sexta-feira, 11 de março de 2011

Leva a luz todas as cores
e o sono todos os dias.

Traz o sono
a qualquer lugar.
Onde não sei como
se adivinha.

Exilada

Hoje, noutros agasalhos
não traz quase nada, o frio.
à espera do despontar
da flor de urge, a borboleta.

aqui longe a imaginar
pode o vento que junta
separar as nuvens

ninguém nota, inversão
e receio, até quando deixa
escorrer de mel, se e se
não chega mais flor.

vê, o escorrer das gotas
no vidro, só ainda não choveu.
nas ruínas da ponte
já não importa se é raro!

[a geada]

Deixamos os segredos atados aos
ramos das árvores
quando a geada desce
sobre as vinhas
e os telhados das casas
para que possa recrudescer
por um instante
o imenso poder da rasura
e do silêncio
nas páginas impressas
de todos os livros.

José Carlos Barros

A carta de Amélie


josé ferreira

a irrealidade quotidiana adormeceu os sentidos.
nas pontas dos dedos os restos da notícia.
partiste.
escureceu o dia na caligrafia azul das palavras.
a assinatura única. a última carta.
silêncio.
o sono profundo do sonho.

a irrealidade quotidiana adormeceu os sentidos.
um campo de papoilas vermelhas
não é costume na cidade.
não há glícinias.
as magnólias exibem a inexistência de folhas.
o jardim permanece inerte no sossego dos gatos.
a carta. a carta um fogo aceso de palavras.
mas não existes. não és realidade.

a irrealidade quotidiana adormeceu os sentidos.
os olhos são quadrados. um quadro de Picasso.
as cores oscilam num caleidoscópio azul lilás.
imagens tremidas nas pontas agudas dos ângulos.
partiste.
relâmpagos de tontura.
seis meses de distância Amélie.
o perfume das letras e o quadro de Monet
são um refúgio frágil do desejo.

conto os dias -

José Ferreira 10 Março 2011

dor

dói-me o sono.
dói-me o estar acordada.

custam-me as palavras
transparentes
em desalinhos de nada.

custa-me a página vazia
densa e opaca
na vigília da madrugada.

raquel patriarca | dois.fevereiro.doismileonze

quinta-feira, 10 de março de 2011

Devagar

sono sonho d'aguarela parda
a boca fria tropical desmaia
amarela

farsa valsa
a pé dormente
ali

enrola a língua
o pulso fraco
numa volta em nó
o verme
valsa
pó

quarta-feira, 9 de março de 2011

Soninho

Teve uma vez o sono um soninho tão terrivelmente feio
que nenhuma ama o amava tanto quanto podia
nem o pai tanto quanto queria
e veio o feio sem mãe
e não o amava ninguém

Fez-se o soninho sono ruim
muito desacordado com tudo
fecha os olhos à boa gente
e deixa tudo mudo

Poema de embalar

Para adormecer o sono como
chocolates regina morango after eight
bebo finos
sonhos docinhos
meninas meninos
travesseiros tortas de azeitão
como nuvens
sombras de sono
sombrinhas de chocolate regina
à noite
de novo
garfadas de algodão
borregos
barrigas
umbigos
bagos
torradinhos de mel
torradinhas de malmequer
e margaridas saladas
delícias do mar morto

a partir do céu é possível




A partir do céu é possível a visão da muralha.
Dizem.
Mas de todo o lado da superfície o céu é visível.
A muralha é a intersecção atípica do plano
Não é analogia porque divide na forma ingénua
De ser maior mas não sublime
De ser matéria e não fluidez sensível de espírito
De não sentir a pele, a cor dos olhos, a auréola
A singularidade de uma janela olhando a lua.

Quando falamos de céu é metonímia
Sabemos onde começa
Sabemos que não tem fim -


José Ferreira 9 Março 2011

terça-feira, 8 de março de 2011

Fragmentos II - A-REALIDADE


David Hockney


A-REALIDADE. Sentimento de ausência, fuga da realidade experimentada pelo sujeito apaixonado face ao mundo

I. Espero um telefonema e essa espera angustia-me mais do que é habitual. Tento fazer qualquer coisa mas não consigo. Passeio no meu quarto: todos os objectos - cuja familiaridade normalmente me reconforta - , os telhados cinzentos, os ruídos da cidade, tudo me parece inerte, separado, siderado como um astro deserto, como uma Natureza onde o homem nunca tivesse existido.
II. Folheio o álbum de um pintor que apreço; não posso fazê-lo senão com desprendimento. Aprovo essa pintura mas as imagens estão geladas e isso aborrece-me.
III. Num restaurante a abarrotar, na companhia de amigos, sofro (palavra incompreensível para quem não está apaixonado). O sofrimento vem-me das pessoas, do barulho, da decoração (kitsch). Um manto irreal, vindo dos lustres, dos tectos de vidro, atinge-me.
IV. Estou sozinho num café. É domingo, à hora de almoço. Do outro lado do vidro, num anúncio mural, Coluche faz caretas e faz de imbecil. Tenho frio.
( o mundo está cheio sem mim, como em La nausée (Sartre); aprende a viver por detrás de um vidro; o mundo está num aquário; vejo-o perto e, no entanto, afastado, feito de uma outra substância; caio continuamente na precisão, fora de mim próprio, sem vertigem, sem nevoeiro, como se estivesse drogado)
…………..


Roland Barthes " Fragmentos deum discurso amoroso" Ed. 70 1981

Um poema para o dia da Mulher


Pablo Picasso


Mãe, agora que guardaste na arca
as blusas pretas e os teus olhos
voltaram a ser azuis; que os meus
irmãos dormem no seu quarto um
sono de poderem ser felizes, que

já conseguimos dizer uma à outra
o nome dele no meio de um sorriso
porque a morte, afinal, é uma coisa
tão longe – deixa-me perguntar-te

porque não há retratos do meu pai
comigo ao colo, como os dos meus
irmãos que ele trazia sempre junto
ao peito e tu depois dividiste pela
casa para ele poder saber que ainda

te lembravas; ou então debruçado
no meu berço – que tu escondeste
no sótão ainda eu era pequena e te
sentavas a embalar vazio quando ele
não entendia porque estavas tão
triste. Mãe, eram tão azuis os olhos

do meu pai no dia em que levou os
meus irmãos à escola e tinham tanto
medo do que pudesse acontecer-lhes;
são tão azuis também os olhos deles
debaixo do seu sono, e os meus tão

negros de dúvidas – porque foste
sempre tu que me levaste sozinha
para as coisas difíceis da minha vida,
que o meu pai nem nunca quis saber
que coisas eram. Mãe, estão hoje tão

azuis os teus olhos com essas roupas
claras, e eu ainda tenho o nome do
meu pai entre as minhas lágrimas, mas
agora, que os meus irmãos descansam

no seu quarto, que já todos podemos
dizer o nome dele sem nos cortar os
lábios, diz-me a verdade: esse homem
que chorámos era mesmo meu pai?

Maria do Rosário Pedreira "Nenhum nome depois" Págs. 42-43
(retirei de blog de Arlindo Correia)

segunda-feira, 7 de março de 2011

Desculpo-me dos outros com o sono da minha filha



Desculpo-me dos outros com o sono da minha filha.
E deito-me a seu lado,
a cabeça em partilha de almofada.

Os sons dos outros lá fora em sinfonia
são violinos agudos bem tocados.
Eu é que me desfaço dos sons deles
e me trabalho noutros sons.

Bartók em relação ao resto.

A minha filha adormecida.
Subitamente sonho-a não em desencontro como eu
das coisas e dos sons, orgulhoso
e dorido Bartók.

Mas nunca como eles
bem tocada
por violinos certos.

Ana Luísa Amaral

as lentas nuvens fazem sono


David Hockney

As lentas nuvens fazem sono,
O céu azul faz bom dormir.
Bóio, num íntimo abandono,
À tona de me não sentir.

E é suave, como um correr de água,
O sentir que não sou alguém.
Não sou capaz de gozo ou mágoa.
Minha alma é aquilo que não tem.

Que bom, à margem do ribeiro
Saber que é ele que vai indo…
E eu? Vou indo dianteiro
No som inútil e infindo.

Fernando Pessoa 25.12.1931

Fragmentos I


Guy Bourdin


Esta noite regressei só ao hotel; o outro decidiu regressar mais tarde, já noite dentro.Aí estão as angústias, como o veneno preparado (o ciúme, o abandono, a inquietação); apenas aguardam o tempo suficiente para se declararem. Vou buscar um livro e um soporífero, «calmamente». O silêncio deste grande hotel é sonoro, indiferente, idiota (ronrom distante das banheiras que se esvaziam); os móveis, os candeeiros, são estúpidos; nada de amigável onde nos possamos aquecer («Tenho frio, regressemos a Paris»).

Roland Barthes "Fragmentos de um discurso amoroso" Ed. 70 1981

Poetria