita a elegia. E revisitou a casa teresina, eu bem na vi,
Sophia saindo grácil dos seus livros, ali pousados, na mesinha alta. Por ali,
Vivera quando menina saudando o mar da sua infância todas as manhãs e
Aos fins da tarde, e ali se encontrava com o Búzio – um velho amigo sábio.

“O mar intacto” procurou intacto lugar. Há sempre uma primeira vez
Para olhar o nunca visto. Cheguei-me à vidraça que dava para o mar –
“Olho os navios que ainda não chegaram”. E houve comemoração:
“São uma gota de água estes três anos”, e VOZES lidas com o coração.

Apagou-se a luz, já era tarde, o mar recolhera ao Mar, e só a Teresa
Estava em casa. E os outros? Somente a viagem e um calor no coração –
2012.01.06
José Almeida da Silva

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Chocolataria

Era um homem em estado de arte
Doce, doce, muito doce!
Sua face chocolate
Decorada de ternura
Seus olhos grandes bom-bons
Recheados de candura
Tinha este homem um nariz crocante de chocolate
Sua língua era de gato
O bigode um rebuçado
Os dentes todos cariados
Mas um sorriso apertado
Com sabor a leite creme e a leite condensado.
Tinha um lacinho de gomas
Fato rico de cacau
O seu relógio parado
Era feito de geleia
Doce, doce, muito doce!
Parecia uma colmeia.
Os sapatos cor de rosa
Sabiam a algodão doce
Tinham sola de gelatina
Com sabor a tangerina!
O seu coração quentinho era todo chocolate
Daquele muito docinho
Que aquecia bem quentinho
O leite com chocolate que percorria o corpinho.
Andava sempre feliz
Porque tinha a mania
De só comer chocolate
A toda hora do dia!

é tão fundo o silêncio entre as estrelas - um poema de José Saramago




É tão fundo o silêncio entre as estrelas.
Nem o som da palavra se propaga,
nem o canto das aves milagrosas.
Mas, lá, entre as estrelas, onde somos
um astro recriado, é que se ouve
o íntimo rubor que abre as rosas.

José Saramago (lido aqui)

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012



Joanetes de Coentrada


grande ideia a da Ana
transformar os joanetes
para a rima é que é uma porra
só se for com foguetes

em entrada, sim senhor!
ou companhia de um copo
Joanetes de Coentrada
deixa qualquer um louco

origem animal ou vegetal?
é pergunta que fica
mas desde que não saiba mal
estamos todos com uma larica!

à mesa de qualquer um
ricos, assim assim e pé descalço
acompanhado ou sózinho
faz as delícias do moço

muito alho e azeite
alentejano que é o melhor
fossas nasais um deleite
palato mole um primor

grandes segredos não tem
diz a Maria cozinheira
tudo vai da matéria "da prima"
e dos condimentos usados
muito carinho e doçura
muito bem misturados

sai uma dose bem servida
na refeição, como entrada
os comensais até se babam
à vista dos Joanetes de Coentrada

claraoliveira12.01.14