imagem daqui
Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas
não me tires o teu riso.
Não me tires a rosa,
a flor de espiga que desfias,
a água que de súbito
jorra na tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.
A minha luta é dura e regresso
por vezes com os olhos
cansados de terem visto
a terra que não muda,
mas quando o teu riso entra
sobe ao céu à minha procura
e abre-me todas
as portas da vida.
Meu amor, na hora
mais obscura desfia
o teu riso, e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso será para as minhas mãos
como uma espada fresca.
Perto do mar no outono,
o teu riso deve erguer
a sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero o teu riso como
a flor que eu esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.
Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
curvas da ilha,
ri-te deste rapaz
desajeitado que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando os meus passos se forem,
quando os meus passos voltarem,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas o teu riso nunca
porque sem ele morreria.
Pablo Neruda, in "Poemas de Amor de Pablo Neruda lido aqui
sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
domingo, 20 de janeiro de 2013
O teu rosto torna-se periódico às vezes
e persiste
em oráculo
a querer saber do meu
e dessa certa quantidade de gente à procura de gente:
É um enlace nos olhos dos bichos
uma energia claríssima
um fogo em artificio de espelhos
com tendência para rios
com tendência para rios
a cobrir devagar,
atrás de cada passo
acordando cada cão que se espreguice ao sol
transparente a cada mão, tão liquida
(como a música
mas menos horizontal)
e no entanto move-se
como se ainda na sombra de uma luz que nos amedronta
e vai levando gente
para a clareira mais provável
ao nível das nuvens dos átomos
quando ainda se tocavam
alinha olhares inteiros de bicho
na inclinação certa de se imitarem
é uma energia claríssima que depois se vem a saber
sábado, 5 de janeiro de 2013
Ano Novo - um poema de José Almeida da Silva
ANO NOVO
Andou o ano todo
a envelhecer –
As noites e os dias
desnudados
e enxertados na vida
distraída
E o caminho a fazer-se
momento a momento
como se fosse único
A luz e a sombra
cresciam
como a Lua e o Sol
O choro e o riso
repetiam-se
e o sofrimento
e também a alegria
E como por magia
as doze badaladas
a soarem repetidas
E como o crepúsculo
se faz noite levemente
a madrugada desvela
da alegria a luz
Andou o ano todo
a envelhecer –
O tempo sempre outro
não cessa de nascer –
2012.12.28
José Almeida da Silva
quarta-feira, 26 de dezembro de 2012
| "De Sapiãos" |
em riste
sem olhos, ouvidos, dedos
sem olhos, ouvidos, dedos
ou não, ironia
riste, que disfarce
o resto, entenderia à mesma
.......................................................................................................
Alguém
que achava ter sentido de humor, com saudade de sereias, nunca foi de
regresso, por ser imaturo e sem si nem dó, tudo não quererá.
sábado, 22 de dezembro de 2012
Um poema de Natal por José Almeida Silva
Imagem daqui
Neste Natal é imenso o frio
Neste Natal é imenso o frio –
Belém é um denso nevoeiro
E um obscuro e tímido silêncio
E o orçamento das famílias
Não suporta o calor
Da mensagem de amor
Que em Belém de Judá
Foi anunciada
Faz tanto tempo já.
O frio então era natural
Tão diferente do frio
Cúmplice e artificial
Dos pastores e reis magos
Destes tempos –
O Menino continua o mesmo
Mas os carneiros e as ovelhas
Estão gordos com as pastagens
Dos outros, já tão magros.
Há de crescer o Menino,
Assim o creio,
E na mão um chicote
Para afastar a tirania
E devolver a Esperança.
Não é da cabeça a sua essência,
O Natal é do coração –
Simplicidade e fraternidade
Não cabem no prodígio frio da razão
–
19.12.2012
José Almeida
da Silva
quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
sexta-feira, 14 de dezembro de 2012
os meus gatos não estão aqui
os meus gatos não estão aqui
não miam nos meus ouvidos
não me roçam as pernas
e seria impossível
os ruídos do café são uma fronteira intransponível
os meus gatos não estão aqui –
portanto quando o nevoeiro se expande branco
e cobre a rua com mil gotas invisíveis
os meus gatos não estão aqui –
e estão sempre
com o seu pêlo branco, cinzento ou preto
trazendo nesta distância de luz todas as cores dentro –
os meus gatos não estão aqui
não sobem os móveis para atingir a altura das mãos
não se aninham no colo para ronronarem canções
não fecham os olhos nos seus sonhos de prados
nos seus sonhos adormecidos de rodarem os olhos e esticarem
as patas –
os meus gatos não estão aqui
não fazem asneiras para que me lembrem que existem
e que sentem
os afectos das mãos, o aconchego do colo ou a cobertura das
lãs –
e estão sempre
de olhos azuis ou castanhos como lampiões na noite escura
como sombras protectoras, como anjos nas manhãs brancas –
segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
escrevo-te (IV) - a importância da luz
imagem daqui
escrevo-te no frio flagrante de uma manhã de inverno
apesar de ser o princípio de dezembro
quando as árvores ainda deixam cair folhas e se tornam
transparentes –
escrevo-te com as minhas mãos abertas e na nudez dos ramos
para te dizer que a luz é importante
que as cidades podem ser todos os dias
os cabelos dos sonhos e um mar infinito
ou montanhas brancas
ou lagos luzidios –
josé ferreira
domingo, 9 de dezembro de 2012
escrevo-te (III) - 366 pedaços de céu
escrevo-te na sensibilidade nas palavras
não encontro melhor forma de dizer
ficamos sempre aquém do que nos sobe na cabeça
em 366 pedaços de céu
–
ficamos sempre aquém
aquém do amor que dizemos em plumas que sobrevoam
que se imobilizam como se um cisne voasse, pousasse e falasse
e do seu bico saíssem palavras
palavras escritas em pequenos círculos no espelho de um lago
–
ficamos sempre aquém da pele que nos abraça
quando os dedos se tocam e há um homem
e há uma mulher –
escrevo-te sabendo da fronteira e dos limites
das portas e das janelas
dos quiosques, das escolas, dos escritórios e dos cafés;
aquelas mesas cheias de olhos –
e das bibliotecas
da imensidão das prateleiras, paralelas
na longitude das folhas
na curvatura dos livros onde se deitam as histórias –
sei bem dos limites e das asas que não voam
e no entanto, vejo-te
e escrevo
e dou-te a mão sem pressa
em 366 pedaços de céu –
em 366 pedaços de céu –
quinta-feira, 6 de dezembro de 2012
A Secreta Viagem
imagem daqui
No barco sem ninguém, anónimo e vazio,
ficámos nós os dois, parados, de mão dada...
Como podem só dois governar um navio?
Melhor é desistir e não fazermos nada!
Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos,
tornamo-nos reais, e de madeira, à proa...
Que figuras de lenda! Olhos vagos, perdidos...
Por entre nossas mãos, o verde mar se escoa...
Aparentes senhores de um barco abandonado,
nós olhamos, sem ver, a longínqua miragem...
Aonde iremos ter? — Com frutos e pecado,
se justifica, enflora, a secreta viagem!
Agora sei que és tu quem me fora indicada.
O resto passa, passa... alheio aos meus sentidos.
Desfeitos num rochedo ou salvos na enseada,
a eternidade é nossa, em madeira esculpidos!
David Mourão-Ferreira in A Secreta Viagem
quarta-feira, 5 de dezembro de 2012
duas almas
Imagem retirada da web
um voo de espírito e um pousar pesado
assim com as duas mãos e os dois pés
mão a mão e passo a passo
à vez e sob o sol que acompanha o espaço
entre laranjas
escondidas nas árvores
almas unidas que ninguém separa –
josé ferreira 4 dezembro 2012
segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
escrevo-te (II) - Lou e Rilke, um espelho de almas
caíram muitas folhas e o chão crepita nos nossos passos
uma fogueira acesa sem chamas de lareira
enquanto
uma coluna de fumo e as chamas dentro, internamente
no interior da cabana onde Lou e Rilke uniram os dedos
onde ela lhe alisava os cabelos e ele escrevia versos
intensos, versos intensos
versos sobreviventes e cartas que prosseguiram
para além de muitos anos –
o vento da minha cidade atravessou a Europa
desceu a serra e vem juntos das faces.
como um rio de ar cheio de ruídos
poliniza as letras em palavras
alimenta-se de folhas em
branco –
como um vício, o bom vício dos afectos
que estende as mãos na pele das magnólias e as admira
brancas
brancas
muito brancas e oscilantes
em pétalas de pálpebras
janelas que se abrem
um espelho de almas –
josé ferreira 2 de dezembro de 2012
terça-feira, 27 de novembro de 2012
Ode à Mentira
| Crueldades, prisões, perseguições, injustiças,
como sereis cruéis, como sereis injustas? Quem torturais, quem perseguis, quem esmagais vilmente em ferros que inventais, apenas sendo vosso gemeria as dores que ansiosamente ao vosso medo lembram e ao vosso coração cardíaco constrangem. Quem de vós morre, quem de por vós a vida lhe vai sendo sugada a cada canto dos gestos e palavras, nas esquinas das ruas e dos montes e dos mares da terra que marcais, matriculais, comprais, vendeis, hipotecais, regais a sangue, esses e os outros, que, de olhar à escuta e de sorriso amargurado à beira de saber-vos, vos contemplam como coisas óbvias, fatais a vós que não a quem matais, esses e os outros todos... - como sereis cruéis, como sereis injustas, como sereis tão falsas? Ferocidade, falsidade, injúria são tudo quanto tendes, porque ainda é nosso o coração que apavorado em vós soluça a raiva ansiosa de esmagar as pedras dessa encosta abrupta que desceis. Ao fundo, a vida vos espera. Descereis ao fundo. Hoje, amanhã, há séculos, daqui a séculos? Descereis, descereis sempre, descereis. Jorge de Sena, in 'Pedra Filosofal' |
sexta-feira, 23 de novembro de 2012
escrevo-te
imagem daqui
escrevo-te directamente no princípio da noite
não como amigo mas como amante
desconhecendo-te o corpo, pensando-o pelo voo
pela asa que se ergue e pousa
naquela árvore junto da janela
um braço castanho, um braço de seiva
um braço de penas
leve como a brisa em tardes imaginadas -
escrevo-te no intervalo do sono de olhos iluminados
e tantas são as cores
luzem -
canso-te de palavras, bem sei, e falo-te por metáforas
campainhas que podem ser flores
margaridas, bem-me-queres, jacintos flutuantes em frascos -
até que despertes
até que afastes o lençol bordado
até que surja a primeira torrada
até que a luz seja autêntica e muito clara
até que segures o cabelo depois de entrares no carro -
josé ferreira 23 novembro 2012
escrevo-te directamente no princípio da noite
não como amigo mas como amante
desconhecendo-te o corpo, pensando-o pelo voo
pela asa que se ergue e pousa
naquela árvore junto da janela
um braço castanho, um braço de seiva
um braço de penas
leve como a brisa em tardes imaginadas -
escrevo-te no intervalo do sono de olhos iluminados
e tantas são as cores
luzem -
canso-te de palavras, bem sei, e falo-te por metáforas
campainhas que podem ser flores
margaridas, bem-me-queres, jacintos flutuantes em frascos -
até que despertes
até que afastes o lençol bordado
até que surja a primeira torrada
até que a luz seja autêntica e muito clara
até que segures o cabelo depois de entrares no carro -
josé ferreira 23 novembro 2012
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