Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.
Mário de Sá-Carneiro (1890-1916)
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
Dispersão
Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto
E hoje, quando me sinto.
É com saudades de mim.
Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...
Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.
(O Domingo de Paris
Lembra-me o desaparecido
Que sentia comovido
Os Domingos de Paris:
Porque um domingo é família,
É bem-estar, é singeleza,
E os que olham a beleza
Não têm bem-estar nem família).
O pobre moço das ânsias...
Tu, sim, tu eras alguém!
E foi por isso também
Que te abismaste nas ânsias.
A grande ave doirada
Bateu asas para os céus,
Mas fechou-as saciada
Ao ver que ganhava os céus.
Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traiu a si mesmo.
Não sinto o espaço que encerro
Nem as linhas que protejo:
Se me olho a um espelho, erro -
Não me acho no que projeto.
Regresso dentro de mim
Mas nada me fala, nada!
Tenho a alma amortalhada,
Sequinha, dentro de mim.
Não perdi a minha alma,
Fiquei com ela, perdida.
Assim eu choro, da vida,
A morte da minha alma.
Saudosamente recordo
Uma gentil companheira
Que na minha vida inteira
Eu nunca vi... Mas recordo
A sua boca doirada
E o seu corpo esmaecido,
Em um hálito perdido
Que vem na tarde doirada.
(As minhas grandes saudades
São do que nunca enlacei.
Ai, como eu tenho saudades
Dos sonhos que não sonhei!... )
E sinto que a minha morte -
Minha dispersão total -
Existe lá longe, ao norte,
Numa grande capital.
Vejo o meu último dia
Pintado em rolos de fumo,
E todo azul-de-agonia
Em sombra e além me sumo.
Ternura feita saudade,
Eu beijo as minhas mãos brancas...
Sou amor e piedade
Em face dessas mãos brancas...
Tristes mãos longas e lindas
Que eram feitas pra se dar...
Ninguém mas quis apertar...
Tristes mãos longas e lindas...
Eu tenho pena de mim,
Pobre menino ideal...
Que me faltou afinal?
Um elo? Um rastro?... Ai de mim!...
Desceu-me n'alma o crepúsculo;
Eu fui alguém que passou.
Serei, mas já não me sou;
Não vivo, durmo o crepúsculo.
Álcool dum sono outonal
Me penetrou vagamente
A difundir-me dormente
Em uma bruma outonal.
Perdi a morte e a vida,
E, louco, não enlouqueço...
A hora foge vivida
Eu sigo-a, mas permaneço...
Castelos desmantelados,
Leões alados sem juba...
Mário de Sá-Carneiro (1890-1916)
Paris, Maio de 1913
Porque eu era labirinto
E hoje, quando me sinto.
É com saudades de mim.
Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...
Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.
(O Domingo de Paris
Lembra-me o desaparecido
Que sentia comovido
Os Domingos de Paris:
Porque um domingo é família,
É bem-estar, é singeleza,
E os que olham a beleza
Não têm bem-estar nem família).
O pobre moço das ânsias...
Tu, sim, tu eras alguém!
E foi por isso também
Que te abismaste nas ânsias.
A grande ave doirada
Bateu asas para os céus,
Mas fechou-as saciada
Ao ver que ganhava os céus.
Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traiu a si mesmo.
Não sinto o espaço que encerro
Nem as linhas que protejo:
Se me olho a um espelho, erro -
Não me acho no que projeto.
Regresso dentro de mim
Mas nada me fala, nada!
Tenho a alma amortalhada,
Sequinha, dentro de mim.
Não perdi a minha alma,
Fiquei com ela, perdida.
Assim eu choro, da vida,
A morte da minha alma.
Saudosamente recordo
Uma gentil companheira
Que na minha vida inteira
Eu nunca vi... Mas recordo
A sua boca doirada
E o seu corpo esmaecido,
Em um hálito perdido
Que vem na tarde doirada.
(As minhas grandes saudades
São do que nunca enlacei.
Ai, como eu tenho saudades
Dos sonhos que não sonhei!... )
E sinto que a minha morte -
Minha dispersão total -
Existe lá longe, ao norte,
Numa grande capital.
Vejo o meu último dia
Pintado em rolos de fumo,
E todo azul-de-agonia
Em sombra e além me sumo.
Ternura feita saudade,
Eu beijo as minhas mãos brancas...
Sou amor e piedade
Em face dessas mãos brancas...
Tristes mãos longas e lindas
Que eram feitas pra se dar...
Ninguém mas quis apertar...
Tristes mãos longas e lindas...
Eu tenho pena de mim,
Pobre menino ideal...
Que me faltou afinal?
Um elo? Um rastro?... Ai de mim!...
Desceu-me n'alma o crepúsculo;
Eu fui alguém que passou.
Serei, mas já não me sou;
Não vivo, durmo o crepúsculo.
Álcool dum sono outonal
Me penetrou vagamente
A difundir-me dormente
Em uma bruma outonal.
Perdi a morte e a vida,
E, louco, não enlouqueço...
A hora foge vivida
Eu sigo-a, mas permaneço...
Castelos desmantelados,
Leões alados sem juba...
Mário de Sá-Carneiro (1890-1916)
Paris, Maio de 1913
Trabalho de grupo poético
Perdi-me dentro de mim
porque eu era labirinto
Por entre caminhos torpes
Pelas dúvidas que sinto
Peguei nas minhas amarras
E desfi-las para ti
Estou perdido mas sou livre
Podes levar-me daqui
E liberto-me de mim
Para me entregar a ti
Labirinto que senti
Já não sinto, já fugi
Nem sou meu nem de ninguém
Sou apenas um caminho
Esvoaço pelo mundo
Onde estou, estou sózinho.
Céu, Raquel e Elza
porque eu era labirinto
Por entre caminhos torpes
Pelas dúvidas que sinto
Peguei nas minhas amarras
E desfi-las para ti
Estou perdido mas sou livre
Podes levar-me daqui
E liberto-me de mim
Para me entregar a ti
Labirinto que senti
Já não sinto, já fugi
Nem sou meu nem de ninguém
Sou apenas um caminho
Esvoaço pelo mundo
Onde estou, estou sózinho.
Céu, Raquel e Elza
quinta-feira, 23 de outubro de 2008
Simetria de iguais
Entrança as mãos em argola,
enlaça-me
pelo istmo da península
da mente.
Encosta os lábios de Eva
no movimento ascendente
da maçã
do primeiro homem!
Eleva-te
suave e nua,
qual pilastra de mármore branco,
em mogno Verão,
estilo império
dos sentidos...
Demora-te nesse abraço
enquanto me deito no chão,
afago ventre,
acaricio o reverso,
transformando essas montanhas
em faísca cintilante,
em descoberta,
em sedução!
Simetria de iguais
no desejo a renascer,
mistura de corpos sábios,
ávidos de ser,
em uníssono
Hino!
enlaça-me
pelo istmo da península
da mente.
Encosta os lábios de Eva
no movimento ascendente
da maçã
do primeiro homem!
Eleva-te
suave e nua,
qual pilastra de mármore branco,
em mogno Verão,
estilo império
dos sentidos...
Demora-te nesse abraço
enquanto me deito no chão,
afago ventre,
acaricio o reverso,
transformando essas montanhas
em faísca cintilante,
em descoberta,
em sedução!
Simetria de iguais
no desejo a renascer,
mistura de corpos sábios,
ávidos de ser,
em uníssono
Hino!
Poesia ao desafio
Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
se inventam miragens
descobrem passagens
em labirintos de murta verde,
esmeraldas em brilhos de Lua
iluminam alma, mente, coração.
Dai-me uma jovem mulher em trança enfeitada
numa dança de estrelas de manto de noite
viverei fantasias de amor;
ao teu lado minha virgem, ardor
de lava incandesce
dando a meu ser
os motivos de mistério
os segredos de mulher!
Segundo desafio em poesia
Perdi-me dentro de mim
porque eu era labirinto
encontrei nosso feitiço
sem sombra e sem mistério
Perdi-me dentro de mim
como aranha em teia feita
em caminho de vazios
em vazios sem caminho
dentro de nós encontramos
outros liames mais finos
em textura enredados
procuramos o caminho
Fim
Depois de alguma inspiração, expiração,
pouca transpiração(estava frio!)e muita divagação,
escreveram os companheiros:
Auxilia, Eugénia, Teresa e José
e seu arbusto de sangue. Com ela
se inventam miragens
descobrem passagens
em labirintos de murta verde,
esmeraldas em brilhos de Lua
iluminam alma, mente, coração.
Dai-me uma jovem mulher em trança enfeitada
numa dança de estrelas de manto de noite
viverei fantasias de amor;
ao teu lado minha virgem, ardor
de lava incandesce
dando a meu ser
os motivos de mistério
os segredos de mulher!
Segundo desafio em poesia
Perdi-me dentro de mim
porque eu era labirinto
encontrei nosso feitiço
sem sombra e sem mistério
Perdi-me dentro de mim
como aranha em teia feita
em caminho de vazios
em vazios sem caminho
dentro de nós encontramos
outros liames mais finos
em textura enredados
procuramos o caminho
Fim
Depois de alguma inspiração, expiração,
pouca transpiração(estava frio!)e muita divagação,
escreveram os companheiros:
Auxilia, Eugénia, Teresa e José
Poesia em triângulo...
A partir do mote:
Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto
aqui fica o poema conseguido:
Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto
Tortuoso, escuro, sem fim
Confesso que não me sinto
Tão feliz dentro de mim
Nem dentro do meu caminho
E nem sei porque é assim.
E não sei sair de mim
Nem como aqui vim parar
Mas aqui estou a cismar
Como me perdi assim
Nestes caminhos de mim.
Labirinto que é só meu
E fui eu quem se perdeu.
Maria de Los Angeles, José Silva
e Maria Celeste
Publicada por Maria Celeste
Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto
aqui fica o poema conseguido:
Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto
Tortuoso, escuro, sem fim
Confesso que não me sinto
Tão feliz dentro de mim
Nem dentro do meu caminho
E nem sei porque é assim.
E não sei sair de mim
Nem como aqui vim parar
Mas aqui estou a cismar
Como me perdi assim
Nestes caminhos de mim.
Labirinto que é só meu
E fui eu quem se perdeu.
Maria de Los Angeles, José Silva
e Maria Celeste
Publicada por Maria Celeste
quarta-feira, 22 de outubro de 2008
Segredos de Mulher (Women's Secret)
Só para voltar ao meu papel de homem sem disfarces vou partilhar convosco este passeio!
Segredos de Mulher (Women's Secret)
Tarde de Outono na baixa da cidade
passámos as fronteiras
do "Segredos de Mulher".
De passos lentos, fui único
entre manequins de redondas formas.
Cruzei o olhar nos seios ausentes
de "soutien",
nas transparências e opacidades
de calcinhas.
Remexi as concavidades das gavetas
na procura das meias altas,
cor verde,
das calças de pirata!
Bati asas ao "Tweety"
das camisas de dormir,
pisquei o olho, sorri,
à "Betty-Boop"
no "underware" decotado!
Os ruídos das lojas de senhoras
são feitos de murmúrios,
de sussurros de tamanhos;
preferências escondidas!
As chinelas de riscas azuis,
as de caraculo, quentinhas,
batem palmas de pés,
ao único homem,
junto às provas, nas cortinas!
Duas amigas,
uma de "Babby Doll",
botas pretas,
outra de menor graça,
em alturas distintas, de roupão,
em trajes de roupas finas!
Por cima das lentes obrigatórias,
na leitura do M, S, XS,...
enquanto estendia a mão
dentro do teu espaço
(procura de forma, medida certa)
formulo dúvidas:
"-Acha bem? Sem a pele solta
no deslizar interior?
Um roupão beige?
Meia preta?"
Cansei de gestos comprometidos.
Encosto o queixo aos quadrados
do casaco alcochoado, sem mangas,
sem braços, sem corpo...
junto à montra dos glúteos,
do triângulo, fio dental.
No azul que acinzenta,
espero a noite;
na mesma cor "wonder-bra"
que, feliz, te aconchega
a fina seda!
Sobe o autocarro contrário,
em Santa Catarina,
de cor branca...
entram mãe e filha,
de roupa e cabelo gémeas...
Por fim,
surges luminosa,
no rosto de moldura,
nos caracóis de musa...
E na calçada nua,
um espelho de prata,
de mão dada
a alva Lua!
Segredos de Mulher (Women's Secret)
Tarde de Outono na baixa da cidade
passámos as fronteiras
do "Segredos de Mulher".
De passos lentos, fui único
entre manequins de redondas formas.
Cruzei o olhar nos seios ausentes
de "soutien",
nas transparências e opacidades
de calcinhas.
Remexi as concavidades das gavetas
na procura das meias altas,
cor verde,
das calças de pirata!
Bati asas ao "Tweety"
das camisas de dormir,
pisquei o olho, sorri,
à "Betty-Boop"
no "underware" decotado!
Os ruídos das lojas de senhoras
são feitos de murmúrios,
de sussurros de tamanhos;
preferências escondidas!
As chinelas de riscas azuis,
as de caraculo, quentinhas,
batem palmas de pés,
ao único homem,
junto às provas, nas cortinas!
Duas amigas,
uma de "Babby Doll",
botas pretas,
outra de menor graça,
em alturas distintas, de roupão,
em trajes de roupas finas!
Por cima das lentes obrigatórias,
na leitura do M, S, XS,...
enquanto estendia a mão
dentro do teu espaço
(procura de forma, medida certa)
formulo dúvidas:
"-Acha bem? Sem a pele solta
no deslizar interior?
Um roupão beige?
Meia preta?"
Cansei de gestos comprometidos.
Encosto o queixo aos quadrados
do casaco alcochoado, sem mangas,
sem braços, sem corpo...
junto à montra dos glúteos,
do triângulo, fio dental.
No azul que acinzenta,
espero a noite;
na mesma cor "wonder-bra"
que, feliz, te aconchega
a fina seda!
Sobe o autocarro contrário,
em Santa Catarina,
de cor branca...
entram mãe e filha,
de roupa e cabelo gémeas...
Por fim,
surges luminosa,
no rosto de moldura,
nos caracóis de musa...
E na calçada nua,
um espelho de prata,
de mão dada
a alva Lua!
companheiros, na tentativa de fazer o trabalho de casa acabei fazendo a continuação do mesmo. no lugar da certeza, saiu-me a ambiguidade.
este exercício deu-me uma enorme vontade de escrever sobre a dança, porque nela tenho momentos onde nao existem palavras, nem tempo, nem espaço. neste poema em específico, quem vos parece que guia? e quem é guiado? gostava de ouvir opiniões.
Mal sei o chão sob os nossos pés
Ou as paredes espectadoras da nossa dança.
Agora – o único tempo que existe –
Sou a leve pressão do teu corpo,
A mão que se aninha no espaço entre as tuas costelas brancas,
A outra que sustenta a tua, flor tão suave;
O corpo que te envolve e protege,
Os pés que te guiam com destreza.
Abrigas timidamente o teu queixo no meu ombro.
Sinto o teu respirar húmido sussurrar-me ao ouvido
e o teu cabelo passear-se no meu rosto.
Será de quem, o coração que se ouve?
sara riobom
este exercício deu-me uma enorme vontade de escrever sobre a dança, porque nela tenho momentos onde nao existem palavras, nem tempo, nem espaço. neste poema em específico, quem vos parece que guia? e quem é guiado? gostava de ouvir opiniões.
Mal sei o chão sob os nossos pés
Ou as paredes espectadoras da nossa dança.
Agora – o único tempo que existe –
Sou a leve pressão do teu corpo,
A mão que se aninha no espaço entre as tuas costelas brancas,
A outra que sustenta a tua, flor tão suave;
O corpo que te envolve e protege,
Os pés que te guiam com destreza.
Abrigas timidamente o teu queixo no meu ombro.
Sinto o teu respirar húmido sussurrar-me ao ouvido
e o teu cabelo passear-se no meu rosto.
Será de quem, o coração que se ouve?
sara riobom
Fuga Silenciosa
Pela noite além,
eu , só, vagueio
em um lento e lasso vaguear,
para em silêncio escapar
a este longo e vasto
inferno de mágoas!...
O sono me não cerca
nesta noite sem luar,
que só me dá para errar,
sempre, sempre... sem parar.
Não se me dá p'ra cuidar...
E sigo sem um alento,
pois que sem tal sofrimento
coragem não hei p'ra viver...
Só um vago pensamento
em mim há muito existe...
Não se me dá p'ra parar
e muito menos p'ra recuar!
Só cansaço em mim há
mas persigo caminho além,
só, pela noite agreste,
só, sem mais ninguém,
sem esperança já de salvamento,
sem poder agora, enfim,
para sempre só esquecer
este tormentoso tormento!...
Só vontade hei de seguir,
que um nada me fará desistir.
O caminho é longo, sem fim,
sem paragens,
sem obstáculos quaisquer!...
Mas forte fadiga me invade,
que em pé me não seguro!...
E não me foi dado que um fim desse
a meu inconcebível sonhar,
não consegui a liberdade
que dela hei tanta saudade!
...Mas mais uma vez entendi
que se a prisão do que a morte
é, na verdade, mais forte,
é pior estar-se preso
do que ( na vida) já morto!
(Luanda 1965 - in "Eu e o Silêncio" (1994/2008 )
Poema em geito de despedida deste Blog...mas
não significa fuga!...
eu , só, vagueio
em um lento e lasso vaguear,
para em silêncio escapar
a este longo e vasto
inferno de mágoas!...
O sono me não cerca
nesta noite sem luar,
que só me dá para errar,
sempre, sempre... sem parar.
Não se me dá p'ra cuidar...
E sigo sem um alento,
pois que sem tal sofrimento
coragem não hei p'ra viver...
Só um vago pensamento
em mim há muito existe...
Não se me dá p'ra parar
e muito menos p'ra recuar!
Só cansaço em mim há
mas persigo caminho além,
só, pela noite agreste,
só, sem mais ninguém,
sem esperança já de salvamento,
sem poder agora, enfim,
para sempre só esquecer
este tormentoso tormento!...
Só vontade hei de seguir,
que um nada me fará desistir.
O caminho é longo, sem fim,
sem paragens,
sem obstáculos quaisquer!...
Mas forte fadiga me invade,
que em pé me não seguro!...
E não me foi dado que um fim desse
a meu inconcebível sonhar,
não consegui a liberdade
que dela hei tanta saudade!
...Mas mais uma vez entendi
que se a prisão do que a morte
é, na verdade, mais forte,
é pior estar-se preso
do que ( na vida) já morto!
(Luanda 1965 - in "Eu e o Silêncio" (1994/2008 )
Poema em geito de despedida deste Blog...mas
não significa fuga!...
4º trabalho de casa - O Maltratador
O maltratador
Levanta,amor, levanta
São horas de jantar
Tira a faca daí!
Por que não me respondes?
Diz, onde estavas?
Tu sabes que adoro ver-te em casa
quando chego do jogo.
Deitada assim no chão
atinges os teus ángulos mais belos...
Sabes , meu bem , que eu gosto de ti...
Que estaremos juntinhos para sempre
E que a minha força eterna e excessiva te protege
Essa expressão dos teus olhos mete medo.
Anda, levanta-te.
São horas de jantar, não ouves?
Mexe-te.
Foi só um empurrão.
Eu trouxe-te o pão e o vinho.
Há trinta que casamos, lembras?
E continuas
cosmeticamente perfeita,
em formas, em volumes e em conversas.
És tão desejável...
Acorda, amor, acorda
São horas de jantar
Limpa o sangue ...do teu corpo.
Levanta,amor, levanta
São horas de jantar
Tira a faca daí!
Por que não me respondes?
Diz, onde estavas?
Tu sabes que adoro ver-te em casa
quando chego do jogo.
Deitada assim no chão
atinges os teus ángulos mais belos...
Sabes , meu bem , que eu gosto de ti...
Que estaremos juntinhos para sempre
E que a minha força eterna e excessiva te protege
Essa expressão dos teus olhos mete medo.
Anda, levanta-te.
São horas de jantar, não ouves?
Mexe-te.
Foi só um empurrão.
Eu trouxe-te o pão e o vinho.
Há trinta que casamos, lembras?
E continuas
cosmeticamente perfeita,
em formas, em volumes e em conversas.
És tão desejável...
Acorda, amor, acorda
São horas de jantar
Limpa o sangue ...do teu corpo.
4º Trabalho de Casa
Prostrado em cachimbadas solitárias
Olhava o rio e as coisas de nada.
Era velho.
Velhas as coisas, velhas as almas, velho o poeta.
Havia de ser Maio todos os dias
E ver-te enlaçada em vestidos de vento e de papoilas.
Poder olhar-te com a mesma certeza de outrora
de que não era velho, nem velha era a alma de agora.
Sem pesos, sem velhice aberta
em escombros.
Não quero mais levar aos ombros a poeira das gavetas!
Pudera eu abrir-me em portas
E ventos e borboletas!
Ou quando Deus fechar a porta abrir sempre uma janela,
ou um poema.
Ou versos feitos de outro tema.
Que com versos hei de olhar-te mais de perto
Sem pegadas, rastos de anos e fogueiras!
Olhar as curvas certas da tua poeira.
E assim esconder as barbas que branqueiam a poesia
Assim mudar-te as cores e roubar-te a companhia
Depois esfumar-te a idade e os momentos que são nossos.
E não ser velho.
E não ser homem.
Apenas ossos.
José Sarmento
(Maria Inês Beires)
Olhava o rio e as coisas de nada.
Era velho.
Velhas as coisas, velhas as almas, velho o poeta.
Havia de ser Maio todos os dias
E ver-te enlaçada em vestidos de vento e de papoilas.
Poder olhar-te com a mesma certeza de outrora
de que não era velho, nem velha era a alma de agora.
Sem pesos, sem velhice aberta
em escombros.
Não quero mais levar aos ombros a poeira das gavetas!
Pudera eu abrir-me em portas
E ventos e borboletas!
Ou quando Deus fechar a porta abrir sempre uma janela,
ou um poema.
Ou versos feitos de outro tema.
Que com versos hei de olhar-te mais de perto
Sem pegadas, rastos de anos e fogueiras!
Olhar as curvas certas da tua poeira.
E assim esconder as barbas que branqueiam a poesia
Assim mudar-te as cores e roubar-te a companhia
Depois esfumar-te a idade e os momentos que são nossos.
E não ser velho.
E não ser homem.
Apenas ossos.
José Sarmento
(Maria Inês Beires)
Vem ver meu amor
As estrelas lá longe
Piscando-nos os olhos
Como um círio a arder!
Vem ver meu amor
As estrelas lá longe
Vestidas de mar
Cantam melodias
Como as sereias
Nas marés vazias
Canções de encantar
Por dentro da gente
E do sofrimento!
Vem ver meu amor
As estrelas lá longe
Morrem de cansadas
Caindo no mar
E nas enseadas
Como peixes de prata
Nas altas marés
Ondas encrespadas
Por dentro da gente
E aos nossos pés!
Vem ver meu amor
Lá longe as estrelas
Vem comigo vê-las!
José Almeida da Silva
In " Amanheceste em mim pelo poente"
Publicado por Maria Celeste Carvalho
Nota: E é assim, com este lindíssimo poema,
que dou por terminada a minha participação
neste blog, dedicado à Poesia!
M.C.
As estrelas lá longe
Piscando-nos os olhos
Como um círio a arder!
Vem ver meu amor
As estrelas lá longe
Vestidas de mar
Cantam melodias
Como as sereias
Nas marés vazias
Canções de encantar
Por dentro da gente
E do sofrimento!
Vem ver meu amor
As estrelas lá longe
Morrem de cansadas
Caindo no mar
E nas enseadas
Como peixes de prata
Nas altas marés
Ondas encrespadas
Por dentro da gente
E aos nossos pés!
Vem ver meu amor
Lá longe as estrelas
Vem comigo vê-las!
José Almeida da Silva
In " Amanheceste em mim pelo poente"
Publicado por Maria Celeste Carvalho
Nota: E é assim, com este lindíssimo poema,
que dou por terminada a minha participação
neste blog, dedicado à Poesia!
M.C.
terça-feira, 21 de outubro de 2008
Balacete da semana
Que semana!
O chefe a pedir tudo para ontem. Os miúdos doentes. A Joana irrascível : leva- os tu ao Colégio! Não vês que vou ficar com o bébé? Não posso fazer tudo! Não poderias deixar o jornal? (até disse no condicional, só para me arreliar). Ajuda!
Bolas, nunca mais era sábado.
Bendita saída de amigos. Bendita liberdade.
Sorte amanhã haver futebol, se não eu dava em doido.
-João, assiste! Estás na lua? Já pareces a minha mulher, sempre a pensar no Além.Perdemos esta vasa por tua causa, daqui a pouco perdemos o jogo.Concentra-te, homem! Não me digas que hoje nem na sueca tenho sorte. Tive uma semana carregadinha de trabalho, e sai-me este destrambelhado para estragar também o serão. Quando é de azar, é de azar, pô.
Estou a ver. Nem na sueca tenho sorte. O Alfredo também está com problemas em casa, e vem cá descarregar. É tudo muito bonito, mas os putos crescem, o dinheiro falta, o trabalho sobra, e nós é que aguentamos.
Amanhã, pelo sim pelo não, vou à bola. Se o Porto perde, ah caramba, que se o Porto perde outra vez então é que eu destilo a raiva.
Pelo Porto e por mim.
M.Teresa Ribeiro
O chefe a pedir tudo para ontem. Os miúdos doentes. A Joana irrascível : leva- os tu ao Colégio! Não vês que vou ficar com o bébé? Não posso fazer tudo! Não poderias deixar o jornal? (até disse no condicional, só para me arreliar). Ajuda!
Bolas, nunca mais era sábado.
Bendita saída de amigos. Bendita liberdade.
Sorte amanhã haver futebol, se não eu dava em doido.
-João, assiste! Estás na lua? Já pareces a minha mulher, sempre a pensar no Além.Perdemos esta vasa por tua causa, daqui a pouco perdemos o jogo.Concentra-te, homem! Não me digas que hoje nem na sueca tenho sorte. Tive uma semana carregadinha de trabalho, e sai-me este destrambelhado para estragar também o serão. Quando é de azar, é de azar, pô.
Estou a ver. Nem na sueca tenho sorte. O Alfredo também está com problemas em casa, e vem cá descarregar. É tudo muito bonito, mas os putos crescem, o dinheiro falta, o trabalho sobra, e nós é que aguentamos.
Amanhã, pelo sim pelo não, vou à bola. Se o Porto perde, ah caramba, que se o Porto perde outra vez então é que eu destilo a raiva.
Pelo Porto e por mim.
M.Teresa Ribeiro
Oh mar !
Lago do azeite de deuses ou do fogo dos infernos,
Com o som calmo de suas ondas ou o ribombar das suas investidas,
O mar conduz- nos do nascer à eternidade.
Oh mar!
Quantos Homens se perderam nas sereias que carregas,
Quantas donzelas cairam nos braços de teu amor ?
Tens melodias divinas, raios de prata, ritmo extasiante.
Mas sabes também ser duro,rugindo de raiva e tudo levando.
Oh mar!
Sem ti o mundo parava
O lápis quebrava
A musa fugia
Fica, oh mar!
Ainda que o Homem te destrua,
Não vás para longe,
Oh mar!
Com o som calmo de suas ondas ou o ribombar das suas investidas,
O mar conduz- nos do nascer à eternidade.
Oh mar!
Quantos Homens se perderam nas sereias que carregas,
Quantas donzelas cairam nos braços de teu amor ?
Tens melodias divinas, raios de prata, ritmo extasiante.
Mas sabes também ser duro,rugindo de raiva e tudo levando.
Oh mar!
Sem ti o mundo parava
O lápis quebrava
A musa fugia
Fica, oh mar!
Ainda que o Homem te destrua,
Não vás para longe,
Oh mar!
Intrusa
Mal entrou, o ar encheu-se de um forte cheiro a volúpia que confundiu o religioso aroma dos nossos cachimbos. Violentamente, a pacatez morna do clube foi sacudida pelo estouvamento atrevido e delicioso da sua voz. Foram poucas as palavras, mas todas deixaram adivinhar uma vida sem morada certa, com errâncias inesgotáveis pelo sentir. O andar firme, os gestos desleixados, o vestido que mais parecia uma segunda pele e que despertaria inveja a um qualquer olhar feminino, não deixaram nenhum de nós indiferente. Diria mais. Incendiaram os mais adormecidos desejos. Provocaram as mais disfarçadas intumescências. Profanaram os mais puros sentires. Que destino lhe (nos) estaria reservado?
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