- Casa-se a Menina!
O padre na corda do sino
batina em rodopio de cortina
o vale desperto , o monte papagaio
de ecos repetidos, o alvoroço de ramos
o piado aflito dos bicos pequenos.
As velas reduzem os últimos grãos
sacudidos no saco de orelhas
criando barriga nos assentos
de vazios; nuvens brancas de farinha.
Fim de dia, festa, o sino, o padre e a batina:
Dobra a fivela o eixo do calcamhar
destapa a unha negra do maldito
salpico do turíbolo, pesado bronze
do desiquilíbrio na quina do granito
agora marcado, partido.
Hora especial de missa vespertina:
-Casa-se a Menina!
Filha mais nova de Ti Maria
por sua vez sobrinha do padre Valdevez
pai de três, todas de batina,
à sua vez da Laurinda, Catarina
e da Alzira; crente e bela
mas de outra freguesia.
Entoam-se cânticos
e ninguém diz, ninguém fala
dos anjos de uma só asa.
Outros ecos e a ladainha:
- Casa-se a Menina!
Grita mais alto a hóstia
a sagração do dia
a oração benzida
na hora da eucaristia:
"Corpo de Cristo!" "Ámen!"
- Casa-se a Menina!
1 comentário:
não sei porquê mas só hoje vi este poema... adoro!
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