quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Correntes d'escritas 2012



MESA 5
Dia 24, sexta-feira, 22h00 (Auditório Municipal)
Tema: A escrita é um investimento inesgotável no prazer
Participantes: Afonso Cruz, Ana Luísa Amaral, Júlio Magalhães, Manuel Moya, Rui Zink e Valter Hugo Mãe

ver todo o programa aqui

if - a poem by e.e. cummings




If freckles were lovely, and day was night,
And measles were nice and a lie warn't a lie,
Life would be delight,--
But things couldn't go right
For in such a sad plight
I wouldn't be I.

If earth was heaven and now was hence,
And past was present, and false was true,
There might be some sense
But I'd be in suspense
For on such a pretense
You wouldn't be you.

If fear was plucky, and globes were square,
And dirt was cleanly and tears were glee
Things would seem fair,--
Yet they'd all despair,
For if here was there
We wouldn't be we.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

ophelia


Jonh Everett Millais Ophelia 1851

um dia procuro-te em todos os lugares
até encontrar os teus olhos brilhantes
shinning star.
pousarei sobre o calor da tua testa a minha mão fresca
para que feches os olhos um momento
e não sofras essa chama de tempo, essa labareda permanente –

levantarei todos os tapetes de relva
e mesmo nas profundezas mais escuras da terra
hei-de levar-te a luz e o sal da diferença
para que cresças como uma semente sem medo

e com uma mão no ombro –

josé ferreira 21 fevereiro 2012

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

o fragmento 1001 e a psicanálise dos dias


Co Westerik "Zwemmer" 1962

o visível e o invisível.
a dualidade eruptiva sem ordem dentro de ti.
o imerso e a descoberta.
a manhã de três graus negativos e uma noite volúvel.
a escrita nos pés dos dias.
pode haver ausência de cor e pode haver silêncio
mas não se pára o pensamento não se pára a vida
não se degola a ideia não se afoga o sonho
não mandamos no nosso mundo
de dentro ou de fora;
peão, pedaço de pó ou vírgula
a condição do eu no todo é pouco
mas imprescindível, existe –

não te prometo um jardim permanente.
unicamente ninguém pode prometer nada.
constrói-se a vida em fragmentos.
e mesmo quando nos julgamos anjos ou demónios
acima ou por debaixo das nuvens, sozinhos
como candelabros sem uso
suspensos estamos nos segundos, as linhas e os fios;
um processo de sucessão de luz, um qualquer dia –

a maior inteligência do mundo é não adivinhar futuros
se assim fosse, se adivinhasse futuros
talvez te prometesse tudo o que sinto
talvez desenhasse no teu tronco a insígnia suprema
de raiz e húmus
de flores e rumos serenos e caminhos lisos
e lagos e rios e mares
e talvez pudéssemos cumprir tudo
segurando com as mãos o peso imenso da cidade –

a promessa que te faço não é uma certeza de dádiva.
a promessa que te faço é o querer muito e lutar sempre
e o dizer-te
que a certeza se faz no esquecimento do palco
o sermos autênticos e frágeis, não duvido.
e a certeza se faz de procurar sim a verdade e não negar o verosímil.
é tão fácil a rasteira da hora na roda dos séculos, a ilusão
o confundir cimento com areia, o esquecer de um nevoeiro
e o afirmar da forma nítida –

mas há sempre perigo, não duvido
e guardo tantas memórias, a mais doce a mais assassina
a minha a que vi nos outros a que foi um sonho –

a promessa que te faço é única como a tua nuca
quando se inclina e deixa cair os cabelos
- um poder romântico no nervo mais sensível.
e respira como os girinos e é transparente, acredita –

a maior inteligência do mundo é não adivinhar futuros
mas não há qualquer dúvida sobre a vida;
a cada dia menos um dia
e a cada dia
quando sobe a lua e nos cobre de linhos
não ainda juntos e não ainda distantes
do outro lado do mundo rebenta a luz
a mesma que luz que na manhã seguinte
adia ou cumpre a promessa
de querer muito que se ilumine –


josé ferreira 19 fevereiro 2012

sábado, 18 de fevereiro de 2012

MALHAS QUE OUTRO IMPÉRIO TECE - Ana Luísa Amaral (Jornal Público, 17 de Fevereiro de 2012)


António Cruz

MALHAS QUE OUTRO IMPÉRIO TECE - Ana Luísa Amaral (Jornal Público, 17 de Fevereiro de 2012)

Contra o costume, cheguei cedo demais à estação de Santa Apolónia, onde vou apanhar o comboio para o Porto. Comprei o bilhete e, contra o costume, fiquei ainda com tempo à minha frente para tomar um café. O pequeno bar da estação está cheio de jovens. Sentaram-se três à minha mesa. Um deles segura entre as mãos um pequeno tambor colorido e marca um ritmo; sempre o mesmo, assim me parece. Os outros dois bebem galões e comem sandes tiradas das mochilas. Noutras mesas, outros grupos. Falam todos pouco e têm olheiras. São sete da manhã e o concerto deve ter acabado há umas horas. Estes jovens vêm de fora de Lisboa e passaram a noite na estação, à espera do comboio que os há-de levar de volta a suas casas.
Nestes tempos que são nossos, haverá quem lhes critique o cabelo e a forma de vestir. Todos de igual, de calças muito largas, as cores que predominam não variam muito: o cinzento, o preto, ou o azul-escuro. Alguns têm trancinhas, muito finas, enfeitadas, algumas, com missangas coloridas. Haverá ainda quem, olhando estes jovens, pense em lhes dizer coisas como «vai trabalhar!», sem pensar que não há trabalho que lhes valha; ou haverá quem os olhe com olhos de inveja pelo dinheiro gasto no concerto, pelo ócio, ou pela pura juventude.
Não há muitos anos, neste lugar que é nosso, a jovens como eles chamaram-se nomes, denegrindo a sua geração, sem se pensar que não há gerações espontâneas, a não ser em teoria, e que as genealogias têm sempre progenitores. Há muito pouco tempo, uma outra geração de jovens como eles, quem sabe se incluindo alguns destes que aqui estão, agora sentados no chão da estação, haveria de aproveitar o epíteto e com ele brincar, em jogo de palavras. E esta nova geração saiu às ruas, e a ela juntaram-se as gerações de seus pais e avós. E cantaram nas ruas, ao lado de outras idades, canções talvez diferentes destas que agora trazem no ouvido, pedidas emprestadas ao concerto, mas de um igual empenho na alegria da vida e no reclamar de um lugar melhor e mais justo. Foi essa a sua palavra de ordem: justiça. Podia ser também o direito à alegria.
Entro agora no comboio e eles entram também. Quase enchem a carruagem. Há um que se senta a meu lado. São todos muito jovens e alguns muito bonitos. E têm, pequenos de cansaço, tremores de alegria. Dois deles mostram-se gentis, quando passa uma senhora de idade. Outros gracejam sobre as aulas; por vezes, palavrões a meio, sorriem; ou, um pouco mais refeitos pelo bem-estar da carruagem, dançam, em arremedo do ritmo que há algumas horas os animou. Estava à procura de uma palavra para os descrever. Talvez seja «vulneráveis»; ou «inseguros», como somos todos. À procura das coisas, e de sentidos para as coisas. Como nós todos.
Noutros tempos, iam para as Cruzadas; e lá matavam e morriam, alguns acreditando que havia razões para matar e morrer, outros, descrendo. Em todos os tempos têm sido forçados ou convencidos a coisas que contra eles são. Muitas vezes a eles tem pertencido a capacidade de uma generosidade sem limites. Estive uma vez num cemitério inglês, que era enorme e tinha uma lápide gigante com os nomes dos mortos das duas grandes guerras que mais assolaram o século há pouco acabado de passar. Entre os nomes que desciam, à medida que descia o meu olhar, alguns apelidos eram iguais, só as datas mudavam, indicando que àqueles nomes correspondera um jovem pai que fora morto, e, vinte e poucos anos mais tarde, o seu filho, morto também, desperdiçado. Uma geração os separara. Uma geração de vida gerando a morte. E era, nesse dia raro de sol, uma visão impressionante, o resultado da luta de povos contra povos, mas também de combate contra uma liberdade ameaçada e contra a invasão da barbárie.
Mas nunca nenhuma guerra fez de facto sentido e sempre houve quem se aproveitasse, do seu lugar de privilégio e bastidores, de jovens como estes. Lembrou-me então o poema do jovem soldado, de cujo bolso caíra, breve, a cigarreira. Inteira e boa. E ele, o desperdício, ele a já não servir, a não ser os desígnios que não traçara, feitos de malhas por outros tecidas. Estes jovens que estão agora ao meu lado, neste lugar que é nosso, estão vivos e não os ameaça ainda, ao que parece, a guerra feita de bombas, mísseis e camuflados, embora os ameace uma outra guerra feita de números e uma nova barbárie, e camuflada de rigor e uma assustadora precisão, no que toca ao que de mais humano temos, que é a alegria e a capacidade de pensamento, de inquirição e de espanto. Mas estes jovens estão vivos. E são jovens.
São jovens, e é justo que cantem e vibrem com a música que é a deles. Noutras culturas, os tremores que sentem terão outras razões. Seja como for, é justo que tremam de alegria. Injusto é quando lhes dizem, cinicamente, que o futuro está só em outros lugares e não nas casas a que agora voltam; ou quando o seu olhar se enche de coisas avessas a este cansaço de memórias boas de partilha e tambores coloridos. Injusto é quando os levam a desacreditar, por circunstâncias várias, que um quadrado de papel, numa urna a não evocar morte, pode mudar o mundo, ou quando os impelem a duvidar que as palavras podem servir como motor de mudança e resistência. Injusto é quando deles se espera a cega obediência, sem perguntas nenhumas, e que esta sede de partilha, este tremor ainda de alegria seja já, nestes tempos que são nossos, ameaçado pela raiva e pela desesperança.
Passaram duas horas. As vozes na carruagem afrouxaram de volume, tornaram-se escassas, à medida que o sol entra com mais força pelas janelas. Está calor. No assento ao meu lado, o meu jovem companheiro de viagem adormeceu. Veste umas calças muito usadas, de corte estranho, que eu elogiei e ele me disse ter comprado baratas, numa feira. As calças têm um fecho éclair que sobe desde a bota até à anca. Só enfeite, não serve para nada o fecho éclair. O seu dono, porém, ao que parece, está inteiro e bom. E dorme, ainda sossegado. Ao seu lado e ao meu, teimam-se os tempos que são nossos. Destes tempos me pergunto se ele sabe se ainda, e ao que, serve –

Ana Luísa Amaral

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Não - um poema de Álvaro de Campos



Não: devagar.
Devagar, porque não sei
Onde quero ir.
Há entre mim e os meus passos
Uma divergência instintiva.

Há entre quem sou e estou
Uma diferença de verbo
Que corresponde à realidade.
Devagar...
Sim, devagar...
Quero pensar no que quer dizer
Este devagar...

Talvez o mundo exterior tenha pressa demais.
Talvez a alma vulgar queira chegar mais cedo.
Talvez a impressão dos momentos seja muito próxima...
Talvez isso tudo...
Mas o que me preocupa é esta palavra devagar...
O que é que tem que ser devagar?
Se calhar é o universo...
A verdade manda Deus que se diga.
Mas ouviu alguém isso a Deus?

Álvaro de Campos (30 - 12 - 1934)

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Alguém pensou que nascer é felicidade? - um poema de Walt Withman




Alguém pensou que nascer é felicidade?
Apresso-me a informar, a ele ou a ela, que o é tanto como morrer, e eu sei que é assim.

Morro com os moribundos e nasço com um bébé que foi lavado há pouco, e não existo apenas entre o meu chapéu e as minhas botas,
Observo os vários objectos, não há dois iguais e todos são bons,
A Terra é boa e boas as estrelas, e tudo à sua volta é bom também.

Eu não sou um mundo nem o que existe à sua volta,
Sou um camarada e um companheiro das pessoas, todas são imortais e insondáveis como eu próprio,
(Elas não sabem como são imortais, mas eu sei.)

Cada espécie para si e pra o que lhe é prório, para mim o homem e a mulher são meus,
Para mim os que foram rapazes e que amam as mulheres,
Para mim o homem que é altivo e que sente como dói o que é ser desprezado,
Para mim a amada e a solteirona, para mim as mães e as mães das mães,
Para mim os lábios que sorriram, os olhos que derramaram lágrimas,
Para mim as crianças e os que geram as crianças.

Despe-te! para mim não és culpado nem decrépito nem posto de parte,
Vejo através do pano fino e do algodão fino, quer queiras ou não,
E ando em volta, persistente, ávido, incansável e nada pode afastar-me.

Walt Whitman, As folhas da Erva, Relógio d’Água, 2010

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

sobre o lado esquerdo - um poema de Carlos de Oliveira




De vez em quando a insónia vibra com a nitidez
dos sinos, dos cristais. E então, das duas uma:
partem-se ou não se partem as cordas tensas da sua
harpa insuportável.

No segundo caso, o homem que não dorme pensa:
«o melhor é voltar-me para o lado esquerdo e assim,
deslocando todo o peso do sangue sobre a metade
mais gasta do meu corpo, esmagar o coração».


Carlos de Oliveira in Sobre o lado esquerdo

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Fragmento XVI - Ternura para um dia terno



TERNURA. Prazer, mas também a valoração inquietante dos gestos ternos do objecto amado, na medida em que o sujeito compreende que não tem o privilégio.

1. Não é apenas a necessidade de ternura, é também a necessidade de ser terno para com o outro: fechamo-nos numa bondade mútua, somos reciprocamente maternais; regressamos à raiz de toda a relação, aí onde a necessidade e o desejo se confundem. O gesto terno diz: pede-me seja o que for que possa adormecer o teu corpo, mas não te esqueças também que te desejo um pouco, ligeiramente, sem nada querer para mim imediatamente.

Roland Barthes "Fragmentos de um discurso amoroso", ed. 70, 1981

o poema de véspera




que luz tão forte nesta manhã fulminante.
Fevereiro, treze, falta um dia.
desejava que se prolongasse a noite.
a noite como um sonho de quinze
quinze anos apenas e uma tarde muito quente de Setembro:

corria uma aragem nas veias que se afirmavam
na parte de cima das tuas mãos, brancas e finas, mas não sozinhas.
os joelhos não se tocavam, lado a lado e em frente
enquanto caminhávamos pelos passeios sem destino
éramos como dois barcos presos nas cordas dos braços
e em vagas mais ou menos imprecisas
subindo canteiros ou fazendo pó de areias
chutando uma ou outra pedra de granito
recolhendo uma folha verde ou um galho caído, uvas e vide
na súmula de assunto e desejando ao mesmo tempo o silêncio
um parar de mundo
calando uma lonjura de ruídos na abertura dos lábios, nos sorrisos
como se apenas e únicos
náufragos de uma ilha no cimo do pico do mundo
sem terra por baixo
e só mar, só mar azul, só mar como nós e como tudo –

mas que forte ainda esta luz, um chumbo de um exército sem fim
animado de bulícios, pés síncronos, corridas, os meus olhos
os meus olhos doem como tudo
os meus olhos, tapem a luz da manhã fulminante
desejava que se prolongasse a noite
a noite de vinte cinco, abril, cravos da cor habitual, era domingo:

corria uma aragem nos teus cabelos e caminhávamos em Paris.
as Tulherias eram de uma cor limpa na gravidade pesada dos edifícios
e sorrias, sorrias muito.
o sol era terno e morno. usavas umas sandálias de pele pink
e de vez em quando um rugido e umas garras macias
na minha barba, uma barba imperfeita de dois dias.
vagabundos sem amarras de agenda no deslizar do tempo
vagabundos anónimos e curiosamente nunca havia gente
únicos, a ilha , um círculo –

um rugido e garras macias, no meu ombro, por baixo de uma camisa xadrez
e corridas e paragens e as veias azuis em cima, não sozinhas-
usavas vestidos e os joelhos não se tocavam durante muitas horas
e adormeciam sempre juntos, devagarinho
dois V’s em vértices misturados, juntos
e as mãos trocando abraços nos umbigos, as mãos perdendo peso –

os teus cabelos cheiravam a jasmim e brilhavam brancos
por toda a escuridão, a noite inteira.
o teu nariz encostava nas ideias mais sinuosas e mais inseguras.
adormecíamos em curvas duplas, sossegados
sem os lados mais escondidos e obscuros.
a leveza, a leveza, lembras-te, era domingo, era sempre domingo –

porque não pára esta luz, porque perdura como relâmpago sem ruído.
não é só a luz, dói-me a cabeça como um terramoto
esvazia-se a alma em segundos. de madeira, sim, sinto-me
Pinóquio, marionete e os fios conduzidos por guindastes
tanta gente à volta. riem-se muito.
riem-se muito na manhã fulminante.
desejava que se prolongasse a noite
como um sonho que ganhasse a realidade de um domingo –
e que não houvesse nuvens nem dúvidas, apenas azul e absinto
pelas calçadas gastas sem a sombra de muros quando o sol é bem vindo
bem como a lua, bem como as mãos sossegadas e lisas
bem como a pele adormecida –

hoje é apenas treze, a gravidade do número na luz de segunda
e a luz na manhã perdura fulminante como um pêndulo na cabeça
que vai e volta, que volta e vai como um martelo na ferradura
na ferradura de Pegasus com as asas encostadas contra o mundo –

hoje é treze e a luz acende páginas e papiros nas estantes escondidas.
não devia. porque é fevereiro e amanhã é um daqueles dias:
flores, cores luminosas e palavras doces –

os olhos. os meus olhos doridos. inflamados e as palavras esvoaçando
descendo em círculos no redor vestido da cabeça. segunda. treze.
a luz que não se apaga. mas é preciso. é preciso gastar a água das palavras
as palavras húmidas gasto-as todas de véspera. enxugo-as numa toalha
amanhã será diferente, dom quixote e as velas dos moinhos
o pousar do vento, o fim do redemoinho –

gaste-se depressa o dia e a noite que dure pouco.
seja a manhã fulminante por outros motivos;
pelo jasmim dos cabelos, pelo sorriso dos lábios
pelo encontro dos sonhos dentro do tempo
um tempo que se torne infinito –

e amanhã será domingo –


josé ferreira 13 de fevereiro 2012

domingo, 12 de fevereiro de 2012

impredictível



não me perguntes hoje pelas notícias mais presentes
falamos sempre nelas e sempre encontramos pontes, a mesma ideia
sabemos que nos importam, são importantes e fazemos mudanças;
ajudas influências e gritos para que o mundo mude
para que seja iluminista e se torne mais sensível.
possuímos essa ternura de sermos fortes e suportar o sacrifício
de defender com as unhas as almas mais indefesas
as que não seguem linhas por causa de um vento aflito
de árvores caídas, de pedras no caminho
as que olham e param
que olham e param penduradas em fios
que olham os montículos como montanhas impossíveis.
saberemos ajudar e tanto quanto o preciso
possuímos a resistência e a resiliência
a dúctil alma forte dos desertos e dos paraísos –

apesar do prémio nas fotografias que nos parte a alma
falemos hoje da nossa pele e dos nossos medos
sem sofrimento mas clarividentes
porque os mundos são físicos e podem respeitar leis e mandamentos
mas não há mundos perfeitos
e a axiologia humana é incerta, muito imprecisa –

a alma não será nunca de tijolo cozido, argamassa e cimento
a alma como a vemos será dúctil, indizível, de chamas e brasas
como quando nos encontramos entre memórias de oliveiras e juncos
como quando subimos acima, muito acima das colinas
e surge a flecha, a luminosidade grande de himalaias
branca substancial e forte que funde e dobra -

e a alma será dúctil e surpreendida
como quando encontramos um olhar esvoaçante e silencioso
como quando falamos em segredos e em círculos
e trazemos a cor da duplicidade: proximidade e distância
como espuma frágil e onda repetente
desfolhando as folhas de uma árvore
um interior baú de cartas soltas
nos tapetes voadores de Aladino
ou como uma Alice grande e diferente
na mesma altura e de espessura mais profunda
quando o céu é intenso de azul
e silva a luz, silva uma luz destemida
raios reflectidos, raios de mícrons e agulhas;
uma cura pela acupunctura que clarifica a célula
que assassina o vírus e se torna pura –

e será dúctil a alma será dúctil
como quando se evola em fumo e sobe até às nuvens
dobrando-se na carícia de um olhar humano e simples
mas conduzindo, conduzindo as palavras
como uma canoa na extremidade da língua
recolhendo lágrimas pelas ruas
pelas ruas mais largas ou mais escuras
como um hímen, como um hímen que se abre
no domínio de um sangue vermelho
um rio rendido de dúctil
sinuoso e fluido

a impredictibilidade da vida –

falemos pois de nós da nossa pele dos nossos medos.
senta-te, descontrai os cabelos, fecha os olhos, não me vês
senta-te de novo deixa que te beije a nuca
deixa que me sente
deixa que me encoste nos teus joelhos –

josé ferreira 12 fevereiro 2012

entra pela janela o anjo camponês - um poema de Carlos Oliveira


Charles Curran

Entra pela janela
o anjo camponês;
com a terceira luz na mão;
minucioso, habituado
aos interiores de cereal,
aos utensílios
que dormem na fuligem;
os seus olhos rurais
não compreendem bem os símbolos
desta colheita: hélices,
motores furiosos;
e estende mais o braço; planta
no ar, como uma árvore,
a chama do candeeiro.


Carlos de Oliveira In Entre Duas Memórias

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

a luz é a unidade que não desaparece


Claude Monet 1873

"A luz é a unidade que não desaparece nem se dilui em relação alguma: a todas as sustenta como uma mão diáfana. E quando, a uma primeira e mal interpretada vista, desaparece, é só porque se cobre com um pano de sombra para não deslumbrar. Assim como um céu, num entardecer, usa as nuvens fucsias, roxas, rosas, para que ressaltem o seu verde, o seu amarelo e os seus azuis."

Antonio Gala, La Luz en la Pintura, Carrogio Ediciones, Barcelona, 1998

sem que soubesses




Falei de ti com as palavras mais limpas
Viajei, sem que soubesses, no teu interior.
Fiz-me degrau para pisares, mesa para comeres,
tropeçavas em mim e eu era uma sombra
ali posta para não reparares em mim.

Andei pelas praças anunciando o teu nome,
chamei-te barco, flor, incêndio, madrugada.
Em tudo o mais usei da parcimónia
a que me forçava aquele ardor exclusivo.

Hoje os versos são para entenderes.
Reparto contigo um óleo inesgotável
que trouxe escondido aceso na minha lâmpada
brilhando, sem que soubesses, por tudo o que fazias.




Fernando Assis Pacheco in Musa Regular

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

A espantosa realidade das coisas


Bill Brandt

A espantosa realidade das coisas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada coisa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.

Basta existir para se ser completo.

Tenho escrito bastantes poemas.
Hei de escrever muitos mais, naturalmente.

Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada cousa que há é uma maneira de dizer isto.

Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada.
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.

Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.
Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem esforço,
Nem ideia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.

Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer cousa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.



Alberto Caeiro, Poemas Inconjuntos, Assírio & Alvim, ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith, 2001