segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Diário repetido

Procurei a caneta de tinta permanente
sem a querer encontrar... de frases
provavelmente tristes, sempre tristes,
cansadas de serem tristes..
encontrei-a no pôr-de-sol da vila flácida,
deserta, num final de jogo de bola...
as vozes de uma rádio festival
lançavam ruídos estridentes,
minhotos, amassavam as dores
expandidas, maiores, mais sentidas
no lado esquerdo do bolso
da camisa.

Um diário repetido, sem surpresas,
reflexo dos sentidos contrários,
cinzentos, nublados que me cruzaste
sem o calor dos lábios, na despedida.
Cada um no seu caminho, qual o certo?
o necessário? o verdadeiro?
E que interessa afinal, se o resultado
já é cravado, na pele, num martírio
apertando sempre, o ventre vazio?

Guardo de novo a caneta de tinta permanente
no lado esquerdo do peito
no bolso da camisa...
e nada escrevo
tudo é aquilo que tem que ser!

Não há "fórmula de Deus", não existe.
poderá ser energia o Universo?...
um bater de asas de borboleta
no campo recatado, escondido...
dilúvio no oposto Oceano, um tsunami
de casas de papel, de tornados,
de ventos revoltados... e porque não
só, um bater de asas parecendo simples,
sem nenhuma consequência, ou então...
talvez...tão permanente... no outro lado
do destino, na meia-lua terrena,
algo de diferente, voando nós,
sem a graça, no mesmo ar da borboleta?

Saí como entrei no café antes vazio,
agora cheio de gente...e eu
de alma perdida...

Pés de chumbo, desaperto o cadeado,
guardo a chave, liberto a roda,
de bicicleta parto à procura do mar...

Levo a caneta de tinta permanente,
no bolso da camisa
junto ao peito,
e dentro uma alma de poeta,
atenta!

A luz que se perdeu quando a mulher a deu

De olhar longo ao açúcar
esguio entre panelas flácidas
Ela fia o ninho e espera
suspensa cumpre e prolifera

Atrás do avental de ferro
de lado na terra em guerra
Ela suga o mel da serra
e cura o bicho que lhe chega

Às vozes surdas de medo
que gritam atrás dos muros
Ela sempre foi dando à luz
trilhos lentos e seguros

Hoje da espera delibera e
até a voz do mar se torna exílio
da raiva que aos gatos confessa
à hora do chá de concílio:

“A lua que nos rodeia é como grades
fluímos em extensões do sol e
tal como os das minhas irmãs
o meu olhar é nítido como um girassol!

Mas a visão que é nossa e dos gatos
não tem importância nenhuma
recusando o que é desfeito
no interior do meu peito

E o meu amor não tem
dessa luz a que te dei no leito
para ti que és de entre cegos
o que se sente mais que perfeito.”



Joana Espain

Um outro olhar...(6)


“o direito à (in)diferença...”

quem seremos nós?
e quantos estaremos aqui a fazer amor?
seremos mulheres ou homens?
seremos dois, três ou quatro?

mas, que interessa isso se estamos bem?

todos dizem que temos o direito à diferença
a nós que só queremos
apenas
ter o direito à indiferença

Tonto de amor

Cantavas à janela de Maio florido
Olhando o céu de luz inebriado
E, por fundo, um imenso azul de alegria.

Do canto me ficou em suspenso o que dizia:
“O meu olhar é nítido como um girassol”
– Talvez um eco da alma que te habita!

Sustendo a minha solidão indesejada,
Ouvia-te cantar, distanciada, sonhos
Onde eu já não cabia, e cuidava:
“Nunca são as coisas mais simples que aparecem
Quando as esperamos”.

Eu anseio, meu amor, as rosas do coração,
Rosas fortes como as mãos e sangue da emoção,
“recusando o que é desfeito
No interior do meu peito”.

Mas foi-se o teu canto para dentro
E tu seguiste-lhe os passos, ficando-me a luz assim
No horizonte lá longe como um muro de cetim –
Um rumoroso silêncio dentro de mim a ecoar:
“Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades”
– Coisa, meu amor, que tu não sabes.

E eu desfiei as memórias, tão felizes, uma a uma,
E fiquei triste e fiquei só como fica um girassol
Tonto de amor pelo Sol escondido atrás das nuvens,
Tudo porque descobri, e sem mo dizer ninguém,
Que “O meu amor não tem
Importância nenhuma”.
Até mesmo para ti!...


2008.11.20
José Almeida da Silva

1º Trabalho de casa II

O meu olhar é nítido como um girassol;
surpresas e confusas só as folhas
nos gestos recusando o que é desfeito,
flor de círculos descompondo a Natureza
revirando rosto de abelhas,
pétalas chama de cabelos,
no crepúsculo deciso dos poentes!

Nunca são as coisas mais simples que aparecem,
aos futeis, vulgares, distraídos,
imaturos eremitas parasitas de sinais...
redondos, concretos, cinzentos, inequívocos de ocasos
nos limites, nas fronteiras dos Invernos, dos Estios;
frios, muito frios... quentes, calores demais!

Quando não se conhece a Primavera
nada se escuta, nada se vê ...
até a voz do mar se torna exílio!

Belas são as flores, os rosas dos flamingos,
os bagos de romã, os voos da cotovia,
os restos dos ramos nas camas dos ninhos
das aves, quando as esperamos
antes dos frutos, nas beiras dos caminhos.

Nos campos de girassol
o meu amor não tem o medo dos grãos,
das mãos terra de raízes;
afasta as mousses dos vestidos
descobre-se na descida dos caules
transparece sorrisos de semente
no interior do meu peito.

Belos são os ventos, as melodias, os bailados
das folhas, dos ouriços dos castanhos...
e os dois corpos, longe dos olhos
estranhos, presos nos seus
sussurros de ventres, desejos repartidos...
e o sabor silvestre das amoras,
os figos de mel por entre filtros
de caruma...
a brisa do fundo da terra
que inebria de sopros, apruma,
a nitidez do girassol...

Nada mais tem
importância nenhuma!

domingo, 23 de novembro de 2008

A poesia não se explica...

Aos meus amigos poetas, deixo o testemunho de um grande poeta...


"Não sei falar de literatura. Não sei falar de poesia. Sobretudo não sei se a poesia tem alguma coisa a ver com a literatura. Talvez esteja antes ou depois da literatura. Sei que a poesia não se explica, a poesia implica, como costuma dizer a minha amiga Sophia de Mello Breyner. Sei que a energia, como diz o meu amigo Herberto Hélder, é a essência do mundo e que “os rit­mos em que se exprime constituem a forma do mundo". Sei, como o poeta russo Mandelstam, que "escrever é um acontecimento cósmico". E que cada palavra é um pedaço de universo. Ou como dizia Klebnikov: "Na natureza da palavra viva, esconde-se a matéria luminosa do universo." Talvez tudo isto seja a poesia. Ou talvez ela não seja mais do que o primeiro verso, aquele que nos é dado, como sempre dizia Miguel Torga, porque os outros têm de ser conquistados. Talvez tudo esteja nesse primeiro verso, que é o instante da revelação e da relação mágica com o mundo através da palavra poética. Talvez o poeta, afinal, não seja muito diferente daquele sujeito que vemos nas tribos primitivas, de plumas na cabeça, repetindo palavras mágicas enquanto dança e pula ao ritmo de um tambor. O poeta é esse feiticeiro. Dança com palavras ao som de um ritmo que só ele entende. Ou é talvez o adivinho. Como já não pode ler nas vísceras das vítimas, procura decifrar os sinais dos tempos através de múltiplos sentidos ou dos semi-sentidos da palavra. De qualquer modo, como nas sociedades primitivas, que tinham uma concepção mágica do mundo, o poeta de hoje é como esse xamã antigo que, através da repetição rítmica de palavras e imagens, convoca as forças benfazejas ou tenta exorcizar as forcas maléficas.
A poesia é, assim, antes de tudo, uma forma de medição. Um presságio do sul, como diz o meu amigo José Manuel Mendes. Uma encantada, encantatória e desesperada tentativa de captar a essência do mundo e de, através da palavra, "mudar a vida", como queria Rimbaud. Uma forma de alquimia. Que procura o impossível. Ou seja: o verso que não há.
A poesia é também a língua. E para mim a língua começa em Camões, que tinha uma flauta mágica. A música secreta da língua. A arte e o ofício da língua e da linguagem.. Nem foi por acaso que Dante chamou a Arnaut Daniel "il migiior fabbro". O poeta, dizia Cioran, "é aquele que leva a sério a linguagem". E o que é levar a sério a linguagem? Eu creio que é estar atento aos sinais. Os sinais mágicos da palavra. Os sinais da essência do mundo que por vezes se revelam na palavra poética. Ou talvez o duende e aquela ferida de que falava Lorca. Porque o poeta traz em si uma ferida e o duende por vezes ouve "sonidos negros". É então que a poesia acontece.
Isto é o que sei de poesia. Talvez seja muito pouco. Mas não sei se é possível saber mais."

Manuel Alegre

1º Trabalho de Casa II - Renascer

Ecoam gritos de nós no silêncio
E a luz que nos rodeia é como grades
O sol mergulhou ao fundo nas águas
Escondeu-se
Como eu de ti.

As sombras crescem
Levam-me para longe de nós
A natureza lá fora adormecida
É testemunha
Até a voz do mar se torna exílio.

Quero correr para ti
Mas…
O meu amor não tem
Importância nenhuma
E nunca são as coisas mais simples que aparecem
Quando as esperamos.

Agarro-me a essa muleta que é o tempo
Que tudo cura, tudo desfaz
E perco-me na imensidão do escuro
Aguardo o passar das horas
Esse remédio
Adormeço.

A luz do sol ergueu-se, límpida
Cravou-se em mim
Não sei onde estás
Mas eu renasço
O meu olhar é nítido como um girassol
Enterro os pés nos grãos de areia das dunas
Caminho sem destino
Sem ti, sem mim
Caminho,
Sorrindo
Recusando o que é desfeito
No interior do meu peito.

Poesia de grupo

O meu olhar é nítido como um girassol
Olhando o sol a divertir-se
Iluminando o campo docemente
E em mim correndo como a lua.

É olhar translúcido, e não te vê.

Há montes e vales e planícies,
Há nascentes e rios e mares de prata
Onde os girassóis se banham com o sol
Na nitidez pintada da aguarela.

Vieste assim da cor que te pintei
Olhando para mim como ao sol o girassol
E eu fitei-te no meu deslumbramento.

Elza G.D. e José Almeida Silva

Coisas que partem e fogem

Quando sem engenho
Em ti me empenho
O verso não pulsa
A imaginação entope
Não há circulação
Há coisas a fugir
Esvaem-se em letras
As palavras mancas
Que tentam pintar
Ideias brancas
O cérebro estanca
O que o alimenta
Recusando o que é desfeito
no interior do meu peito

Joana e Marlene
(20 de Novembro de 2008)

Eu quero…o meu amor não tem

Nunca são as coisas mais simples que aparecem
no interior do meu peito
São sempre linhas que a ti me tecem
recusando o que é desfeito

Mas, hoje acordei cheia de sede e de
importância nenhuma
E vi o amor embater numa parede e
esbater-se em espuma

Até a voz do mar se torna exílio
E o tom mais afinado asfixia
Se surdos aos apelos de auxílio
Somos nós-a-sós, dia-a-dia

Mas, hoje acordei cheia de sede e de
estranhas vontades
E vi o amor num mortal sem rede
Partir em meias-verdades

O meu olhar é nítido como um girassol
E a luz que nos rodeia é como grades
(Cá dentro querido, sinto muito, mas ainda
ainda sinto o sol de outras tardes)

Por isso, hoje acordei cheia de sede e de
vontade de correr
Porque o meu amor já não tem
Tempo a perder

um outro olhar...(5)


“as raízes do amor…”

nós somos uma raiz
ou seríamos duas e nos transformamos numa só?
vivemos a nossa vida debaixo de terra
sempre ligadas por este beijo eterno

até que um dia

fomos arrancadas lá do fundo, sem saber porquê
vimos o sol e a lua, os pássaros e as pessoas
demos voltas e mais voltas, mas, apesar de tantas mudanças
estivemos sempre ligadas por este beijo eterno

e de que será feito este beijo?

será um beijo dado olhos nos olhos?
com partilha, afecto… e verdade?
terá nascido de uma pequena semente e foi crescendo?
e terá dado sempre tempo ao tempo?

serão estas as raízes do amor?

sábado, 22 de novembro de 2008

"soneto" do anjo


fotógrafo: YOSHIHI TANAKA

Não se deixa de gostar
Em ápices que nos separam
Mesmo quando não me vês
Passando por ti assim tão pequenina.

Como a estrela que vela o norte
Em cada perda do teu olhar
Que me encontra na dita sorte
Encarnada de anjo por saber amar.

Os anjos ficam tristes?
Não, se os souberem cuidar
Para isso preciso que fiques.

Fica enquanto eu te estimar
Um anjo serei a cada anoitecer
Um anjo serás por me amar.
filinta martins

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Um poema de que gosto

Na nossa primeira aula da segunda série vagueámos na fronteira indefinida de prosa poética e poesia. Não ficou claro. Ainda ando enredemoinhado como num jogo de voleibol onde a bola atravessa a rede e não chega a cair ao chão, de qualquer forma continuo a pensar no assunto. Como resultado destas divagações lembrei-me deste verso de Carlos Drummond de Andrade " o amor, seja como for, é o amor " e recolhi o poema para partilhar convosco

Cantiga de amor sem eira
nem beira,
vira o mundo de cabeça
para baixo
suspende a saia das mulheres
tira os óculos dos homens,
o amor, seja como for,
é o amor.

Meu bem, não chores,
hoje tem filme do Carlito.

O amor bate na porta
o amor bate na aorta,
fui abrir e me constipei.
Cardíaco melancólico,
o amor ronca na horta
entre pés de laranjeira
entre uvas meios verdes
e desejos já maduros.

E quando os dentes não mordem
e quando os braços não prendem
o amor faz uma cócega
o amor desenha uma curva
propõe uma geometria.

Amor é bicho instruído.

Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na àrvore
em tempo de se estrepar.
Pronto o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.

Daqui estou vendo o amor
irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo corpos, vejo almas,
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas
que não ouso compreender.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Eu, vossa Professora, desejo-vos...

Meus queridos Alunos,


Depois de trinta e seis anos como Professora, chegou, no dia vinte e cinco de Setembro de 2007, o momento de vos deixar.A minha aposentação foi um grande turning-point na minha vida! Um turning-point desejado, necessário e esperado que, no entanto, me deixou, plasmado na alma, aquele indefinido mas amargo travo de Saudade! De todos vós!

Hesitei muito antes de vos escrever esta carta. Porém, após todos estes meses, decidi "conversar" um bocadinho convosco, para vos desejar felicidades, para vos dizer que nunca vos esquecerei, para vos agradecer por terem dado tanto colorido e encanto aos meus dias, mesmo aos mais cinzentos, e para para vos chamar, mais uma vez, pela última vez, "meus"! Porque todos, e cada um de vós, foram, realmente, um pouco "meus"!

Ao longo dos anos, tantos anos, fui tendo notícias de alguns; perdi o contacto com quase todos mas, espero que estejam bem; outros perderam-se e perdi-os.Enquanto vos acompanhei, vi-vos crescer e cresci convosco; ensinei-vos e aprendi também; dei-vos afecto e recebi o conforto da vossa atenção e da vossa alegria.

No fim do ano lectivo, ofereciam-me, geralmente, uma rosa orvalhada de carinho ou, um ramo de flores lindas, perfumadas e brilhantes, polvilhadas de ternura, que eu apertava contra o peito e salpicava com lágrimas de emoção e incontido orgulho!Pelo vosso aproveitamento escolar, pela vossa gentileza, pelo vosso delicado "saber estar"!
Depois, à despedida, pediam-me, invariavelmente, que as guardasse, com o cartãozinho assinado por todos e davam-me, mesmo, algumas sugestões para melhor as secar, como se, nas suas pétalas secas, frágeis e amareladas, fosse possível eternizar aqueles momentos de doçura e encantamento, representativos de um período particularmente feliz e despreocupado da vossa Vida!

Na verdade, meus queridos, esse é o desejo ancestral e jamais realizado de todos nós: poder fazer parar o Tempo e o Mundo nas horas de mágica plenitude, quando o nosso coração quase explode de felicidade e alegria e o céu nos parece tão perto que quase podemos tocá-lo com a ponta dos nossos dedos!

Mas, aconteça o que acontecer, enquanto um só de vós se lembrar da Escola, dos colegas e de mim, voltaremos a estar juntos e vós sereis, de novo, adolescentes estuantes de energia e de Esperança e eu estarei lá, ao vosso lado, igualzinha à professora que trabalhou, riu e aprendeu convosco!
E, a rosa, orvalhada de carinho, continuará fresca, bonita , mais radiosa ainda, porque nimbada pelo brilho mágico que só a memória confere a tudo o que, enternecidamente, guarda!
É esse o poder espantoso do Amor, da Amizade e da Saudade, também!

Escrevo-vos hoje, meus queridos, para vos desejar o melhor e o mais belo de tudo!Todos sabemos, porém, que não vivemos num Mundo virtual de alegrias mil, num paraíso róseo de sonho e magia mas, num Mundo real, feito de dias de cansativa rotina, de momentos de fantástica felicidade e de horas de esmagadora tristeza!
Não quero com isto dizer que a vida seja simplesmente branca ou negra porque, é, no seu todo, um deslumbrante caleidoscópio de sentimentos e de emoções, um turbilhão incandescente e tumultuoso, de encontros e de desencontros! Connosco e com os outros!

Mas, a vida é também desafio que devemos aceitar de coração aberto,como aceitámos a missão que nos foi destinada e nos é entregue no dia em que nascemos. Porque, estranhamente, os desafios com que a vida se entretém a pôr-nos à prova, são sempre, por um desígnio superior qualquer, à medida das nossas forças, como a missão, (ou, será destino?), que nos coube em sorte cumprir.

À medida que crescemos e crescemos enquanto vivemos, vamos compreendendo que o nosso percurso, na vida, é a subir. Por isso, meus queridos, o caminho é, aqui e ali, difícil, tortuoso, íngreme!
Às vezes, tropeçamos, desequilibramo-nos, caímos e vemos esfacelarem-se, no chão, algumas das nossas crenças e ilusões, alguns dos nossos projectos, algumas das nossas mais douradas aspirações!

Contudo, porque assim tem de ser, levantamo-nos, recolhemos nas mãos, manchadas de pó e de lágrimas, os pedaços rasgados dos nossos sonhos, curamos as nossas feridas e prosseguimos, sempre em frente, sempre a subir, hesitantes nas encruzilhadas, parando cautelosos à beira dos precipícios que aparecem, quando menos se espera.Para nos ajudar, nesses momentos de hesitação perante o desconhecido, de terror frente ao abismo, podemos recorrer às nossas referências, à nossa consciência, ao nosso bom-senso e, com alguma cautela, ao nosso coração!
Porque, meus queridos, nem sempre podemos "ir onde ele nos quer levar"!

Se é verdade, que a estrela que se esconde no nosso coração e nos guia, nunca empalidece, nem mesmo quando o corpo evidencia já sinais de decadência, também não é menos verdade, que este companheiro precioso que nos mantém vivos, nunca envelhece e conserva, ao longo da vida, o mesmo ímpeto, a mesma ousadia, a mesma irreverência, a mesma paixão da juventude.
E, é essa sua fogosidade apaixonada que pode ser perigosa! Em certas situações!

Um grande escritor inglês comparou a vida a um tapete que vamos tecendo dia a dia, hora a hora. Nele, a nossa vida seria, ponto a ponto, bordada, a sangue e a espinhos, a fios de luz e a rosas, e as pessoas que fossem cruzando o nosso caminho, nele deixariam as marcas de fogo ou de gelo, da sua bondade ou da sua perfídia, do seu amor ou do seu ódio, da sua amizade ou do seu despeito, da sua dedicação ou da sua indiferença.
Muitas vezes, tenho pensado que, quando eu tiver cumprido a minha missão,( ou, será destino?), e desdobrar, aos pés de Deus, o tapete que laboriosamente teci, muitos serão os motivos lindos, coloridos, luminosos e macios que todos vós, alunos meus, ali terão deixado gravados!

E, eles contribuirão, com a beleza pura do seu recorte, para a redenção de todos os pedaços negros, pantanosos, medonhos, dos meus desencontros comigo mesma, dos gritos mudos dos meus terrores, dos momentos amargos do meu desespero, das horas pungentes do meu cansaço!

Talvez, nesta dualidade de luz e de sombra, nesta certeza de que tudo o que fazemos tem um peso e será a medida justa da nossa salvação ou da nossa condenação, esteja contido o sentido da vida!

Desejo, meus queridos, que a nível profissional tenham sido e sejam sempre bem sucedidos,(alguns de vós, eu sei, são nomes já altamente credenciados nas profissões que escolheram); desejo que se realizem plenamente, se valorizem e se agigantem, moralmente, cada dia que passa! Confio no vosso sentido de responsabilidade, no vosso empenhamento, na vossa combatividade! Mas, também confio na vossa solidariedade, na vossa generosidade e sei, que quando descansarem, serenos e aconchegados no conforto doce e tépido das vossas casas e estenderem à vida as mãos cheias de tudo, não vão esquecer aqueles que, transidos de dor e de frio, arrastam o peso insuportável de uma existência cheia de nada!

Desejo, igualmente, que tenham encontrado ou, venham a encontrar, o Amor da vossa vida, na pessoa certa, que vos ame, vos acarinhe, vos aprecie e não traia nunca a vossa alegria, a vossa confiança, a vossa inocência!
Um Amor que percorra convosco o tal caminho sempre a subir mas que, amando-vos e amparando-vos, vos dê inteira liberdade para escolher e decidir, frente às encruzilhadas, e vos deixe crescer e voar livremente no azul infinito dos vossos anseios!

Mas, também vos desejo um Amigo, alguém que, em certos momentos, é mais precioso do que um Amante, pois o sentimento de posse que, por força da relação amorosa, lhe é inerente, pode fechar-lhe a alma, embotar-lhe os sentidos e, por isso, não compreender, não ver e, às vezes, mesmo sem querer, sufocar e destruír!
Um Amigo não é assim!

Um Amigo, meus queridos, é como um raio de sol que, atravessando o céu pesado, triste e escuro de uma manhã chuvosa de inverno, enche de luz e encantamento todos os recantos do dia e cobre, de ouro e de pérolas líquidas, as pedras do chão, a lama, as árvores!
Esta é a razão porque, hoje, desejo, ao vosso lado, alguém que saiba dar, sem nada pedir em troca, que repouse, apaziguado, na vossa paz e vos apoie, firme e ousado, nas vossas batalhas e nunca, mas nunca, faça perguntas!


As horas foram passando e um novo dia desliza, lentamente, ao encontro da noite que se esvai, para, num longo e silencioso abraço, a diluir, definitivamente, na sua claridade branca e fria.
E, esta hora de mansa quietude, suspensa, entre a noite e a madrugada, é o tempo certo para dar por terminada esta minha "conversa" convosco.

Gostaria, meus queridos, de vos ter escrito a mais bela carta, jamais escrita, de ter inventado, para vos dizer, as palavras mais bonitas, jamais ditas, de ter criado, só para vós, as imagens mais delicadas, jamais criadas.
Não fiz, naturalmente, nada disso!

Ao reler estas linhas, penso mesmo que, tendo divagado tanto, teria, afinal, bastado ter-vos dito que vos amei, ensinei e orientei, como se fossem, realmente, "meus", que vos amo e que quero, do fundo do meu coração, que se sintam sempre de bem convosco, com os outros, com a vida!

Quero, meus queridos, que sejam felizes e, talvez, muito mais do que isso, porque a felicidade também se aprende, que saibam ser felizes!

Vossa Amiga para sempre,

Maria Celeste S. M. Carvalho

Livre

Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades


O silêncio grita na espera vazia,
E a sombra inunda as minhas tardes.
O luar não encontra janelas
Por onde se veja a madrugada,
Que ressuscite nos olhos e na voz
O som esquecido da gargalhada,
Que conquiste o mar, dele faça caminho aberto
E dance na alegria do encontro e na saudade,
Que ser humano… adulto, criança, sério, insano…
Tudo é nada, se o não é em liberdade.



António Roma e  Raquel Patriarca
19.novembro.2008