segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Guernica - O Cavalo



Cavalo dentes e patas
no trovão de estilhaços
Varrendo o chão
de corpos mutilados
Caudas partidas
nos incómodos
humanos actos.
Tourada inexacta
sem cavaleiro -
o touro na mesma guerra
cascos sangue nada.

José Ferreira e Elza Durão

domingo, 21 de dezembro de 2008

O Touro



É força do poder e morde como um lacrau
Olha o homem olho nos olhos
Vendo-o sempre como escolhos à sua santa vontade.

E sabe como fazer da liberdade prisão e do amor brutalidade
E não se deixa seduzir pelo olhar de uma criança
Antes prefere uma trança – o seu cavalo-marinho –
Tanta força e tanto medo, tanto sangue e tanta morte,
E tanto crime branqueado

Não tem dúvida metódica – é pontual o seu terror –
tem uma roda dentada no lugar do coração.

Tem um capote vermelho com que lida a vida humana
e tem um cavalo alado com bandarilhas de morte

Corre o sangue na arena do crime organizado – morrem homens
revoltados de tanta submissão

Deixam-nos viva a memória

António Roma e José Almeida da Silva

o regresso do filho(a) pródigo(a).

Caros poetas e poetisas:

Antes de mais, as minhas GIGANTESCAS desculpas por não ter aparecido nas duas últimas sessões (com uma incomensurável pena minha), mas não deu mesmo para ir. Das duas vezes mandei mensagem à Ana Luisa a avisar que não poderia estar presente, mas da última vez ficou pendente - o meu velho telemóvel tem-se recusado um pouco a entregar recados!

A verdade é que, nestas duas últimas semanas, transformei a faculdade na minha casa, uma vez que as entregas de projecto e de tudo se aproximavam (todas ao mesmo tempo, graças a uma excelente organização em beneficio dos alunos). E quando digo que a faculdade foi a minha casa, digo-o literalmente, porque só ia a casa (a outra que eu já mal conhecia!) tomar banho e buscar comida para aguentar os dias seguintes. Estou hoje a escrever porque só ontem entrei de ferias às 9 da noite (depois de ter passado uma hora extra na faculdade a recuperar os pedaços da minha vida espalhados, o que inclui colheres, candeeiros, vitaminas e objectos artísticos do mais variado leque) e a minha tremenda felicidade resumiu-se em chegar a casa cair na cama vestida e recuperar das 4 directas que fiz esta semana e que me causaram uma média de 8 horas de sono por semana (o que seria normal ter por dia).

Portanto, tenho a confessar que o que escrevi se resume a legendas de pisos e diferenças de pavimentos e tenho imensas saudades das sessões. Será que alguem me poderia iluminar sobre o conteúdo das sessões a que eu faltei e trabalhos de casa respectivos se fosse possivel? Assim sempre escrevinhava qualquer coisa...

AH! tenho a dizer que foi uma fantástica experiência entrar no blogue e ler os últimos poemas, porque acho que se para alguma coisa o meu afastamento serviu foi para vos poder dizer que depois de duas semanas já se nota uma grande diferença na profundidade e musicalidade dos poemas. Se já eram bons, estão cada vez melhores! Muitos parabéns!

Um beijinho enorme e muitas desculpas a nossa "prezada" ana luisa e a todos os magníficos poetas que as sessões me permitiram conhecer.

ps: Segunda feira lá estarei sem falta para matar saudades!

Maria Inês Beires

sábado, 20 de dezembro de 2008

Sessão Extra Seguida de Ceia

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só para lembrar...
é com todo o prazer e imbuídos do mais profundo espírito poético, que vimos fazer o seguinte anúncio:

no próximo dia 22 de Dezembro pelas 19.45h
na Reitoria da Universidade do Porto
terá lugar uma sessão de extra do curso de escrita criativa em poesia
à qual poderão comparecer todos os alunos aprendizes de poetas da primeira e/ou segunda edição
do supracitado curso a sessão decorrerá sob a orientação da poeta mestre de todos nós
Ana Luísa Amaral
e será seguida de uma ceia em lírico e saudável convívio
no Papagaio
(cantinho acolhedor e simpático que fica na rua atrás do Piolho e onde já contam com a nossa presença)

nota importante: por (magnífica) sugestão da Teresa,
cada um é convidado a levar um poema - de preferência seu - para trocarmos como se de prendinhas se tratassem
até breve
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sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Não devias Não devias

Não devias ter olhado o meu vestido
curto as pernas cruzadas
fruto do acaso e à vontade.
Perdi-me nos teus olhos
antes um segundo
vendo que gostavas.

Não devia ter sorrido ao rubor
do teu sentido, tímido ímpeto
de menino, nesse coro tão
exposto tão despido.

Deu na troca de cadeiras
no mesmo tampo de vidro
nas mãos que a medo se tocaram
e se deram num passeio
à Primavera.

Deu nas flores do jardim junto
ao postigo, nas formigas sacudidas
do vestido, nos torrões de raízes
protegidas, nas cores nos aromas
dos futuros vasos e nos lábios
que de sorrisos foram fartos -
passaram aos actos
moraram ternuras
ombros juntos
no mesmo casaco
braços cinturas.

Não devias ter fugido
na vazia madrugada
só por te queria amigo
deitado no meu sofá
adormecido
no fim do filme mudo
da poesia falada
sossegado
e a meu lado.

Não devias Nâo devias

Maria -

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Embalo


I  
Dorme meu tesouro dorme
Anjo leve do meu ser
Dorme que eu morro em vida
Canto o teu adormecer

II 
Dorme meu tesouro dorme
O meu grito é o meu viver
Canto a chorar a noite
Canto e embalo
E não vivo

III
Dorme meu tesouro dorme
No silêncio que é só teu
O céu não cai
A terra não treme
Eu canto e embalo
E não grito


Liliana Castro e Raquel Patriarca
17.XII.2008

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

A data festiva

Um silêncio de prata e velas acesas
na data festiva.

Olhos grandes ruminam a presença de Reis
andrajos de púrpura, coroas sujas de areias
outrora cegas de luz. As orelhas altas de
asno, o sopro quente, os dentes largos
os invisíveis laços a elevar braços, mãos
e o sorriso do Menino junto a sua Mãe:
manto azul, debrum de pelo, rosto terno
de sentir as ideias concebidas sem... o
pecado de vaidades e sinos dos publicitos
paraísos; reais lugares de tudo querer.

A estrela sem fio de balão a fugir
e o medo do Inverno, do frio,
dos falsos mimos na época festiva.

O Pai, homem de tábuas, aplaina a árvore
torna macia a natureza rugosa da casca
alisa o fuso e a roca, entalha o encaixe,
a cruz de pau que ampara o leito-berço
de calor seguro nas palhas deitado. Agora
usa o cajado de posição elevada, controla
perigo, o imprevisto susto de pés de cabra
nos raios de ouro, incenso, mirra e o fumo
do turíbulo, o hino, o murmúrio a ladainha.

Só não se assusta o Menino, palmas exaustas
dedos de sina, rosto aberto, lábios de menina
e os restos de um trinado e um sorriso que
abre e fecha, enleia e não termina.

Sendo assim esta certeza - a do Menino
também devo acreditar, ser capaz, ser maior
do que a barreira, perna longa de desertos.
Ser mais oásis e miragem de bossas cheias
nos hiatos de remorsos na passagem.
Ser mais macio que choro de nuvem de gotas
desesperadas, desamparadas no chão ao cair
e mais ricas nas misturas do ventre mãe
nas fissuras dos magmas interiores onde
se espraia a lava e se expande a fogueira
fluída de um vulcão.

Sendo, sempre sendo mais
que pó amorfo nas bocas secas do vento.

No manto céu
uma miríade de estrelas, a constelação
(pontas de alfinete no veludo azul)
e os pirilampos faróis alumiam
o barco à deriva.

As ondas divinas guiam
ao colo seguro das baías
nos dias do Menino
na data festiva!

Jantar-convívio de Natal

Muitos comem, bebem, outros dançam alegremente;
...há ruídos absurdos?
- Não, são de festa e de exorcisação,
de absoluta libertação das canseiras
e dos monstros quotidianos,
também da vergonhosa submissão aos ditames do trabalho
e das incertezas da própria existência!...

Alguns comem, outros bebem,
outros demais saltam e riem desaforadamente;
...há ruídos estranhos? Porventura ignóbis?
- Não, são de alegria e de escárnio,
pelo caminho que traçamos sem rumo, ou sem rede,
imbuídos da febre de conquista
dos nossos sonhos e excessivas ambições
que teimamos sem escrúpulos atingir,
mesmo que estrangulados ou dilacerados
antes do clímax final!...

.......................................................................................

E enquanto a noite passa turbulenta,
uns tagarelam, raros bebem, muitos dançam,
outros ao longe fumam num canto, inconsequentemente;
...haverá nesta amálgama quem ouça silêncios
acolhedores, vitais, reconfortantes?
- Sim, há quem veja ali amor,
aromas de rosas sem espinhos,
animais selvagens por eles próprios domados,
espalhando a paz, e convívio em felicidade!
- Sim, há quem sinta sem temor,
que um dia ambicionaremos só carinhos,
e deste frenesim seremos escoltados
até aos campos da concórdia e da equidade!

(Antonio Pinto Oliveira - 07.Dezembro.2008)

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Madrugada

-----------------------------------------------------------Que farei quando tudo arde?
-----------------------------------------------------------Sá de Miranda



Era festa, julgaram
que os balões eram livres
e subiam, não viram,

não viram

que uma corrente quente
descia e cobria,

devagar

murchavam de madrugada,
fim de Abril , já ardiam

e arderam.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Não se esqueça de mim!

Embora não sendo poesia, há poesia e muita emoção neste texto, nesta memória, que partilho convosco.

«Quando eu morrer não se esqueça de mim». A memória esvai-se. Quero-me lembrar da expressão, do sorriso límpido, de uma beleza despovoada como o deserto. Da tua juventude. Não tinhas vinte anos, isso é seguro. «Não se esqueça de mim!» Lembro-me da combina: «Só quero durar até ao Natal». Porquê o Natal, Deus meu? Tu que irias ter com os anjos todos os dias, e contar coisas da Terra e dos homens, tu que fazes já parte do paraíso e sempre fizeste. «Até ao Natal, doutor», depois pare as torneirinhas que regam as minhas veias, tentando manter o verde da vida, das plan­tas com viço que no meu jardim, à míngua de seiva, soluçam em tons de castanho. «Não se esqueça de mim». Não me esqueço de ti meu menino Jesus feito menina. Tu só querias viver até ao dia em que nasceu aquele que dá sentido às coisas. Porquê meu Deus? Cumpri a minha parte e tu cumpriste a tua. Não mais qui­mioterapia depois do Natal, só a tranquilidade dos que têm fé e sobem, devagarinho, perante nós. «Não se esqueça de mim». Como te posso esquecer? És só uma voz, uma esperança, um fio de coragem, coisa pequena, apenas regato. E no entanto, amo-te como a uma visão, uma miragem que deixasse uma marca de pri­vilégio por ter tocado a tua mão. Tenho a memória exacta do can­cro. Começava no pescoço. Devagarinho subia através da nuca, silencioso, determinado como fera no capim. Penetrava o osso, abria o embrulho que esconde e protege a tua alma, e em tons de branco e cinzento, devagarinho, corroía o cérebro. Primeiro encostou-se, depois embuste, como erva daninha, começou a ali­mentar-se do teu sangue, sorveu a tua vida, entrou sem pedir licença. Conheci-te porque ao tocar o teu íntimo, a doença, cal­cula, fazia-te ver estrelas. Pequeninas, brilhantes e fugazes. Estra­nhas, contudo, porque surgiam durante o dia. «Doutor, não se esqueça de mim». Não me esqueço, nem do remorso pela pirueta de artista amestrado que se enche de orgulho pelo diagnóstico certeiro, ainda que seja o de uma flecha implacável que marca o destino. As estrelas que vê, minha querida, não habitam o céu, são fogo de artifício da doença que a consome. Coisa estranha a epilepsia. O cérebro invadido cria por momentos a ilusão de um firmamento. Eu vou tratá-la, quero dizer, trazer as estrelas à terra e apagá-las com um sopro. Como velas em dia de anos. Ao mesmo tempo, minha querida, apagar a ilusão. Eu próprio bate­rei palmas ao golpe de mágica que faz desaparecer as estrelas como te afastasse, te adiasse o Céu que no fundo desejavas. «Até ao Natal, doutor, e depois, não se esqueça de mim».Agora, onde estiveres, de certeza que há Mar. Brincas com o Menino Jesus que querias conhecer, a cuja festa de anos não que­rias faltar, menina que espera o nascimento do irmão. Escavam na areia crateras que a maré enche. Ouvem o adeus das ondas e sentem o abraço do seu retorno. De certeza que discorrem sobre coisas de somenos importância, quem sabe disputam pás e anci­nhos, clamando pela Nossa Senhora que ponha ordem naquela disputa. Estou certo que levaste a melhor, e o menino Jesus, a cujos anos não querias faltar, faz carranca e beicinho. Nossa Senhora irá decerto lembrar a generosidade que é necessário te: com quem se convida para os anos.» Deixa a menina brincar». «Só até ao Natal, doutor, e não se esqueça de mim». Não te esqueças tu de mim. Onde estás lembra-te de que cumpri a minha parte, lutei contra a besta que te consumia e de mim te apartava, apa­guei as luzes que pareciam estrelas e criei a ilusão de adiar a eternidade. Como se fosse possível, meu Deus, haver vida para além do Natal.

Nuno Lobo Antunes, in Sinto Muito

Al di la


Al di la

Para além das luzes do pinheiro de Natal
Para além dos fios das cabeleiras de prata
Para além da chama que sobe no castiçal
E do brilho dos cristais das bolas em cascata

Para além do aroma dos sonhos e doçuras
Para além da melodia que entoa o disco antigo
Para além das renas sobrevoando nas gravuras
E do esquecimento e do gesto a um amigo

Para além da esperança deslizando no telhado
Para além do segredo do presente embrulhado
Magia, recordação, noite sem igual

Para além da saudade etérea e infinita
Para além da carta que deixaste escrita
Que seja hoje e sempre Natal

Pi

Natal, e não Dezembro

Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio
no prédio que amanhã for demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.

Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave...
Entremos, despojados, mas entremos.
Das mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.

David Mourão-Ferreira (Lisboa, 1927-1996)
Cancioneiro de Natal

Natal

Leio o teu nome
Na página da noite:
Menino Deus...
E fico a meditar
No milagre dobrado
De ser Deus e menino.
Em Deus não acredito.
Mas de ti como posso duvidar?
Todos os dias nascem
Meninos pobres em currais de gado.
Crianças que são ânsias alargadas
De horizontes pequenos.
Humanas alvoradas...
A divindade é o menos.

Miguel Torga (S. Martinho de Anta, Vila Real, 1907 - Coimbra, 1995)
S. Martinho de Anta, 24 de Dezembro de 1966

domingo, 14 de dezembro de 2008

SOBRE O TEMA : Nascer ( Contexto do Natal )

P e q u e n o p o e m a

Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu
nem houve Estrelas a mais...
Sòmente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...
P'ra que o dia fosse enorme
bastava toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe.


( Sebastião da Gama, Serra-Mãe )

O poema morreu e não é notícia

O poema morreu e não é notícia.
Mas, porque quis a história que o poema morresse hoje,
mesmo sem ser notícia, fomos sentar-nos os dois muito quietos,
os corações lado a lado, o olhar a direito.

Tu falaste primeiro: Morto o poema,
é preciso contar ao mundo o caso dos versos agora órfãos.

Vieste depressa, há coisas que ainda dormem. Vês? Deixámos um
longo segundo para trás. O pé no travão, o travão a parar o tempo, o
tempo do som - o do outro que sem ser som vibra a desfazer
silêncios - o corpo já quieto, o fim da saia ainda
em movimento.

Sentámo-nos os dois tão quietos. Os corações lado a lado em
memória de um poema morto.

Não devias ter vindo tão cedo - disse-te. Principalmente num
encontro destes, em vulgar banco de jardim.
Mais um pouco, ter-me-ías acordado. E há questões mais pertinentes:
Morto o poema, em que língua vou falar
o sítio das coisas?

Minês Castanheira (Porto, 1983-) in Inter-cidades (2008)