As rendas e os tules tendem a entediar
Por isso vou até ao fundo, à porta aberta onde reluzem escadas
Que não sei onde vão dar
Trazem luz e um homem de bigode que periclita entre degraus
Por que é que o cão não ladra ou morde a anã?
Por que é que o pintor não deixa cair a paleta no veludo do vestido?
Ver num instante tudo em alvoroço, ah –
Braços a gesticular, pernas no ar, cabeças a rodar entre mãos e pés,
O espelho malogradamente partido
uma anã gigante em cima da mesa
que a roda das saias esconde
E os tapetes? Telas de Pollock.
Mas o mais espaventoso era o pintor pegar na tela
com a ajuda dos criados ou sem ela e especá-la à frente das meninas,
do cão, do espelho, da anã, da porta que dá para as escadas
de tudo. E… nada…
de repente, o esplendor –
um cavalete e a estrutura de madeira que sustenta a tela comprida e larga
Um Velásquez às avessas
Vazio e de costas ao léu
terça-feira, 30 de dezembro de 2008
A confissão de Velásquez
A confissão de Velásquez
Jan van Eyck[1] pensava todos os dias em Picasso
Pensava tanto, tanto, tanto
Que eu tive de nascer para pintar as meninas.
Então van Eyck pôde adormecer e Picasso[2] ter meninas no seu museu.
[1] Os esponsais dos Arnolfini, 1434 – toma-se como certo que Velásquez conhecia este quadro e que se inspirou no motivo do espelho que reflecte pessoas que não pertencem à composição para pintar As Meninas.
[2] As Meninas – segundo Velásquez (Pablo Picasso, Barcelona, Museu Picasso)
Jan van Eyck[1] pensava todos os dias em Picasso
Pensava tanto, tanto, tanto
Que eu tive de nascer para pintar as meninas.
Então van Eyck pôde adormecer e Picasso[2] ter meninas no seu museu.
[1] Os esponsais dos Arnolfini, 1434 – toma-se como certo que Velásquez conhecia este quadro e que se inspirou no motivo do espelho que reflecte pessoas que não pertencem à composição para pintar As Meninas.
[2] As Meninas – segundo Velásquez (Pablo Picasso, Barcelona, Museu Picasso)
segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
Palavras Minhas
Palavras Minhas
Por vezes passeio os dedos nas lombadas de espelhos finos
livros de poemas nas livrarias. Reconheço sinais
aromas de pradarias. Solto-me de vento aos versos
de poetas e sonho nas palavras deles inventar
palavras minhas.
Vem este poema curto que vos deixo na sequência de ter encontrado um poema Francês que me parece o mais indicado para antecipar o Ano Bom de 2009 que se aproxima:
Vai ser assim um mês atrás de outro:
Janvier nous prive de feuillage;
Février fait glisser nos pas;
Mars a des cheveux de lilas;
Mai permet les robes champêtres;
Juin ressuscite les rosiers;
Juillet met l´échelle aux fenêtres,
Août, l´échelle aux cerisiers.
Septembre, qui divague en peux,
pour danser sur du raisin bleu
S´amuse à retarder l´aurore;
Octobre à peur; Novembre a froid;
Décembre éteint les fleurs; et, moi
L´année entiére je t´adore!
Rosemond Gérard
Les pipeaux
Por vezes passeio os dedos nas lombadas de espelhos finos
livros de poemas nas livrarias. Reconheço sinais
aromas de pradarias. Solto-me de vento aos versos
de poetas e sonho nas palavras deles inventar
palavras minhas.
Vem este poema curto que vos deixo na sequência de ter encontrado um poema Francês que me parece o mais indicado para antecipar o Ano Bom de 2009 que se aproxima:
Vai ser assim um mês atrás de outro:
Janvier nous prive de feuillage;
Février fait glisser nos pas;
Mars a des cheveux de lilas;
Mai permet les robes champêtres;
Juin ressuscite les rosiers;
Juillet met l´échelle aux fenêtres,
Août, l´échelle aux cerisiers.
Septembre, qui divague en peux,
pour danser sur du raisin bleu
S´amuse à retarder l´aurore;
Octobre à peur; Novembre a froid;
Décembre éteint les fleurs; et, moi
L´année entiére je t´adore!
Rosemond Gérard
Les pipeaux
O tigre no castelo de Kafka
O Tigre no castelo de Kafka
“Caminante no hay camino, el camino se hace caminando”
António Machado
Uma estrada de prata
Onde se perdem os suicidas,
que leva ao centro da alma,
Borges perde-se num caminho bifurcado
que leva a um castelo
encontra um tigre a olhar para o grande espelho
o seu olhar manso e distraído
a quem os corvos chuparam a vida
no interior do castelo:
quero escrever como uma possessa
até o diabo vir com as suas mãos de cereja
tocar-me no ombro e dizer que o venci…
Sarah Kane a subir a estrada
A estrada da vida é a estrada da vida
Demoramos dois séculos a ligar o forno
Sylvia Plath a beijar Dante -
Kafka sabe que é perigoso escrever…
O interior do castelo está cheio de morcegos,
de corvos e caracóis - para escritores tristes
O tigre espia numa estrada que leva a Chernobill Celeste
imaginada por Sarah kane num diálogo eterno com Papini
as almas gémeas fundem-se
As mãos derretem por cima da serradura,
O que interessa é o processo
ele foi escrito / encontrado por Sarah Kane
No meio de um holocausto digital
Os anjos esquecem enquanto sobem
uma estrada que leva a um castelo – Por onde Kafka sobe
um tigre com consciência do ridículo Sonha África
Percorre as ruas de Praga com um passo Seguro e Forte
Para se escrever a si próprio numa língua que há de vir
Chegaram à Chernobill Eterna
a subir os anjos esquecem….
Nuno Brito 2008
“Caminante no hay camino, el camino se hace caminando”
António Machado
Uma estrada de prata
Onde se perdem os suicidas,
que leva ao centro da alma,
Borges perde-se num caminho bifurcado
que leva a um castelo
encontra um tigre a olhar para o grande espelho
o seu olhar manso e distraído
a quem os corvos chuparam a vida
no interior do castelo:
quero escrever como uma possessa
até o diabo vir com as suas mãos de cereja
tocar-me no ombro e dizer que o venci…
Sarah Kane a subir a estrada
A estrada da vida é a estrada da vida
Demoramos dois séculos a ligar o forno
Sylvia Plath a beijar Dante -
Kafka sabe que é perigoso escrever…
O interior do castelo está cheio de morcegos,
de corvos e caracóis - para escritores tristes
O tigre espia numa estrada que leva a Chernobill Celeste
imaginada por Sarah kane num diálogo eterno com Papini
as almas gémeas fundem-se
As mãos derretem por cima da serradura,
O que interessa é o processo
ele foi escrito / encontrado por Sarah Kane
No meio de um holocausto digital
Os anjos esquecem enquanto sobem
uma estrada que leva a um castelo – Por onde Kafka sobe
um tigre com consciência do ridículo Sonha África
Percorre as ruas de Praga com um passo Seguro e Forte
Para se escrever a si próprio numa língua que há de vir
Chegaram à Chernobill Eterna
a subir os anjos esquecem….
Nuno Brito 2008
sábado, 27 de dezembro de 2008
- Casa-se a Menina!
- Casa-se a Menina!
O padre na corda do sino
batina em rodopio de cortina
o vale desperto , o monte papagaio
de ecos repetidos, o alvoroço de ramos
o piado aflito dos bicos pequenos.
As velas reduzem os últimos grãos
sacudidos no saco de orelhas
criando barriga nos assentos
de vazios; nuvens brancas de farinha.
Fim de dia, festa, o sino, o padre e a batina:
Dobra a fivela o eixo do calcamhar
destapa a unha negra do maldito
salpico do turíbolo, pesado bronze
do desiquilíbrio na quina do granito
agora marcado, partido.
Hora especial de missa vespertina:
-Casa-se a Menina!
Filha mais nova de Ti Maria
por sua vez sobrinha do padre Valdevez
pai de três, todas de batina,
à sua vez da Laurinda, Catarina
e da Alzira; crente e bela
mas de outra freguesia.
Entoam-se cânticos
e ninguém diz, ninguém fala
dos anjos de uma só asa.
Outros ecos e a ladainha:
- Casa-se a Menina!
Grita mais alto a hóstia
a sagração do dia
a oração benzida
na hora da eucaristia:
"Corpo de Cristo!" "Ámen!"
- Casa-se a Menina!
O padre na corda do sino
batina em rodopio de cortina
o vale desperto , o monte papagaio
de ecos repetidos, o alvoroço de ramos
o piado aflito dos bicos pequenos.
As velas reduzem os últimos grãos
sacudidos no saco de orelhas
criando barriga nos assentos
de vazios; nuvens brancas de farinha.
Fim de dia, festa, o sino, o padre e a batina:
Dobra a fivela o eixo do calcamhar
destapa a unha negra do maldito
salpico do turíbolo, pesado bronze
do desiquilíbrio na quina do granito
agora marcado, partido.
Hora especial de missa vespertina:
-Casa-se a Menina!
Filha mais nova de Ti Maria
por sua vez sobrinha do padre Valdevez
pai de três, todas de batina,
à sua vez da Laurinda, Catarina
e da Alzira; crente e bela
mas de outra freguesia.
Entoam-se cânticos
e ninguém diz, ninguém fala
dos anjos de uma só asa.
Outros ecos e a ladainha:
- Casa-se a Menina!
Grita mais alto a hóstia
a sagração do dia
a oração benzida
na hora da eucaristia:
"Corpo de Cristo!" "Ámen!"
- Casa-se a Menina!
Cicuta Pura
Do "Tríptico emocional" e depois da última sessão
decidi só publicar o que recolheu
a melhor aceitação dos meus colegas (quanto ao pastel
que pintei para a apresentação tenho que estudar
um pouco mais de informática para o conseguir
publicar):
Cicuta Pura
Por vezes visto-me de toga branca, acusado
na Assembleia grega de Sócrates.
Do lado de lá nem Platão nem Críton. Só ninguém
e uma chuva de setas de cicuta lançada de canas secas.
Cuido da vista que não se perca, do lado esquerdo
do peito que o veneno não atinja.
Se a chuva cessa sempre palpita um lado.
No meio dos dedos vejo rostos, esgares e
sendo imensa e funda, apago a dor
esperando um, apenas um dia um
mais dia um ... alguém!
decidi só publicar o que recolheu
a melhor aceitação dos meus colegas (quanto ao pastel
que pintei para a apresentação tenho que estudar
um pouco mais de informática para o conseguir
publicar):
Cicuta Pura
Por vezes visto-me de toga branca, acusado
na Assembleia grega de Sócrates.
Do lado de lá nem Platão nem Críton. Só ninguém
e uma chuva de setas de cicuta lançada de canas secas.
Cuido da vista que não se perca, do lado esquerdo
do peito que o veneno não atinja.
Se a chuva cessa sempre palpita um lado.
No meio dos dedos vejo rostos, esgares e
sendo imensa e funda, apago a dor
esperando um, apenas um dia um
mais dia um ... alguém!
sobre(a) a menina
Que não te apague a luz -
que nunca;
sombra, nata de névoa escorre
cega no espelho do império, nas
cataratas espessas da madeira.
Dobram os olhos do pintor real -
no espaço trata uma obcessão,
bando de súplicas para que os teus dias
dialoguem com o sol de uma bandeira.
Que não te canse o lume -
que nunca;
na cauda de menina-luz a cozer ditados
ao animal cioso que cuida belezas.
Bichos quase caseiros - a lareira costurando
o fogo. Que todos te acendam rendados
em pregas de claras cores, modelos
de olhos caprichosos de menina;
esboços e estudos a gris, namorando
a tela-luz do contraste que dominas.
Que nunca! Futuros modernos?
Prendam esses ladrões de ares de altivez,
pois nunca é muito como te vês.
Que nenhum lobo marinho
venha ao sul secar o teu sangue
azul.
Um firme raio - um passo do sol
pincelado séculos atrás, passeia na
na moldura digital na alçada
do hall de entrada do T2.
Pilhas inventam pixels onde sois
princesa, à grande e à castela,
pilhas alcalinas para perpetuar
as meninas,
e a tristeza
de te ver presa
na casa real da
incerteza.
que nunca;
sombra, nata de névoa escorre
cega no espelho do império, nas
cataratas espessas da madeira.
Dobram os olhos do pintor real -
no espaço trata uma obcessão,
bando de súplicas para que os teus dias
dialoguem com o sol de uma bandeira.
Que não te canse o lume -
que nunca;
na cauda de menina-luz a cozer ditados
ao animal cioso que cuida belezas.
Bichos quase caseiros - a lareira costurando
o fogo. Que todos te acendam rendados
em pregas de claras cores, modelos
de olhos caprichosos de menina;
esboços e estudos a gris, namorando
a tela-luz do contraste que dominas.
Que nunca! Futuros modernos?
Prendam esses ladrões de ares de altivez,
pois nunca é muito como te vês.
Que nenhum lobo marinho
venha ao sul secar o teu sangue
azul.
Um firme raio - um passo do sol
pincelado séculos atrás, passeia na
na moldura digital na alçada
do hall de entrada do T2.
Pilhas inventam pixels onde sois
princesa, à grande e à castela,
pilhas alcalinas para perpetuar
as meninas,
e a tristeza
de te ver presa
na casa real da
incerteza.
EMBRIAGAI-VOS
A Propósito do pensamento " A maioria das atitudes na época Natalícia, desde a discreta e aparentemente espontânea simpatia de alguém, passando pelos excessos ternurentos simulando mais humanismo a quem se não conhece, acabando nos exageros do hiperconsumismo, mais parece uma forma estranha de uma qualquer embriaguez" - Antonio Pinto Oliveira/2008
- É preciso estar sempre bêbado.
Tudo reside nisso: eis a questão.
Para não sentirdes o horrível fardo do Tempo
que esmaga os vossos ombros,
e vos inclina para a terra,
precisais embriagar-vos sem tréguas.
Mas de quê?
De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa vontade.
Mas embriagai-vos!
E se às vezes, nos degraus de um palácio,
na erva verde de uma vala,
na morna solidão do vosso quarto,
acordardes a bebedeira leve ou curada,
perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio,
a tudo o que foge, a tudo o que geme,
a tudo o que gira, a tudo o que canta, a tudo o que fala,
perguntai que horas são;
...e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro e o relógio responderão:
"São horas de embriagar-se !
Para não serdes os escravos martirizados do Tempo,
embriagai-vos;
embriagai-vos sem parar!
De vinho, de poesia ou de virtude,
à vossa vontade".
( Charles Baudelaire, in " O SPLEEN DE PARIS" - Pequenos Poemas em Prosa, XXXIII prosa , 2007) - poema em prosa publicado em vida em 1864 /1869
- É preciso estar sempre bêbado.
Tudo reside nisso: eis a questão.
Para não sentirdes o horrível fardo do Tempo
que esmaga os vossos ombros,
e vos inclina para a terra,
precisais embriagar-vos sem tréguas.
Mas de quê?
De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa vontade.
Mas embriagai-vos!
E se às vezes, nos degraus de um palácio,
na erva verde de uma vala,
na morna solidão do vosso quarto,
acordardes a bebedeira leve ou curada,
perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio,
a tudo o que foge, a tudo o que geme,
a tudo o que gira, a tudo o que canta, a tudo o que fala,
perguntai que horas são;
...e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro e o relógio responderão:
"São horas de embriagar-se !
Para não serdes os escravos martirizados do Tempo,
embriagai-vos;
embriagai-vos sem parar!
De vinho, de poesia ou de virtude,
à vossa vontade".
( Charles Baudelaire, in " O SPLEEN DE PARIS" - Pequenos Poemas em Prosa, XXXIII prosa , 2007) - poema em prosa publicado em vida em 1864 /1869
sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
Devolve-me os dedos
-----------------------------------------A medo vivo, a medo escrevo e falo
-----------------------------------------António Ferreira (1528-1569)
Devolve-me os dedos
que ficaram dormentes
nas fendas da lua
quando as ruas derretiam
e o vento vermelho voava
deixando as pessoas nuas
quando a vertigem trepava
e a virgem voraz rasgava
a garganta que a habitava
Devolve-me o linho branco
que cobria os meus pruridos
curvas e contra costas
quando o aço do teu espaço
se sumia em arrepio
ao cheiro do meu grito
quando os olhos se apertavam
e visões de videntes vinham
em inventadas ausências
Devolve-me o certo de mim
as linhas que me desenham
um ventre que se sustente
e medos que me sobrem
ou ancas que não se dobrem
leva-os no mar para longe
onde não possam dançar
falar ou viver
no instante em que tudo -
-----------------------------------------António Ferreira (1528-1569)
Devolve-me os dedos
que ficaram dormentes
nas fendas da lua
quando as ruas derretiam
e o vento vermelho voava
deixando as pessoas nuas
quando a vertigem trepava
e a virgem voraz rasgava
a garganta que a habitava
Devolve-me o linho branco
que cobria os meus pruridos
curvas e contra costas
quando o aço do teu espaço
se sumia em arrepio
ao cheiro do meu grito
quando os olhos se apertavam
e visões de videntes vinham
em inventadas ausências
Devolve-me o certo de mim
as linhas que me desenham
um ventre que se sustente
e medos que me sobrem
ou ancas que não se dobrem
leva-os no mar para longe
onde não possam dançar
falar ou viver
no instante em que tudo -

Olhares esguicham
furam-lhe as fendas.
Composto
bidimensional,
esmagado a céu aberto.
Imposto,
centro massivo
velho e excessivo,
pelas bordas quer fluir
o foco exige abrir.
Tenta o anão,
escorrega
no pé da criança,
agarra-se
ao hábito da fé,
mas cai
entre nós e o cão.
Silêncio.
Regressa pelo espelho,
ao fundo
reflecte o passado.
Pousa o pincel,
sai pela porta.
quarta-feira, 24 de dezembro de 2008
Mãe
Mãe, teus olhos de mártir e de santa,
teus gestos gemem, choram ao cantar;
tuas mãos enrugadas de tanto lidar,
torturam a minh´alma de dor tanta!
Mãe, ora teu peito coroado de espinhos,
e teus sonhos de amor ao luar, mansinhos,
tuas mãos outrora de perla e de rainha,
pungem minh´alma, deixam-na ceguinha!
Mãe, esse teu olhar perpétuo de brandura,
e tuas mãos, dantes rara formosura,
apagam-me meu viver, e meu sorrir.
Mãe, pois que seja escutado e atendido:
tenham de débil coração esmaecido
dó, para que serene teu eterno dormir!
(Antonio Pinto Oliveira, Luanda 1965 -
in "Eu e o Silêncio" , 1994-2008)
Nota: é sempre um sublime conforto espiritual
uma singela homenagem à MÃE , tanto mais em
época de Natal...
Votos sinceros de Felizes Festas para todos Vós.
teus gestos gemem, choram ao cantar;
tuas mãos enrugadas de tanto lidar,
torturam a minh´alma de dor tanta!
Mãe, ora teu peito coroado de espinhos,
e teus sonhos de amor ao luar, mansinhos,
tuas mãos outrora de perla e de rainha,
pungem minh´alma, deixam-na ceguinha!
Mãe, esse teu olhar perpétuo de brandura,
e tuas mãos, dantes rara formosura,
apagam-me meu viver, e meu sorrir.
Mãe, pois que seja escutado e atendido:
tenham de débil coração esmaecido
dó, para que serene teu eterno dormir!
(Antonio Pinto Oliveira, Luanda 1965 -
in "Eu e o Silêncio" , 1994-2008)
Nota: é sempre um sublime conforto espiritual
uma singela homenagem à MÃE , tanto mais em
época de Natal...
Votos sinceros de Felizes Festas para todos Vós.
terça-feira, 23 de dezembro de 2008
Carícia de pantufa
Não está quieta a Princesa?
Culpa dela?
A aia que lhe fala
do menino junto ao bobo.
O pincel sem ter tempo.
"É de ouro o cabelo!
Tão brilhante fino moço" - diz a mãe
- "Mas agora está diferente!"
O pincel no óleo mudo
e o cão escutando calmo
que o tempo saia, solte o dorso
e a carícia de pantufa
afaste a pulga.
Tão quieta a Menina:
Da janela cega a luz
o corpete fino as argolas
do vestido. A pergunta do porquê?
do que pensa?
a inclinação indiferente da cabeça.
Na rosto algo vazio
o olhar ausente na Princesa.
Os reis de cinturas ao fundo no espelho
vendo tudo -
Poema menino
Éramos dois, seis, vinte.
Entrámos, inseguros, expectantes,
Ávidos de procura e de partilha.
Não era Dezembro, nem presépio havia,
Em cada um de nós
O poema menino adormecido.
Ouro, incenso, mirra.
Palavras, música, emoção.
A sós ou de mãos dadas,
O presépio pressentia-se.
Entrámos, confiantes, ansiosos
De dádiva, de revelação.
Éramos vinte, cem, muitos.
Na manjedoura,
O poema menino deitado.
Não porque era Natal,
Mas porque é Poesia.
Entrámos, inseguros, expectantes,
Ávidos de procura e de partilha.
Não era Dezembro, nem presépio havia,
Em cada um de nós
O poema menino adormecido.
Ouro, incenso, mirra.
Palavras, música, emoção.
A sós ou de mãos dadas,
O presépio pressentia-se.
Entrámos, confiantes, ansiosos
De dádiva, de revelação.
Éramos vinte, cem, muitos.
Na manjedoura,
O poema menino deitado.
Não porque era Natal,
Mas porque é Poesia.
Cavaleiro de moinhos
Ouvi-te os passos em palavras de regressos.
Pontuava-te,
Na esperança de que em versos
A tua cosmogonia não me falhasse.
Conhecia-te a poeira do cansaço,
as batalhas perdidas e os moinhos que enfrentaste.
Soubesses tu, cavaleiro,
Traçar-nos em linhas mais certas
Deixar-me em portas abertas
Com a certeza do regresso.
Confesso
não te amar talvez inteiro
Apenas parte das viagens e as palavras de cativeiro.
Mas sei-te nas cores da audácia
e em traços de ousadia
as sombras soltas de glórias
e as horas de maresia.
E agora nobre soldado
Repousa nas madrugadas
e em espadas
e horas distantes.
Nas armaduras antigas liberta os moinhos gigantes.
E nas batalhas de areia
refaz o mundo em avesso
Que eu espero-te, Dulcineia,
Nos versos do teu regresso.
Maria Inês Beires
(queria ter dado um a toda a gente não por achar que é um bom poema mas por ser o mais recente e para se lembrarem de mim. de qualquer maneira, depois de ter desistido de passar um a um a limpo, resta-me deixar-vos aqui no blog e desejar-vos um bom natal e uma vida repleta de cavaleiros e Dulcineias.)
feliz natal!
Pontuava-te,
Na esperança de que em versos
A tua cosmogonia não me falhasse.
Conhecia-te a poeira do cansaço,
as batalhas perdidas e os moinhos que enfrentaste.
Soubesses tu, cavaleiro,
Traçar-nos em linhas mais certas
Deixar-me em portas abertas
Com a certeza do regresso.
Confesso
não te amar talvez inteiro
Apenas parte das viagens e as palavras de cativeiro.
Mas sei-te nas cores da audácia
e em traços de ousadia
as sombras soltas de glórias
e as horas de maresia.
E agora nobre soldado
Repousa nas madrugadas
e em espadas
e horas distantes.
Nas armaduras antigas liberta os moinhos gigantes.
E nas batalhas de areia
refaz o mundo em avesso
Que eu espero-te, Dulcineia,
Nos versos do teu regresso.
Maria Inês Beires
(queria ter dado um a toda a gente não por achar que é um bom poema mas por ser o mais recente e para se lembrarem de mim. de qualquer maneira, depois de ter desistido de passar um a um a limpo, resta-me deixar-vos aqui no blog e desejar-vos um bom natal e uma vida repleta de cavaleiros e Dulcineias.)
feliz natal!
Retrato em luzes.
Quereria pintar-te só, pequena Margarida,
Mas tão pequena, tão bem vestida
não serias tu gravura de criança.
O meu pincel reclama, bela infanta
que te rodeiam luzes e expressões
Que as cores se vão em longas ilusões
E o branco recai puro sobre ti.
Em verdade a luz me engana aqui tão perto.
São muitos os esboços que te cercam
Como então pintar-vos para que não vos percam?
Pintei-vos então branca, como sois,
Como vos sinto hoje e vos hão de encarar depois.
Pois se a pureza se confunde em quadro aberto
Cercar-te em canto escuro e companhia
E pelas cores traçar-te bela e tão pequena
que o branco só te torne mais serena
E de ti se desvanessa a demasia.
Maria Inês Beires
22/12/2008
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