Prostrado em cachimbadas solitárias
Olhava o rio e as coisas de nada.
Era velho.
Velhas as coisas, velhas as almas, velho o poeta.
Havia de ser Maio todos os dias
E ver-te enlaçada em vestidos de vento e de papoilas.
Poder olhar-te com a mesma certeza de outrora
de que não era velho, nem velha era a alma de agora.
Sem pesos, sem velhice aberta
em escombros.
Não quero mais levar aos ombros a poeira das gavetas!
Pudera eu abrir-me em portas
E ventos e borboletas!
Ou quando Deus fechar a porta abrir sempre uma janela,
ou um poema.
Ou versos feitos de outro tema.
Que com versos hei de olhar-te mais de perto
Sem pegadas, rastos de anos e fogueiras!
Olhar as curvas certas da tua poeira.
E assim esconder as barbas que branqueiam a poesia
Assim mudar-te as cores e roubar-te a companhia
Depois esfumar-te a idade e os momentos que são nossos.
E não ser velho.
E não ser homem.
Apenas ossos.
José Sarmento
(Maria Inês Beires)
4 comentários:
Lindíssimo. Excelente. A eternidade do efémero.
«... com versos hei-de olhar-te mais de perto», «E assim esconder as barbas que branqueiam a poesia». Que beleza!
Parabéns, Inês.
muito bonito o seu texto, Inês! esse verso que o José refere é, de facto, feliz. e gostei imenso do final!
Um poema surpreendente e original onde se mistura melancolia, saudade e ao mesmo tempo a revolta: "não quero mais levar aos ombros a poeira das gavetas".
Muito bonito e deslumbraste de novo!Parabéns!
Um poema encantador... Parabéns!
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