terça-feira, 11 de janeiro de 2011

A Magnólia


Miguel Bagur 1989

A exaltação do mínimo,
e o magnífico relâmpago
do acontecimento mestre
restituem-me a forma
o meu resplendor.

Um diminuto berço me recolhe
onde a palavra se elide
na matéria - na metáfora -
necessária,e leve, a cada um
onde se ecoa e resvala.

A magnólia,
o som que se desenvolve nela
quando pronunciada,
é um exaltado aroma
perdido na tempestade,

um mínimo ente magnífico
desfolhando relâmpagos
sobre mim.


Luiza Neto Jorge "O seu a seu tempo" Assírio & Alvim 2001

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Tento empurrar-te de cima do poema

Encontra mais artistas como Clara Ghimel em Música do Myspace


Clara Ghimel "Coisas de Partir" disco "Entremares"


Tento empurrar-te de cima do poema
para não o estragar na emoção de ti:
olhos semi-cerrados, em precauções de tempo
a sonhá-lo de longe, todo livre sem ti.

Dele ausento os teus olhos, sorriso, boca, olhar:
tudo coisas de ti, mas coisas de partir...
E o meu alarme nasce: e se morreste aí,
no meio de chão sem texto que é ausente de ti?

E se já não respiras? Se eu não te vejo mais
por te querer empurrar, lírica de emoção?
E o meu pânico cresce: se tu não estiveres lá?
E se tu não estiveres onde o poema está?

Faço eroticamente respiração contigo:
primeiro um advérbio, depois um adjectivo,
depois um verso todo em emoção e juras.
E termino contigo em cima do poema,
presente indicativo, artigos às escuras.

Ana Luísa Amaral in "Coisas de Partir"

domingo, 9 de janeiro de 2011

Às vezes as coisas dentro de nós


Frida Kahlo "Autoretrato com colar de espinhos e colibri" 1940

(dedicado a Maria de Lourdes Pintasilgo)

O que nos chama para dentro de nós mesmos
é uma vaga de luz, um pavio, uma sombra incerta.
Qualquer coisa que nos muda a escala do olhar
e nos torna piedosos, como quem já tem fé.
Nós que tivemos a vagarosa alegria repartida
pelo movimento, pela forma, pelo nome,
voltamos ao zero irradiante, ao ver
o que foi grande, o que foi pequeno, aliás
o que não tem tamanho, mas está agora
engrandecido dentro do novo olhar.


Fiamma Hasse Pais Brandão "As Fábulas"

sábado, 8 de janeiro de 2011

O meu olhar é nítido como um girassol


Steve Mcurry


II

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar ...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...



Alberto Caeiro In O Guardador de Rebanhos

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

acreditar nas mitologias


Dante Rosseti " Vénus" 1868


não deveria dizer da forma mais crua
mas é verdade
como ter acordado, abandonado o pijama
e mergulhado na água morna.
é verdade como o barulho constante, líquido
a escorrer a pele molhada, a acumular um pouco
no sólido esmalte branco que contorna os pés
e a descer na indeterminação do ralo.
é verdade, é verdade
que quando se atenta no mais da dor, alegria ou amor
a insatisfação de um horizonte médio não completa
é como habitar um copo de água insípida
um sal perdido -

as lanças, as lanças, mais à frente, mais à frente
os trajectos constantes de fragmentos e mudanças
mudar sempre, mudar sempre
encontrar mais e mais caminho

e acreditar nas mitologias -

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

reticências


Amadeo Modigliani " Mulher de olhos azuis" 1900


reticências, as reticências, em intervalos por dizer.
repetidas nevralgias, desconstruções pequenas
nebulosidades de subsistência, círculos de possibilidades
em três mil salas, três mil salas -

outsiders sem horas, desviantes, desviados
nas cidades absorvidas sem remédio.
cura impossível e abstracta
com a proximidade do céu
ali tão longe, ali tão perto -

fechar os olhos e delirar, delirares, delirarmos
ardentes, ardentes num mar de símbolos
em três mil salas, três mil salas -

dentro da cabeça um fogo de artifício
e os teus olhos em círculos
de três mil chamas, três mil chamas
três mil chamas de paraísos -

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Emily


Annie Leibovitz

Fame is a bee
It has a song -
It has a sting -
Ah, too, it has a wing.


A fama é uma abelha.
Tem uma canção -
Tem um ferrão -
Ah, tem asa, também.

Emily Dickinson "Cem poemas" Relógio D'Água 2010 (Trad. Ana Luísa Amaral)

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Amor


Clarence J. Laughlin

Aqueles olhos aproximam-se e passam.
Perplexos, cheios de funda luz,
doces e acerados, dominam-me.
Quem os diria tão ousados?
Tão humildes e tão imperiosos,
tão obstinados!

Como estão próximos os nossos ombros!
Defrontam-se e furtam-se,
negam toda a sua coragem.
De vez em quando,
esta minha mão,
que é uma espada e não defende nada,
move-se na órbita daqueles olhos,
fere-lhes a rota curta,
Poderosa e plácida.

Amor tão cheio de Amor,
Que sensível és…
Sensível e violento, apaixonado.
Sensível e violento, apaixonado.
Tão carregado de desejos!

Acalmas e redobras
e de ti renasces a toda a hora.
Cordeiro que se encabrita e se enfurece
e logo recai na branda impotência.

Canseira eterna!
Ou desespero, ou medo.
Fuga doida à posse, à dádiva.
Tanto bater de asas frementes
tanto grito e pena perdida…
E as tréguas, amor cobarde?
Cada vez mais longe,
mais longe e apetecidas.
Ó amor, amor,
que faremos nós de ti
e tu de nós?

Irene Lisboa

sábado, 1 de janeiro de 2011

um melhor ano


Fim de ano na Madeira (retirado da internet)


o pinheiro era largo e manso
ocupava de verde um quarto da sala.
foi há um ano.

a contribuição luminosa de uma estrela
recolocava o mistério da sombra
enquanto decorria, rápida, a última contagem;
os segundo caíam gastos.
foi há um ano.

invadiram os tectos as rolhas de cortiça
borbulharam pelos copos os bagos vaporosos
e nos maiores ruídos de alegria
todos desejaram e desejam
guardar o ano velho como um livro já impresso
no sítio certo, da sua biblioteca -

e todos acreditam, bem lá no íntimo
mesmo que nublados pelo pessimismo

um melhor ano está para vir -

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

apaga o mais lentamente que puderes


Annie Leibovitz "Petra"

apaga o mais lentamente que puderes aquela luz acesa
como se não fosse filamento e antes a ondulante chama.
vem com a tua mão mais invisível e segura sem ruído o clic.
deixa imersa no quarto a grande sombra, a mãe de todas as sombras
porque o escuro guarda todas as possibilidades do branco.
vem com a palma totalmente aberta, as duas palmas totalmente abertas
vem sobre a febre do rosto e sente
um manto morno de palavras a assumirem os pulsos
a subirem os braços, a fecharem os ouvidos depois de entrarem.

permanece na ardência que não queima
mas é mais grave -
permanece como um grande mar, no escuro
nas três curvas de um búzio;
ondas, ondas, ondas e espuma -


segura com força os ponteiros.
sinto-me bem. sinto-me bem.
não deixes avançar o tempo -

Tempo


Fotografia retirada da internet

Tracei a linha por onde caminhara
E no fim o abismo –
Apaguei a luz e acendi estrelas,
Sentei-me a pintá-las no vazio –
Ilusório balão de oxigénio –
Então o horizonte era um intenso frio.

O tempo não é como a primavera. Faz a sua viagem
Sem retorno, e eu vou com ele, ainda que não queira.
Vou de mão dada contra o medo –

Move-se o fantasma viajante diante do abismo.
Acordo nesse instante em vigoroso tiquetaque
E acendo a luz do quarto. Não há ninguém por perto.

– A morte é uma ilha no deserto que terei de descobrir
Sozinho e a seu tempo –

2010.10.27
José Almeida da Silva

Ejaculatio Praecox (antecipando 2011)




Acaba-se de beber o ano que morre, em agonia decrescente, e começa-se imediatamente a beber aquele que nasce do seu extremo altruísmo mortal: a dádiva do seu nada ao próximo e ao porvir. Talvez haja, agora que 2010 se presta para o fim, como nos momentos em que a morte prefigura plena e minimizada na máxima conveniência dos casais combativos, um instante em que todo o templo da ortodoxia trema e se iluda no seu intervalo aberto e diferido, em que não haja a consciência aterradora do tempo, senão como eixo da contracção, arquipélago de instantes altamente instáveis e furtivos, para quem as máquinas persecutórias do tempo valem menos que uma mão sem indicador ou polegar.
Talvez se finjam núpcias e exemplos, uma esmagadora infecção na maioria do tempo, que, de repente, se torna alheio ao costume e à utilidade. Talvez tudo respeite o aspecto do ciclo e a determinação das épocas tributáveis e malsãs, a longa lenga-lenga das ruas expostas da cidade ao desmazelo e ao ludíbrio, com a sua invariância de vernáculo e a sua longevidade de animal de pulsação lenta e hábitos inusuais.
Somos feitos de grandes deglutições de tempo, parâmetros insubornáveis, coisas coerentes com a sua excelente extinção e falta de coragem para mais, e da decomposição lenta de tantos mundos cronometráveis e dedicados, oportunidades demitidas, fórmulas e vícios e âmbar, vimos agradecer a não sei quê ou a não sei quem os dados, responder à última carta da possibilidade à vida, sonâmbula, que agora, mais do que nunca, se julga merecedora de um novo coração.
2011 não será um dador de excepção. Pelo contrário, cumprirá com o protocolo temporal até ao seu último dia e doará também a sua mobília calculável a 2012, que é um ano, que apesar de tudo é anagramático, e eu sempre soube que os anagramas foram inventados por bebés para exorcizarem a passagem.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Uma mão perdura




Uma mão perdura na porta, entreabertas as águas e violado o script. Era suposto eu descer com cuidado as escadas, depois de me ter despedido de ti, apagar a luz ao fundo, bater devagar a porta à saída, e ir percorrer o caminho de volta de vez, esperando que houvesse pelo menos mais um dia parecido em tudo com aquele, mas melhor ainda, mais longo, oblíquo, coagulado e eléctrico.
Mas uma mão, esta noite, perdura demasiado na porta do teu quarto quando já te julgavas sozinha, apoiada num estranho projecto neurótico de um amante suicida, na louca acepção da maior das suas palavras e frinchas, alguém espreita agarrado à porta com a mão que perdura e entope as moléculas da madeira com mudas mas máximas intenções e extracto de ilegalidade e conquista.
Uma mão perdura. À excepção do cenário, que te recoloca num quadro da burguesia mais fantasista, onde o rococó é aparado pela elegância subterrânea dos requintes, preponderâncias agudas que irrompem entre sintomas de doenças ornamentais de cunho infiel, pequenas infecções arquitectónicas que se repetem e prolongam como símbolos da pequena monarquia do vício, verdadeiramente anti-constitucional e solene, o meu olhar concentra-se na fome do teu hábito e nas águas do teu hino, nas ondas do teu vestido principalmente, prevendo a sua inesperada utilidade severa, a ressurreição das distâncias impingidas até aqui.
Eis senão quando uma mão morre na porta, ou então atravessa-a sem dar por isso.
A porta desfere contra a parede o resto da sua idolatria.
Eu avanço para ti.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

há coisa de meia hora


Pierre Renoir 1880


sentei-me aqui há coisa de meia hora
porque pararam os ponteiros na cabeça
como uma corda mal enrolada, a tropeçar
a tornar lentos de tão lentos os segundos
há coisa de meia hora, digo, mais ou menos

de olhos fixos no espelho de prata
cor de prata acima do olhar, reflectindo
riscas , linhas paralelas de uma cortina
e outras linhas da janela, e vidros
vidros inteiros, também eles reflexivos.

as mãos rodam nas rótulas e depois param.
dói-me a cabeça.
as mãos rodam à volta do peito e depois param.
dói-me a cabeça.
as mãos rodam à volta das têmporas e depois param.
dói-me a cabeça.
depois pára o tempo, os ponteiros, o relógio, a cabeça
e permaneço imóvel com os braços cruzados sobre os pesadelos.
há mais de meia hora.
dói-me a cabeça.

subitamente, enviado de um pôr-de-sol laranja
um raio mais forte toca a superfície do espelho e obriga a fechar os olhos.
há algumas tremuras como massagens invisíveis nas arduras da nuca
e ao mesmo tempo um sono de dor, suave e lento, um sossego

e adormeço sem ruído, o rumor avariado da cabeça -

domingo, 26 de dezembro de 2010

Presépio


Jesús de Perceval "A carícia" 1940


Tu nascias todos os anos
Nas palhinhas das bolas de sabão,
Que eu cortava à "garçonne"
Como as franjas do meu cabelo.
E na gruta, que o musgo prendia e
atapetava.
Se tornavam palhinhas manjedouras.
Era para mim um mistério
Que, pela Páscoa, frequentemente em
Abril
E, às vezes, até em Março,
Pudessem crucificar-te, adulto,
E expor, solenemente o teu corpo morto,
Nunca enterrado, pela ruas da
cidadezinha.
Como puderas crescer tão depressa?
E que crimes tinhas cometido?

Luísa Dacosta

(Este poema foi enviado pela Teresa Almeida Pinto a quem agradeço a partilha)