quarta-feira, 4 de novembro de 2009

URGENTE! datas!

Queridos poetas e poetisas, querida ana luísa!

Eu venho pedir infinitas desculpas (acho eu) porque acho que hoje houve sessão! é que escrevi uma imensidão de datas enquanto estavamos a decidir que dia ficava na última sessão, e no meio de tantas acabei por passar a data de hoje (que no entanto ainda não sei se era definitiva ou não, porque não tenho o número de telefone de ninguém e ainda não sei se hoje houve sessão!)
De qualquer maneira, se houve, tenho mesmo muita pena de não ter ido. E a verdade é que acho que ficou agendada uma para este sábado e eu não vou poder ir (alguém que me ajude com isto das datas que eu estou profundamente baralhada!) porque tenho um fim de semana de grupo de crisma e não posso mesmo faltar!
Aproveito para dar os parabéns à nossa querida "mestre" ana luísa! Eu mandei uma mensagem mas pelos vistos metade das que eu mando não estão a ser recebidas! No caso de não ter recebido, aqui ficam os meus parabéns e o meu enorme orgulho por poder ter a oportunidade de ser conduzida por si neste pequeno grande mundo das palavras e da poesia. Muito obrigada por tudo o que me tem ensinado. Aliás, por tudo o que me tÊm ensinado.

E já que estou escrever tanto, aproveito para partilhar o meu momento de aridez desconcertante. É que ultimamente as palavras não me vêm ter comigo. É realmente muito frustrante procurá-las e sentir que me fogem, ou que não fogem porque na realidade nunca chegam a mim. Nestes dias tenho-me sentido um miúdo a reaprender a falar, com as palavras presas na língua e tanta coisa por dizer! Sinto-me uma árvore seca. E tudo o que eu queria eram maças verdes apetitosas!
Ou vermelhas! Onde está a serpente para me tentar as palavras?
Se alguém souber dela por favor digam-lhe que preciso urgentemente de caír em tentação!

Mais uma vez, imensas desculpas se faltei!
Um grande beijinho desinspirado

Maria Inês Beires

sentia o chegar do fim

sentia o chegar do fim

e eu sem medo...
já te esperava
há tantas auroras atrás

e eu sem medo...
sinto o teu olhar sangrento
de vermelho tinto
inundar o meu de nada

e eu sem medo...
anjo da morte
orla de sombra
negra como carvão
envolves-me no teu aperto

e eu sem medo...
pregam-se ao palco
os meus pés
pesado como chumbo
o meu corpo
leve com brisa morna
de final de tarde
o meu coração
alada
desprende-se de mim
a alma

e eu...
sem medo...
entrego-me

matas o homem
mas não matas nunca
o IDEAL

Clara Oliveira

e naquele dia

e naquele dia
de manto negro se veste
sol flamejante
antes vermelho
como sangue fresco
cobre-se de denso nevoeiro
pardo escondido
baço pasmado
ponta de vento
se não sente
barulho ao longe
se não ouve
hastes verdes
olham o chão
indolentes
arado fértil
em crosta dura e pó
escorre a vida
gota a gota
rega o leito ainda fresco
e das entranhas da terra
um tumultuoso lamento:
- Meu Deus, por que me abandonaste

Clara Oliveira

Desculpa. Atormenta-me os fios de prata


Magritte "O século das luzes"



Desculpa. Atormenta-me os fios de prata
O horizonte azul de um céu pálido.
No estado febril abrem-se alicerces
Crescem tábuas como árvores – a casa;
Gosto da guilhotina nas janelas
A forma metálica de uma roda
Na entrada do alpendre.
Em frente o poço e a cegonha;
De pernas altas e bico de gastronomia
Na dificuldade de sempre elevar
O grão de arroz, método do oriente.
O bico que insiste numa melodia
De um desenho animado, ritmado
De “Woody Woodpecker Show”.
Um bico de ferro, o gancho enrolado
Que recolhe a água límpida
Fruto de uma terra de pedras.

O brilho, o brilho dos fios de prata
Um filtro de bosque, a clorofila
Respira e uma bota de couro preto
Alta, de anel castanho, oscila
Um ritmo, um ritmo, um ritmo
Como se no alpendre os braços
À volta de uma crina cinza
Lusitana de olhos grandes - o campo.
O grande campo cultivado, às tiras
O corte dos fios de prata e uma onda
Que nasce do ventre mãe, sobe, sobe
Uma mão gigante de dedos brancos
Na moldura de matiz verde e azul
Na leveza de ser ou não ser espuma –

A onda passa e deixa o relvado, o poço
Um outro quadro de tiras e brilhos.
Duas as magnólias de cores diferentes
Uma no cor do poente das aldeias – rosa
E a branca de olhar tímido que guarda
A delicadeza do gesto das flores;
As pétalas, pétalas de seda que me lembram
O livro de Baricco e as lagoas de neblina
No cimo do cimo das montanhas.

Desculpa . Atormenta-me o reflexo
De um ar volátil, suave e breve.
Não quero falar de Goya e Manet
Pintar a cor da pólvora, da revolta
As guerras de peitos abertos
As camisas que foram brancas
Cobertas de manchas - a cor do sangue.
Não compreendo as guerras
De quem mata e morre na dor das ideias
Se de um e outro lado pode haver razão
E a cor da liberdade.

Quero ver cair o sol atrás da sebe
A despedida de sombra na cegonha
Um olhar coberto no alpendre
De fios de prata .
Desculpa. Sem Goya e Manet
E quero sonhos, muitos sonhos
A luz forte das estrelas.

ai cai caím

dada a mão de semear
trocaram-ta pelo pé
cilada limpa em segunda mão



a mão caída
a língua erecta aberta
o riso magro da hiena

3 curvo

Hoje não era

flutuava de mão em mão
deslizava na curva que se demora
tanto no fundo de uma colher
para lhe entender o centro
como borda fora
do sofá à aresta da janela
e à boleia pelo azul

as curvas não têm pressa
têm pertença
alienam no recorte reiterado
de uma folha enrugada
e sabem que ondas
arqueiam e as esperam
largas no mar
até de madrugada.

mas rectas
aço a prumo que
furia de Goya a hoje
tubos de instantes
em finais entalados
entre olhos e entranhas
por não saberem curvar

alvos fáceis para o aço
as rectas
dois lados ridículos
um a olhar e outro a ver-se
lados que giram no tempo
em centros vira ventos
e jamais viram os ventos

Dois. Queria três
sem falências mil
ou excessos avessos
outra possibilidade
um ponto de outra vista
o ou sem ouro

três bicos e curvatura
para repensar a humanidade

se não tivesse três bicos
- não era -

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

"Nevermore!"Caim



Georges Braque "Aria de Bach" 1913


Caim foste e odeio-te por isso
Não o mortífero mas o vazio
De uma louca lobotomia
Um olhar parado de infinito.

Odeio-te por isso quando partiste
Nas mãos grandes de montanha
Nos pés de embondeiro
No cetim cínico da gabardine.
Levavas a gaiola de arame, branca
De lado, protegida por um pano
Onde supuz a cabeça amarela
O bico vermelho e mudo
A ausência de um amigo.

Odeio-te por isso e digo-te agora
Que estavas rodeado de corvos
A sina das aves negras
A história extraordinária
De uma janela, uma noite escura
As palavras fundas:
"Nevermore!" "Nevermore!"

Odeio-te por isso
As saudades daquele rosto
Daquele corpo imenso de planície
Sempre tão calado no olhar de sonho
Batendo tão de leve à porta
Encostada no meu mundo.
O ar franzino de poeta
E tu gozavas as calças coçadas
O veludo gasto da contemplação
Nos pés dos pinheiros, na luz das dunas
Nos crepúsculos poentes, lentamente.

Caim foste quando
Sem rugas nos colarinhos
Ordenaste a confusão das roupas
As poucas fotografias, os muitos livros
E apontaste a porta de saída
Odeio-te por isso.
Saiu tonto,pardo, louro, de tom cinzento
Arrastou as hastes de um desconforto
Nos óculos redondos e disse-te:
“Cuida da ave, obrigado irmão”
E caiu único na estrada

Caim foste.
Levou o ruído dos cacos
O pulmão desfeito dos cigarros
O andar lento dos jardins
Ao encontro dos seres pequenos
Sem juízos, sem certezas, sem caminhos.
Odeio-te por isso e nesse dia
No abraço, na despedida
Despedi-te nele a ti de mim
Qual pássaro alado de rapina.
Guardei-lhe a última lágrima
A mais pura num poema de Sophia.
Odeio-te por isso e para ti
A folha seca do castanheiro
Raiada, longa
O grande ninho de cogumelos
A ilha rodeada de espinhos
Nos casulos abertos, ocos
Odeio-te por isso
De óculos escuros no enterro
Na dor do eco das palavras
Repetidas como setas:
"Nevermore!" "Nevermore!"

Hoje partiste
levaste o cântico da ave.
Tens toda a rua molhada.
Caim foste . Já não existes.

Maria-

domingo, 1 de novembro de 2009

Finalmente!

Minhas caras e meus caros, grupo novo e grupo antigo,

Finalmente, parece que já tenho alguma identidade... Recuperei o meu nome neste blogue. De repente, lembrei-me dele, nem sei muito bem como.

Queria lembrar que seria muito bom que as pessoas postassem os seus poemas. Falta muita coisa (por exemplo, há um só poema do 1º TPC). Não sei se têm tido problemas com a inscrição. Se sim, por favor digam. Podem enviar-me um mail (analuisaamaral@netcabo.pt) e eu tentarei resolver o problema.

Um bom fim de semana para todos e todas.

ana luísa

sábado, 31 de outubro de 2009

Annabell Lee






Virginia Clemm a suposta Annabel Lee (esposa de Poe casou com apenas 13 anos e desapareceu aos 22 vítima de doença). este poema foi escrito em 1849 no ano da morte do poeta e é talvez a seguir ao " The Raven " " O Corvo" o mais conhecido do autor.


ANNABEL LEE
(de Edgar Allan Poe)

Foi há muitos e muitos anos já,
Num reino de ao pé do mar.
Como sabeis todos, vivia lá
Aquela que eu soube amar;
E vivia sem outro pensamento
Que amar-me e eu a adorar.

Eu era criança e ela era criança,
Neste reino ao pé do mar;
Mas o nosso amor era mais que amor --
O meu e o dela a amar;
Um amor que os anjos do céu vieram
a ambos nós invejar.

E foi esta a razão por que, há muitos anos,
Neste reino ao pé do mar,
Um vento saiu duma nuvem, gelando
A linda que eu soube amar;
E o seu parente fidalgo veio
De longe a me a tirar,
Para a fechar num sepulcro
Neste reino ao pé do mar.

E os anjos, menos felizes no céu,
Ainda a nos invejar...
Sim, foi essa a razão (como sabem todos,
Neste reino ao pé do mar)
Que o vento saiu da nuvem de noite
Gelando e matando a que eu soube amar.

Mas o nosso amor era mais que o amor
De muitos mais velhos a amar,
De muitos de mais meditar,
E nem os anjos do céu lá em cima,
Nem demônios debaixo do mar
Poderão separar a minha alma da alma
Da linda que eu soube amar.

Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos
Da linda que eu soube amar;
E as estrelas nos ares só me lembram olhares
Da linda que eu soube amar;
E assim 'stou deitado toda a noite ao lado
Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,
No sepulcro ao pé do mar,
Ao pé do murmúrio do mar.


(tradução de Fernando Pessoa)



ANNABEL LEE
(by Edgar Allan Poe)


It was many and many a year ago,
In a kingdom by the sea,
That a maiden there lived whom you may know
By the name of Annabel Lee;
And this maiden she lived with no other thought
Than to love and be loved by me.
I was a child and she was a child,
In this kingdom by the sea;
But we loved with a love that was more than love-
I and my Annabel Lee;
With a love that the winged seraphs of heaven
Coveted her and me.

And this was the reason that, long ago,
In this kingdom by the sea,
A wind blew out of a cloud, chilling
My beautiful Annabel Lee;
So that her highborn kinsman came
And bore her away from me,
To shut her up in a sepulchre
In this kingdom by the sea.

The angels, not half so happy in heaven,
Went envying her and me-
Yes!- that was the reason (as all men know, In this kingdom by the sea)
That the wind came out of the cloud by night,
Chilling and killing my Annabel Lee.

But our love it was stronger by far than the love
Of those who were older than we-
Of many far wiser than we-
And neither the angels in heaven above,
Nor the demons down under the sea,
Can ever dissever my soul from the soul
Of the beautiful Annabel Lee.

For the moon never beams without bringing me dreams
Of the beautiful Annabel Lee;
And the stars never rise but I feel the bright eyes
Of the beautiful Annabel Lee;
And so,all the night-tide, I lie down by the side
Of my darling, my darling, my life and my bride,
In the sepulchre there by the sea,
In her tomb by the sounding sea.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Poema,
oferenda a cadência,
num andar,
e leva um pormenor!

Se fosse um intervalo (III)


Palácio de Cristal (retirado na internet do blog a "as margens do rio")


vai quente o outubro
ainda há dias mudou a hora
mais curta a tarde e desce a noite.
na oblíqua rua de viterbo
de um lado o muro do palácio
do outro "catterpillar" de lagartas
as feridas abertas de um ex-castelo.
o túnel de entrada dos carros
não é belo como os longos intervalos
que furam os alpes altos de itália.
pequenos reduzidos no tamanho os carros
corrida de esquilos numa árvore deitada;
ali nos dedos do céu os olhos entram
no ventre aceso de faróis errantes demoram
perdem a legitimidade da luz até ao foco
o grande monóculo de mil metros de claridade.

mas divago enquanto coloco o carro
nos dois traços brancos de um chão cinzento.
seis e vinte de uma tarde no palácio.
na saída tendas de plástico mole
recebem nas relvas sintéticas e bonecos
de um "subutteo" gigante em exposição;
a antiga loucura depois de fátima amália
um remédio sem papoilas o ópio do futebol.
um circo sem sentido quando ali
um hectare irónico de árvores científicas
nas etiquetas "are-are-are-milenare".
há um riso de aves raras na penumbra
um eco distante de patins no cogumelo
de marte que acentua a saudade da nave
a comprida nave antiga de muitos vidros
a grande estufa onde ensombravam as sombrinhas
as vassouras de rendas dos vestidos os botões
de calças apertadas nos sapatos reflexivos
as bengalas de girafas as cartolas de coelhos
de uma alice que não entra nesta história.

mas divago. era tarde. quarta-feira.
neste dia passei a grande ala verde
com vontade de subir às árvores
lá em cima vestir um fecho éclair de penas
e ser um mocho para toda a noite
preso aos ramos na música do vento;
umas teclas de maria joão pires
schubert chopin; adiou o concerto
doente vai ficar bem talvez fevereiro.
ridículo! sou um mocho apenas escuto
quieto e redondo lá no meio do ramo
que é fino e depois alarga encosta ao tronco.

mas divago e não sou mocho que vida parada.
corro apressado de calças pretas
casaco de veludo azul; gosto dele
a cor de uma noite alentejana.
não sei porquê estas portas tão pesadas
esta prática esforçada de halteres.
logo à entrada a mostra finlandesa
arte curiosa devo visitar observo
apenas um minuto e desço a escada:

hoje 28 de outubro quarta-feira
Ana Luísa Amaral apresenta

"se fosse um intervalo"

sento-me atento e leio
sem reticências
não divago-

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Rotações Perfeitas

Em jeito de desculpa publica por não ter podido ir ao lançamento do livro da Ana Luísa, aqui fica um dos meus poemas favoritos:

Rotações Perfeitas

Se me pedisses de repente e aqui:
“fala das luas e dos dias ”, eu
nem falaria, diria só que estar contigo
é estar-me:
oficio de tanto tempo,
e natural,
ajustado como pequeno girassol,
ao sul: uma paisagem

Nem saberia por onde começar:
Se no olhar, se na palavra,
Ou se no teu sorriso
Que me devastou s equilíbrio do igual

Não sei, meu amor,
Como entender este pequeno girassol,
Explicar-lhe o movimento certo,
A rotação completa e tão
Perfeita,
As folhas muito verdes
De tal filigrana delicada
Sobretudo, este teu hino
Em direcção a tudo

e já nem sei falá-lo,
porque lhe basta o tempo, e esse
- sem palavras

Ana Luísa Amaral in Se fosse um intervalo (pg 73)

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

eis

eis
os novos guerreiros
a proteger os vivos
da fragilidade humana

eis
os novos organismos
a viver para além
do entender humano

é alvo sobreviver
é prémio sobreviver

eis
os novos cientistas
de uma luta incurável
de uma vida anunciada

vestem a pele de Deus
em busca de um código
em busca da imortalidade

Clara Oliveira

amo-te

amo-te
o dia nasce
com ele...tu

luz de mulher
em pele de leite

sonho de mulher
sempre presente

mãe de mulher
minha semente

submissa mulher
sou rei sempre

nasce o dia
tu...com ele


desejo-te
a noite cai
com ela...tu

cristal de fêmea
em pêlo queimar

potro de fêmea
teu lombo montar

cio de fêmea
minha fome matar

orgulhosa fêmea
altivo olhar

cai a noite
tu...com ela



pudera
numa só
as duas



Clara Oliveira

Se fosse um intervalo



É já hoje, quarta-feira, pelas 18,30.
Na Biblioteca Almeida Garrett (Palácio de Cristal – Porto) será lançado o livro “Se fosse um intervalo” da Ana Luísa.
Todos os que puderem estar presentes serão bem-vindos.

CONSTELAÇÕES

Usamos todos a ilusão
de fabricar a vida:
histórias, constelações
de sons e gestos

Usamos todos a suprema glória
do amor: por generosidade
ou fantasia, ou nada, que de nada se fazem
universos

Usamos todos mil chapéus de bicos
mal recortados e de encontro
ao sol:
o nosso mais perfeito em franja e bico
e um arremedo tal e seiscentista
que ofuscando-se: o sol

Usamos todos esta condição
de pó de vento, ou de rio
sem pé: único dom de fabricar o tempo
em raiz de palmeira
ou de cipreste

Ana Luísa Amaral "Se fosse um intervalo" 2009