segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Trabalho para casa

Mil anos
três esculpidas cenas
de pedra, de marfim...
como um livro aberto!

Desenhos de caçadas,
três lâminas partidas,restos...
de últimos dias!

Mil anos
de marcação e imagem...
três baleias feitas de pedra,
de marfim!

José Ferreira

Poetisar

Inquietas almas que observam quotidianos de rotinas, permitam que deslize também neste mar de azeite... surpreso, participante de troca de sensações, apurando o gosto, as preferências, nestas canções de palavras a que chamo poesia.

Como primeira contribuição e no resultado da iniciática aula, atrevo-me a poetisar:

O Poeta

O poeta de asa estendida
indaga, observa, navega...
teias de energia e luz... infinitos de tempo.
Ilimita o sonho em finas melodias;
anjos e musas!

Um ser único
(como todos os são)
cativo dos sentidos
nas gotas leves... transparentes...
uma chuva miúda
que só nele toca...
outros não!

José Ferreira

Sessão de poesia mexicana - Café Progresso


Quinta feira - 2 de Outubro de 2008

Sessão de Poesia Mexicana - Café Progresso/Poetria




A Livraria Poetria realiza uma sessão de "Poesia mexicana" no próximo dia 2 de Outubro, pelas 21,30h. no Café Progresso, com leitura de poemas por José Carlos Tinoco, Cláudia Novais, Nuno Meireles e Susana Guimarães.

Será servido um cálice de tequila.

Emily Dickinson


"I dwell in possibility -
A fairer House than Prose"

O Corvo - Edgar Allan Poe - tradução de Fernando Pessoa

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de algúem que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais."
Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!
Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isto, e nada mais".
E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
"Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.
A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
Isso só e nada mais.
Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
"Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
"É o vento, e nada mais."
Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,
Foi, pousou, e nada mais.
E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
"Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."
Disse o corvo, "Nunca mais".
Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome "Nunca mais".
Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, "Amigo, sonhos - mortais
Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais".
Disse o corvo, "Nunca mais".
A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
"Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
Era este "Nunca mais".
Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureia dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele "Nunca mais".
Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!
Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
"Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".
"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
A esta casa de ância e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!
Disse o corvo, "Nunca mais".
"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".
"Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
Torna á noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".
E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,
Libertar-se-á... nunca mais!
Fernando Pessoa
________________________________________
* Traduzido de The Raven, de Edgard Allan Poe, ritmicamente conforme com o original.

Emily Dickinson

657


Habito na possibilidade -
Uma casa mais bela do que a prosa –
Com mais janelas –
E portas - maiores

Salas como Cedros –
Que o Olhar não alcança –
E como Tecto Imperecível
Os limites do Céu –

Visitantes – os mais belos –
Ocupação – Esta –
Abrir ao máximo as minhas Mãos finas
Para colher o paraíso -



Emily Dickinson – tradução de Nuno Júdice

domingo, 28 de setembro de 2008

Os três pastorinhos búlgaros

Nossa Senhora não se esquece da Bulgária,
Depois da escola os três pastorinhos vão lanchar
Pães com manteiga molhados no café com leite
Leite quente – faz frio – na montanha
Muito frio na montanha BRRHh


Nossa Senhora não se esquece do povo búlgaro,
Dá-lhes frio quando é preciso e sol quando é preciso,
Quando é preciso os búlgaros também têm neve,
As ovelhas sobem a montanha seguindo os passos dos
Três pastorinhos – sobem as ovelhas, sobem as pessoas,
descem as ovelhas, descem as pessoas
descem a montanha, as pessoas e as ovelhas


Nossa senhora não se esquece da Bulgária
Aparece sempre bela e provocante aos búlgaros
no seu vestido de seda vermelha,
braços macios, não feitos de luz, mas de carne humana
ajoelham-se diante dela á sombra duma oliveira
Os três pastorinhos búlgaros


Nuno Brito 2008

Três mil anos de caçadas...

É um livro aberto...
Lâminas partidas,
Pedras...
Restos...
Desenhos, marfim e ... cenas esculpidas!
Artefacto...
Imagem de baleias,
Como marcação...caçadas!
Últimos dias de ...três mil anos...

Maria Celeste Carvalho

Exercício Um

Cenas partidas esculpidas como dias
Mil desenhos de restos -
três baleias, um livro de marcação,
lâminas e pedra feitas marfim
Anos de caçadas, últimos
É artefacto aberto - imagem

As idólatras formigas do mal

O vento frio assobia e corre dentro do osso
Voando triste de um lado ao outro do esqueleto;
Sem medo,
Percorre-o até ao arrepio,
Os ossos das mãos, os finos ossos dos dedos,
As extremidades violentas das pessoas dentro dos carros pretos,
Passa um barco a apitar de uma ponta à outra do crânio


A medula, a caixa craniana ressoa
Quando batida como um tambor contra os faróis de um camião
A medula, A caixa craniana,
Os ossos das mãos, os finos ossos dos dedos
A Rússia inteira com fome,
Com todos os seus dedos e articulações

A Sagrada família esculpida em açúcar
O apocalipse em braille…
As idólatras formigas do mal comem um menino Jesus de açúcar



Nuno Brito 2008

Exorcismo ao pasteleiro do século XXI

Exorcismo ao pasteleiro do século XXI


“A felicidade consiste em querer ser-se o que se é”
Erasmo de Roterdão: O Elogio da Loucura


I.


Elas dormem de mãos dadas em Minamara
As duas gémeas
Com as suas cabecitas encostaditas,
Como duas lobas com toda a fertilidade
As duas meninas ainda sem mamas
São mais braços e pernas entrelaçadas que outra coisa
Num labirinto pouco geométrico mas muito quente
uma respiração única
A febre causa-lhes um único sonho delirante:
Por toda a cidade estão a enforcar girafas no cimo das gruas.


Por todo o lado há girafas mortas amarradas no cimo das gruas
Às vezes cavalos brancos também são enforcados
As duas gémeas continuam abraçadas
Agora com uma respiração mais rápida e ofegante


As duas meninas são já uma só coisa…
O vento atira-lhes areia para a cara.


II.

Sai droga do olho de Maria
Jesus partiu-se ao meio e tinha cocaína dentro,
Os carneiros e os bois também se partiram em bocados…
A porcelana está mais assustadora
Maria injecta o caldo na veia…


III.

Não há droga no bairro chic
Hoje vais ter que injectar vinagre chic…


IV.

Poderoso vidente trabalha amarrações fortíssimas
Precisa-se cortador/a para trabalhar no talho

Dinheiro: empresto na hora sobre o seu carro e também sobre casas
Tel: XXXXXXXXXXX

Um crucifixo fluorescente e extremamente triste cumpre a sua missão
O pescador contínua sem aparecer,
os pescadores nunca aparecem


Nuno Brito 2008

No bosque do Aleixo, as musas…

Para lá do bosque do Aleixo está
o povo, filosoficamente caracterizado
dentro dos seus apartamentos:
todos abanam as línguas,
todos têm cabelos a roçar por trás do ouvido –
Quando chove no bosque do Aleixo,
as musas vêm cá fora apanhar a roupa,
Ao sábado no bosque do Aleixo um velho planta nabos
Tem cinco metros quadrados e unhas sujas –
As seringas no chão são chupadas pelos ratos
Os preservativos esquecidos no meio do bosque
Ainda com sémen desperdiçado – Os ratos vêm roer os preservativos
Para lá do bosque do Aleixo está o povo filosoficamente caracterizado
Para lá está o cinema, a filosofia, a vida!

Nuno Brito 2008

Marcação de anos

É um livro de pedra
desenhos de baleias feitas de marfim
desenhos de caçadas feitas de lâminas
cenas esculpidas
restos de imagem
Partidas

É um livro aberto
restos de dias
dias de mil e três anos
anos de três mil dias
dias como marfim
dias como pedra
dias últimos
Partidas

É um livro de restos
últimos artefactos
caçadas feitas
desenhos de cenas
um e mil
Partidas

Teresa (Almeida Pinto)

1º Trabalho para casa

No meu caso, para além do esforço para que as palavras fizessem algum sentido, tive que “lutar contra o inconsciente”, que teimava em adulterar as palavras do texto que nos foi dado pela Ana Luísa. Caçadas transformou-se em caçador, imagem em imagens e outras trocas, para que fosse mais fácil esta conjugação de singulares com plurais, masculinos com femininos, etc. Por fim, o meu “espírito picuinhas” venceu e acabei por fazer a checklist das 26 palavrinhas mágicas que se podem usar:

Aberto
Anos
Artefacto
Baleias
Caçadas
Cenas
Como
De
Desenhos
Dias
E
É
Esculpidas
Feitas
Imagem
Lâminas
Livro
Marcação
Marfim
Mil
Partidas
Pedra
Restos
Três
Últimos
Um