terça-feira, 4 de novembro de 2008

Ela é bailarina

Ela é bailarina
Na rua olham-na delgada e fina
Os ossos quase lhe rasgam a pele
Lisa e translúcida que lhe veste o peito.
No palco os mesmos olhares
Vêem-na bonita.

Traz o pescoço esguio desnudo
Vestiu o fato coleante e o tule
Flutua num pas de deux com doçura
Com seu par forte que a segura.
É um cisne riscando as águas do palco
Esbelto.

Mil luzes e cores a fixam ao centro
Como numa tela colorida de Degas
Num ensaio mágico e luminoso de um bailado.
E ao som ora doce ora furioso de Tchaikovsky
Rodopia em mil piruetas sem fim
No palco, como na vida.

Leva toda a dor do seu coração
Oculta na ponta de gesso da sapatilha
Rosada de cetim a brilhar.
Traz um sorriso na face e os olhos de cristal
Absorvem os aplausos
Dobra-se enfim
Numa vénia.

É o último instante em palco
E o veludo escuro vai fechar-se
É arte sua vida tão dura?
Do outro lado do pano o vazio,
A solidão, uma lágrima, uma noite sem cor.
Em nós o coração a transbordar
Ela é bailarina
Deixou-nos um conto, mil sonhos
Pedaços de amor.

Elza

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Alteração do 4º trabalho de casa: O maltrato

O MALTRATO

Levanta, amor, levanta

São horas de jantar

Tira a faca daí!

Por que não me respondes?

Diz,

Onde estavas?

Tu sabes que eu adoro ver-te em casa

quando chego da rua.

Sabes que o teu corpo no chão

atinge os ângulos mais belos...

Sabes, meu bem, como eu gosto de ti...

Que estaremos neste laço para sempre

E que a minha força eterna e excessiva te protege.

A expressão que tens nos olhos mete medo

Anda, levanta-te.

São horas de jantar, não ouves?

Mexe-te.

Foi só um empurrão

Trouxe-te o pão e o vinho

Há trinta que casamos, lembras?

E continuas

cosmeticamente atraente

em formas , volumes e conversas.

E és tão desejável.

Acorda, amor, acorda.

São horas de jantar

Limpa o sangue do teu corpo.



Ángeles Sanz

domingo, 2 de novembro de 2008

O pouf vermelho de esferovite

Um mar de velas triangulares
estende o horizonte ao casco longo
da distinta torre de guindastes...
contei-os... vinte são de um tamanho
menino de três primaveras,
um lenço dobrado pelo bico das gaivotas!

Sol de Inverno (escuras são as lentes)
areal grosso de pequenas dunas
deserto beige que escurece nas rochas
abraçadas de pequenas linhas de espuma
quando águas murmuram segredos marinhos
ao som de escorrerem pelas mãos
segredos de sereias num ruído longe de lentilhas!

Um pouf vermelho acondiciona as costas,
deslizar de bolas brancas esferovite
e não é "vite" a vida nas manhãs de Domingo
nos resto da cafeína, no caramelo fundo
doce das areias...
uma calma sem pastilhas invade a alma...
um vidro rachado de alto abaixo na divisória
contorna um busto improvável surrealista
de pescoço alto esticado
na transparência falta a cor
no olhar
recolho traço o rápido esquiço
de cartolina dura... o choque
é...ali está...irrepetível, não pode voltar!

Um triciclo de três rodas, um amparo de mãe,
corta o desenho levanta o olhar
corta a divagação de técnicas...
pastel?óleo?tintas fortes?gouache?...
não...
uma pomba de Picasso em flocos de nuvem
e azuis leves, claros... mansos
dilui as gotas de aguarela... ténue...subtil!

Antes de sair passeei o olhar no portal
perdi-me de amores nos versos suaves,
nas líquidas àguas de um poema a baloiçar
invadido, extasiado, remexido, agradecido,
abracei um volante tripartido
desaguei na Foz
na esplanada do pouf vermelho
entre brisa sol e mar...
não tinha folhas, caderno, papel
recolhi nos guardanapos
as frases soltas
de um poema a falar!

Poesia de que gosto

Aliança


Na folhagem de um quarto um ovo azul murmura
a aliança da noite com as mãos
nas tuas veias acende-se de uma só vez a seda
és um bosque inerte e vivo no meu abraço
um só perfume de água nos cabelos

Sossego a tua nuca uma haste desliza no tapete
o teu dorso completa-se à volta do teu colo
e eu oiço-te sobre os olhos oiço-te sobre os ombros
a vertente que desce ao silêncio de um lago
a sombra de um barco no último muro da cidade

Nas tuas faces vejo duas linhas
uma de fogo outra de cinza
um verde cimo de música negro e congelado
um nome suave de chama e de sussurro

Ò longa meia-noite em que oscilo nó fluído
equilíbrio tão alto sobre um rosto tão límpido!

António Ramos Rosa "matéria de amor"

Convite Exposição





obrigada filinta

sábado, 1 de novembro de 2008

Sobre a vida

Trago a vida debaixo dos pés
Caminho a destino incerto
Vou colhendo abraços e amassos
Enchendo o deserto
Esvaziando marés e sonhos
Recortando os pedaços do tempo
Apanhando peças de puzzle em segundos

Trago a vida debaixo da pele
disfarçada na calma tranquila com que te olho
um espelho onde se esconde a metamorfose
o vazio espaço do teu colo

Trago a vida em cima dos ombros
na rotina que carrego sem pensar
nas cargas que eu abraço e me afundam
a vida adormecida
o teu abraço dentro de mim

o cheiro quente dos biscoitos da minha mãe
o sorriso infantil da minha mãe
trago a vida debaixo dos sonhos
trago os sonhos debaixo da vida
a minha mãe dá biscoitos aos meus sonhos

corro parada de vida
a vida é essa mistura de seiva e terra
de morte e tédio
de gente
muita gente em nós
somos tanta gente

trago a vida em caixas e em fotografias
debaixo da minha retina
inundo os receptores da vida num copo de vinho
os nossos cérebros são memórias
abro as caixas aos poucos
vou dando presentes e abraços
guardo o sol da minha infância em caixas

guardo os meus nomes em faixas
as listas de nomes e rostos
gente
muita gente em nós
somos muita gente
é isto a vida
o encontro
da gente com gente
sempre eu e a minha vida e a minha gente
Trago gente debaixo da pele
Trago vida em cima da gente

A vida é um abraço do cosmos
Uma matéria que se uniu em poesia de gente
Fragmentos de sombra e luz
Embalados num ventre de estrelas e sonhos
Um sono irrealmente desperto
Uma fantasia concreta
O sabor salgado das lágrimas
As emoções invisíveis que se palpam
Escrevem-se no corpo

Trago a vida no corpo
O corpo estéril que se enterra
A terra
Os caixões dobrados do sofrimento
Trago a vida em caixões
Trago a vida em caixas

Amo a vida crua que trago debaixo da pele
Os ramos, o tronco e as flores
Somos árvores com muitas raízes
Muita gente
Tanta gente em nós

Trago a vida em sorrisos
A vida é um sorriso sem razão
Um mistério sem segredos
A objectividade da chuva

Trago a vida em palavras
Num rumo incerto como a vida
Num poema grávido de incerteza
Trago a vida debaixo do céu
Debaixo de abraços

A vida somos nós a dizer os nossos poemas
A encontrar os nossos lemas e as nossas verdades
Somos nós a escolher
Sempre a escolher
Mesmo quando não sabemos
Escolhe a vida
Ou ela escolhe-te a ti

Trago a vida debaixo de jornais
A vida vem em jornais
Vende-se em revistas
Não!
A vida não se vende!
A vida inventa-se
E reinventa-se
Volta-se
Revolta-se
Dá voltas
E revoltas
A vida é tão grande que nunca vai caber neste poema.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Quentes mercúrios

Tlim-Tlão!

Bigorna metálica, ferraduras virgens em brasa
nos bicos de uma tenaz, atiçando o martelo
que sobe e desce cravando tachas
em golpes largos de mão!
Sinusóide de períodos, vermelhos, laranjas
verdes; semáforos de emoções, alteando
faúlhas míopes nos fumos da extinção...
retomando os pequenos espaços incertos
nessas máculas de ferros machos
que pisam, marcam... e femininos
abrem arcos, esticam as cordas das setas
dos meninos nus, espaçando ventos
nas pressas da direcção!

Tlim-Tlão!

Cavalos alados de crinas à solta
nas oficinas dos infernos, dos paraísos
dos intermédios destinos, cavalgando à vez
musselines de sonhos, quentes mercúrios!

Sobe o martelo segue a canção:

Tlim-Tlão!

esmagando os vazios avaros sentidos,
determinativos desfechos sem reticências,
silogismos, lógicas gregas sem dedução...
pílulas àureas entre dentes brancos,
barrigas ocas sem voltas torcidas,
sem tremores, Himalaias de limites...Não!

Tlim-Tlão!

Nós sim, colunas de pedras gastas, usadas,
rugas paralelas das viagens,
moldados de magmas, de lavas, dos raios
das tempestades,ressarcindo dos cílicios
das paixões, sobreviventes, navegantes,
das Atlântidas perdidas, abrindo
as guelras das pulsões...
de olhos imersos de peitos abertos
aos suplícios dos martelos
em luta, desafio...revolução!

Tlim-Tlão!

Palavras

Trago apenas palavras semeadas nestes versos
São estruturas faladas por dentro do carmesim
Com que tu pintas a vida e constróis os universos
Da tristeza ou da alegria com que tu passas por mim.

As palavras são tão simples como os gestos que te vi,
Mas a vida que viveram renasce a todo o momento
Na bonança e no tormento do mar do conhecimento
Que em ti se constitui e que longe eu descobri.

As palavras que dormiam sonhando no dicionário
São as mesmas que te trago, agora despenteadas
Porém já bem acordadas para outro abecedário
E certas do que sonharam trazem novas caminhadas

De terras desconhecidas, universos encantados
Que os ventos lhes legaram lá no sul e lá no norte:
E são histórias de encantar as vidas desencantadas
E são sonho e são vida para combater a morte.

Trago palavras avulsas que de tão inusitadas
Tecem teias e toalhas e lenços de puro linho
Em que se inscrevem as vozes e o puro desalinho
(riso e choro e sentimento, e emoção magoada).

Em pensamento claro, em linguagem lavada,
Trago palavras em fio para teceres a meada.
2008.10.31

José Almeida da Silva

Reflexão

Hoje fui com uns poucos (Liliana, Elza, Nuno e Raquel) ao café progresso, ouvir declamação de poesia de Jorge de Sena. Fomos brindados com uma hora de atraso e uma introdução googleana à poesia do dito autor. Quando eu pensei que não podia piorar, ouço uma voz orgástica a declamar - diria melhor, a esfrangalhar - um poema. A pachorra não aguentou e pouco depois viemo-nos embora.

Falo disto aqui agora e aqui porque já não é a primeira vez que vou a este tipo de tertúlias e encontro, da parte de quem declama, uma certa pedantice de pseudo intelectual que me dá uma certa urticária. Como se se julgassem o centro do mundo, a classe pensante da sociedade.

Nestes momentos, vem-me à memória o que uma vez alguém me disse: que aqueles que escrevem sem terem qualquer tipo de formação superior na área da Literatura acabam tornando-se mais humildes, escudando-se assim da sua (suposta) ignorância. Como todas as generalizações, contém a sua margem de erro e espaço para excepções (a Ana, por exemplo). E dei por mim a agradecer baixinho, no meio dos berros da personagem, o ter-vos conhecido. Porque somos humildes, despretensiosos, sem malícia ou falsos pudores; porque temos a coragem de mostrar a nossa intimidade na poesia e a boa vontade de criticar o trabalho dos outros. no fundo, por sermos pessoas com um enorme respeito e amor à poesia, um amor simples, que não se reveste de trejeitos ou cigarros de angulo recto na mão.

Um bem haja a nós, companheiros de viagem, de descobrimento, de partilha.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

"NÃO NOS DESLARGUEMOS", DISSE -

Minhas amigas e meus amigos,

As minhas desculpas pelo silêncio de mais de uma semana, mas ando aflita a escrever uma conferência e uma comunicação para o Brasil. Parto no Sábado logo de manhã e ainda não acabei. Também por isso não consegui comentar os trabalhos: preciso de tempo, e tenho tido muito pouco nestes dias. Por isso também peço desculpa. Mas todos os dias espreito o blogue e leio os textos, e fico feliz e grata por termos criado um espaço de partilha, de amizade, de confiança - e de qualidade.

Não nos "deslarguemos", como diz a Teresa! Eu, por mim, prometo não o fazer.

Um abraço para todas e para todos. E obrigada.

ana luísa

P.S. Dia 19 de Novembro está óptimo! Não sei o que acham.

Espantos

Sinto que te encontrei
no fim de semana passado
na casa da praia dos ventos,
das memórias soltas!

O planar das mãos
que nas tuas terminava,
tornava leves os passos,
aliviava cansaços,
causava de novo,
riso, alegria, espantos...
na cor laranja das flores,
nos brancos violetas
agapantos!


p.s. com muita pena não me foi possível ouvir o Sax do Nuno, nem rever
os sensíveis companheiros das poesias emergentes, fica para a próxima!
Cheers to you all!!

Correcção do 2º TPC

Alterei o último verso, por sugestão da Ana Luísa.

O próximo artigo de aves terríveis
percorresse ar, origem, isoladamente…
Elo mais interior de penas de ar leves
resto de linhagem de aves recente

Esses ocos 0ssos-de-ar-do-rio aéreos!
O elefante de peles de invadidos
ou calor de penas de aves, excesso ar…
o novo ar a libertar desse ar primo!

(2º Trabalho para Casa – Escrita Criativa 2008)
Anabela Couto Brasinha

Não sei como dizer-te

Não sei como dizer-te que a minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e casta.
Não sei o que dizer, especialmente quando os teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e tu estremeces como um pensamento chegado. Quando
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima,
– eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.

Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
o coração é uma semente inventada
em seu ascético escuro e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a minha casa ardesse pousada na noite.
– E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes caem no meio do tempo,
– não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.

Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço –
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra vai cair da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me falta
um girassol, uma pedra, uma ave – qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,

que te procuram.

Herberto Helder

Ainda a importância das palavras

Je dois aux mots la joie et les larmes de mes cahier d'écolier, de mes carnets
d'adult.
Et aussi ma solitude.
Je dois aux mots mon inquiétude. Je m'efforce de répondre à leurs questions qui
sont mes brûlantes interrogations.

Edmond Jabès, Je bâtis ma demeure

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Obrigada

Prezados,
obrigada a todos e faço das palavras da teresa as minhas.

Agora fica uma "PREZADA" homenagem.


p.s - espero que reconheçam e gostem

filinta