quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Melodias de um desconhecido



Não são muitas as minhas melodias.
surpreendo-me quando chegam
perdidas como ilhas
num mar de faróis
de outras, tantas, tantas melodias.

pérolas, pérolas minhas.
são como células distraídas
que descem e sobem o meu corpo
sem a noção exacta de uma força
íntima, sísmica, que ensina acima
as estrelas, a lua de melancolias.
as minhas melodias sempre são
uma âncora em qualquer sítio
no recanto de uma rua, na livraria
no vidro entreaberto de uma limousine.

surprendem-me as minhas melodias.
talvez as achem ridículas.
mas mesmo assim sinto-as
sinto-as tanto, tanto tanto
que, se tivessem vida
da mesma forma que as canto
cuidava delas se tivessem frio.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Os pássaros de Londres


William Turner "Londres" 1809

Os pássaros de Londres
cantam todo o inverno
como se o frio fosse
o maior aconchego
nos parques arrancados
ao trânsito automóvel
nas ruas da neve negra
sob um céu sempre duro
os pássaros de Londres
falam de esplendor
com que se ergue o estio
e a lua se derrama
por praças tão sem cor
que parecem de pano
em jardins germinando
sob mantos de gelo
como se gelo fora
o linho mais bordado
ou em casas como aquela
onde Rimbaud comeu
e dormiu e estendeu
a vida desesperada
estreita faixa amarela
espécie de paralela
entre o tudo e o nada
os pássaros de Londres

quando termina o dia
e o sol consegue um pouco
abraçar a cidade
à luz razante e forte
que dura dois minutos
nas árvores que surgem
subitamente imensas
no ouro verde e negro
que é sua densidade
ou nos muros sem fim
dos bairros deserdados
onde não sabes não
se vida rogo amor
algum dia erguerão
do pavimento cínzeo
algum claro limite
os pássaros de Londres
cumprem o seu dever
de cidadãos britânicos
que nunca nunca viram
os céus mediterrânicos

Mário Cesariny, in "Poemas de Londres"

terça-feira, 24 de novembro de 2009

"Há quanto tempo não nos víamos"


Georgia O'Keefe "Abstracção Rosa branca" 1927


Enquanto adormecias eu lia o livro
livro grande, novecentas páginas.
Apreciava o descer do teu sorriso
o oscilar de pálpebras, os olhos verdes
quase deitados. Eram três horas.

As teclas de um piano nos dedos de Martha
um adágio, de Schumann.
Ainda não dormias. Em que pensavas?
Na música? Na loucura do livro?
O livro grande?

Lia incerto algumas frases:
“espátulas, caviares, arenques, vodkas aromáticos”
as estepes, os obstáculos
as cartas de Praga antes de Kafka.

Já dormias. Telefonou o Alexandre.
Eu lia o livro, o livro grande
Novecentas páginas.
Quatrocentas e cinquenta três
Connstantino beijava a mão de Kiti
Pela terceira vez:
“Há quanto tempo não nos víamos?”

Instantaneamente : “Porto 2001”
Claramente : 1º Balcão
Misha Maisky de túnica branca
“Como se fosse uma espécie de santo”
A música. Schumann. O romântico.

Pousei o livro, o livro grande.
Soprei a chávena.
Uma pequena nuvem quente de vapor
o sabor acre de ervas de Londres;
a insistente cor vermelha
de um autocarro de dois andares
no mesmo sítio onde comprámos a pena
de caligrafia, e um papiro. Lembras-te?
“Há quanto tempo não nos víamos?”
Mas tu dormias
e eu tinha que ler o livro,
o livro grande:
novecentas páginas
as notas do autor
o posfácio
traduzir a epígrafe -

sábado, 21 de novembro de 2009

Um choro de criança ou o caso da casa que queria ser reconstruída




"Bem sabes que estou morta
vai para três anos
quando cairam as traves
os telhados nos tectos
os tectos aos bocados no soalho."

Abriram-se as portas da casa
de noites negras e redondas.
os redemoimhos entraram.
encontraram os lugares do vento
ficaram, qual alicerce fúnebre.

As cortinas habitam, inquilinas
no ar cinzento, esventrado, dentro,
fora conversam com as gárgulas
guiam os dias de segredos pardos.

Na velha cozinha, na mesa de chapa,
jaz deitada a chaminé,
a chaminé de um velho samovar,
escuro, no pouco brilho do esmalte,
soçobrado.

Na névoa fina a casa chora
chora como choram as crianças
convulsa de soluços, sem saída
agitada, sem futuro.

Por ali, quando passo, cissia:

"Viajante, caminheiro, amigo
se passares por mim não olhes,
não provoques os destroços brancos,
as caliças nas escadas.
como bem sabes estou morta
vai para três anos."

Há palavras que nos beijam


Sonia Delaunay "Projecto para quatro xailes"


Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperançar louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Alexandre O'Neill, in 'No Reino da Dinamarca'

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Haiku da musa

Haiku caraças
A caneta não escreve


Ana Janeiro

Haiku

Línguas de comer cruas
Como hóstias
Ou ostras

Ana Janeiro

Disinspiração constipação

Musa inspira-me
Está ali a máscara de oxigénio
A droga ao lado
Injecta-me com a caneta bico de esfera oval
A tinta azul, verde e o tinto

Já me sinto
Melhor

Querida musa
Perdoa as tosses
Agradeço os cuidados

Prepara agora o papel e diz aos poetas
desesperados no passeio do vale:

Sucumbiu a larva na taça de arroz em tempo de
comer a língua para matar a fome e
uma dor de estômago a pico de cacto na
barriga descalça subiu
cozida a vapor

Digo aos poetas no passeio de pedra sentados ou aos que se passeiam?

Sei lá Musa, na verdade estou hoje tão desinspirado como constipado.
Que se plagiem uns aos outros, como eu os plagiei!

Ana Janeiro

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

(retirado da internet)

Um pedido de desculpa pela ausência dos trabalhos de casa e pela minha ausência no próximo sábado.

Por ‘estes’ dias, tenho entre mãos um poema que não pára de crescer e estou a aprender, a aprendê-lo em conjunção com os outros meus exercícios poéticos. E parece que leva uma vida inteira…

O meu poema é ruivo, de olhos urgentes e persistentes. Ora sim, ora não, arrasta-se na minha perna esquerda para não perder de vista o(s) meu(s) destino(s). Abre as gavetas todas da cozinha e desarruma o(s) meu(s) tempo(s). Come de rosto encostado à minha mão para reduzir as distâncias da pele. Desliga o computador para me desligar do ‘para além dele’. Diz ‘tô tiste’ e pisca os olhos com a cabeça solene e inclinada, porque brincar é o verbo. Durante a noite, ouvem-se os passos apressados pelo corredor, à procura do ventre. Shiuuu… O meu poema é ruivo, é tão ruivo que me enche o colo todo.

ana lúcia figueiredo

Um rosto de Anna Karenina




Sobre ti o dia de Novembro
uma névoa, um vapor de linhas;
lugar onde os relógios crescem
de lado, nos azulejos
ponteiros grandes
inevitável rodar do tempo.

Como em Anna Karenina
já não se usam peles de vison
chapéus de ornamentos, penas
de pavão, nem as danças
as valsas de salão.
Sobre ti a boina preta e o baton
a cor vermelha, a tentação.

Sobre ti a dúvida e o aroma
as pétalas, o cálice doce, ameno
um sistema largo de afectos.
de um vidro embaciado
a paisagem jaz líquida
movediça, de árvores despidas
deixando cair os vestidos
na nudez segura.
Sobre ti a dúvida.

Sobre ti agora o imprevisto
a noite de berlindes e sininhos
ritos de paus de chuva, energias
um re(moinho) por de cima, em cima
uma carícia que transmite
a distância dos lagos
um cisne de águas calmas
Sobre ti.

Sobre ti o aroma
as pétalas,o cálice doce, ameno
o apagar do candeeiro
a luz presente de um poema -

Adormece, quero-te
boa noite -

Haikai

e-lia@lusa.pt

Ilíada e líamos
nos Lusíadas
as lusas idas


Leonor

São as fontes Leonor
os verdes frutos nos cântaros
- nas rodilhas o equilíbrio

José Ferreira

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

solta-se a fera

solta-se a fera
na arena da vida
o círculo do circo
começa ao nascer

a pele derrete
perde identidade
ao ser violada
com o ferro em fogo
estigma como amante
no escuro de cada sol posto

brilham os fios de prata
automatizam os movimentos
rebanhos humanos
sem pensar
fantoches manipulados
sem querer

tão pouco de ti
quase nada de ti
debaixo de comando
sempre
controlado por dentro
em hierarquias patentes

fiel depósito
de corvos negros em ferida
de pesadelos
de medos

impulso dado pelo estribo
entram na jaula
e brilham os fios de ouro
esvoaçam querendo fugir

mas tu fechaste-os
dentro de ti
vestindo-os como uma pele

nos teus olhos fundos
já não há alma
globos brancos sem menina

és besta encurralada
nas arestas da existência

és instinto
sobrevivência

o círculo fecha-se
a fera solta-se
na arena da morte

- de pulso

baloiço um pouco acima da terra
ao gozo do voo do pêndulo,
nos segundos só inverto
ou troco de vestido
entre (tanto) balanço
e dou mais lanço

Joana Espain

Trago em mim

[«Um psiquiatra perturbado, um muçulmano devoto»;
«Eu não sou eu nem sou o outro»]


Trago em mim
as almas do passado
E nem sequer as lembro

surgem-me às vezes
nítidas como palavras
espessas como sangue
ganham vulto no discurso
a que desconheço o berço
sussuram-me às vezes
o poema como água pura.

Obedeço a medo do que sou –
Como se fosse outros
ouço-me nas correntes
que transporto.

E sonho o reencontro.

2009.11.18
José Almeida da Silva

(Des)inspiração

Andei a manhã toda pela cidade.
Entrei e saí vezes sem conta
De casas de comércio adiado –
Quis desistir mas já não tenho idade –
A procurar metáforas e hipérboles
Imagens e antíteses, oxímoros e quiasmos:
– Não temos, era a resposta pronta,
E eu pensava, mas aonde se meteram
Agora todas essas figuronas tontas?
Não creio que tenham ido para o Brasil,
A viagem é cara, e já não há pilim.

Nas casas de comércio ofereciam-me
– Era só o que tinham em stock – vírgulas,
Pontos, telas e agulhas de croché,
Os fios tinham esgotado e não tinham
Palavras disponíveis no mercado
E não sabiam aonde ir encomendá-las –
Era denso o nevoeiro. Sim, o mesmo nevoeiro
Com que a noite inteira me tinha debatido
Quando quis escrever e o travesseiro
Me usurpou as poucas ideias que ainda tinha,
Trouxera-as da guerra em 73 da longínqua Cabinda.

Andei a manhã toda pela cidade. E quase ao meio-dia
Dei de caras com as palavras que então procurava:
Estonteadas e em desequilíbrio precipitaram-se
No abismo. E eu sem cordas para poder içá-las
E nem um só fio para as entrelaçar – um mar opaco
Para desvendar, e eu sem Barco, sem Remos, sem Luar.
2009.11.15


Haikai

Denso o nevoeiro
O longe sem horizonte
– Sem boieiro a fonte.

José Almeida da Silva