segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Holocausto Tropical

“Limpa com os dedos o nariz, observa espantado o ranho, deita-o fora ou come-o, o teu gesto não terá ligação com o seguinte”: Jean Genet –Infernos

1

Comemos carne de porco no dia de festa
No dia de festa comemos carne de porco
E qual visita guiada ao Vietname da Alma as nossas festas atraem demónios
E eu manifesto habilmente a minha necessidade de escrever sem escrever
Ou seja viver por ti adentro.
A tua cara tapada por um holocausto tropical

2

Fumámos ontem toda a Gaza –
Uma antiga cidade em mortalha de prata
Os anjos estão presos magneticamente a uma qualquer cidade celeste
Compra no LIDL – tem antenas de prata-
Numa das antenas da CNN urina um pobre cigano
Nunca será notícia



Nuno Brito, 2009

domingo, 11 de janeiro de 2009

t-e-m-p-o

O tempo é este instante de tempo
Esta dança entre ser este e ser já outro depois
Danço no tempo
A vida é uma dança de estrelas
Danço no tempo
A vida num instante
As estrelas que dançam em mim
Eu danço nos intervalos da lua
As mulheres dançam na tarefa da dor
Dançam em ritmo no parto e no beijo
Dançam de cor
Sabem tudo de cor
Pintam tudo de cor
Danço no tempo
As mulheres são a vida a quatro tempos
A vida corre neste sorriso de papel
Deixo-te este sorriso por não te poder dar um abraço
(tempo para um abraço)
Deixo-te a vida no tempo incerto de um poema
Uma sutura de tinta na relatividade do tempo
A metafísica do teu beijo, do teu tempo
Esta vida que me corre
Tenho tempo
Todo o tempo
Muito tempo
Na calma doce e lenta
da espera do teu beijo de boa noite.

O relógio na pedra mármore

Sempre coloco o relógio
na pedra mármore ao deitar.
Esta noite não. Apertou o pulso
na canção pontual do ponteiro
dos segundos
marcando esquecidos sonhos
na noite fria das neves;

um compasso fora d'horas
no fim do concerto da Trindade
cantar de Reis ultrapassados
melodias de Mozart e Vivaldi
orquestra de alunos
Jingle Bells
um coro juvenil
um outro mais avançado.

Notas de músicas crescendo acima
da cúpula antiga no altar dourado.
Sons de eco mais de mil
os ouvintes sentados nem tantos
um grupo de pé jovem, de rastas
e um skate de arte spray.

Dois metais dominantes, um de trompa
e a batuta do maestro escovinha
oscilando a mão entre "sotenutos"
e os tempos moles ou vibratos
de vozes brancas
colarinhos de golas altas
calças de vinco
vestidos sem repas.

Não levei luvas apenas capote
carapuço de costas lustrando
o apoio das semanas de mãos postas
e joelhos de martírio nos "Avés"
dos desejos de pedidos.

Escondi os punhos mangas dentro
lembro-me do revirado relógio
mostrador às voltas mirando
medidos batimentos.

No alto contrabaixo vi a descendência
do pequeno violino nem cabelo
nem o arco nos tempos das cabeças.

Por três vezes caíram os óculos
entre o colo e os joelhos
escorregando o programa
entre as palmas e os silêncios.

Recontei os dias, a vida real:
dez anos de música
crianças pela mão
milhares de passos
na escola antiga
alguns na actual.

Desfiei as diferenças minhas
dos outros que usam barbas
madeixas, olhos pintados:
"que bonita que ficou
aquela rapariga"
e os mais velhos, mais vincados
como eu
neste recuo de idades.

No altar-mor da igreja
a figura do menino em pontos luz
iluminada nos fios descaídos
de àrvore de Natal
de olhar feliz, as mãos ao alto
os pés pequenos e o espírito
que descia e abençoava
os pais queridos, o filho amado.

Não parecia de cerâmica o Jesus
talvez fosse de Deus o brilho
que me lembrou o dia e o vitral
na catedral de Reims

Ontem esqueci-me é verdade
não coloquei o relógio no mármore
e é costume colocá-lo.

Paz congénita

Não consegui aquecer-me nas palavras que me disseste
por escrito. Essas palavras são lenha verde acabada
de apanhar nas florestas onde vive o frio como chagas
em carne viva. São só dor sem bálsamo para curar as chagas.
Não curam de iluminar os sentidos todos acesos – a sombra
das árvores nem sempre é balsâmica. Há longos lugares onde
a luz é corredor de morte e as palavras sobram no silêncio
entre a dor e a dor seguinte quase sem intervalo. E as palavras
são pedintes suplicando um prazer efémero passando pela boca
como um gelado chinês quente e frio. É só na boca o prazer do frio
e do quente que transborda do gelado. A verdade é uma amálgama
que se transforma num todo interior. A verdade nunca é o todo
exterior. A verdade é a sombra da luz que vem de dentro. Tu dizes
e as palavras – a verdade – soam no universo vertendo a realidade
de que tu és capaz. Mas porque não conseguiram aquecer-me
as tuas palavras escritas, quero dizer, não verteram a realidade,
não havia nelas sequer a sombra da luz. Nem as palavras
que transcreveste de uma outra luz soaram à verdade das tuas. Não
as iluminaram. Nem sempre luzes entrelaçadas fazem clara a luz.
Nas palavras quase sempre convergem para uma noite sem estrelas
a não ser que sejam coadas ao sol num vitral de catedral românica
ou gótica onde é sombra iluminada o silêncio surgindo de dentro de ti.

As lágrimas que vejo nos olhos face a face com a morte da inocência
trazida pela luz mortífera de rockets e de obuses sedentos de uns tantos
quilómetros quadrados de terra e de ideologia! Este poder avassalador
da alegria e da liberdade não é luz de aquecer os homens nem o Amor.

E se fizesses explodir o papel pragmático que não vislumbras aos deuses?
Talvez pudesses accionar a força de paz que te é congénita – sem

[palavras.

2009.01.09
José Almeida da Silva

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Minúcia difícil de pontas

Desculpa mas sinto a morrinha
a imagem do leão sobre a águia
no alto obelisco da Rotunda

Caem penas de lento oscilar
demoram o tempo do voo da cegonha
entre a tília e árvore das camélias

No centro do banco gasto
no espaço de tábuas abertas
crava-se a ferrugem de follhas
recortadas e o silêncio
no deserto de graus negativos
de ser só um

Um e a natureza por cima do ombro
olhos grandes nas letras pequenas
de um caderno azul de argolas

Um e a caneta de tinta permanente
a das verdades de lâminas aguçadas
chuva de bocas abertas no redondo
das orelhas, versos aos pedaços
flocos bailarinos em dança de estrelas
na minúcia difícil de pontas
sem gente nas areias e terras
de um palco só jardim

No gesto estranho e louco, acto repetido
tudo miudinho, um sal grosso de tintas
aos bocados no bolso do casaco de veludo
ainda dentro de linhas, lado para lado
sem bússola na mistura de letras, dos factos
entre dedos de mistura no poema rasgado

Altero os óculos e as lentes de claro
até escuro, atravesso a alameda
passeio a teimosia na dobra do cabelo
e sopro algum que cai junto ao bico
do sapato, entre o verde e o vermelho
do semáforo

Enquanto surge aquele fio de luz
que espanta o orvalho
e a morrinha feiticeira
nos vazios da cidade.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

improvável antologia poética - 1

Em que pensar, agora, senão em ti? Tu, que
me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a
manhã da minha noite. É verdade que te podia
Dizer “ Como é mais fácil deixar que as coisas
não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos
apenas dentro de nós próprios?” Mas ensinaste-me
a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou,
até sermos um apenas no amor que nos une,
contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor,
ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua
voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo
ele que mal corria quando por ele passámos,
subindo a margem em que descobri o sentido
de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo
que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor,
de chegar antes de ti para te ver chegar: com
a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água
fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu:
a primavera luminosa da minha expectativa,
a mais certa certeza de que gosto de ti, como
gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste.

Nuno Júdice

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Diagnóstico pouco seguro de um deus côr de laranja - partes 8 e 11

• 8


O velho usa a energia nuclear para tosquiar ovelhas,
Tosquia-as com uma paciência infinita
Às vezes o reactor está avariado
Outras vezes pega no seu pente atómico e vai pentear macacos
Penteia-os muito bem, risco ao meio, um bocado de gel…

Gel atómico
Todos janotas, dispostos em fila!
Já estão prontos para assistir à conferência sobre a força do átomo

Uma vez em Hiroshima queriam tosquiar ovelhas
Mas falhou qualquer coisa
Houve um grande erro
As causas ainda estão por apurar
Morreram bastantes pessoas
Ficaram sombras especadas no chão
Sem corpo
Só sombras



• 11


O faraó passava as tardes a jogar tétris...
Os escravos empurravam as peças de acordo com um sistema de cordas,
As peças desciam à medida que os escravos iam soltando a corda dos rolamentos,
De acordo com as decisões do faraó os escravos tinham que rodar e encaixar as peças umas nas outras. Em baixo alguns escravos retiravam as que já não eram necessárias. O contramestre sentado num balcão dourado, decidia quais as próximas peças a sair. Acorriam espectadores do alto e do baixo Egipto e também vinham estrangeiros que estacionavam os seus camelos em frente ao grande templo de jogo para ver o faraó a jogar. Os escravos a serem chicoteados pelos capatazes, a rodarem as peças, a encaixá-las. Cada linha era celebrada pelo país inteiro. Os deuses estavam presentes no jogo, Eram invocados. O cheiro a incenso era fortíssimo…


Nuno Brito, 2007

Abismo à portuguesa

Para Vitor Teves




Tenho medo que Jesus não me esporre hoje na boca
não me esporre hoje na boca senhor jesus!
Senhor jesus senhor jesus senhor Jesus
“Escrever é corrigir a vida”*
E o esperma que escorre dos lábios de Maria
há de gerar um Semi-Deus Forte
feito para desenhar uma anunciação a tinta dourada

Trezentas mil ovelhas caminham rumo a um “abismo à portuguesa”
O decifrador de sinais vê nesta frase uma absurda falta de simbologia,
Ele sabe que eu adoro de uma forma bem primitiva um hitler recém nascido
Com as suas cuequitas apertadas e o rugido do mundo que clama por um Mão de Ferro

Deliro só de imaginar o seu doce esperma quentinho na minha boca
De Mona a Lisa
De Lenine

Ontem dei a mão a virgílio, Ele guiou-me pela tua boca,
Conduziu-me à máxima experiência humana,
O estremecimento de um holocausto digital
Bem fundo nos teus olhos
A Anunciação


* Enrique Vila-Matas

Nuno Brito, 2009

domingo, 4 de janeiro de 2009

Um poema de que gosto

Também merece estar neste blogue esta poetisa contemporânea
de que gosto particularmente.
Este poema foi retirado do livro "O canto do vento nos ciprestes"




Vieste como um barco de vento abrindo
feridas de espuma pelas ondas. Chegaste tão depressa
que nem pude aguardar-te ou prevenir-me;e só ficaste
o tempo de iludires a arquitectura fria do estaleiro

onde hoje me sentei a perguntar como foi que partiste,
se partiste,
que dentro de mim se acanham as certezas e
tu vais sempre ardendo, embora como um lume
de cera, lento e brando, que já não derrama calor.

Tenho os olhos azuis de tanto os ter lançado ao mar
o dia inteiro, como os pescadores fazem com as redes;
e não existe no mundo cegueira pior do que a minha:
o fio do horizonte começou ainda agora a oscilar,
exausto de me ver entre as mulheres que se passeiam
no cais como se transportassem no corpo o vaivém
dos barcos. Dizem-me os seus passos

que vale a pena esperar, porque as ondas acabam
sempre por quebrar-se junto às margens. Mas eu sei
que o meu mar está cercado de litorais, que é tarde
para quase tudo. Por isso vou para casa
e aguardo os sonhos, pontuais como a noite.

1 2 3 experiência - 4 pára

.................................................."Estoy buscando una palavra,
....................................................en el umbral de tu mistério"

Amor
o poema não fala
o próximo por fim falará
.....o da estratosfera de um marajá
.....o da rua do ouro certificado de louvor
.....o da tua dor - carimbada espera
.....o da escada de emergência para o plágio da lua
Falará
não te percas neste
que persegue o de amanha
.....o do poema redondo
.....o do dom original
.....o do ovo do Colombo
.....o da canção capital
Amanha
o poema inspirado
o fado falado na lenda
.....o dos dedos prometidos
.....o dos medos falidos
.....o das emendas impossíveis
A lenda
a seguir terás a prenda
um vida como nunca antes nem nos mares
o poema seguinte ensinará
os outros contarão nos lares aos outros que estão por vir
o amor que viverás amanha
quando leres o sucessor do verso que falará por fim
.........o que os outros versos contados por outros de mim nunca

.................prontos para
.........tal
.........nunca contaram nada comparado com o de amanha cantado

.................para ti
0 poema
que não fala
o próximo o que será?
ser ou não ser
.....o de amanha.



ADENDA DO DIA 1
Odeio a ideia da ode
triunfal de um amor conservado em formol para a eternidade.
Mas tu és tão bonita.
Como és bonita!
Bonita não só de ser linda. Bonita em 365 sentidos. Em 360 (de)graus.
Comer, beber, dormir e dizer a razão do dia de seres bonita,
subir na noite as escadas até ao concreto amanha dos teus olhos.
De certo, não é nada bonito, insistentemente escrever - "és tão bonita".
Quase que é mais poético escrever que bonito é atum em espanhol.
Só que, explicar todos os dias porque o atum é bonito conserva apenas o tédio.

ADENDA DO DIA 2
Os passarinhos mesmo que não me deixem dormir nas manhas preguiçosas,
os passarinhos cantam com urgência e eu sei que
há um gosto para as coisas,
uma preguiça tambem,
e uma música que contem o gosto e a indolência,
e a minha prima vera que não diz nada e faz-se tarde para amanha.
Com este trânsito de dúvidas chegaremos tarde à cerimónia.
ADENDA DO DIA 3
...............................................................................................................
...............................................................................................................
...............................................................................................................
...mesmo assim, sabendo que nunca esteve tão perto, de algo mais que não só a adenda do dia 4.

um outro olhar...(10)










“quero acreditar…”



ao contrário do que dizem, eu continuo aqui nesta cruz e daqui nunca saí

todos fugiram,

todos me abandonaram,

todos decidiram ir atrás do meu exemplo

mas deixaram-me aqui sozinho,

tristemente sozinho


dois mil anos passaram, tão pouco para tanta mudança, tanta evolução e descoberta

agora, pergunto eu daqui do meu canto –

o que é que não terá mudado nestes dois mil anos que passaram tão depressa?

mudaram os homens, certamente; mudou o clima, concerteza

mudaram os povos, os países e as línguas; mudou tanta coisa

mas terá mudado o essencial?


com tantos saberes acumulados, com tantas experiências vividas

com tantas inteligências evoluídas

terão acabado as guerras, os ódios e as invejas?

usarão os homens melhor o tempo?

haverá mais felicidade e bem-estar no mundo?

aqui deste meu canto, onde fui deixado por todos, quero acreditar que sim


quero acreditar que não me deixaram aqui sozinho em vão

quero acreditar que a minha vida, e de tantos como eu, valeu a pena

quero acreditar em todos os que continuam a seguir a minha imagem e o meu exemplo

quero acreditar que o mundo não vai voltar a ser um espaço como este em que me encontro

árido, duro, solitário

quero acreditar


Estrelas

A lua hoje está só e cheia
As estrelas cobrem a lua de dor e cor
Eu sou só pó
Eu estou só e cheia
A lua é uma ideia minha
Daquelas grandes ideias que surgem à tardinha
Eu sou só lua e estrelas
Tu és uma ideia minha
Que surge sempre à tardinha
As estrelas não me dizem por onde ir
Na minha ambição de me perder
Nas tuas estrelas
As estrelas cobrem a lua de cor e dor
Eu estou cheia e só de ti
Terra em vaso de estrelas
Tu a flor que sobe em ar
Com um esguio abraço
Tocas a lua cheia e só

Diz Vélasquez às Meninas

Espelho meu
Espelho meu
Há algum quadro mais belo do que o meu?

O espelho em 5 tempos

Cena Um
Palco cheio.
O pintor hesita junto à luz
Olha para trás
Talvez para nós.

Cena Dois
Palco vazio.
O pintor olha a sua obra
Olha em frente.
Talvez para nós.

Cena três
Centro do palco
A menina posa e é a luz
Olha o espelho
Talvez para nós.

Cena quatro
Primeiro plano.
O cão olha para baixo.
Talvez para nós.

Cena cinco
Palco duplo
Eu olho para o quadro
Talvez para mim.

sábado, 3 de janeiro de 2009

A pepita de uma brasa

Não me fales do Jivago das estepes
nem dos gumes afiados dos palácios
do teu gelo

Sei onde estão
quando findos lumes são destino
e os desejos desvario.

Estende-te aqui comigo no tapete de lã
merino, ao comprido, na sala do piano
onde ardentes as brasas são recinto
circunscrito circo de cenas
arena dos barulhos de silêncios.

Porque te cintas num anel Nibelungo
nos acesos comentários de Weimar
construindo razões débeis de atenção
nesse íman fraco de plástico
estático suporte de encantos supostos
que o não são.

Elimina a pose, solta a lágrima
abre a cratera desnuda da fúria
avalanche de esfera e sem arestas
agiganta o que te digo sempre - sublima!

Há o brilho na bola de sabão - azul e frágil
no amarelo-metal - encantador
no cinza frio - prata ou alumínio
e no teu sorriso - que arrepia o dorso
amolece a face, humedece a nascente
do meu rosto - sublinha
as palavras que não disse
não tive tempo.

Embora sinta cada um como cúpula
cada polpa do seu dedo na sala dividida
e um vidro plano duplo ao meio cinda
a linha fronteira das marquesas
estonteando as frases de ecos distantes
(chaves partidas de cofres errados),
nas diversas chaminés sobem fumos quentes
arrastam fuligem refractária
adensam a sina que adivinha
sucedidas terapias, unos sentidos.

Somos agora
olhos de lado ligados
longe dos
siderados hipnóticos mortais dos
falsos tectos de focos halogéneos
das falsas paredes cegas de luzes
extintas

Reassumindo o estaladiço crepitar
a pepita de uma brasa
que estilhaça o vidro glacial

Tudo termina numa frase:
"Este Inverno no jardim
pequenas violetas no canteiro
e mais à frente ali à esquerda
junto ao limoeiro
quatro lírios roxos
raiados de lábios amarelos;
não costuma ser assim
em Janeiro a natureza"