Já não lembrava ter encontrado este poema num blog, nem mesmo ter deixado o improvisado comentário. E agora, também por aqui fica. Deixo também um abraço para cada um dos residentes.
apenas a areia
e as rochas
não fazem parte
do grande conclave do mundo
Ana Peluso
Comentário:
Grande? Os grandes
O conclave do mundo? Mundano
que sei eu
faz-me pensar poder dizer apenas
apenas areia? A areia
e as rochas? É eterna a areia
Tudo se transforma
na areia a memória da rocha
enquanto não é rocha, outra
lentidão certa
tudo o que faz parte
a água que não apenas contorna
sensata, natural a defesa
a terra que a aceita
a água que ignora conclaves
e invenções
A água baila sempre
até onde bate e quando se vai no ar
não ignora o frio nem o sol
nem o mais pequeno grão de areia
também aí está
e faz parte da descoberta
Anabela Couto Brasinha
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
o quadro abstracto

Gerhard Richter Abstracto 1995
Diogo esperava na companhia do folheado de impressões, ideias de futuros projectos de pinturas capazes de lançar confusão na mente mais aberta; traços negros em quadrículas de tinta da china, quase sem objectivos. Abraços, encontrões, ricochetes, cruzadismo sem palavras, charada de acasos. Diogo gostava de classificar a sua forma de abordar a arte como um agricultor na rega; deixar a água entrar, chegar ao fim da leira, fechar, e abrir a nova entrada à água/inspiração. Sempre atento, sempre alerta na descoberta de um efeito novo.
Em casa, os blocos pareciam acomodar-se nos sítios mais invulgares, acenando aos visitantes: -Olá! Eu sou o bloco nº1, não desista, procure, numa prateleira perto de si, na frincha do sofá, em cima do frigorífico, junto ao comando da televisão, pode encontrar os meus irmãos, nº2,nº3, ….,etc.! Funcionava como distracção para os amigos mais próximos, habituados à rotina, durante o café, no intervalo de um filme. Não sentiam a necessidade de solicitar autorização, invadiam a intimidade do artista, arejando as folhas de gramagem acima da média, movimentando o bloco em baralho de cartas, procurando a animação no ondulado das linhas. Algumas eram preenchidas com espaços a cor, aguarelas que acrescentava. A valorização dos amigos não o seduzia, classificava-os como filhos da casa, peças da sua própria engrenagem, críticos de máximos, em bajulação ou feroz oposição.
Utilizava técnicas mistas, por vezes desconcertantes no seu objectivo de pintura abstracta, valorizando a pureza do olhar.
Certo dia a pedido do irmão foi buscar a sobrinha ao infantário. Chegou carregado com seis telas de 40x60 cm, embaladas em papel castanho. Sob o olhar divertido dos educadores, improvisou uma exposição entre gritos e saltos, palmas, risos dos pequenos circunstantes. A cada um deu pincéis nº 2,4 e 6, e ali perante a animação geral, improvisou o concurso, a votação, o quadro eleito pelo jardim escola “Girassol”.
Convidou nessa noite os seus amigos para um café e amena cavaqueira. Sem aviso, num jeito de vamos dar início ao espectáculo, anunciou votação de um a cinco com os dedos no ar e por fim alinhou os quadros por pontos. Conclusão alarmante ou nem por isso, entre algumas divagações filosóficas de arqueólogo de pinturas rupestres, confirmou o total desacordo com a análise e selecção dos seus convivas. Naturalmente no rame rame alargado das profissões tradicionais, não estavam preparados para a análise pura das crianças, que decalcam mãos cobertas de gouache, que se deliciam atrás de libelinhas sem sacos de rede, que saltam de pés para o lado e franzem narizes arrebitados, que esticam os olhos e deitam línguas de fora sem medo do ridículo.
- A minha escolha!- dizia Diogo, orgulhoso do resultado - é a delas!
Aquelas pequenas aventuras passavam mas eram respeitadas pelo artista que ainda guardava o quadro de nome “O Girassol”, em exposição permanente, acima do fogão de sala com título a letras manuscritas na parede, onde sempre que podia colocava uma caixa forrada de colagens, oferta da sobrinha, em missão de jarra, com um girassol. Acrescentava que o quadro em acrílico de tons azul suave, ligava muito bem com o girassol.
Quem não conhecia a história, gostava, e queria muitas vezes comprar o quadro, a suposta jarra, o girassol, oferecendo para o efeito quantias avultadas. No diluir do tempo, a resposta, em movimento pendular do rosto de Diogo para o quadro, para o comprador,de forma repetida,para o quadro, para o comprador, surgia com um sorriso e um seguro:
- Não seria capaz! Este quadro representa muito para mim! Teria que pintar de novo a parede! Está no lugar certo!
Vislumbre
terça-feira, 9 de novembro de 2010
entretanto o vento
durante qualquer coisa
que possa ser tomada como
medida de tempo –
uma vida, uma soluço, tanto faz –
abandonei-me das dúvidas e acreditei
acreditei nos milagres, nas mentiras, na possibilidade
de todos os impossíveis e de todos os infinitos.
acreditei por vontade de esperança.
para fugir ao cinismo e ao tédio. acreditei por desespero
agora sofro as dores de estarem moribundas
as expectativas. sangra-me a vontade
e, em breve, uma lividez inerte limpará os vestígios
de quaisquer boas vontades pensadas ou cometidas
serei incólume.
entregue a nada. crente em nada. pela rendição
aos absurdos, parte integrante de algo indiferente. em
repouso e à espera, sem tecto e sem relento, que
entretanto, o vento
que possa ser tomada como
medida de tempo –
uma vida, uma soluço, tanto faz –
abandonei-me das dúvidas e acreditei
acreditei nos milagres, nas mentiras, na possibilidade
de todos os impossíveis e de todos os infinitos.
acreditei por vontade de esperança.
para fugir ao cinismo e ao tédio. acreditei por desespero
agora sofro as dores de estarem moribundas
as expectativas. sangra-me a vontade
e, em breve, uma lividez inerte limpará os vestígios
de quaisquer boas vontades pensadas ou cometidas
serei incólume.
entregue a nada. crente em nada. pela rendição
aos absurdos, parte integrante de algo indiferente. em
repouso e à espera, sem tecto e sem relento, que
entretanto, o vento
raquel patriarca
nove.novembro.doismiledez
batimentos
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
cartas de um jovem amoroso
Pensei que o nosso breve amor tinha terminado. A sua última recordação seria uma distante chamada telefónica pelo Natal. Acreditei que tinha acontecido algo de muito bom na tua vida, que não necessitasses mais do que nos uniu; ou que, talvez vivesses algo de mau e estavas tão triste que não tinhas vontade de escrever. Não sei. Dei voltas sem fim e coloquei muitas hipóteses mas não cheguei a nenhuma conclusão satisfatória. Melhor, cheguei a uma, e essa talvez já a soubesse antes: que passasse o que passasse, mesmo que o tempo ditasse a sua lei, iria sempre recordar-te como o rapaz do sorriso mágico. O rapaz que só de olhar para mim fazia sentir-me bem, porque olhava de uma terra inteiramente desconhecida, mas que ainda assim era segura, como uma casa que atrai e acolhe com lírios os viajantes cansados.
Apesar que reconheço que mantive sempre a esperança de que um dia, uma carta tua, chegasse de novo às minhas mãos. E dentro das mãos, dentro de mim, nas marcas das palavras, pudesse olhar desenhado o palpitar nas covas do teu rosto, sonhando que precisasses da minha mediação para que o teu sorriso mágico nunca acabasse.
Apesar que reconheço que mantive sempre a esperança de que um dia, uma carta tua, chegasse de novo às minhas mãos. E dentro das mãos, dentro de mim, nas marcas das palavras, pudesse olhar desenhado o palpitar nas covas do teu rosto, sonhando que precisasses da minha mediação para que o teu sorriso mágico nunca acabasse.
O maestro sacode a batuta
O maestro sacode a batuta,
A lânguida e triste a música rompe ...
Lembra-me a minha infância, aquele dia
Em que eu brincava ao pé dum muro de quintal
Atirando-lhe com, uma bola que tinha dum lado
O deslizar dum cão verde, e do outro lado
Um cavalo azul a correr com um jockey amarelo ...
Prossegue a música, e eis na minha infância
De repente entre mim e o maestro, muro branco,
Vai e vem a bola, ora um cão verde,
Ora um cavalo azul com um jockey amarelo...
Todo o teatro é o meu quintal, a minha infância
Está em todos os lugares e a bola vem a tocar música,
Uma música triste e vaga que passeia no meu quintal
Vestida de cão verde tornando-se jockey amarelo...
(Tão rápida gira a bola entre mim e os músicos...)
Atiro-a de encontra à minha infância e ela
Atravessa o teatro todo que está aos meus pés
A brincar com um jockey amarelo e um cão verde
E um cavalo azul que aparece por cima do muro
Do meu quintal... E a música atira com bolas
À minha infância... E o muro do quintal é feito de gestos
De batuta e rotações confusas de cães verdes
E cavalos azuis e jockeys amarelos ...
Todo o teatro é um muro branco de música
Por onde um cão verde corre atrás de minha saudade
Da minha infância, cavalo azul com um jockey amarelo...
E dum lado para o outro, da direita para a esquerda,
Donde há árvores e entre os ramos ao pé da copa
Com orquestras a tocar música,
Para onde há filas de bolas na loja onde a comprei
E o homem da loja sorri entre as memórias da minha infância...
E a música cessa como um muro que desaba,
A bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos,
E do alto dum cavalo azul, o maestro, jockey amarelo tornando-se preto,
Agradece, pousando a batuta em cima da fuga dum muro,
E curva-se, sorrindo, com uma bola branca em cima da cabeça,
Bola branca que lhe desaparece pelas costas abaixo...
Fernando Pessoa "Cancioneiro"
sábado, 6 de novembro de 2010
sintoma

Chagall " Adão e Eva "
a explicação célere do universo não revelará estrelas.
por isso bela a filosofia e a sua procedência de segredos.
há uma fábula feita de palavras que encanta
quando os pássaros falam e as nuvens trémulas de cinzas
se sentam a dar conselhos, objectivos de portas brancas
sem sombras pálidas nem lugares indomáveis.
duas a duas as linhas de um tracejado;
traço intervalo traço e na distância traço intervalo traço
olhos fechados e almas cobertas de folhas.
quase se sente o horizonte habitando o deserto
transformado num mar largo
onde inquieto balouça
um barco e uma imagem;
à ré, à proa , batendo de um lado, inclinando no próximo
nódoas negras de tábuas, tropeços nas cordas soltas
à direita, à esquerda, querendo saber qual a realidade
de mãos abertas e nós desfiados dos dedos.
gémeos batimentos leves nos vidros da ilusão .
o tempo ganha um lugar silente e o tempo pára.
pode ser uma hora ou um segundo
a pequena picada de vespa e a vermelhidão
o agudo sintoma expansivo
uma gota engolida como um comprimido que adormece
miligramas de seratonina como morangos de Viena
dando voltas pelos labirintos como um passeio de bicicletas
sem paredes , sem espelhos gastos de diferenças
que esticam os olhos e engordam as formas.
transforma-se em grande a pequena gota
tão real, que leva à sua volta toda a chuva miudinha
a um belíssimo lugar de desejo, guardião de sono
ao tocar indelével o desconhecido -
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
peco
sempre que solto o meu pensamento
e te encontro
no espaço liquido de bolha de sabao
levada no vento a toa
em purpurinas de brilho
peco
sempre que imagino o teu gosto
e te beijo
sorvendo o sal e o doce que de ti se desprende
labios de carne rosada
tintos de sabor
peco
sempre que as minhas maos
desenham o teu rosto
contorno redondo e quente do amor
tatuado a ferro e fogo
no mais fundo de mim
e peco
neste lugar sem pecado
nuvem suspensa e leve
de algodao doce como tu
peco
mas nao tanto
Clara Oliveira
sempre que solto o meu pensamento
e te encontro
no espaço liquido de bolha de sabao
levada no vento a toa
em purpurinas de brilho
peco
sempre que imagino o teu gosto
e te beijo
sorvendo o sal e o doce que de ti se desprende
labios de carne rosada
tintos de sabor
peco
sempre que as minhas maos
desenham o teu rosto
contorno redondo e quente do amor
tatuado a ferro e fogo
no mais fundo de mim
e peco
neste lugar sem pecado
nuvem suspensa e leve
de algodao doce como tu
peco
mas nao tanto
Clara Oliveira
surge assim
sem se fazer notar
discreta
em pezinhos de la
que as noites ja vao frias
instala-se
dominando
algures a meio do tempo
mais coisa menos coisa
e logo apos o zenite
descida primeiro leve
descida depois abrupta
espera-te no contorno da esquina
e vao-se enroscando
as heras pernas fora
num peso monstro
prendem-te raizes de sequoia
e a tela de pintor experimental
enche-se de manchas escuras
ao acaso e ao sabor do artista
e sulcos indeleveis
cada tempo mais profundos e vincados
em altura de terra lavrada a suor
o papel, esse, encarquilha-se
pergaminho amarrotado
desbotado e sem cor
o esqueleto, esse, encarquilha-se
num amontoado mikado
e o chao cada vez mais perto
perde-se altura
tudo se vai virando
com olhos rasos no fundo
atraiçoa-te a concha que ja nao obedece
atraiçoa-te quem comanda que ja nao reconhece
atraiçoa-te
tu a ti
Clara Oliveira
sem se fazer notar
discreta
em pezinhos de la
que as noites ja vao frias
instala-se
dominando
algures a meio do tempo
mais coisa menos coisa
e logo apos o zenite
descida primeiro leve
descida depois abrupta
espera-te no contorno da esquina
e vao-se enroscando
as heras pernas fora
num peso monstro
prendem-te raizes de sequoia
e a tela de pintor experimental
enche-se de manchas escuras
ao acaso e ao sabor do artista
e sulcos indeleveis
cada tempo mais profundos e vincados
em altura de terra lavrada a suor
o papel, esse, encarquilha-se
pergaminho amarrotado
desbotado e sem cor
o esqueleto, esse, encarquilha-se
num amontoado mikado
e o chao cada vez mais perto
perde-se altura
tudo se vai virando
com olhos rasos no fundo
atraiçoa-te a concha que ja nao obedece
atraiçoa-te quem comanda que ja nao reconhece
atraiçoa-te
tu a ti
Clara Oliveira
a faúlha acesa

Almor Loucao "retirado do site olhares"
a faúlha acesa? lembro-me. ainda frio.
um dia sozinho numa grande sala. a lareira.
muito tempo atrás de um mês antigo.
as labaredas altas tocavam o mármore.
uma imagem de rorschard, de fuligem.
o quarto poder da mente conduzia.
tremidas e quentes. madeira de pinheiro.
a faúlha acesa em salto aéreo, sem rede
directa ao tapete de franja descaída.
lembro-me do olhar distraído, plano, ausente
três cavaleiros de arraiolos, duas lanças.
a faúlha abriu a última faísca.
primeiro um ponto, depois um círculo
de bonanza, que expandia: hei Joe!
e os cascos, tambores de orquestra
e partículas que subiam e descendiam.
lembro-me
os joelhos de um instante, sucessivos
pose de angústia, o livro em desespero
a página ferida, um diálogo partido
e o fumo ascendente de um nó de lã.
George Orwel 1984.
lembro-me perfeitamente.
não esqueço a faúlha acesa
nem a réstea de luz de um postigo
is watching you - is watching you -
is watching you -
A bicicleta
fotografia retirada da internet
Lá vai a bicicleta do poeta em direcção
ao símbolo, por um dia de verão
exemplar. De pulmões às costas e bico
no ar, o poeta pernalta dá à pata
nos pedais. Uma grande memória, os sinais
dos dias sobrenaturais e a história
secreta da bicicleta. O símbolo é simples.
Os êmbolos do coração ao ritmo dos pedais –
lá vai o poeta em direcção aos seus
sinais. Dá à pata
como os outros animais.
O sol é branco, as flores legítimas, o amor
confuso. A vida é para sempre tenebrosa.
entre as rimas e o suor, aparece e
desaparece uma rosa. No dia de verão,
violenta, a fantasia esquece. Entre
o nascimento e a morte, o movimento da rosa
floresce sabiamente. E a bicicleta ultrapassa
o milagre. O poeta aperta o volante e derrapa
no instante da graça.
De pulmões às costas, a vida é para sempre
tenebrosa. A pata do poeta
mal ousa agora pedalar. No meio do ar
distrai-se a flor perdida. A vida é curta.
Puta de vida subdesenvolvida.
O bico do poeta corre os pontos cardeais.
O sol é branco, o campo plano, a morte
certa. Não há sombra de sinais.
E o poeta dá à pata como os outros animais.
Se a noite cai agora sobre a rosa passada,
e o dia de verão se recolhe
ao seu nada, e a única direcção é a própria noite
achada? De pulmões às costas, a vida
é tenebrosa. Morte é transfiguração,
pela imagem de uma rosa. E o poeta pernalta
de rosa interior dá à pata nos pedais
da confusão do amor.
Pela noite secreta dos caminhos iguais,
o poeta dá à pata como os outros animais.
Se o sul é para trás e o norte é para o lado,
é para sempre a morte.
Agarrado ao volante e pulmões às costas
como um pneu furado,
o poeta pedala o coração transfigurado.
Na memória mais antiga a direcção da morte
é a mesma do amor. E o poeta,
afinal mais mortal do que os outros animais,
dá à pata nos pedais para um verão interior.
Herberto Helder
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
porque negas?

Salvador Dali
procurar a consistência na paisagem informe e negra
não traz equilíbrio no vértice da pirâmide.
porque negas o instante, a substância
o lugar ocupado do rio que desce consciente
pela encosta que a nascente desconhece?
porque negas a adição de transcendência
a cor branca, a cor verde, a cor laranja
uma a uma, e todas em uma
como genética de nova nuvem, via láctea, nebulosa?
porque negas o sonho e o tempo
a taça néctar de uma próxima época
inscrita no raio luminoso, no oceano de luz
sem a discrepância real, sem onírico?
porque negas a imprudência do trovão
como prédio alto ou deserto de silêncio
e não só e apenas como lugar indeciso
no compromisso?
porque negas a impressão digital
no limiar do inseparável
na pele porosa da distância?
porque negas?
porque negas o reencontro de uma seda intecida?
porque negas o fio frágil ?
porque negas a alma?
porque negas o sentimento?
porque negas?
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
Estado Crítico em Ípsilon - Poema - Sylvia Beirute

ESTADO CRÍTICO EM ÍPSILON
o y. que diferença
faz o y no meu genoma. o meu
genoma outro: que não explica
a natureza intransmutável do acto de
dominar quer o hausto do silêncio-significante,
quer um todavia em toda a via, em
autogénese e absorção de objectos
para um futuro cómodo
com menos poemas e tecnologia.
o y. que diferença faz o contorno da
falta do y no meu genoma.
nada saberia dizer.
excepto que é o teu impulso contrário
aquele que interpreta a fresta
da minha violência em paz,
que as circunstâncias que rodeiam a linguagem
são impeditivas de um outro formato.
Sylvia Beirute
inédito
.
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