terça-feira, 26 de janeiro de 2010
Nó
“A realidade provém da ficção”
Satoshi Kon
*
Os sonhos a masturbarem-se, a encherem-se de tinto
A arca de Pessoa, todas elas a Literatura abre, o irmão dos
séculos, o irmão de Kafka que por não queimar acende,
o teu riso de todos os sabores; O que é uma arca por abrir?
Nuno Brito
Carrilhão suíço
Ser um armador de mão firme e dura, tudo
O que é nó, amarração e segura
– união traço, muitas portas a abrir
Alarme de várias luzes laranja, o vento que as abre
abelha que traça a sua rota firme,
sino de bronze que nos adormeceao mesmo tempo que acorda,
menina a ouvir o carrilhão suíço
a dar à corda a manivela mecânica, como espera
ainda viva e vulcânica
Ser só alarme e traço seguro, nós,
ter sido o que não perdura, A maré aflita a levar um e outro barco
A dama que aproxima
O carrilhão que parte
Nuno Brito
O que é nó, amarração e segura
– união traço, muitas portas a abrir
Alarme de várias luzes laranja, o vento que as abre
abelha que traça a sua rota firme,
sino de bronze que nos adormeceao mesmo tempo que acorda,
menina a ouvir o carrilhão suíço
a dar à corda a manivela mecânica, como espera
ainda viva e vulcânica
Ser só alarme e traço seguro, nós,
ter sido o que não perdura, A maré aflita a levar um e outro barco
A dama que aproxima
O carrilhão que parte
Nuno Brito
atmosfera

Cartier Bresson "Brie" 1968
por hábito colocava sinais nas folhas dos livros
poderia ser aquele bilhete de um cinema francês
com muitos diálogos e declarações de alma
registado no w de uma fila, no ímpar
de um número, na cor cinza de um timbre;
um registo de futuras memórias, as duas
a página e um filme.
dizia:
as palavras dos livros têm dedos firmes
que nos chamam, têm a voz que acorda
que nos prende e agarra a que chamamos nossa
e o pressentimento de que quem escreve
sabia da nossa atmosfera, do nosso mundo;
se gostamos dos passeios na penumbra
ou das cores luminosas de uma praia;
e sabe a côr, e sabe a hora, a hora muda
a hora exacta da leitura.
dizia:
as palavras dos livros abraçam
como naquele romance de outra época
um êxtase feliz de Vladimir e Zinaida
por debaixo de um xaile ou a dobar malha
e o encontro de um rosto, e um outro rosto
e o decoro vestido de rubro a despertar o sonho.
Grande Angular
I.
Quis ser realizador de cinema mudo
e captar a
câmara negra, o registo quente e solar:
do teu sorriso, monólito aceso de obsediana e
voo perfeito, captar num ângulo Múltiplo um abraço e
tudo que é gente e Sobe
ser só ângulo de encontro e perca, tudo que queima, derrete e chove
Sonho de borboleta africana, pirilampo e urso polar;
Concerto de muitos sinos e do Chile inteiro no fundo do mar,
unir os sonhos por novelos de espuma
Recheá-los de tudo o que está por fundir,
Ser a Gente que veio e a Gente que há de vir
II.
Unir dois sonhos numa grande angular
Induzir a Pluto que se torne gente e só vontade de errar,
Comboio que acende e passa a fronteira
Comboio com todas as pontas acesas, só Desejo de Abraçar
Nuno Brito
Quis ser realizador de cinema mudo
e captar a
câmara negra, o registo quente e solar:
do teu sorriso, monólito aceso de obsediana e
voo perfeito, captar num ângulo Múltiplo um abraço e
tudo que é gente e Sobe
ser só ângulo de encontro e perca, tudo que queima, derrete e chove
Sonho de borboleta africana, pirilampo e urso polar;
Concerto de muitos sinos e do Chile inteiro no fundo do mar,
unir os sonhos por novelos de espuma
Recheá-los de tudo o que está por fundir,
Ser a Gente que veio e a Gente que há de vir
II.
Unir dois sonhos numa grande angular
Induzir a Pluto que se torne gente e só vontade de errar,
Comboio que acende e passa a fronteira
Comboio com todas as pontas acesas, só Desejo de Abraçar
Nuno Brito
Sunser Boullevard
II
Abrir um baú, possuir um século Inteiro
fechar-te os olhos num beijo, ver neles explodirem
e renascerem em Super Novas todas as estrelas que
abrem portas – és só as portas que elas abrem, os caminhos a percorrer, uma criança que brinca sozinha,
pensando que ninguém a vê, mas que está em directo na Sky news,
com a sua inocência exposta, uma criança que é um século que te arde no queixo e adocica o palato, uma criança que é só queixo e multidão (todos os que sobem e descem) ser o fim da tarde a beber e a vestir os seus calções justos:
os séculos e as pernas a tremerem,
só instante, como qualquer gesto humano.
Tudo é febre e dança sem controlo
ponta e mola, agulha: Tudo que acende um Abraço.
Nuno Brito
Abrir um baú, possuir um século Inteiro
fechar-te os olhos num beijo, ver neles explodirem
e renascerem em Super Novas todas as estrelas que
abrem portas – és só as portas que elas abrem, os caminhos a percorrer, uma criança que brinca sozinha,
pensando que ninguém a vê, mas que está em directo na Sky news,
com a sua inocência exposta, uma criança que é um século que te arde no queixo e adocica o palato, uma criança que é só queixo e multidão (todos os que sobem e descem) ser o fim da tarde a beber e a vestir os seus calções justos:
os séculos e as pernas a tremerem,
só instante, como qualquer gesto humano.
Tudo é febre e dança sem controlo
ponta e mola, agulha: Tudo que acende um Abraço.
Nuno Brito
O Grande Arquitecto
Agora lembrei-me do Hélder e das suas mãos compridas,
que mais pareciam azeite e tempestade de areia fina, agora lembrei-me que o Atlântico estava sempre dele em redemoinho e o sugava para dentro concêntricamente até, um limite Negro, (Lembrei-me da sua forma inclinada – com que fazia tudo, como se estivesse a rezar: lembrei-me de nos seus olhos ver vários pinguins e atirarem-se para coisa nada, o fundo do lago, da alma, o vazio de um armazém, um raciocínio rápido – Como guardava a Foz do Rio com Mahler nos ouvidos – Como lhe corria uma rio na coluna cheio de seixos finos. Vi também uma tempestade de açúcar em todos os portos do seus pulmões aguados, cheios de serradura e cascalho no fundo - Os nós que Fazia dentro de tudo: O seu hálito virado a norte, agora lembrei-me que a amizade é de todos os arquitectos, o mais forte.
Nuno Brito
que mais pareciam azeite e tempestade de areia fina, agora lembrei-me que o Atlântico estava sempre dele em redemoinho e o sugava para dentro concêntricamente até, um limite Negro, (Lembrei-me da sua forma inclinada – com que fazia tudo, como se estivesse a rezar: lembrei-me de nos seus olhos ver vários pinguins e atirarem-se para coisa nada, o fundo do lago, da alma, o vazio de um armazém, um raciocínio rápido – Como guardava a Foz do Rio com Mahler nos ouvidos – Como lhe corria uma rio na coluna cheio de seixos finos. Vi também uma tempestade de açúcar em todos os portos do seus pulmões aguados, cheios de serradura e cascalho no fundo - Os nós que Fazia dentro de tudo: O seu hálito virado a norte, agora lembrei-me que a amizade é de todos os arquitectos, o mais forte.
Nuno Brito
Água que espera
Às vezes acontece ser um meta-barco
ou um meta poço que desalinha a sua rota concêntrica
só para te ver sorrir, e é só fundo e água ainda por vir
o seu meta-capitão assustado e de
cara nenhuma a comprimir nos dedos finos o musgo que lhe serve de gel ao cabelo ondulado
Saber-se viagem de cais nenhum, A mulher e o relâmpago que o espera
Todos os baús que abre,
A rota que lhe adoça a boca
Nuno Brito
ou um meta poço que desalinha a sua rota concêntrica
só para te ver sorrir, e é só fundo e água ainda por vir
o seu meta-capitão assustado e de
cara nenhuma a comprimir nos dedos finos o musgo que lhe serve de gel ao cabelo ondulado
Saber-se viagem de cais nenhum, A mulher e o relâmpago que o espera
Todos os baús que abre,
A rota que lhe adoça a boca
Nuno Brito
O Atlanta
A arte nunca é terminada, só interrompida e abandonada
Leonardo da Vinci
Lembro-me muitas vezes das histórias dos Atlantas que me contavas, na sua rota geométrica que era só tinta e malhada na espera,
esperavam virados para o mar, os europeus, Um amigo que acendesse Tudo
quero-te tornar o Atlântico num sopro,
numa Sofia que cresce num búzio e que é salgada como a voz búlgara
e é também minha mãe
o oceano que nos une, chuva que te cai na cara
que te cai no passeio, na pedra trabalhada
que incendeia Tikoman, a minha mãe, o vento
sinto pena de não te ter beijado em bombazine claro
Pensei que este poema nunca fosse escrito, porque seria sempre acrescentado
Dama aflita que uiva e grita em frente à Calvin Klein, procurei uma forma clássica
de te dizer que te Adoro, não há forma para a amizade, o que cresce está sempre incompleto, a vontade de rechear o mar de relâmpagos que sentia Luís Miguel Nava,
O abraço que te serve de Escada
Cantiga de Amigo eterna e a ser feita, Sempre em Ti
a luz está acesa
Nuno Brito
Fila para Avatar
O meu avatar fala sozinho e
tem um gorro azul feito de memória e loucura
está recheado de sombra roxa e pôr do sol, Outro dia
na fila do cinema disse-me que criou dez heterónimos,
perguntei-lhe porquê o número redondo e porque confundia
sempre poesia e prosa,
O meu avatar é só riso espalhado
Sinto nos seus olhos azuis e cabelo ondulado
a vontade de ser toda a gente, Ladrão na Austrália, pregador escocês,
professora de Yoga, Prostituta no Marquês,
vendedor de alhos filipino, sucateiro na Amadora,
O meu avatar criou dez heterónimos de olhos cansados - disse-me na fila do cinema,
que tinha medo do escuro
Medo que o escuro o recheasse por dento, como uma procissão silenciosa de virgens negras ou búfalos subaquáticos
Contou-me que os seus heterónimos são gente educada com corpos de silêncio, desejam uma boa jornada a este e àquele que passa, perguntam mutuamente a hora, mesmo sabendo sempre que hora faz.
Têm necessidade de falar, às vezes entram todos num café e pedem um copo de água. Seguem o telejornal às riscas com os seus gorros azuis e escrevem no seu gesto quadriculado um ou dez poemas de amor:
O meu avatar chama os heterónimos dos seus jogos de azar, e conta a todos eles uma história de amor, encomenda-lhes um ensaio sobre este ou aquele autor, uma corrente de vanguarda, coze-lhes os calções rotos da jornada,
Leva-os a ver o pôr do sol e a todos eles alinhados diz que a paisagem é bonita, mete-os na fila do cinema enquanto vai comprar bombocas, manda-os ir evangelizar a Escócia, enquanto fuma um cigarro em todo o lado, já só átomo com vontade de se fundir a outro átomo, para que a União seja a calma.
Vejo nos seus olhos, vária gente que escreve
Às vezes enquanto tira as meias ou as calça, pergunta-me sobre a utilidade da literatura e reparo que ele se parece uma nuvem,
Uma nuvem carregada que se olha ao espelho, guardo no vidro transparente a sua calma e chuva tropical , e vejo no espelho toda a gente com máscara e sem a Máscara,
a máscara é também gente:
O que se calca é também o que se é)
É então que ele diz: Tu és queda livre e curva que não passa mensagem nenhuma.
………………………………………………………………………………………………………...
Não tenho argumentos contra esse gorro azul
Recheio-o de medo e vamos ao cinema – Preenchemos todo o quarteirão Coppedé, esperamos que o sol se ponha, olhamos as máscaras gregas de pedra, a coluna clássica de cada varanda, vemos sem ver a gente lá dentro, descalça a ouvir o seu Tango, - às vezes atira-se de uma varanda e dá-me a mão pequena dizendo – Tu não passas mensagem nenhuma, és só queda e confusão – O Vento tira fotografias às máscaras e a nós todos, revela-nos, no musgo, nas paredes no riso, no fundo de todos os poços, no espelho – Este querer estar sempre em ti, ser já só fronteira, o avatar a comer com a boca cheia de espuma de morango, diz esta e aquela sentença, ouço-o com atenção – Pergunta-me sobre a necessidade de registar? Diz depois parecendo um triângulo – Toda a memória provém do sol –
Guarda muita coisa ao mesmo tempo e é só riso a espalhar,
escreve a negrito as sentenças de maior relevo,
Umas vezes não pergunta e é só dança outras é
fronteira e meta-susto que se alimenta,
recheia-se a si próprio de vento
Estamos na fila, na tela e no acento.
Nuno Brito
tem um gorro azul feito de memória e loucura
está recheado de sombra roxa e pôr do sol, Outro dia
na fila do cinema disse-me que criou dez heterónimos,
perguntei-lhe porquê o número redondo e porque confundia
sempre poesia e prosa,
O meu avatar é só riso espalhado
Sinto nos seus olhos azuis e cabelo ondulado
a vontade de ser toda a gente, Ladrão na Austrália, pregador escocês,
professora de Yoga, Prostituta no Marquês,
vendedor de alhos filipino, sucateiro na Amadora,
O meu avatar criou dez heterónimos de olhos cansados - disse-me na fila do cinema,
que tinha medo do escuro
Medo que o escuro o recheasse por dento, como uma procissão silenciosa de virgens negras ou búfalos subaquáticos
Contou-me que os seus heterónimos são gente educada com corpos de silêncio, desejam uma boa jornada a este e àquele que passa, perguntam mutuamente a hora, mesmo sabendo sempre que hora faz.
Têm necessidade de falar, às vezes entram todos num café e pedem um copo de água. Seguem o telejornal às riscas com os seus gorros azuis e escrevem no seu gesto quadriculado um ou dez poemas de amor:
O meu avatar chama os heterónimos dos seus jogos de azar, e conta a todos eles uma história de amor, encomenda-lhes um ensaio sobre este ou aquele autor, uma corrente de vanguarda, coze-lhes os calções rotos da jornada,
Leva-os a ver o pôr do sol e a todos eles alinhados diz que a paisagem é bonita, mete-os na fila do cinema enquanto vai comprar bombocas, manda-os ir evangelizar a Escócia, enquanto fuma um cigarro em todo o lado, já só átomo com vontade de se fundir a outro átomo, para que a União seja a calma.
Vejo nos seus olhos, vária gente que escreve
Às vezes enquanto tira as meias ou as calça, pergunta-me sobre a utilidade da literatura e reparo que ele se parece uma nuvem,
Uma nuvem carregada que se olha ao espelho, guardo no vidro transparente a sua calma e chuva tropical , e vejo no espelho toda a gente com máscara e sem a Máscara,
a máscara é também gente:
O que se calca é também o que se é)
É então que ele diz: Tu és queda livre e curva que não passa mensagem nenhuma.
………………………………………………………………………………………………………...
Não tenho argumentos contra esse gorro azul
Recheio-o de medo e vamos ao cinema – Preenchemos todo o quarteirão Coppedé, esperamos que o sol se ponha, olhamos as máscaras gregas de pedra, a coluna clássica de cada varanda, vemos sem ver a gente lá dentro, descalça a ouvir o seu Tango, - às vezes atira-se de uma varanda e dá-me a mão pequena dizendo – Tu não passas mensagem nenhuma, és só queda e confusão – O Vento tira fotografias às máscaras e a nós todos, revela-nos, no musgo, nas paredes no riso, no fundo de todos os poços, no espelho – Este querer estar sempre em ti, ser já só fronteira, o avatar a comer com a boca cheia de espuma de morango, diz esta e aquela sentença, ouço-o com atenção – Pergunta-me sobre a necessidade de registar? Diz depois parecendo um triângulo – Toda a memória provém do sol –
Guarda muita coisa ao mesmo tempo e é só riso a espalhar,
escreve a negrito as sentenças de maior relevo,
Umas vezes não pergunta e é só dança outras é
fronteira e meta-susto que se alimenta,
recheia-se a si próprio de vento
Estamos na fila, na tela e no acento.
Nuno Brito
Spritz*
A noite tem a veia inchada e a cara múltipla e acesa
que tudo guarda – a noite não trabalha os seus textos e é a realizadora
mais perversa, tem as suas próprias leias e viola as suas próprias leias,
feitas de fio grosso de ovelha com que coze a mini-saia vermelha, A noite não usa metáfora
e varre com a sua enchada todos os que a usam, faz curtas metragens que não regista, porque não é preciso registar que aquele não pagou e ficou no
fundo do rio com a barriga inchada; a noite apagou essas provas e organiza festas no Lusitano, é travesti que entra em todos os bares e pede um Spritz, perguntei o caminho para a biblioteca a vários gatos negros, todos me indicaram o caminho ou a perca, com a sua voz que parecia de Gente
As suas leis são parecidas às do voleibol com bola em chamas ou aos mais complexos jogos de Azar,
*
Toca Óscar Petterson e Carlos Parede com os seus dedos escuros e Acende-os, é apenas um cartógrafo com coragem, que traçou vários equadores no seu próprio peito para que não
Dormisse nunca e tornasse
qualquer registo fútil
A noite disse:
Tu usas a metáfora meu filho!
…………………………………………………………………………………………
Frita com areai fina
em vez de pão ralado
tatua em agulha fina, os braços magros do injectado
e as bordas dos sonhos dos que dormem Muitos na Estação Termini
A noite não permite o poema social, veste o seu soutien de estrelas ou areia Fina
Entra na Brodway – Kadoc – Na ourivesaria para roubar,
Viola as prostitutas que não aparecem no dia seguinte na Estrada Nacional,
Em que século foi? O crime da Gucci? Onde comprou esse gorro?
A noite é a fingir
Nuno Brito
que tudo guarda – a noite não trabalha os seus textos e é a realizadora
mais perversa, tem as suas próprias leias e viola as suas próprias leias,
feitas de fio grosso de ovelha com que coze a mini-saia vermelha, A noite não usa metáfora
e varre com a sua enchada todos os que a usam, faz curtas metragens que não regista, porque não é preciso registar que aquele não pagou e ficou no
fundo do rio com a barriga inchada; a noite apagou essas provas e organiza festas no Lusitano, é travesti que entra em todos os bares e pede um Spritz, perguntei o caminho para a biblioteca a vários gatos negros, todos me indicaram o caminho ou a perca, com a sua voz que parecia de Gente
As suas leis são parecidas às do voleibol com bola em chamas ou aos mais complexos jogos de Azar,
*
Toca Óscar Petterson e Carlos Parede com os seus dedos escuros e Acende-os, é apenas um cartógrafo com coragem, que traçou vários equadores no seu próprio peito para que não
Dormisse nunca e tornasse
qualquer registo fútil
A noite disse:
Tu usas a metáfora meu filho!
…………………………………………………………………………………………
Frita com areai fina
em vez de pão ralado
tatua em agulha fina, os braços magros do injectado
e as bordas dos sonhos dos que dormem Muitos na Estação Termini
A noite não permite o poema social, veste o seu soutien de estrelas ou areia Fina
Entra na Brodway – Kadoc – Na ourivesaria para roubar,
Viola as prostitutas que não aparecem no dia seguinte na Estrada Nacional,
Em que século foi? O crime da Gucci? Onde comprou esse gorro?
A noite é a fingir
Nuno Brito
Meta-Barco
Pudéssemos ser um meta-barco
ou um meta-poço no seu fundo sonho de abelha
E já nem barco nem poço - Só mel e asa torta
Te faça explodir em riso e brilhar – meta barco e meta poço,
vontade de te abraçar.
Nuno Brito
ou um meta-poço no seu fundo sonho de abelha
E já nem barco nem poço - Só mel e asa torta
Te faça explodir em riso e brilhar – meta barco e meta poço,
vontade de te abraçar.
Nuno Brito
domingo, 24 de janeiro de 2010
pensando
faz-me pensar
não somos nós mais que muitos?
não somos nós seres únicos? marcas digitais únicas?
reduzidos a números, a estatísticas, a tabelas
decapitados
sem pinga de sangue
faz-me pensar
naquelas órbitas, paradas, sequer névoa
de quem já nada pede, nada quer,
ausente, irreal, na plateia de um filme de cinema
para maiores de nascidos
faz-me pensar
em cada rosto, cada ruga
um contar de histórias sem fim
desconhecidas
em cada perda, um elo se quebra
um nunca mais definitivo
faz-me pensar
todas estas vidas diminuídas em multidão
que nos entram pela casa adentro
sem sequer um "posso?"
e mantens igual o acto maquinal
de levar a comida à boca já tão cheia
de olhos postos em outras tão cheias de
nada
soltas tua culpa com um "coitados!" ocasional
e segues a tua vida
e todos seguem as suas vidas
e o mundo gira e gira e gira
e tu? onde estavas tu?
quando a terra decidiu mostrar as entranhas!
adormeceste em serviço?
esqueceste de proteger os que em ti acreditam?
os poupados agradecem-te!
e os outros? os engolidos pelo cinzento?
esses já nada dizem, só silêncio
faz-me pensar
afinal também tu és
silêncio
Clara Oliveira
não somos nós mais que muitos?
não somos nós seres únicos? marcas digitais únicas?
reduzidos a números, a estatísticas, a tabelas
decapitados
sem pinga de sangue
faz-me pensar
naquelas órbitas, paradas, sequer névoa
de quem já nada pede, nada quer,
ausente, irreal, na plateia de um filme de cinema
para maiores de nascidos
faz-me pensar
em cada rosto, cada ruga
um contar de histórias sem fim
desconhecidas
em cada perda, um elo se quebra
um nunca mais definitivo
faz-me pensar
todas estas vidas diminuídas em multidão
que nos entram pela casa adentro
sem sequer um "posso?"
e mantens igual o acto maquinal
de levar a comida à boca já tão cheia
de olhos postos em outras tão cheias de
nada
soltas tua culpa com um "coitados!" ocasional
e segues a tua vida
e todos seguem as suas vidas
e o mundo gira e gira e gira
e tu? onde estavas tu?
quando a terra decidiu mostrar as entranhas!
adormeceste em serviço?
esqueceste de proteger os que em ti acreditam?
os poupados agradecem-te!
e os outros? os engolidos pelo cinzento?
esses já nada dizem, só silêncio
faz-me pensar
afinal também tu és
silêncio
Clara Oliveira
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
o cálice onde molharam as cerejas
.jpg)
René Magritte "Os amantes" 1928
ele
subiu uma calçada de escadas escorregadias.
devia trazer outros adereços. não os sapatos de sola
que incha e embola. as botas grossas de camurça.
insistiu rodeado de cuidados, lento na sequência
de vários níveis na subida
que levava ao morro: o ponto de encontro.
ela
subiu as escadas em corrida. atrasada.
as sapatilhas ajudavam. um, dois, uma cantiga.
um desviar do tempo até chegar mais acima
ao morro: o ponto de encontro.
lá
um corrimão esteve sempre imóvel.
aguardou. a ele, a ela, e uma vista sobre o Tejo.
os dois
límpidos sentaram-se num banco de pedra
quando ela chegou.
molharam cerejas num cálice de água. vinha com sede.
estava cansada. mas no rosto tinha um ar de tangerina
um perfume brando e dentes brancos de chiclete
no morro: o ponto de encontro -
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
engordando
na escuridão de afectos
há fome, há sede
uma fome faminta de fogo
uma sede sedenta de céu
em partículas de tempo encalho
num corpo do qual me alimento
inspiro odores que da pele se soltam
ferro os dentes alvos na carne rosada
dilacero secretos entremeios que torno meus
e eu engordo
vou engordando
bebo o sangue, grosso e escuro
da cor de reposteiro de sacristia
corpo e sangue d'alguém
alguém sem nome, sem rosto
anónimo, sem identidade
que importa! alguém. ou talvez ninguém
dos olhos sugo a alma
e é dela que me lambuzo
os dedos, o queixo
ponto alto do bródio, delírio do palato
e eu engordo
vou engordando
até nos ossos de marfim afio os caninos
e a seiva leitosa sorvo em orgasmos sacudidos
seca. deixo-te seca.
pele e osso. transparente como um cadáver.
folha seca de Outono que se calca e quebra
num som de estalidos debaixo dos pés
foguetes em dia de festa. sem festa
seca como uma folha de papiro
amarelecida, envelhecida antes do tempo,
com o impiedoso bater dos ponteiros
seca
numa nudez frágil de alma depenada
de um golpe desprendo-me
arrumo desarrumada, num caixote qualquer,
sem etiqueta, na minha memória mais remota
tão mais que já perdi e de vez esqueci
levou-te o vento do norte
em mil grãos de poeira, desfragmentada
outro chão, outro colo.
na escuridão de afectos
um outro corpo do qual me alimento
e eu engordo
vou engordando
Clara Oliveira
há fome, há sede
uma fome faminta de fogo
uma sede sedenta de céu
em partículas de tempo encalho
num corpo do qual me alimento
inspiro odores que da pele se soltam
ferro os dentes alvos na carne rosada
dilacero secretos entremeios que torno meus
e eu engordo
vou engordando
bebo o sangue, grosso e escuro
da cor de reposteiro de sacristia
corpo e sangue d'alguém
alguém sem nome, sem rosto
anónimo, sem identidade
que importa! alguém. ou talvez ninguém
dos olhos sugo a alma
e é dela que me lambuzo
os dedos, o queixo
ponto alto do bródio, delírio do palato
e eu engordo
vou engordando
até nos ossos de marfim afio os caninos
e a seiva leitosa sorvo em orgasmos sacudidos
seca. deixo-te seca.
pele e osso. transparente como um cadáver.
folha seca de Outono que se calca e quebra
num som de estalidos debaixo dos pés
foguetes em dia de festa. sem festa
seca como uma folha de papiro
amarelecida, envelhecida antes do tempo,
com o impiedoso bater dos ponteiros
seca
numa nudez frágil de alma depenada
de um golpe desprendo-me
arrumo desarrumada, num caixote qualquer,
sem etiqueta, na minha memória mais remota
tão mais que já perdi e de vez esqueci
levou-te o vento do norte
em mil grãos de poeira, desfragmentada
outro chão, outro colo.
na escuridão de afectos
um outro corpo do qual me alimento
e eu engordo
vou engordando
Clara Oliveira
O escritor de olhos oblíquos
.jpg)
Kazimir Malevitch "Retrato do compositor" 1913
o escritor de olhos oblíquos escreve muitos livros.
o vértice que equilibra.
fala sempre de gatos perdidos e personagens vagos;
divagam em atmosferas desconhecidas,
fazem-se ao vento, fogem nos montes, evolam-se por magia.
o último gato chamava-se kafka e era branco.
segundo os vizinhos habitava o fundo de um poço
de uma casa abandonada.
desapareceu às treze horas de um dia treze - hora de almoço.
um jovem de olhos oblíquos teve um acidente de mota,
coxeava para não ir escola. Usava um gorro de orelhas
e uma muleta que afastava as ervas invasivas
na casa abandonada.
sentava-se no muro do poço e miava baixinho.
depois lançava friskies e dizia que o gato falava.
um dia o gato disse:
atravesso do fundo do poço, a rua da madressilva
a travessa do sino, e chego ao bairro da china.
sobre o bairro da china há uma janela gradeada.
vê-se um jardim de árvores grandes e flores pequenas.
um jardineiro de olhos oblíquos e aros redondos
habita esse jardim. canta e dança junto à magnólia,
à buganvília, à aromática tília e junto à grade
de uma janela parada no meio da colina.
o jovem de olhos oblíquos não quer ir à escola.
prefere ler livros e falar com o gato que habita
o fundo do poço.
o jardineiro do bairro da china canta e dança.
habita uma cabana no cimo da grande tília
e tem uma antena para ver musicais da broadway.
o escritor de olhos oblíquos quando não escreve livros
corre a maratona.
retira vírgulas, transporta exclamações e reticências
acrescenta ou enfatiza demasiadas informações´
às fatias ou na íntegra.
o escritor de olhos oblíquos gosta de neblinas
da cor lisa dos bosques e das colinas,
da sombra das árvores e da natureza escondida
por onde sobem os esquilos, ressaltam as lebres
voam os pintassilgos.
o escritor de olhos oblíquos quando não escreve livros
também corre nas cidades.
sonha falar com os gatos que habitam as casas abandonadas
e todos os telhados;
contariam segredos, sementes de enredos
e o escritor pelas noites dentro, pelas manhãs fora
teria muitas letras e menos folhas brancas.
o escritor de olhos oblíquos diz que o mundo está torto
as cidades sabem a fumo e fogo
e são muitos os jardins habitados por casas.
já não se vêm tantos gatos -
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