quarta-feira, 14 de abril de 2010

A desilusão foi a minha Beatriz





Restos de expectativa acesa na estatística
moderna tornaram-me num desiludido.
Afinal a minha face ficou perfeitamente disforme
depois do acidente que tive com a poesia.
Na rua toda a gente me conhece
pela minha identidade secreta
mas todos se dirigem a mim com arrepios.
As pessoas fogem da sua desilusão a sete pés
e não têm mãos a medir os quilómetros percorridos
descalços sobre a sua sombra a ferver
na velocidade tácita do seu curto papel cumprido.

Mas quando se trata da desilusão alheia
e da sua feroz capacidade para projectar
uma desnecessária posteridade
de imagens desiludidas
quando o outro se torna numa máquina
de desilusão apenas por aparentar estar
ou ser desiludido
então ainda mais fogem ou fingem fugir
patrocinadas talvez por um qualquer compromisso
urgente, cólica ou mera deselegância formal
já muito próxima contudo das bases do canibalismo.

Quando me encontram, as pessoas são normalmente
muito simpáticas e fingem aceitar
a minha habitação desiludida
em troca de uma noite
a ouvi-las falar dos efeitos
secundários da dissimulação.

terça-feira, 13 de abril de 2010

No Princípio Era


Paul Klee


Não dormia sem o escuro absoluto.
Doíam-lhe os olhos de ter visto cidades,
de ter esquecido gente, do frio
do vidro nas palavras. Demorava tanto
a entender o mundo que agora não dormia
de muita luz que as coisas tinham
antes sequer de serem suas. Trabalhava-se tanto
nesse lugar onde vivia com outros como ela
que às vezes pensava: tão estranho nascer
(quer dizer, nascer mesmo, estar aqui)
para o dia passado com estranhos.
E por isso, no princípio, não dormia
sem procurar o amor, sem beijar na testa
a noite que acabava serena e exausta como a noite.

No princípio era.
Depois esvaziou-se com cuidado.

(Filipa Leal, Janeiro de 2007)
(retirei este poema do blog das Quintas da Leitura)

segunda-feira, 12 de abril de 2010

um braço de distância


retirado da internet

a avenida, a casa, o jardim, a glicínia .
cachos de bagos violetas, aromas de essências.
no entanto em abril foi em tempos um braço de distância:

do outro lado passava gente e não havia borboletas;
uma janela branca, um largo de cimento
a amoreira grande, o plátano gigante e um banco de madeira;
local ideal do Pirata, Benny e Franjinhas, três amigos
de quatro patas e uma cauda.

do outro lado não havia campaínhas
mas sabia sempre pelos latidos
dos gatos seguros, delicados e lentos
deslizando atentos, orelhas transistores
nas ondas dos voos mais pequenos de insectos;
moscas, mosquitos e gafanhotos.

cortinas separavam olhos na curva das formas
sombras se próximas e milionésimas
nas quadrículas das rendas; duas garças
de simetria e ponto fino, idade antiga.

quando o sol procurava as águas de sal
que se segue no caminho trémulo e aberto dos salgueiros
sabia da despedida das aves nas paredes do quarto
escutava o choro da mangueira e a chegada dos gatos
escutava a sede das raízes e o riso tímido das plantas.

o rosto, as mãos brancas, dois pés molhados.
o bater intuitivo dos dedos no rouge do lado esquerdo
de um vulto no outro lado da cortina
a melodia de um quadro numa malha sem acaso
cortada, mais larga junto ao bico da garça e
o esvoaçar da água no caule pontiagudo das rosas
na superfície fértil de bolbos de muitas tulipas
na impossível matemática do entrançado de estrelícias
poucas e altivas de únicas geometrias
como as tias de bengala no seu olhar entremeado
entre o sono de fim de tarde e a teia possível
e nítida como aquela em tons de brisa
nos ramos do eucalipto e nas hortênsias alcalinas.

os dias mais quentes de abril e maio. Muitos
tantos de tecidos da Índia e cabelos de seara
luzidios e unidos, uma vírgula invertida e a adivinha
de quantas vértebras no elevar de um dorso em círculo
nos intervalos de um ritmo de mão repetitiva
e um ronronar que apesar de distante se tornava audível.

cedo se sabe a sedução feminina: atravessa muros.
e assim era o desejo dirigido,o despontar de um fruto
sob a alça na inclinação efervescente e demorada.
naturalmente sabia do outro lado da garça
a renda cortada e o nariz como um binóculo junto ao bico.

Nostradamus e Bandarra talvez em alguma página
teriam previsto que a tia Ermelinda, a mais velha das tias
pudesse encontrar a tiara prometida, dia 11 de um domingo.
ficou três anos sózinha a glicínia e a casa da avenida.
mora agora uma família e um relvado contínuo.
sobrevive a revolta das essências e a cortina
dobrada na arca de um navio
que guardo desde o dia da partida:
14 de Fevereiro de 1995, quinze e trinta.

sempre que abro a janela do meu quarto, lembro-me.
será casada, terá filhos, o cabelo ainda será comprido?
do outro lado raramente ouço o ritual das águas.
os cães não ladram. à noite passam menos carros.
é quando, num imenso silêncio por vezes me sento
e dedico-lhe um poema de palavras muito simples
como os aromas que sinto-

Depoimento



I

Há uma caixa negra dentro
da finalidade do mundo
como uma manhã fictícia
que só um grande acontecimento
consente.

Há uma face humilhada
pela presença súbita da chuva
no argumento do meu medo
a única fala que tenho de saber
de cor até ao dia da estreia
do teu convite.

Há um presságio agitado e concreto
entre o teu desaparecimento e o meu
vício de o exibir.

Há uma comunidade inconfessável
que habita a órbita do esquecimento
do mundo nessa parte do mundo
inconfessável por natureza
que é o esquecimento de si.

II

Pouca gente se apercebe
de que há um plano ultra-secreto
para destruir a sociedade
com assédio e um certo tipo
de flores desfavoráveis
aos cardíacos:
as carícias.

Os amantes vivem melhor mergulhados
no verbo matar de forma ridícula
e são vizinhos de um destino caído
em desuso pela probidade da terra.

Não tenho pena nenhuma destes tristes
que se enforcam com o seu próprio êxito.

Não temo sofrer da mesma notícia
nem sequer vir a ter o mesmo domicílio
de certezas doentes.

Nem quando sei perfeitamente
que o mundo não é aquilo que aparenta
ao espelho do seu tempo
nem nas suas superstições mais antigas
há relatos de um abraço tão severo
como foi aquele que nunca demos
por falta de braços na exactidão.

domingo, 11 de abril de 2010

Do que nada se sabe


retirado da internet




A lua ignora que é tranquila e clara
E não pode sequer saber que é lua;
A areia, que é a areia. Não há uma
Coisa que saiba que sua forma é rara.
As peças de marfim são tão alheias
Ao abstracto xadrez como essa mão
Que as rege. Talvez o destino humano,
Breve alegria e longas odisseias,
Seja instrumento de Outro. Ignoramos;
Dar-lhe o nome de Deus não nos conforta.
Em vão também o medo, a angústia, a absorta
E truncada oração que iniciamos.
Que arco terá então lançado a seta
Que eu sou? Que cume pode ser a meta?

Jorge Luis Borges, in "A Rosa Profunda"

sábado, 10 de abril de 2010

Antígona


Frederic Leighton "Antígona"

Uma chama áurea de um folheado precioso
No alto de uma coluna antes de subir o pano.
Antígona como um raio ilumina Tebas
Aquece o ambiente e torna pesados e quentes
Casacos compridos numa noite de março.
Ruídos incómodos de rebuçados crepitam
De intensidade, alertam os espíritos.
Antígona desafia uma longa ceia de abutres
A escura lei coberta de labirintos;
A ilusão dos vigias.
Não pode esquecer as sementes dos campos
O irmão morto na porta dos desertos.

Húmus, húmus e o ódio dos homens
As cavernas e as tragédias – sinais gregos
Fumos, fumos brancos de inocentes
Lembrou Aída, Radamés, música de ópera
E uma roda gigante de pedra como tambor
Um fim de requiem, pancada seca.

Regresso, regresso ao distante tempo
De pedras bíblicas e margens do grande rio
Sob o poder do cajado que afoga egípcios
No correr dos crocodilos.
Deus, Deus, porque não existes?

Não há braços sobre Antígona.
Ondula um brinco e um vestido sob a a brisa.
Um risco negro onde antes as pupilas.
As unhas nas sandálias como pétalas de tulipa
E um pêndulo no anel apertado de uma fita.

Antígona, bem, fizeste bem
O respeito do sangue, do parto, da mãe
O incomum de ser alguém.

E Antígona, nada mudou, apenas os séculos
E os males modernos do clima.
A mesma inconsciência; o ódio, o inimigo.

Noite fria e pouco depois o fado
A guitarra, o baixo, a letra repetida.
Nada mudou Antígona, lamento.
Muitos gritos ingénuos, a utopia.

Há seringas de plástico pelos bancos da Batalha
Em frente um reclame luminoso
De um dia mundial de um teatro
Ali ao lado um beco sujo, um vão escuro
E o fingimento de voz macia nos lábios roxos
Na postura de perna gorda e saia mini.
Na porta dos artistas ouro, make up
E cheiros de naftalina, um casaco de peles
Borsalino .
Ali ao lado uma garrafa de vinho tinto
Na voz rouca de estudantes falando outra língua
Em hipotenusa no vértice de um triângulo.

Uma , uma e trinta Antígona.
Poderia ser, poderia ter sido
Uma coluna, um feixe de luz no deserto
E um coro de vítimas que atravessa séculos.
Epílogo .

A chave na ignição, vidros partidos
O cheiro intenso de gasolina de muitos carros
Um ruído forte de escape, marcha atrás, cuidado
É tarde -
Para Aída para Antígona

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Aquilo que vestem os que estão nus




Posso ser negligente com a minha nudez
atribuir-lhe a noite de todas as culpas:
ela continuará nua dramaticamente nua e imune
insensível aos impostos dos meus passos
minúsculos para a deter.

A minha nudez é um pleonasmo infiel a si mesmo
e navega à velocidade de um corpo por segundo
isto se o espelho tiver uma óptima resolução
e a cópia libertar o original das inconveniências
de ter nascido primeiro e mais pobrezinho.

Um murmúrio inalterável de areia quase convicta
eis a minha nudez.
Praia impressionável à palpação.
Lei ao abrigo do desabrigo.

Mas ninguém imagina o quanto eu desrespeito
a minha mortalidade quando estou nu
sem os utensílios e os sentidos encobertos
pela famosa roupa de marca do tempo.

Chego até a acreditar no uivo e no perjúrio.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Normas de funcionamento de um hospital




1. Num hospital para amantes, os doentes nunca estão acamados - nem há camas sequer que lhes sirva - porque é precisamente do hábito da cama que eles se querem ver livres. E inocentes. Para sempre.

2. A austera e preferível posição vertical favorece a morte da morte que se diz reduzida, mas que os domina, assim como inicia o fim dos festejos das larvas da libido e sugere o voto em branco hormonal.

3. Não há qualquer espécie de internamento, senão das fantasias, umas convocadas ao coma, outras sujeitas à combustão.

4. Está inteiramente proibido o uso e o consumo de corpos correlativos e mesmo a amizade e a afeição são vigiadas continuamente da eficácia.

5. O hospital possui pelo menos um médico por cada amante.
E todos os benefícios da floresta pragmática de um paraíso norte-europeu:

6. Animadores pobres de serão. Génios a quem o amor causou claudicância e varizes. Gente que auxilia na cura contra aquilo que sente, mas que recebe uma enorme quantia por isso. Personagens primordiais. E enfermeiros especializados na ferida áfona que Derrida - um dos doentes externados aqui – julgava saber de ti de cor, logo quando a noite se suicida.

7. A abstinência sexual é ensinada aos gritos, através de altifalantes minuciosamente instalados nos corredores da má-fé.

8. As propriedades esfuziantes da nudez são extraídas por intermédio de drogas que prejudicam seriamente a representação do outro em toda a sua coerência erótica e simetria.

9. Todos os utentes têm de ter sempre o corpo coberto de analgesia e desaparição.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

o medo e o jogo o véu e a sombra




Quando uma gota cintila e desce
caminhos geométricos de uma teia
encontra nós
e em cada nó dois ou três caminhos.
a gota suspensa por vezes não avança.
o sol participa no jogo de aranha
vaporiza e sublima a indecisão
eleva e sobe a gota a uma outra dimensão;
sinfonia em volta de uma planta
ou de um ramo de oliveira que segura a teia.

depois da noite
assim se repete no orvalho diurno
não uma nova mas a mesma gota
na geometria centrífuga e tímbrica
tecida no fio da teia
o reflexo fino de lâmina ferida
que observa o cair da luz
o crepúsculo que incentiva o escuro

o medo e o jogo o véu e a sombra
um movimento de gota dinâmico
como antes as asas de borboleta
abalavam as raízes do Pacífico


o medo e o jogo o véu e a sombra
na oscilação contínua da teia;
e ao longe tempestades marítimas
desassosego de ilhas e istmos
e o possível nascimento de penínsulas -

segunda-feira, 5 de abril de 2010

cegas

ridículas as ilhas

as pedras nas ilhas
as casas nas pedras
e as janelas

as cartas são brancas
e dizem ilha

não sei ler cartas
ou os mapas do tempo
que tenho por dentro

mas uma ilha não é ridícula

se as ilhas não tivessem olhos

domingo, 4 de abril de 2010

Uma esplanada sobre o mar


Kartész "Mesa de café em Paris com um poema de Ady" 1928

(Reli este conto de Vergílio Ferreira e achei-o tão bem escrito que não resisti a publicar)


A rapariga estava sentada a uma mesa numa esplanada sobre o mar. Vestia de branco e era loura, mas muito queimada do sol. Ao lado da mesa estava montado um guarda-sol giratório de pano azul que o criado veio regular, para acertar bem a sombra. O criado não perguntou nada e inclinou-se apenas e a rapariga pediu um refresco. Era a meio da tarde e o sol batia em cheio no mar, que se espelhava aqui e além em placas rebrilhantes. O céu estava muito azul e o ar era muito límpido, mas no limite do mar havia uma leve neblina e os barcos que aí passa¬vam tinham os traços imprecisos, como se fossem feitos também de névoa. Na praia que ficava em baixo não havia quase ninguém e o mar batia em pequenas ondas na areia. A espuma era mais branca, iluminada do sol, e o ruído do mar era quase contínuo e espalhado por toda a extensão das águas.
A rapariga de vez em quando olhava ao lado a porta que dava para a esplanada e depois olhava o relógio. Voltava então a olhar o mar e ficava assim sem se mover. Tinha os olhos azuis muito brilhantes, contra a pele morena e o traço negro que os contornava. Foi num desses momentos de alheamento que o rapaz entrou. À porta da esplanada deteve-se um momento a orientar-se por entre as mesas ocupadas, mas logo localizou a rapariga sob o guarda-sol azul. Vestia calça branca e uma camisola amarela de manga curta. E era louro como a rapariga. Quando ela o reconheceu, fez-lhe sinal, mas ele já a tinha visto. Sentou-se-lhe ao pé e olhou em volta como se procurasse alguém. As mesas estavam quase todas ocupadas sob guarda-sóis coloridos e uma ou outra ao sol. Era quase tudo gente jovem, vestida de cores claras de praia.
– Desculpa, fiz-te esperar – disse ele.
– Cheguei há pouco, o criado nem trouxe ainda o que lhe pedi. E que é que me querias dizer?
O criado, com efeito, trazia o refresco para a rapariga, voltou-se para o rapaz a perguntar se tomava alguma coisa.
– Pode ser o mesmo – disse o rapaz.
O sol caía em cheio sobre a praia, iluminava o mar até ao limite do horizonte.
– Que é que me querias dizer? – perguntou de novo a rapariga. Ele sorriu-lhe e tomou-lhe uma das mãos que tinha sobre a
mesa.
– Gosto de te ver – disse depois. – Gosto de te ver como nunca. Fica-te bem o vestido branco.
– Já mo viste tanta vez.
– Nunca to vi como hoje. Deve ser do sol e do mar. – Que é que querias?
– Deve ser dos olhos limpos com que to vejo hoje. O criado trouxe o novo refresco e ambos se calaram, tomando as bebidas.
– Não sei para que são tantos mistérios – disse a rapariga. –O melhor é dizeres logo tudo de uma vez.
– Não se trata de mistérios. Trata-se de estar certo o que te disser.
– Porque é que não há-de estar certo? – perguntou a rapariga. – Por tanta coisa – disse o rapaz. – Eu achei que te ficava bem o vestido e tu estranhaste que eu o dissesse.
– Já me tinhas visto o vestido muita vez. Foi só por isso.
– Nunca reparaste que há certas coisas que nós já vimos muitas vezes e que de vez em quando é como se fosse a primeira? – Nunca reparei – disse a rapariga.
– Nunca ficaste a olhar o mar muito tempo?
– Sim, já fiquei.
– Ou o lume de um fogão? – disse o rapaz.
– E que queres dizer com isso?
– Ou uma flor. Ou ouvir um pássaro cantar.
– Sim, sim.
– Não há nada mais igual do que o mar ou o lume ou uma flor. Ou um pássaro. E a gente não se cansa de os ver ou ouvir. Só é pre¬ciso que se esteja disposto para achar diferença nessa igualdade. Posso olhar o mar e não reparar nele, porque já o vi. Mas posso estar horas a olhar e não me cansar da sua monotonia.
O rapaz tinha o olhar absorto na extensão das águas e permaneceu calado algum tempo. As águas brilhavam com o reflexo do sol na agitação breve das ondas. A rapariga calava-se também, fitando o rapaz, porque percebia que ele não acabara de falar. Mas o rapaz calou-se como se não tivesse mais nada a dizer e ela perguntou:
– Mas que é que querias dizer-me?
– Mesmo as coisas mais banais são diferentes se alguma coisa importante se passou em nós.
– Se alguma coisa importante se passou em nós, não reparamos nas coisas – disse a rapariga, acendendo um cigarro.
– Se é coisa mesmo importante, tudo se nos transfigura – disse o rapaz, de olhar alheado no horizonte.
– Que coisa importante? – perguntou a rapariga.
Mas ele não respondeu e ela perguntou outra vez:
– Que coisa importante?
– Não sei. Uma coisa importante. Se te morresse o pai e a mãe e ficasses subitamente sozinha, o mundo transfigurava-se. Se tivesses tentado o suicídio e te salvassem, mesmo as pedras e os cães começavam a ser diferentes. Estavas farta de conhecer os cães e as pedras, mas eles eram diferentes porque os olhavas com outros olhos.
E de novo se calou. Mas agora também a rapariga se calava na indistinta ameaça de não sabia o quê. O sol rodara um pouco, apanhava agora a cabeça do rapaz, incendiando-lhe o cabelo tombado para a testa. Levantou-se, tentou ela fazer girar o guarda-sol azul no pé de ferro articulado, seguro com um gancho recurvo e uma pequena corrente. Sentou-se de novo mas verificou que ficava ela agora com uma mancha de sol que lhe apanhava um ombro e o braço e uma pequena zona da face. Bebeu um pouco de refresco, olhou distraidamente a linha longínqua do limite do mar. Havia no rapaz uma notícia a dar, mas a rapariga não sabia como fazer a pergunta certa para estar certa com a resposta que queria ouvir. E de súbito disse:
– Pediste-me para estar aqui às quatro horas. Telefonaste-me duas vezes. Vieste à praia para isso. Porque é que afinal vieste?
– Mas tenho estado a explicar-te porque vim.
– Tens estado a explicar porque vieste. Mas falta o mais importante. Falta dizeres por exemplo que tudo está acabado entre nós. Falta dizer que essa tal tua amiga sempre conseguiu o que queria. Falta dizer que nunca me achaste tão bela como hoje, mas que já me não podes amar. Falta dizer isso, mas tens de preparar o terreno, porque a coragem nunca foi o teu forte e julgas que não é o meu.
Falava devagar mas com uma grande intensidade interior, e ficou assim ruborizada, os olhos brilhantes de violência. O rapaz ouviu-a e não respondeu. Pensou primeiro concordar com a rapariga e dizer-lhe talvez que já a não amava. E evitava assim ter de lhe dizer a verdade. Quando ela depois a soubesse, talvez já não sofresse, talvez o esquecesse mais depressa. Mas sofreria ele por aceitar uma mentira que ia contra o que sentia. Julgava ser mais fácil dizer tudo e via agora que não.
– Nada disso é verdade – disse por fim.
O mar brilhava cada vez mais. As placas incandescentes tremeluziam nas águas e faziam semicerrar os olhos ao rapaz. Vergou-se para a mesa e bebeu um gole de refresco.
– Há coisas que é difícil dizerem-se – continuou. – É preciso que tudo esteja de acordo. Com esta luz e esta alegria de Verão e este bem-estar de uma esplanada, eu não podia dizer-te, por exemplo, que me vou matar.
– Que estupidez. Mas não tentes desconversar.
– Seria estúpido – disse o rapaz. – Não vou de facto matar-me. Mas não tinha outra maneira de to dizer, se fosse. E seria estúpido, porque tudo estava em desacordo. Não era coisa que se dissesse a uma hora de praia e de sol.
A rapariga ficou a olhá-lo algum tempo intensamente, a tentar ouvir-lhe o que já não dizia.
– Nunca está certa, aliás, seja a que hora for – continuou o rapaz. – Tudo pode estar certo talvez a qualquer hora. Menos essa banalidade ridícula da morte. De tudo se pode falar, menos dela. Nem falar, nem filosofar, nem fazer seja o que for que a tenha a ela em conta. Há uma aliança contra ela como contra uma infâmia. Ou como se o não falar a excluísse. E é a única verdade perfeita.
– Mas é uma conversa idiota – disse a rapariga fitando o companheiro de lado, a entender.
– Tudo é erro e ludíbrio: o triunfo, o poder, as ideias, mesmo as matemáticas. Tu pensa no que quiseres e verás que tudo erra. Há só uma coisa que não. E é do que se não pode falar.
O sol baixara um pouco e estendia agora uma estrada de lume pelas águas. Um barco à vela atravessou-a e um momento foi como se as chamas o envolvessem. O rapaz calou-se e a rapariga não sabia que perguntar. Ou tinha várias perguntas, mas não sabia qual estaria certa.
– Sempre fazes exame em Outubro? – disse ela por fim. Tentava contorná-lo ou distraí-lo, para depois o surpreender onde ele não esperasse.
– Não devo fazer – disse o rapaz. – E mesmo não seria nunca em Outubro. Os exames de Outubro são sempre em Novembro ou Dezembro. Às vezes vão mesmo até ao segundo período.
– Por que é que não deves fazer? – perguntou a rapariga.
O rapaz olhou-a no seu vestido de praia, na cor morena da pele, nos cabelos claros que lhe caíam sobre os ombros, e outra vez sentiu que não sabia como responder. Na praia havia já alguns veraneantes à sombra dos toldos ou estendidos ao sol. Um ou outro mergulhava mesmo nas ondas cheias de luz.
– Por que não deves fazer? – insistiu a rapariga. – Tens ainda uns meses para te preparares.
– Creio que um mês chegava-me – respondeu o rapaz. – Mas não adiantava nada.
– Por que não adiantava? – perguntou a rapariga.
Ele ficou em silêncio outra vez, olhando o mar. Tinha uma resposta certa, mas tinha medo dela como se ele próprio a não soubesse. Depois disse:
– O médico foi claro. Havia um relógio na secretária e olhei as horas. Eram cinco precisas. Estava calmo e reparei. Tenho dois ou três meses no máximo. O tempo contado dia-a-dia. E é extraordinário como tudo agora me parece diferente. Mais belo talvez. Creio que vou viver agora mais intensamente. Dia-a-dia. E três meses no máximo.
– Espera! Três meses como? – disse a rapariga, subitamente iluminada.
Pôs-lhe a mão no braço e olhava-o fixamente. Ele olhou-a também e ambos ficaram a tentar entender-se em silêncio. Depois ela tirou a mão do braço do rapaz e acendeu novo cigarro. O sol escorria do alto e inundava-lhes agora toda a mesa. O rapaz tomou o copo e bebeu um gole devagar.
– Diz outra vez – repetiu a rapariga. – Deixa-me entender. Diz outra vez, para entender tudo muito bem.
– Tu vais dizer que tudo isto é estúpido e eu sei bem que é. Mas se a gente pensar bem, a estupidez é só nossa.
– Sim. Mas explica tudo muito bem. Desde o princípio. Devagarinho.
– A estupidez é só nossa, porque a vida não é verdade. Mas é a única coisa em que se acredita – disse o rapaz.
– Sim – repetiu a rapariga. – Mas era bom que explicasses desde o princípio. Devagarinho. Para eu não acreditar também. Está um dia cheio de sol.
– Mas a explicação é simples – disse ele, balouçando o líquido no fundo do copo. – Eu vou explicar tudo. Eu vou.
Estava uma tarde cheia de sol. As águas brilhavam até ao limite do horizonte, um barco à vela ia passando pela estrada de lume. O ar estava quente. E a brisa do mar quase não chegava ali.

Virgílio Ferreira "Uma esplanada sobre o mar" Difel

Quarenta graus à sombra (com Platão e ideias irrealistas)




Quarenta graus à sombra
e a necessária precipitação dos olhares
que se cruzam depois da meia-noite
nos corredores mal iluminados de uma escola
de nudez absoluta relativamente àquele
que se despe sem querer perante a coisa
que quer ver despida.

O asfalto onde decorre este momento
derrete com o calor e liberta estratégias
de fumo e fuga que se frustram na inércia
que aguardam a água cega do momento
seguinte numa aerodinâmica sala de espera
onde aparecem os dois pela primeira vez
vestidos de convidados para o seu próprio labirinto.

E quando a audácia começar a dar dinheiro
contrata um arquitecto que projecte uma ponte
entre tudo em aberto e nada em rigor.
Pode ser que o amor dure para sempre
por alguns segundos
suspeitos de conterem lá dentro
várias vidas depois.

Lê sempre o prazo da eternidade que te oferecem
mais do que uma vez, e em todas as línguas.
E nunca te preocupes com a forma nem com o trajecto:
atravessa. Apenas e apesar de tudo atravessa.
Afinal a mesma coisa ocorre ao prisioneiro
no dia em que lhe anunciam o dia
envelhecido da sua liberdade perpétua
as grades que o espreitam no mundo das ideias
mais irrealistas.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Perecível o rumo dos meus passos







«… ao desviar-se a rota,
Se rasga a perfeição»
Ana Luísa Amaral




É perecível o rumo dos meus passos,
Sinto-o no caminho que me toma,
Sinto-o nos nervos lassos
Ainda há pouco hirtos como traços.

Sei muito bem que a rota que tracei
São caminhos diversos da emoção –
Descalço-me na areia e penso-me a voar.

É perecível o rumo dos meus passos,
O meu caminho é feito de embaraços,
De laços e de nós como coluna vertebral,
Que com o tempo se curva para o chão,

Assim a perfeição
E a vontade se esbate e gasta o véu,
Transformando-o em rede esparsa
– Sombrios precipícios onde cai a luz.

José Almeida da Silva

O lobo e a neve





Na imagem o repouso e a mansidão,
Contemplação e fixa brandura.
Na voragem do olhar só o silêncio
Acoita vigilantes os sentidos –
Tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac
Acelerado bate o coração –
E nem a friagem do vento rompe
Ou atormenta a quente lã de neve.

Somente a lua acende o desejo
Devorador da hábil mansidão
– E instala-se em mim o lobo
Como um sol capaz de explodir
Momento a momento
Sorrindo-se da presa.

Só o sangue é dinâmico na apatia –

José Almeida da Silva

quinta-feira, 1 de abril de 2010

a floração de um fauno


Pedro Bakst "Nijinski como um fauno"


floração de um mês de abril sem actos falhados nem afasias.
interrogações contemplativas.

unidade,evolução e terapia nos lírios brancos
apesar de um descontrolado de um jardim
onde residem inconstantes pétalas e assimetrias;
recantos de bolbos por crescer e diferenças
de ervas invasivas.

em abril há um princípio de primavera, cíclicas vidas
como os ciclames da pérsia, independentes;
cinco lemes de vento num mar de barcos distraídos
em sonhos permanentes.

em abril há os céus intempestivos e os espaços;
gestos completos de palavras
pequenos pormenores de aromas e folhas de serrilha
e o encurtar de distâncias nas sombras de origamis.

em abril há pássaros voadores em árvores ainda despidas
e as metamorfoses de noites intermitentes;
um bailado de faunos alados nítidos de mitologias
e poemas -