sábado, 19 de junho de 2010

Passado, Presente, Futuro






Eu fui. Mas o que fui já me não lembra:
Mil camadas de pó disfarçam, véus,
Estes quarenta rostos desiguais.
Tão marcados de tempo e macaréus.

Eu sou. Mas o que sou tão pouco é:
Rã fugida do charco, que saltou,
E no salto que deu, quanto podia,
O ar dum outro mundo a rebentou.

Falta ver, se é que falta, o que serei:
Um rosto recomposto antes do fim,
Um canto de batráquio, mesmo rouco,
Uma vida que corra assim-assim.

José Saramago, in "Os Poemas Possíveis"

não é costume falar da morte


fotografia retirada da internet


não é costume falar da morte.
ausência, presença irrepetível.
existe um dia.

não é costume porque a morte é triste
inexiste o corpo e a mente.
oco e vazio.

a morte é horrível -

sexta-feira, 18 de junho de 2010

No dia da morte de José Saramago, por Sylvia Beirute



















NO DIA DA MORTE DE JOSÉ SARAMAGO

{poema de homenagem}


agora, livre da coadjuvância das afectações: os
deuses se escondem nas artérias do teu
silêncio, na tua fraqueza perfeita porque
sem o hábito de se auto-observar.
voltaste a ti: numa outra intermitência da morte, com
o sublime que é tudo aquilo que ignora um todo e
conduz uma perspectiva até ao quociente interno
de uma invisibilidade que fala através
do teu questionário incicatrizável.
e daí tudo vês: vês-me faltar de propósito à
conclusão do meu poema, vês o peso
da omnipresença do abstracto, da hora antiga,
vês as minhas infâncias e urgências juntas e tar-
dando hoje em se converterem, devolvendo-me
ao que eu era: ao início do dia.

Sylvia Beirute
inédito

Caminhavam de mãos dadas


fotografia retirada da internet


A mesa de pernas de aranha incomodou a leitura.
A ténue realidade de uma luz no dia ainda pouco claro
Encaminhou na mesma página o boomerang de palavras:
Caminhavam de mãos dadas.

Descruzou a perna e colocou na frente um banquinho
Com ar de porco espinho; serviu de almofada a solas gastas.
O focinho apontava no mesmo círculo de palavras:
Caminhavam de mãos dadas.

A mesa de pés de aranha sem teia era infeliz.
O porco espinho na impossibilidade de se enroscar
Fincava uns olhos horizontais e apontava o nariz.
O sofá como colchão de água, balouçava e enredava
o eco largo de voz cava:
Caminhavam de mãos dadas.

O livro súbito fechou na mesma frase.
Súbito conversou com o tapete magoado
De risca verde alface no abismo do sofá.

Uma espiral nos olhos negros insistia
Rodava, rodava, nos olhos fechados:
Caminhavam de mãos dadas -

LIFE PRETENDING DEATH




Quando o mote é o amor finjo-me de morto
e mudo de conversa, de Veneza e de canal
e de hábitos nocturnos e tristes
e quando não posso fingir-me de morto
uso uma técnica em tudo parecida à vida
que um beijo plagia
na sua perfeição sufocante.

Pratico um certo tipo obscuro de sedação
procuro que a minha escola hipnagógica
aflija a tua pele de instantes
irreversíveis.
Por exemplo:
interessa-se sobretudo que o meu nível de consciência
se entregue a uma diminuição radical de luz e periferias,
mas que nunca perca de vista
o assalto que é preciso fazer sempre
que o outro morre também
quando o mote é o amor
e as práticas obscuras de ambos
acusam uma intimidade rasgada
precisamente no mesmo vínculo
perdido.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

o olhar espantado de Caravaggio


fotografia retirada da internet

naquela época antes das abóbadas pintadas
os portões de duas argolas, nas duas portas,
encostavam circulares nos altos arcos.

quando abertos cantavam
os mármores das calçadas
ecos de cascos de cavalos
trombetas e estandartes
pagens e gatos rápidos
fugindo a outros lugares;
caves, túneis e escadas
na luz flácida de flamas;
archotes triangulares.

naquela época, o azul, o violeta, o rosa forte
cores de Giotto, nas paredes, nos tectos
como enormes quadros de centenas
centenas de gente em rosto diferente
a elevar a alma, a mostrar segredos
na iluminada mente de muitas cenas.

naquela época o berço do renascimento
o despertar da ciência
sob o olhar espantado de Caravaggio
numa rodela de cedro.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

lógica





a lógica não comanda a emoção
como lúcida engrenagem no encaixe de incidentes.
não conforma o esqueleto na posição correcta
para melhor mexer os lábios de frases certas.
é previsível como um quadrado ter quatro lados;
normas desactuais de possibilidades.
a negação da surpresa. um paradoxo filosófico.

a lógica é uma defesa e a noção geométrica do medo.

terça-feira, 15 de junho de 2010

A taça de chá


retirado da internet

O luar desmaiava mais ainda uma máscara caida nas esteiras bordadas. E os bambus ao vento e os crysanthemos nos jardins e as garças no tanque, gemiam com ele a adivinharem-lhe o fim. Em roda tombavam-se adormecidos os idolos coloridos e os dragões alados. E a gueisha, porcelana transparente como a casca de um ovo da Ibis, enrodilhou-se num labyrinto que nem os dragões dos deuses em dias de lagrymas. E os seus olhos rasgados, pérolas de Nankim a desmaiar-se em água, confundiam-se cintilantes no luzidio das porcelanas.

Ele, num gesto último, fechou-lhe os lábios co'as pontas dos dedos, e disse a finar-se:--Chorar não é remédio; só te peço que não me atraiçoes emquanto o meu corpo fôr quente. Deitou a cabeça nas esteiras e ficou. E Ela, num grito de garça, ergueu alto os braços a pedir o Ceu para Ele, e a saltitar foi pelos jardíns a sacudir as mãos, que todos os que passavam olharam para Ela.

Pela manhã vinham os vizinhos em bicos dos pés espreitar por entre os bambus, e todos viram acocorada a gueisha abanando o morto com um leque de marfim.

A estampa do pires é igual.

Almada Negreiros, in 'Frisos - Revista Orpheu nº1'

cartas de presença - o pecado de uma ausência


Azul do Egipto (silicato de cobre)


descobre o cobre de cor azul
dentro de um frasco de pharmacia
elemento alquimista de um céu límpido
sem os brancos dançarinos – gotas de água.

descobre o sol saliente que levanta o algodão
quase pena branca de escrita lenta
num início de lençol de linho traçando a perna nua
uma onda que acentua a seda e a luz de saída;
colina alva de pele, energia positiva.

abre dois ramos, dois remos de ar, dois braços
acima. acima. estica o espírito, de gestos
gestos tensos, espasmos, arrepios,
pequenas pontas de alfinetes
subindo os degraus firmes a um lago adormecido
a um rolo de cabelo apanhado como um ovo
solta o pescoço e os olhos abertos
ou fechados, ao ritmo certo.

descobre o pequeno almoço, as torradas
como cartas de presença e o sumo de laranja
reinvenção de um néctar consistente
doce e fresco que se entrega;
cálice de veludo e permanência.

descobre como são únicas as migalhas
grãos de praia sobre o leito qual toalha
sobre o dia que se estende, quente
numa risca incidente na parte mais larga da coxa;
um sinal de desejo .


descobre que saí de madrugada
consternado na ausência já vizinha
como um gelo de Kiev, uma ventania invencível
que solta o corpo em partes divididas na estrada
qual fim de mundo de grau zero, de grau nada
pedra pesada na água que se afunda
depois do sonho, depois do sono tão profundo ;
e os dedos, os teus dedos, dedos leves de almofada
nos dois lados cara.

descobre que as horas não demoram
que o mar mediterrâneo pousa e espera.
que as algas presas e o nadar de costas moram
nas melhores ilhas, as desertas, sem procurar caravelas
a construir num pedaço de selva, um dossel
de lianas e ruídos e brilhos de folhas verdes,
restos de magnólias e cachos violetas.

descobre o cobre que me cobre de tinturas
separando cicatrizes, ternuras incompletas
as despedidas, as descobertas,as partidas equilibristas
os sons de lua e as estrelas das arestas.

descobre a lisura fácil dos poemas
nos estames das orquídeas, das prímulas
na esguia silhueta das sombras dos ciprestes
nas mandrágoras dos mandrakes
cobre-me de magia e paraísos;
homem água, homem fogo, homem tudo
a elevar planetas.

descobre o presente junto ao cravo
junto ao frasco de pharmacia mogno escuro
onde o cobre não se descobre mas azul
azul do Egipto, de Babilónias.

adivinho a inclinação do umbigo e a forma como ergues
o desenho simples, quase um esquiço
e um sorriso. adivinho a leitura de algumas linhas.
os lábios finos. adivinho.

descansa um pouco antes de continuares o livro.
liga o Cd pelo comando. sem o saber. descansa.

ainda cedo deitei comida ao peixe
enquanto preparava um pouco de geleia.
os gatos serenos sumiram na sombra das plantas.
as tartarugas esticaram as cabeças para olhar a glicínia
depois esconderam-se na telha portuguesa.


o Rui e a Luísa falaram no último projecto de um teatro
sobre modernidade e revolução, ao som da marselhesa.
reinscrição daquelas ideias que nunca completam
hibernam e voltam plenas de entusiasmo e emoção.

volto. volto cedo. muito cedo.
a tempo de colher as framboesas -

segunda-feira, 14 de junho de 2010

a chave dos sonhos



Magritte " A chave dos sonhos" 1930


um sonho pode ser uma acácia perto do cais
um barco, um mar
um farol na forma de uma vela acesa
um fumo ténue que sobe sobre o ar.

um sonho pode ser não haver deserto
nem um martelo de aço que bate
sincopado em ritmo de oráculo, igual.

um sonho pode ser encontrar o tempo certo
sem a neve formal de um chapéu de coco
ou a filosofia mais antiga de um primeiro:
o ovo ou a galinha?

um sonho pode ser uma chave na tempestade
o princípio, quando quase a permanente ausência
uma viagem sem distância de forma intensa
a emoção de um grande descobrimento.

um sonho pode ser sempre -

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Sem outro intuito


De Chirico "Hector e Andromache" 1917

Atirávamos pedras
à água para o silêncio vir à tona.
O mundo, que os sentidos tonificam,
surgia-nos então todo enterrado
na nossa própria carne, envolto
por vezes em ferozes transparências
que as pedras acirravam
sem outro intuito além do de extraírem
às águas o silêncio que as unia.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

caminho florentino




a torre inclinada era no lugar imaginado.
o mercúrio de prata sobe acima dos trinta.
o comboio de janela aberta oscila, antigo
escorrega as linhas, afasta-se de Pisa
procura a flor florentina.

cortinas azuis de muitas quadrículas
percorrem o vento na carruagem
fora e dentro
dobradas e loucas em movimento
fora e dentro.

as estações sem fumo nem gente, de ar amarelo.
os campos vagos e ausentes, alguns de cor seca.
podia ser um qualquer lugar de Agosto
nas margens paradas do rio Coa
há muito tempo nas férias de muitos meses.

fora de linhas os rolos enrolados de cereais
uma imagem quieta de uma corrida
em pistas douradas de espigas.
de fronteira, árvores, onde se reconhecem
as vestes de flores vermelhas da romazeira
e as torres de losangos metálicos, altos
onde no alentejo fazem os ninhos
aves de bicos grandes;
curioso vê-las voar de fraldas atadas
responsáveis por todos os nascimentos.

a caminho de Florença as cortinas
voam leves no vento. fora e dentro.
fora e dentro.

num pequeno intervalo enquanto o calor
se estende de deslizantes gotas
surgiu a vontade de colocar as letras
nas costas largas de um bilhete.

poucas, poucas letras porque a caneta
rebolou numa tinta lenta e redonda
cansada transpirou, caiu para o lado
como se macio o banco da carruagem
ou o plástico cinza empolado e fraco
que escondia o chão.
caiu para o lado e adormeceu.

quando acordou de um sonho imaginado o rio Arno brilhava
e as margens mostravam muitos verdes de folhas pequenas;
reconheceu os amieiros de mãos estendidas e troncos finos.
inclinados. inclinados no equilíbrio difícil.

Florença é bonita -

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Gestos a evitar



Recupero da febre das princesas de mármore.
Vou tornar-me num homem necessariamente melhor
mas sem flores para dar.
A partir de agora, levarei apenas o meu corpo frágil
ao baile
e ao teu pescoço as minhas mãos
desiguais.
Viajarei sozinho para as ruínas de amanhã
capital do novo âmago.
Levarei a minha face à face da estrada
estupefacta, e serei eu próprio quem irá escrever
a notícia dos meus passos directos ao acidente
e ao oriente da idade, e de tudo o mais
que nos embaraça
de rugas e teatros exaustos
entre tantos gestos a evitar.

domingo, 6 de junho de 2010

Elogio da imperfeição




A maior avenida não é a da liberdade.
Há lugares que só na proibição se acendem.
Por exemplo: uma mulher quis ser uma sereia
célebre e ofereceu metade do seu corpo
à ictiologia e à natação.
Mandou vir a mudança radical pela internet.
Como se esquecera de especificar o animal
marinho, trouxeram-lhe um fato de cefalópode
sem possibilidade de troca ou reembolso
de esperanças.
No entanto, a mulher que queria ser uma sereia
célebre não desesperou. Vestiu o fato
e comprou um microfone para cada tentáculo
e foi para a avenida da liberdade cantar.