sexta-feira, 27 de julho de 2012

Bem

«Aqueles de vós que correm atrás do poder
despótico (...) eu exorto a mudarem de direcção e a cedo fugir
do que é considerado “felicidade” [eudaimonisma] por homens de ânsias
insaciáveis e mentes vazias (…)»

Platão

quarta-feira, 25 de julho de 2012

luz




                                                  "Há duas maneiras de espalhar a luz: ser a vela 
                                                                            ou o espelho que a reflecte"      
                                                                                                                        Edith Warton
que a epígrafe ilumine a razão e a loucura
como frutos de uma mesma essência
e de raízes
como a árvore milenar que perdura
uma árvore que transporta as mil e uma histórias
de dias e de noites
de rotações físicas em frente da iluminura das estrelas
e da lua
e dos poentes
e das auroras divinas
num sonho infinito, na soldadura das almas
no sangue que ferve e se agita
no paraíso que se atinge e sublima
e atinge, magnífico
e é lábio único e corpo e tudo
e pode ser amor
porque o amor não se define –

josé ferreira 25 julho 2012



segunda-feira, 23 de julho de 2012

Cruzam os dedos - um poema de Egito Gonçalves






Cruzam os dedos 
o dia e a noite, inseparáveis. 
Traçam 
um círculo: a linha da vida 
que nos inscreve. Olham 
como eu sussurro ao teu ouvido 
palavras de amor, macia 
sumaúma com que encho 
a almofada onde 
repousas a cabeça. Digo: 
“Quanto mais te amo, mais 
te amo.” A tua cabeça 
comprime as palavras, sob 
o peso elas cantam. Afinal 
o amor tem um rosto perene, 
uma espessura, paredes 
de uma casa litoral, voz 
que nos caminhos do corpo 
se insinua 
descendo pela chuva, os dias 
que a vida possa ter 
sob um telhado azul, braços 
para embalar, para dormir. 
Os lábios movem-se nos lábios. 
As aves recolheram 
a semente das lágrimas. Inseparáveis, 
a noite e o dia cruzam 
os dedos. Olham. Traçam 
o círculo, desenham 
a linha de vida do amor. Vamos 
percorrê-la. Seguir-lhe o rumo, 
o subtil rumor. 
Construir o percurso 
até ao osso do tempo. 


Egito Gonçalves In A FERIDA AMÁVEL , Campo das Letras, 2000


domingo, 22 de julho de 2012

a luz do lado esquerdo




a ardência do lado esquerdo envolve  o humano
a mulher bela de trança, um homem  de cabelo cortado
e há lugares que de tanto imaginados se tornam cheios
como uma nascente que transborda numa poça, e avança
e desce a rocha, e alarga o leito, e abre as veias
para a quilha dos barcos, para os seus remos ligeiros
 para escutar os pássaros, para rodear as margens estreitas
entre escadas de pinheiros, castanheiros, salgueiros e plátanos 
reflectidos, duplicados, triplicados, em dois planos –

vejo, vejo, através da luz do lado esquerdo
e arde tanto –

josé ferreira 22 Julho 2012


sábado, 21 de julho de 2012

sexta-feira, 20 de julho de 2012

em Paris a manhã é branca




em Paris a manhã é branca na madrugada de um dia
depois abre o sol –
da janela do quarto dependuras os braços e procuras gatos nos telhados.
os telhados são cinzentos, e falas nas saudades das telhas;
as telhas laranja, de alma portuguesa, telhas que lembram aldeias –

em Paris a manhã é branca na madrugada dos sentidos
depois abre o sol –
de olhos nos teus pés descalços, pousados no soalho
reconstituo as curvas do corpo através da sombra;
anos e anos… quantos?... uma matemática longa –

os quartos de hotéis em todas as cidades nunca poderão ser uma tenda
nunca poderão engolir o coração pela boca, várias vezes 
nunca poderão ouvir os grilos nem os pirilampos
nunca poderão voar como as borboletas
nunca poderão escutar a chuva sequencial, em batimentos
nunca poderão assistir, na transparência da lua, ao juntar das gotas –

os quartos de hotéis são de muita gente, de muitos dias e algumas semanas
mas a tenda tem uma alma única, autêntica, raízes
prende-se à terra –

na madrugada branca
Paris tem a assinatura dos pintores pelos lugares da evidência
e a possibilidade de unir os dedos pelo brilho do Sena .
é preciso sair à rua, encontrar o refúgio das sombras
nas escadas de Neptuno.
é preciso lembrar a tenda.

anos e anos…quantos ? … uma matemática longa –

 josé ferreira 20 julho 2012

quinta-feira, 19 de julho de 2012

leveza e ser


                                                  Angus Basil Brown

a tua pele fora da minha pele é uma armadura suave
um contorno de plumas de pássaros imperiais
que me faz subir, acima, acima, acima –

a insustentável leveza existe.
calo-me sem o silêncio no grito interior da descoberta
onde barcos navegam em excessos cardíacos
o contágio, por todas as partes do corpo;
os braços, o rosto, o lugar dos olhos, pérolas que brilham –

como se neste preciso momento, frente a frente
não houvesse distância nem sombras
apenas ombros  -

 josé ferreira 18 Julho 2012

terça-feira, 17 de julho de 2012

fala-me dos arcos do céu



fala-me dos arcos de céu
onde infinitos pequenos astros
se rebolam sobre a pureza
do teu rosto. fala-me dos teus olhos,
da paisagem que inventam no luar de azul
onde se adivinham os dias e se pressente
o ligeiro vibrar do novo amor em semente.

escutarei, e das tuas palavras vou tirar
outras que não são para dizer, que trazem
nos lábios o mais íntimo segredo disso que é real,
disso que ignora as paredes do olhar e em tudo
desenha o tão doce horizonte que somos em nós.

mudo ficarei suspenso da tua voz sem saber
ao certo se é verdade ou mentira, se se pode
de facto criar um rosto que nos mostre por completo,
como a pele mostra a mão, a água o beijo,
sem saber se este sangue e esperança
será suficiente para te encontrar
no rebolar dos infinitos pequenos astros.

 Vasco Gato in «Um Mover de Mão», pág.25 Lisboa: Assírio & Alvim, 2000

sábado, 14 de julho de 2012

Kiss


                                  Gustav Klimt

Nunca escrevi  sobre aquele beijo que mudou o mundo
Não que a rotação fosse interrompida
Ou o globo girasse de forma inadvertida, contrariamente ou invertido
Para espanto do Sol e das constelações quietas do universo.
Refiro-me à cor preciosa e à forma de segurar o rosto
Refiro-me a  uma vida longa para além do humano
E para quem o artista criou o nome : Kiss

josé ferreira 14 julho 2012

sexta-feira, 13 de julho de 2012

queria muito falar-te da evidência



queria muito falar-te da evidência
de se viver pela luz dos dias até à imensidão da noite
porque se de um lado se encontra a finitude das horas acordadas
de um outro nascem sequências complexas,  inexplicadas
e sob velaturas, descansa o infinito, o segredo e o desconhecido –

bem sei, e é repetido todos os dias
na teoria do símbolo químico, tudo se explica. um exemplo:
o rodar dos olhos dentro das pálpebras como a rememoração de realidades
uma conversa inacabada ou a nova roupagem de um mero acaso de cidade  –

mas se assim for não o digas

deixa-me  proteger a sombra dos sonhos
como o verde alto das árvores na tarde mais quente
deixa-me proteger a sombra dos sonhos
como as vinhas estendidas em arco para que se suspendam os bagos;
esse  uso de casas antigas pelos caminhos de Camilo, pelas envolvências do Minho –

se assim for não o digas

engana-me com todos os espelhos
 fecha-me os silogismos de todas as ciências
para que desperte
para que adormeça –

queria muito falar-te da evidência:
o olhar vermelho  –

josé ferreira 13 julho 2012

Escrevia à mão a cidade - um poema de Filipa Leal


                                 Jaime Isidoro


Habitava da cidade
os lugares mais pequenos.

Limpava-lhe o pó,
pintava-lhe os cabelos,
escondia-lhe as rugas
(chegava mesmo a deitar-se
ou a deitar areia sobre as ruas
abertas).

Às vezes chorava-lhe no centro
a ausência,
ou matava-lhe os homens
que corrompiam os homens.
Por fim,
esquecia-lhe as feridas.

Escrevia à mão a cidade
e a cidade escrevia-se
sobretudo
no cinzento
no esquecimento.

Eram tão simples as palavras
da cidade,
mas complexos os amigos
que dela habitavam
os lugares mais pequenos.



Filipa Leal

Talvez os Lírios Compreendam
Cadernos do Campo Alegre, 2004  lido aqui

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Uma laranja para Alberto Caeiro - um poema de Natália Correia




Venho simplesmente dizer
que uma laranja é uma laranja
e comove saber que não é ave

se o fosse não seriam ambas
uma só coisa volátil e doce
de que a ave é o impulso de partir
e a laranja o instinto de ficar.

Não sei de nada mais eterno
do que haver sempre uma só coisa
e ela ser muitas e diferentes
e cada coisa ternamente ocupar
só o espaço que pode rodeada
pelo espaço que a pode rodear.

Sei que depois de laranja
a laranja poderá ser até
mesmo laranja se necessária
mas cada vez que o for
sê-lo-á rigorosamente
como se de laranja fosse
a exacta fome inadiável.

De ser laranja gomo a gomo
o íntimo pomo como se enternece
e não cabe em si de amor
embriagada de saber
que a sua morte nos será doce.

 
 in «O Vinho e a Lira»O Diário de Cynthia
Poesia Completa

terça-feira, 10 de julho de 2012

desenho




tenho tentado todos os desenhos, risco após risco
após o lugar do pensamento.
a proximidade é possível, reflicto , risco após risco
e risco
e completo a forma, um adereço, a conhecida cor do cabelo
a trança, a luminosidade errante pelos campos e pela lira
que lança músicas e arredonda o risco, risco após risco
e risco
um desenho
que apenas se aproxima –

josé ferreira 10 julho 2012

segunda-feira, 9 de julho de 2012

"Il n'a pas à se plaindre celui qui attend un sentiment plus ardent et plus généreux.
Il n'a pas à se plaindre celui qui attend le désir d'un peu plus de bonheur, d'un peu plus de beauté, d'un peu plus de justice."

Maurice Maeterlinck, La sagesse et la destinée.

domingo, 8 de julho de 2012

o vento de passagem nos cabelos




o vento invade os cabelos longos das mulheres
e coloca riscos finos na frente dos olhos
levanta as mãos e faz descer as pálpebras
para que subam de novo na maior abertura do rosto;
o oval luminoso e não a silhueta incompleta.
todas as sombras  se desiludem
iluminas-te –

fico por um minuto com a alma presa
na imagem precisa, na clarividência, na lisura
do teu movimento –

o vento é passageiro de um vento nómada
de um vento imenso que nos leva sempre
ao lugar do intangível nas noites viajantes
junto das areias
junto das luas, junto das águas mais profundas
até ao sonho emaranhado de um caminho
o interior da concha, o lugar lúcido –

josé ferreira 8 julho 2012