domingo, 3 de junho de 2012

O vagar


O vagar do que dizia soava ao escorrer do azeite, no lagar da ainda aldeia. No entanto, não morrera ele no chão, onde caíram as azeitonas deixadas. As que não se apanharam deram-se à terra. E ele ficou, com quem ficou, mas foi como azeite entornado fora de prato. Aceitou, mesmo depois de entender, até ao fim. É isso o que mais lamento.
Quase incógnito, impotente, como tantas mulheres de todos os tempos, e na inversão de papéis, mesmo assim, quando disse que não, foi não. Essas poucas ocasiões foram poucas demais, mas há quem se lembre.
Os tempos de hoje são parecidos aos dele em muitos lugares, é isso que me surpreende muitas vezes.
E se tudo pode mudar, deu o aviso, o que não muda. E o vagar do que dizia soa ainda como azeite, verde, velho, sensato, e a tempo, mesmo que ele morto. Morreu fora de casa e fora de terra. No entanto, ironicamente, ficou a esperança nesse aviso, e também tanto a agradecer. 
Anabela Couto Brasinha

sábado, 2 de junho de 2012

Poema

A poesia está guardada nas palavras - é tudo que
eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as
insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado e chorei.
Sou fraco para elogios.


Manoel de Barros

Aqui vai o "exercício" com um sorriso para a inspiradora Ana Janeiro

AZeite

Ah!
Bentas, pois!
Cegueira total.
Dê para onde der,
É.
Fogeee! Foi por um passo.
Gueto, o cansaço dado,
Há que animar.
Ida, e que travessia!
Jesssusss!

Ler a mente, só o que é preciso,
Maluquice é o que há mais, e
Não falta muito, deleite.
O verde suave não afoga.
Pelas cores do céu que trocaram,
Que ficou sempre fim de tarde,
Restam.
Sem esperar nada,
Também não há fim ou princípio.
Uaaau! É bonito ver como se move o azeite!

Voz vai dizendo, música,
Xilofones; os tolos, esses,
Zombam. Amor não traz dor, isso é outra coisa.

Aí azeite
fui rua fora, até que entrei casa dentro. o zig zag na TV, não pensei se tropecei,
Azelha eu!
corro para os tachos fazer  arco-íris, e foguetes, a grande festa. não há nada como o azeite, verde garrafa, e desculpa, esvaziei ontem a última garrafa de outra coisa, e é forte o azeite, aquilo é condimento, alimenta, e nada faz falta aqui.



acordei com os braços em cima dos teus seios
olhando a encosta, junto do carro vermelho.
foi aí uma hora e pouco nos mexemos;
as mãos em silêncio, as asas sem medo -

o planar dos melros por cima dos pinheiros
era um  lago parado na cor dos espelhos,

 e por vezes os lábios
como borboletas –

josé ferreira 2 junho 2012

sexta-feira, 1 de junho de 2012

7

                                Katerina Bodrunova

Fecham-se as persianas
À ternura urge o lusco-fusco.
E os olhares ácidos
Do crepúsculo
Não saboreiam
Silêncios subtis
Num sabor feito de ardor
E arco-íris.

Fecham-se as persianas.
A ternura invade o chão nu
Numa união sempre original
De corpos doces a saber a sal.

Fecham-se as persianas.
Arde a luz.

                                10.07.1991

José Almeida Silva in Amanheceste em mim pelo poente, Editora Moura Pinto, 2007

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Portugal_idade


Engarrafado na oliveira,
à mais de 100 anos,
o Gallo canta
Azeite!
Resolve à batatada
qualquer jantar

Ai que saudades da caldeirada!

e depois é manhã



                              Lillian Bassman "Carmen having tea" 1950



e depois é manhã, uma manhã resplandecente
depois da madrugada com as palavras debaixo do corpo
ainda morno e é primavera –

os teus olhos abrem-se na dificuldade dos braços espalhados
a perna esquerda levantada, a direita esticada, a tocar as dobras
uma profundidade –

e os meus da mesma forma –

e  é manhã, a manhã depois do sonho das fadas
das estrelas brilhantes, da lua branca, das tuas palavras
sem durezas, macias como uma espuma a tocar areias
e o mar afaga, e é longo –

guardo-te todos os diamantes, os que são líquidos, os sossegos mais claros
aqueles que compõem a alma, que lhe secam as lágrimas
aqueles que têm mãos e abraçam as omoplatas
as suas partes mais ósseas, para que sejam mais brandas
menos pesadas –

e depois é manhã, uma manhã de dedos e margens
que acenam e constroem pontes –

as nuvens são uma promessa
de trazerem alguma sombra e de darem um pouco de azul sem que outros vejam
um azul que estilhaça as cavernas, os fantasmas mais perversos
os limites do tempo na época dos frutos –

 e depois é manhã, a manhã resplandecente, sempre
até que um sinal de fumo anuncie a noite
o seu veludo, a rotação dos astros influentes
e resistentes
e eternamente iluminados –

e depois é manhã dentro do meu peito
no compasso imperfeito do sono, o círculo sem medo
que acorda o mármore dos templos e a deusa no seu manto

e as estrelas
e as estrelas –


 josé ferreira 31 maio 2012

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Amanhecer na luz

Há na cor invisível da pura luz a forma
O quente laço do olhar a embalar angústias

Os medos são monstros transparentes
Capas de ilusão maciça sem dono

(sinto os ossos mais fortes quando ris)

A matéria osteoblástica da tua força
Um mistério da metafísica

Cresço num gigante de sorrisos
(um abraço forte, forte)

Os monstros transparentes fogem, fogem
São tão pequenos à visível luz
O amor é a antiforma

( a matéria é uma ilusão arcaica)

O amor
Embala os barcos coloridos na nossa praia

(A luz cresce, cresce)

A verdade sobre os guarda-chuvas














A verdade sobre os guarda-chuvas

A chuva voltou de entre nuvens de fogo – amanhã
Vai estar calor, o céu tem nuvens róseas, o negro
Que as circunda é quadro para as mostrar aos olhares
Nuas – uma beleza inesperada na tempestade oculta
Por dentro das nuvens – tanta chuva por chover recolhida
Na abóbada que devia ainda ser azul celeste pouco antes
Do crepúsculo. A chuva há de chegar com bagas grossas,
Ou miudinhas, forte e fustigada pelo vento norte enregelado
De frio como vagas encrespadas de um súbito mar enfurecido –

E eu estou à janela esperando contemplar o espetáculo tão belo
E singular que as nuvens sempre oferecem no final do ciclo da água
– Não acho piada nenhuma aos guarda-chuvas de todos os tamanhos
E cores. Os guarda-chuvas impedem que a Natureza se mostre no seu
Esplendor e que a chuva lave as impurezas que as cidades depositam
Nos homens – A sujidade assim agarra-se à pele e instala-se no coração
E até na alma – Um incómodo para a chuva miudinha que tem de fazer
Muito mais esforço. Não sei bem para que servem os guarda-chuvas.
Não guardam nada e não deixam que a chuva se cumpra na sua função.

Estava eu debruçado na janela quando a chuva começou a cair a rodos.
Fechei a janela e saí para a rua – precisava de me lavar, e não me manter
Ali abrigado como se abrisse um guarda-chuva e deixasse as impurezas
Agarrarem-se a mim como lapas nos rochedos ou bolores nas paredes.

Todo molhado, da cabeça aos pés, sentia-me lavado e leve, e comecei a
Chamar por toda a gente como se estivesse a suplicar aos céus a bênção
Da água quando as secas se abatem sobre as florestas como furiosos fogos
Devastadores de mãos sujas. As pessoas vieram mas trouxeram os usuais
Guarda-chuvas e as botas de borracha. E eu fiquei sozinho no meio delas.
Parou de chover, e eu ri muito da inutilidade dos guarda-chuvas. Como o azeite,

Toda a verdade ilumina o poema, lucerna de sons, de ideias e versos acesos –
                                                                                                                           (2012.03.06)
                                                                                                                                      José Almeida da Silva

segunda-feira, 28 de maio de 2012

O Teu Amor



Amor escrito a densidade
Ziguezague em pura luz
Envolve de ouro a saudade
Impregna de estrelas a pele
Transformando em liberdade
Etéreos sonhos de papel.

Amor corpo inteiro em céu
Zela a noite em nu abraço
Espaço de poente a par
Ilumina gigante a fantasia
Teu amor é terra e laço
Escreve em meu colo poesia.

A história de como o Azeite

.

..
Dom Azeite Azeitoninho de Monte-Plano Lampante
          [ Reguengos de Oliveira Carocilho e Alarcão
Era um senhor rubicundo
e profundamente careca
que vivia numa ramada seca
em Azeitão.
.
Falava imenso,
sempre muito alto –
com a sua cara de pele lustrosa
virada para cima a brilhar –
na toada discursiva
de quem sabe tudo,
peito inchado,
sobrolho franzido e
braços a gesticular.
.
Gabava-se de ser Rei
das Hortas, das Oliveiras e da Criação,
Senhor dos Lagares do Azeite,
rico que nem sabia quanto!
Navegador d’ aquém e d’ além
do Regato Pingado da Rega
Imperador das varetas,
e isto e aquilo e mais que Santo.

Tinha só uma folha pelada
que chamasse sua,
o resto era basófia e
refinadíssimas balelas,
está mesmo bom de ver!
Por dentro
tinha um caroço
preto e duro como os outros,
e sangrava a mesma matéria,
densa e viscosa ao arrefecer.
.
E lá andava muito empinado,
a rebolar por todo o lado,
a arengar à esquerda e à direita
com voz cava de cavalheiro.
Mas houve um dia
em que perdeu a compostura,
estalou-se-lhe o verniz da casca
e mostrou a polpa de arruaceiro:
.
Alguém o chamou
sem as untuosidades de que ele gostava:
- Anda cá, ó Azeitona!
E ele parou de repente
engasgou-se-lhe o caroço,
passou-lhe uma coisa pela vista,
foi direito ao outro e zás!
Acertou-lhe uma tapona.
.
E estavam todos tão cansados
das retóricas e tiques de
Dom Azeite Azeitoninho de Monte-Plano Lampante
          [ Reguengos de Oliveira Carocilho e Alarcão
que foi um deleite:
É que o outro
era maior e não se ficou,
apanhou-o pela largueza da baga,
e apertou
e triturou
e torceu
e espremeu
e sacudiu
até que nada sobrou,
senão uma pocinha de azeite.
.
raquel patriarca | vinteecinco.maio.doismiledoze

domingo, 27 de maio de 2012



de entrada a uma casa pequena ao sol
o estreito movimento de olhos  
o virar da face como remo 
uma casa que é barco por dentro
e arrefece na suspensão de uma festa no cabelo 
sem prestar atenção ao que se acende e se apaga em cada ilha 
ao movimento dos barcos 
quando se despedem dos olhos  
a caminho do espaço comum 
aberto devagar entre as sobrancelhas dos bichos
milímetros paralelos de luz
e cada um para o outro, uma criança -
tem que se falar de luz no sublime cruzar dos olhos dos bichos
não através dos olhos dos mortos nem do alimento do espectro dos livros
sigo com os barcos que fazem desaparecer multidões 
a acenar por dentro dos olhos 
ouve-se um rumor lúcido de um motor suave 
mais ou menos o que há de bom no sol
talvez esteja a chegar
o calor é actualizado a cada instante 
e já não é o calor do sol 
de luz, de avisos
oh meu capitão 
há barcos que vão e vêm vazios


um trompete dança-me agora a medo
sopros abertos por dentro
erguem-me os braços e bailam para longe
é exacta a saudade entre os meus braços 
e as pernas calçadas de margens sem mim
gosto de paisagens
mas entre as minhas pernas e o horizonte
sempre houve danças que não entendo
prefiro a superfície da música 
sem direcção, um gesto em vez de um passo,
o movimento das pernas não pode escrever-te num quarto escuro, 
só mãos a abrir um corpo 
sem pernas o amor é de braços longos capazes de calar a linguagem das árvores
quando já só existe um vento fino ao piano,
os braços não caem 
e um movimento de alegria tem que ondular pelo corpo acima
seguro, quando rodas
os teus braços levantam um pólen tão ordenado como o das abelhas
que recolho nos meus 
e se os vires desvanecer em direcção pouco certa
nesse instante diz-me adeus, como se só as pernas me tivessem partido,
tem cuidado meu amor com a inveja que as palavras têm dos braços
um gesto ouve-se menos que um passo
e o nosso abraço roda sem atrito
vês, como se ergue ligeiramente  
e vai dispersando a terra que lhe cai em cima
os teus braços não são teus 
são duas rezas minhas 

sábado, 26 de maio de 2012

Angelus Markus



ANGELUS MARKUS


Não sei se pela brutalidade da cidade já te cruzaste com Angelus Markus, de pernas grossas, de botas de aço. As biqueiras brilham quando caem os raios mais amarelos e cegam com frequência mulheres e homens de todas as idades.
Angelus Markus tem uma deficiência desapercebida dos mortais, a cabeça não pensa fora de casa. Não sei se te cruzaste com ele num crepúsculo ocasional com os olhos em brasa, de passo após  passo, mecânico e sempre na mesma distância, como um cronómetro poderia facilmente concluir, anotando precisamente que  o espaço  é proporcional ao tempo, seguindo cientificamente a lei de uma física uniforme, uma espécie de cyborg.
Nunca poderias encontrá-lo de t-shirt branca, ou às listas, mesmo que de farmácia ou supermercado, anda sempre com uma gabardine larga que se abre sem vento  e causa o pânico, o arrepio e a náusea, a pressa  de todos os que usam células, de ganharem  asas e atravessarem todos os sinais de sangue nos semáforos vermelhos, no imediato, para outro lado. Por vezes as crianças correm e provocam acidentes como se fugissem de uma discoteca incendiada, deixam os lollipops, os chocolates, cadernos e mesmo os lápis  e fogem com os cabelos levantados, por uma electricidade estática sem memória  e imperdoável .
Angelus Markus nunca vê ninguém, tem neurónios de água fora de casa, não pensa, só ouve ruídos, o marulhar de um mar de tempestades e nunca plano ou de azeite, como os gregos inventaram.
Angelus Markus escuta  as tábuas de naus partidas,  os mastros com dentes, inclinados,  e as velas de trapos, rasgadas como folhas de papel couché ou páginas de jornais genéricos de notícias vulgares, absolutamente fundamentais  na ignição das lareiras provisórias quando há um inferno nas chamas dos ecrãs das televisões regionais, nacionais e globais.
Se  construísses um círculo preciso com ferramentas de Da Vinci, com um compasso gigante, daqueles de sépia ou grafite, à roda do homem, daqueles que ficam para a posteridade, não poderias envolver nunca nessa íris  Angelus Markus. Nunca poderias violar aquele halo, aquele aura magnética de pólos sempre preparados para a projecção e nunca a atractividade. Possui um interruptor automático, mais com mais, negativo com negativo e um curto circuito de ruptura afiada com a dureza dos diamantes, a mais alta das escalas.
 Nunca poderias ver Angelus Markus a descer escadas, desequilibraria a engrenagem e o coração metálico. Os poucos que conseguiram chegar perto do seu perímetro mínimo de dois metros dizem que ouviram um pêndulo e lembram-se de Foucault, é possível que nunca pare.
Angelus Markus provavelmente nunca vai ser desvendado e há-de continuar a sair às cinco horas e trinta e quatro, da casa 25,  de um bairro de cinquenta casas sem nenhum habitante, para além de Angelus. Na entrada, tem um antigo marco de correio, dos que têm um ponteiro e horas paradas. Não consta que alguma vez tenha ali entrado alguma carta, e o último carteiro de que há memória vive numa montanha dos Alpes com uma doença estranha, e não fala.
As saídas ordinárias, pendulares e síncronas, diárias, de Angelus Markus demoram exactamente  43 minutos e sempre que se aproxima da porta do bairro, ela abre e range num grito audível a dois quilómetros de distância como um camião Tir em travagem antes de parar ou chocar, condicionado pelo raio de uma circunferência  com um centro na sua sala junto  da floreira de cristal d’Arques, que tem sempre a mesma rosa vermelha, sem água e absolutamente natural. As pétalas nunca caem.
Não sei se já foste projectado a mais de dois metros de distância por Angelus Markus, se alguma vez o encontraste mesmo que ao longe como os pássaros e poderia continuar a falar-te dele por toda uma eternidade, mas ele chegou mesmo agora  com as portas chiando nas rotações severas e ruidosas,  e  com um óleo dos silêncios. Já não interessa, porque quando entra em casa e se senta no sofá de pele coçada de carneiro, retira os olhos e põe-nos em cima da mesa, desloca o joelho, abre um fecho de mola e usa a tíbia e o perónio como bengala, e estende a mão para a rosa vermelha que fica hirta depois de estar 43 minutos inclinada.
Angelus Markus não usa facas nem diz mal de ninguém, ele nunca fala, não bebe nem cozinha massa, mas dentro de casa, apesar de sobrenatural,  pensa  e tem alma, ao contrário dos quarenta e três minutos frios e metálicos como um robot pela cidade.
 A curiosidade deste personagem, Angelus Markus, não é o estar dentro de casa e poder comover-se com as rosas vegetais ou com uma paisagem caliente da Toscânia num velho calendário de 1934, que não vê mas agora pensa, e sabe do seu lugar na prateleira setenta  e cinco há direita  de quem entra, pelo lado mais claro do subconsciente, um local muito húmido que ainda liberta adrenalinas. Memórias provavelmente muito antigas ou roubadas a alguém que foi projectado ontem ou hoje contra um a parede,  memórias que faz dele e que outros  têm .  Mas essas memórias não atraem ninguém, nem sequer as crianças de cabelos eriçados. A sua figura esvoaçante de gabardine e olhos de chama interessam a toda a gente, é um desafio de um acto social, é importante. Por isso é bom que o encontres num lugar público com os seus olhos falsos de brasas, ao longo da larga circunferência das calçadas,  junto  ao bairro deserto, para que sintas a emoção de um murro acre nas paredes do estômago  e  nos teus valores fundamentais, e isso é reportável, e isso é muito interessante  e isso é uma nódoa apreciável.
 Se no entretanto não o encontrares nunca, não estranhes nem deixes de tomar o café no local habitual, não deixes de comprar o plástico das headlines e não deixes de sorrir aos dentes brancos de todas as Stars. Quanto às outras, aquelas que pousam no ar na noite mais aveludada, quanto às outras quando ficarem menos cintilantes, quando numa noite sem memórias, uma noite cáustica, quando todas as estrelas por alguns momentos ficarem menos brancas e mais baças, quase apagadas,  saberás que Angelus Markus morreu e não foi enterrado. Só daí a duas semanas, meses ou anos se saberá.
Ou pelo contrário sem a falta de um azeite celular e com o clássico óleo de lubrificar, será imortal, e permanecerá para sempre num qualquer bairro desconhecido e no qual não mereces morar, porque há quem diga que o pêndulo inicia o movimento e sem atrito, não parará.

José Ferreira

P.S. Este texto e outros poemas que aqui vão aparecer nos próximos dias resultam de mais um encontro dos fazedores deste blog, com Ana Luísa Amaral, subordinado ao tema "azeite", e com um desafio suplementar de cada um tentar sair do seu próprio estilo e tentar surpreender os outros. Este texto foi a minha proposta

sexta-feira, 25 de maio de 2012




Mostrai-me de uma pátria à outra
o infinito fio da vida
cosendo o fato da primavera.
Mostrai-me uma máquina pura,
azul de aço sobre o grosso azeite,
pronta para avançar nos trigais.
Mostrai-me o rosto cheio de raízes
de Leonardo, porque esse rosto
é a vossa geografia,
e no alto dos montes,
tantas vezes descritos e pintados,
as vossas bandeiras juntas
recebendo
o vento electrizado.
Do volga fecundo trazei água
à água do Arno dourado.
Trazei sementas brancas
da ressurreição da Polónia,
e das vossas vinhas levai
o doce fogo vermelho
ao Norte nevado!
Eu, americano, filho
das mais vastas solidões humanas,
vim conhecer a vossa vida
e não a morte, e não a morte!
Não atravessei o oceano,
nem as mortais cordilheiras,
nem a pestilência das prisões paraguaias,
para vir ver
ao pé dos mirtos que só conhecia
nos livros amados,
as vossas órbitas sem olhos e o vosso sangue seco
nos caminhos.
Ao mel antigo e ao novo
esplendor da vida é que vim.
à vossa paz e às vossas portas,
às vossa lâmpadas acesas,
às vossas bodas é que vim.
às vossas bibliotecas solenes
de tão longe vim.
Às vossas fábricas deslumbrantes
venho trabalhar um momento
e comer com os operários.
Nas vossas casas entro e saio.
Em Veneza, na bela Hungria,
em Copenhaga me vereis,
em Leninegrado, conversando
com o jovem Puchkine, em Praga
com Fucik, com todos os mortos
e todos os vivos, com todos
os metais verdes do Norte
e os cravos de Salerno.
Sou a testemunha que vem
visitar a vossa morada.
Oferecei-me a paz e o vinho.

Amanhã cedo partirei.

Espera-me em toda a parte
a primavera.

Pablo Neruda " As uvas e o vento" Campo de Letras (Trad. Albano Martins)