sabes lá
ontem ali em s.bento
andava eu descalça pela estação
vi uma patela e meto-lha a pata
e assim que me curvo, a olhar para o chão
uma cega mete-me a bengala no joanete
e ai meu amor, que dor!
dez pulos a pé coxinho
e lá me sentei num banquinho
e sabes lá, meu amor
a patela nem era chocolate
aquilo era uma sola de borracha
fiquei ali sentada
e o tipo gordo da cicatriz,
o da tatuagem, esquisito
mete conversa:
Englise? Francé?
Dancé?
indeu indo eu
a caminho debeseu
indeu indo eu
a caminho debeseu
e antes do: ai jesus que lá vou eu
lavanta-se, dá duas voltas
e cai morto
e vem a policia
pergunta o que foi
e que eu não posso andar descalça
e eu digo que é do joanete
e levo um raspanete
e raspo-me dali
e vou a subir a 31
vem o gajo dos relógios:
Chocolate? Chocolate?
E comprei
desculpa amor
depois do azar, não pensei...
e tinha o pé a doer
devolvo-te os 20 p´ra semana
a sério!
o gajo já não me engana
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
Pink Cigarette
À Anezinha
Quero impregnar-me de
gente, de paisagem portuguesa
Luiz Pacheco
Nesta
terra as mulheres crescem à sombra,
como
os cogumelos, o musgo ou a razão,
em
ponto de cruz a saudade vai sendo domesticada,
o
mais honesto e obediente animal puxado por uma trela dourada
feita de medo e outras coisas que ligam
o
seu viso tem a expressão de todos
e
é nestas caras quentinhas que descem ainda as lágrimas de Eros
mudando
por dentro o nome do continente, outra cara, possível Começo
sem
nome, sem coisa nenhuma, é às vezes o sal
que
cai destas caras que tempera o prato, porque todo o sal não chega
para
compensar o amargo que veio morar para a boca
cansada
de saber que a linguagem não chega
porque
eles fugiram, cada um em seu barco:
os
filhos
Nesta
terra as mulheres crescem à sombra
E
têm sombra nos olhos, que o eco veio pintar
a
lápis de cor por cima da paisagem humana
que
se aloja debaixo de tudo o que a alma espelha,
veias,
artérias, vasos, curvas fininhas que o tempo vai moldando
A
anatomia rasgando o cosmos à escala humana, soprando-o para longe
Transbordo
que a sede cria,
E
enquanto as filhas vão ao poço, sol, risos, perfeita anatomia
As
sombras crescem. Pequeninas rendinhas em baús
Terços,
santinhos, livros de areia, um dente de leite
o
fio de ouro a que está ligado,
e
são de sombra os seus gestos porque quando se movem
são
os braços de outros que ganham vida e retiram à paisagem
a
natureza para pôr nela a arte, a civilização, a linguagem e a vitória
a
mais alemã invenção,
e
o seu sorriso é uma espécie de Deus
e
quanto mais se enrola na paisagem mais deus é
Até
parece que a razão dorme dentro delas,
e
a razão dorme dentro delas – o capitão
do navio dá-lhes duas opções
Ou
embarcam no barco do amor ou embarcam no barco do amor
Mas
vão ter ainda de o Criar para o o atravessar, e partir as árvores, da madeira
fazer o barco e calafetá-lo e dar-lhe um nome, e baptizá-lo, porque tudo aquilo
em que se toca também se é
A
sede vai-lhes toda para os olhos,
Urgente
era que as sombras saíssem, como o fumo adocicado dos pulmões
Para
dentro doutros pulmões.
Estas
mulheres seriam modelos se as estátuas de sono não dormissem dentro delas
Se
não fossem só alma,
O
planeta chama-as do centro, as rugas vão rasgando a sua pele
Mas
elas riem pouco,
E
há poucos jovens
Estão
todos no meio da Europa, Lisboa, Porto
Em
Lisboa está a arte e no Porto está a arte
E
no Couço está a arte e em todo o lado está a arte
Se
não fossem só alma teriam visto mais vezes o mar
Não
são filhas da revolução nem são filhas de ninguém
os
seus filhos estão todos na taberna e são mais
velhos que elas
À
noite estas sombras limpam com um guardanapo o beiço dos velhos
Porque
desce-lhes azeite pelos queixos, e esses guardanapos podiam ser a página 100
de
uma História Contemporânea, edição de luxo, a meio da investigação os eruditos
folheavam
o guardanapo em Lisboa onde está a arte ou no Porto onde está a arte.
Exportámos
marmelada para a Austrália ou para os armazéns de retalho da capital
que
importa se toda a geografia é interior? - Enquanto dormem até de deus são mães
E
entre as suas pernas as almofadas (penas de pato, segredos ou outros novelos).
As
suas casas são feitas de queda, de verticais os muros ganham contornos,
a
mais cara renda que são os dias a vir
formas
breves, novas formas, dias que incham
parecem areia soprada pelo fogo
com
que se faz o vidro e se embacia o
espelho
um dia também ele será inventado pelas mãos
quentes de um artesão etrusco
antes
mesmo de haver as moedas para o comprar
e
que levarão os nossos filhos para longe,
Para
o Canadá, Luxemburgo, Cantões,
nos
navios, nas bagagens, nos aviões, todos com o seu preço
calafetado
por dentro e por fora, impregnado na paisagem,
claves
de sol pontilham a paisagem, por cima do trigo, a picotado:
As
sombras destas mulheres são às vezes música, entram nos búzios
Não
só por nos lembrarem que elas provêm do sol,
como
tudo o que parte, mas por nos erguerem como o caule de um girassol
a
sua voz é a sua seiva, está dentro da nossa espinha, é o nosso equilíbrio
uma
balança onde se pesam as palavras que ficaram por dizer
Futura-te*
Também
a rede quer dormir mas não é da natureza das redes dormirem
e
a rede pede que lhe cortem as pontas, que tragam uma tesoura
E
alguém corta as pontas, mas as pontas crescem com mais força, como uma
estrela-do-mar, a tesoura é também informação e acrescenta-se à rede, tudo é
soma nesta nova anatomia
Coisas que entram
Abre
as portas, vem muita gente atrás e todos querem entrar em ti,
Entrar
é ser gente, crescer é ser rede,
homens
e redes nunca dormem verdadeiramente,
Em
Manchester as fábricas enchem-se de música e no Couço
cresce
o trigo dos latifúndios e todos estes homens precisam
de
equadores ao mesmo tempo que precisam de pólos
E
todas estas mulheres precisam um pouco mais de calor
Não
só para deixarem de ser sombras
mas
para saberem que de se descarrilarem se fazem novos caminhos
Nas
carruagens vai este gado
Já
não de ferro nem de vento são os caminhos em que é feita a viagem
Sem
pontes de aço, betão ou de cimento, só ultrapassagem
No
Portugal dos pequeninos os filhos que se vão perder em todos os continentes
das
suas perdas novos filhos nascerão: Filhos da revolução. Qual?
Na
natureza nada se apaga
Na
natureza não existe amanhã
Mas
o homem põe a manta da civilização por cima da natureza
e
por baixo da manta fica o escuro e alguns animais sem expressão
às
vezes fica também o riso,
a
razão fica a sobrevoar a manta
e
ficam mulheres debaixo da manta
danças
primitivas, ecos, sonhos,
capitães
de mar nenhum ficam também
debaixo
da manta a razão de ser da literatura,
definir
poesia é dar as mãos
Só
a gente e paisagem não desce para baixo da manta da razão
E
as mãos aquecem agora mais
Nuno Brito
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
o livro - segundo Jorge Luís Borges

Martins de Barros
Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, indubitavelmente, o livro. Os outros são extensões do seu corpo. O microscópio e o telescópio são extensões da vista; o telefone é o prolongamento da voz; seguem-se o arado e a espada, extensões do seu braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação.
Em «César e Cleópatra» de Shaw, quando se fala da biblioteca de Alexandria, diz-se que ela é a memória da humanidade. O livro é isso e também algo mais: a imaginação. Pois o que é o nosso passado senão uma série de sonhos? Que diferença pode haver entre recordar sonhos e recordar o passado? Tal é a função que o livro realiza.
(...) Se lemos um livro antigo, é como se lêssemos todo o tempo que transcorreu até nós desde o dia em que ele foi escrito. Por isso convém manter o culto do livro. O livro pode estar cheio de coisas erradas, podemos não estar de acordo com as opiniões do autor, mas mesmo assim conserva alguma coisa de sagrado, algo de divino, não para ser objecto de respeito supersticioso, mas para que o abordemos com o desejo de encontrar felicidade, de encontrar sabedoria.
Jorge Luís Borges, in 'Ensaio: O Livro'
lido aqui
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
brumas e pinturas diferentes por sobre a nuvem negra

fotografia do filme gato branco, gato preto de Emir Kusturica
Entre o lado esquerdo e aquele mais absorto
oscilam raios breves
quando me olhas de novo no rumo dos meus versos,
as palavras simples de que me visto quando amanheço,
como a onda revolta e um mar de dedos brancos,
passeando por entre brumas e pinturas tão diferentes -
Não uso a superstição como nuvem negra,
que me condene em penitências e falsos juízos de demónios.
uso tudo, como uma grande lente sobre os significados da pele, do corpo,
e ouso tudo, o sopro, o sol e a chuva sobre essa nuvem negra,
a nuvem negra que escurece o azul e o vermelho dos lábios.
Falo-te na distância dos próximos,num futuro predominante
e na predominante esperança de sempre e sempre
por sobre um universo de segundos renitentes.
e falo.
falo por um mundo de palavras
por um mundo eterno
quase sempre imenso, de muitas chamas,
daquelas que queimam como mãos,
dentro da alma e um fumo de incenso –
E abro-te o meu peito como um livro novo
onde os gatos me visitam e se deitam,
naquele som de agradecimento, de afecto branco
enrolados no seu corpo,
de braços cruzados
e olhos de pestanas -
josé ferreira 10 janeiro 2010
segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
não sei o que é conhecer-me
domingo, 8 de janeiro de 2012
Fragmento XIII - «e a noite iluminava a noite»

Cindy Sherman
noite. Todo o estado que suscita no sujeito a metáfora da obscuridade (afectiva, intelectiva, existencial) em que ele se debate ou tranquiliza
1. Atravesso sucessivamente duas noites, uma boa e outra má. Sirvo-me por assim dizer, de um distinção mística: estar a oscuras (estar as escuras) pode produzir-se sem que para isso haja motivo, porque privado da luz das causas e dos fins; estar en tinieblas (estar nas trevas) acontece-me sempre que fico cego pela ligação às coisas e pela desordem que daí resulta.
Na maior parte das vezes, estou na própria obscuridade do meu desejo; não sei o que ele quer, o próprio bem é para mim um mal, tudo ressoa, vivo momento a momento: estoy en tinieblas. Mas, também por vezes, é uma outra noite: sozinho, em atitude de meditação ( é talvez um papel que me atribuo) penso calmamente no outro, tal como ele é; suspendo toda a interpretação; entro na noite do não sentido; o desejo continua a vibrar ( a obscuridade é translúcida ), mas nada quero agarrar; é a noite do não lucro, do dispêndio subtil, invisível: estoy a escuras: estou ali sentado simplesmente e calmamente no interior negro do amor.
Roland Barthes " Fragmentos de um discurso amoroso "
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
o mar espelha-se nos olhos do céu ou da noite . um poema de Paul Eluard

Man Ray
...
E a terra cobriu-se
Da tua carne clara e eu senti-me leve
Vieste a solidão fora vencida
Eu tinha um guia na terra
Sabia conduzir-me sabia-me desmedido
Avançava ganhava espaço e tempo
Caminhava para ti dirigia-me incessantemente
para a luz
A vida tinha um corpo a esperança desfraldava
O sono transbordava de sonhos e a noite
Prometia à aurora olhares confiantes
Os raios dos teus braços entreabriam o nevoeiro
A tua boca estava húmida dos primeiros orvalhos
O repouso deslumbrado substituía a fadiga
E eu adorava o amor como nos meus primeiros
tempos
Os campos estão lavrados as fábricas irradiam
E o trigo faz o seu ninho numa vaga enorme
A seara e a vindima têm inúmeras testemunhas
Nada é simples nem singular
O mar espelha-se nos olhos do céu ou da noite
A floresta dá segurança às árvores
E as paredes das casas têm uma pele comum
E as estradas cruzam-se sempre
Os homens nasceram para se entenderem
Para se compreenderem para se amarem
Têm filhos que se tornarão pais dos homens
Têm filhos sem eira nem beira
Que hão-de reinventar o fogo
Que hão-de reinventar os homens
E a natureza e a sua pátria
A de todos os homens
A de todos os tempos.
Paul Eluard, "Algumas das Palavras",Trad. António Ramos Rosa, Dom Quixote,1977
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
sobe a custo um corpo
na minha rua
a acrescentar curva à luz
na minha rua
a acrescentar curva à luz
só assim sabe que é corpo
com ele cruza-se um cesto vazio à cabeça
de peso igual ao corpo que sobe
e é este o único cruzamento
ao fundo da rua
o gesto curva um pouco mais
ao pousar do cesto
entre o batimento de pernas e asas
que passam e nunca se cruzam
o infinitésimo pousar
de morar
de morar
poema sem nome

talvez a pura razão seja um mito
e as manhãs sempre seguidas;
justas e perfeitas porque se movem nos mesmos sítios.
as manhãs não pedem para nascer
não se despedem da volúpia das noites
das suas inconstâncias da sua indeterminada fantasia –
as manhãs são a sequência imperfeita
quando a claridade não ilumina
quando a lua surge e não apaga o dia –
portanto falo-te da noite que conheço bem.
esse lugar que me inclina como um vento
ora a norte ora a este, ora ao lugar mais esquerdo que conheço
um universo sem frente, de reversos
na convicta linearidade de nunca respeitar as linhas
de não seguir caminhos rectos
de inundar as margens e de ser rebelde como os rios;
estas frases gastas de que te ris quando as repito
e em que não acreditas -
portanto falo-te de Barthes, Cohen e Magritte
que sonham ou tentam compreender as pedras no caminho
de uma forma vasta; com o simbólico dos signos
com a milionésima profundidade do beijo
com o plausível da realidade ser
como um cachimbo -
no primeiro dia do ano o relógio bateu o meio-dia
numa esquina de Santa Catarina.
um sol breve afastou as nuvens.
a maior parte das pessoas dormiam.
era uma manhã sem verbo. alguns turistas.
era uma manhã daquelas sem razão.
como te falei no princípio -
josé ferreira 4 janeiro 2012
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
Poema 1.
Qual o peso da loucura
Sua gramagem ou cor?
Será leve ou muito dura
Cor de dor ou cor de amor?
Terá lucidez em si
A raiar a escuridão?
Será o sol disfarçado
De uma escura imensidão?
Será nossa ou desse outro
Que nos morde o coração?
Nos oprime ou ignora
Sem afecto e sem razão.
Qual a forma da loucura
Será redonda ou esquinada?
Com lados bem angulosos
A afastar normalidade
Coisa de seres mais formosos
Qual o peso do normal
Sua gramagem ou cor?
Será de um peso ideal
Todo branco e sem sabor?
Terá lucidez em si
Tanta luz, sol tão pleno?
Será o caos disfarçado
De um mais morno e quente inferno?
Será nossa ou desse outro
Que nos exige razão?
Nos oprime ou ignora
Sem afecto ou coração.
Qual a forma do normal?
Será uma esfera perfeita?
Sem arestas, nem paragens
Tão fechada e inquebrável
Que se torna uma desfeita!
Dêem-me a loucura já
Que não há normalidade
Antes riso, choro e cor
Que a ténue salubridade
Da normal mármore indolor.
Liliana C.C.
Sua gramagem ou cor?
Será leve ou muito dura
Cor de dor ou cor de amor?
Terá lucidez em si
A raiar a escuridão?
Será o sol disfarçado
De uma escura imensidão?
Será nossa ou desse outro
Que nos morde o coração?
Nos oprime ou ignora
Sem afecto e sem razão.
Qual a forma da loucura
Será redonda ou esquinada?
Com lados bem angulosos
A afastar normalidade
Coisa de seres mais formosos
Qual o peso do normal
Sua gramagem ou cor?
Será de um peso ideal
Todo branco e sem sabor?
Terá lucidez em si
Tanta luz, sol tão pleno?
Será o caos disfarçado
De um mais morno e quente inferno?
Será nossa ou desse outro
Que nos exige razão?
Nos oprime ou ignora
Sem afecto ou coração.
Qual a forma do normal?
Será uma esfera perfeita?
Sem arestas, nem paragens
Tão fechada e inquebrável
Que se torna uma desfeita!
Dêem-me a loucura já
Que não há normalidade
Antes riso, choro e cor
Que a ténue salubridade
Da normal mármore indolor.
Liliana C.C.
a amizade além de contagiosa é completamente incurável - um poema de Vinicius de Moraes

Paul Gauguin
Eu talvez não tenha muitos amigos.
Mas os que eu tenho são os melhores que alguém poderia ter.
Além disso tenho sorte, porque os amigos que tenho têm muitos
amigos e os dividem comigo.
Assim o meu número de amigos sempre aumenta, já que eu sempre ganho amigos dos meus amigos.
Foi assim aqui, uns eu ganhei há tempos, outros são mais recentes.
E quem os deu não ficou sem eles, pois a amizade pode sempre ser
dividida sem nunca diminuir ou enfraquecer.
Pelo contrário, quanto mais dividida, mais ela aumenta.
E há mais vantagens na amizade: é uma das poucas coisas que não
custam nada e valem muito, embora não sejam vendáveis.
Entretanto, é preciso que se cuide um pouco das amizades. As mais recentes, por exemplo, precisam de alguns cuidados...Poucos, é verdade, mas indispensáveis.
É preciso mantê-las com um certo calor, falar com elas mais amiúde e no início, com muito jeito.
Com o tempo elas crescem, ficam fortes e até suportam alguns trancos.
Prezo muito minhas amizades e reservo sempre um canto no
meu peito para elas.
E, sempre que surge a ocasião, também não perco a oportunidade de dar um amigo a um amigo, da mesma forma que eu ganhei.
E não adiantam as despedidas, de um amigo ninguém se livra fácil.
A amizade além de contagiosa é totalmente incurável.
Vinicius de Moraes
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
a primeira lua do ano

Gerhard Richter
janeiro começa sempre parado, move-se lento,
de portas fechadas –
na primeira manhã rompeu o sol ao meio-dia,
iluminou as arestas brancas de um meteorito na Boavista –
lembro-me da escolha de um concerto faz dois anos
ou um, já não fixo, há sempre nuvens que atrapalham
e os corredores da cabeça são de uma casa cheia de pressas,
guardam muitas coisas em quartos escuros
que se tornam claros só muito mais tarde –
inicia-se a cronologia.
já soam as pancadas de dedos nas letras
como se fossem de tosco e bruto barro,
tornando-as redondas, mostrando-lhe os braços
e a cor azul dos olhos, de que se alimentam –
escrevo-te,
o primeiro,
o primeiro poema do ano, na primeira luz da primeira lua,
nos ponteiros tardios da abundância com que te penso,
ao batimento preciso do metrónomo cardíaco;
ritmo alto, pulsação ao segundo,
muitos, muitos, que nunca são os últimos
e se renovam de formas muito brancas, em espumas
escoando lentamente com o ruído das ondas –
bem sei que os dias são carregados de nevoeiros
e os relâmpagos são prometidos pelos deuses dos metais brilhantes,
mas não sei a que propósito lembro-me da rosa de hiroshima
e daqueles cálculos que erram por milímetros, ou metros
e cientificamente lançam-nos no precipício –
não me tomes por lunático nem por bicho do mato,
os dias são sempre vestidos, é difícil penetrar essências,
ninguém sabe a verdade –
sem o dizer exactamente, alguém me disse:
não tinha que ser assim, fiz sempre de modo diferente
não foi a máxima derrota nem o estandarte da vitória
luto com as circunstâncias e acredito nas passadas da alma,
conforme os dias -
no primeiro poema que te escrevo não consigo dizer tudo
e é sempre muito pouco daquilo que penso, já o disse.
é como se na inconsciência que me persegue e habita
guardasse as metáforas como um sopro de vento,
para ser um sopro de surpresa,
desde o primeiro dia
e durante o ano inteiro
quando apareça -
josé ferreira 1 Janeiro 2012
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
Imaterial Girl
A natureza fez os dançarinos no seu
círculo como fez o milho no seu círculo
Antonin
Artaud
I.
Magra
consolação a de haver linguagem
se
em tantos fundos ela não toca,
Há
ainda a pele, por baixo a velocidade
o
coração a bombear a música, a
ultrapassagem -
É
ela a nossa única matéria
Repara
como tudo o que é incompleto te chama
e
se te juntares a isso tudo, isso tudo não deixa de estar incompleto,
descansa
agora o olhar neste novelo, só te posso
dar o que não tenho
e
é tanto o que não tenho,
Aquece
a voz, deixa que tudo o que é bom se enrole em ti
A
bretã tem um trevo no bolso,
Não
aparece no desenho o que se tem nos bolsos
Quatro
folhas como a Declaração Universal dos Direitos do Homem,
Alguns deles são respeitados acima do Equador
onde
Ronald Macdonald nos dá a comer o seu pão negro
também
ele precisa tanto do chão como uma semente
Um
pouco mais acima alguém fala da dignidade e diz: Não sei de que ângulo
os
vi partir, levavam antenas de prata nas mãos, os olhos muito abertos
Os
corpos pediam novas formas de beber:
A
primeira loba dorme, o leite vai-se formando nos seus seios…
II.
Sobre
a morte não sei mais do que uma borboleta
Também
ela cai ao fim de sete dias
ou
é apanhada num esguicho de urina de alguém que vai para Fátima
pára na berma da estrada nacional – faz
pontaria o assassino da natureza
A
filha mais nova ri-se, o sol lambe-lhe a cara, molda-lhe o sorriso
a
perfeição é perto disto, voltam ao carro:
levam
na mala uma lancheira, na lancheira vai a merenda
nos
assentos vai a família unida e quentinha e no meio delas a união
E
dentro delas a crença e dentro delas também a felicidade e todos os mistérios
mais
uma hora e o santuário e o suor e as velas reproduzindo a anatomia humana,
pernas e braços-velas a derreterem - à noite a Casa dos Segredos
O tempo que uma borboleta demora a cair
parece-se com a tua pele
Também
a queda tem cor, é um acordar,
Não
ter chegado ainda é a razão de ser dos caminhos
A
pele não é um limite, apenas um começo,
A
nuvem humaniza
O
céu-da-boca desloca-se para zonas mais austrais
A
bretã caminha porque a pintora o quis, desenha-lhe
um país, as suas gentes, os seus campos de
trigo, as fábricas,
as
igrejas, os sinos, a giz o fumo que sobe e se soma ao ar
Tudo
é soma na natureza humana.
III.
Só
as obsessões flutuam neste bar onde se bebem lágrimas de Orfeu
com
muito limão, é a Espera o barman que enche o copo
Mas
ele não tem fundo, lágrimas de Orfeu amargas
A
saudade sabe a Gin, vejo por esta janela a Bretã
Há um nervo nela que treme: nas fontes onde corre a
vida inteira
um fio de azeite desce pela montanha, contornando
as patas dos ouriços e dos javalis,
Antes de haver bicicletas e os caminhos que elas
percorrem
Já havia ladrões de bicicletas que roubavam à
linguagem
Novos caminhos
só se pode dar o que não se tem
e é muito o que não temos, passa a ser também nosso
quando damos
No bico de um corvo as cinzas de um ditador morto
serão uma árvore, será depois papel,
Fechar um ciclo faz também parte do ciclo
Sobre a perenidade não sei mais do que uma borboleta
também ela asfixiada num esguicho de urina de alguém
que
estaciona o carro na estrada nacional, vai para
Fátima, fica aflito
leva na mala uma lancheira, à noite dá a casa dos
segredos,
resta-me saber que também aqueço, é talvez esse o
milagre
Vêm-se de todos os ângulos os fotões ágeis
atravessar o corpo do mensageiro
é ele a mensagem toda:
preciso mais de chão do que uma semente,
debaixo da pele, líquido quente de um astro,
de todas as escalas – a
humana, a mais perigosa, a Maior
Há ainda a inclinação
natural dos girassóis a acompanhar o astro que foge,
Numa
auto-estrada para sul aproximamo-nos cada vez mais dos pólos
a
sombra de um ditador enrola a paisagem em mortalha de goma antiga
Cair
tem todas as cores, tudo é soma e Link perfeito
Também
o cimento é Deus.
Nuno Brito
um poema sobre um quadro de hammershoi

Vilhelm Hammershoi
aproximam-se na memória os teus dedos de sombra
quando suspensa na ausência lanças palavras sem nome –
pergunto, perante uma tão larga desistência
quem delineou caminhos? quem construiu horizontes?
ambos, ambos, por detrás das portas –
quem fechou as portas? quem silenciou as vozes ?
ambos, ambos, nos medos do vento norte –
quem ofereceu rosas? quem ofereceu os corpos?
ambos, ambos, num leito inevitável, sem margens –
quem contrariou o rio? quem suprimiu as águas?
ambos, ambos, olhando rodelas de limão numa última varanda,
justificando as circunstâncias da forma mais fácil,
como todos os outros, numa rotina de enganos,
numa preguiça lassa, indiferente, conforme -
e agora sem a mobília dos versos
sem o fogo dos alicerces
a casa é um caco de tábuas
um espaço em branco, sem chama –
nem cinzas soltas nem braços sem roupas.
um vestido negro veste o teu corpo.
preparas a partida sem a pressa do regresso.
as malas esperam no alpendre.
no vazio de todos os lugares varres
os últimos traços da memória.
não há pó, apenas um cheiro a cera, penetrante, intensa –
era uma casa muito antiga de tectos altos
agora abandonada.
se acreditasse em Jüng, diria que tinha uma alma
muito forte, de antepassados.
e diria que depois de fechares a porta
continuará a escrever a nossa história,
para que nunca acabe -
josé ferreira 30 dezembro 2011
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