quinta-feira, 22 de abril de 2010

Suspenso do teu nome





Suspenso do teu nome
Que indelével me retine
Na lembrança sinto
O veludo das tuas mãos
Serenando-me a insónia
Do medo que em criança

Chamava por ti.
Vinhas e então vinha o sono
Para exorcizar o medo
E tranquilizar a noite.

O sonho fazia o resto,
Sorria-me como tu fazias
Com o veludo das tuas mãos
E dos teus lábios pousando
Um beijo na minha testa.

É música o teu nome
Ecoando em mim a harmonia
Desde menino, agora vinda
Da eternidade que te dou.

O medo hoje é a tua ausência
Anoitecendo-me o coração.

(2010.04.21)
José Almeida da Silva

have a nice day




nice, nice day
este é o lema de um desejo.

dia azul de primavera
não cai o sol como casaco de ovelha
não há suor cansado na protecção da sombra.
suspensos sobre tábuas tortas
os aromas de jasmim, muitos e pequenos.

está reunido em cima de uma nuvem o concílio?
concílio de obscura origem nas más profecias?
nos escuros medos dos labirintos? Não, não acredito.

gosto dos teus cabelos e de um sorriso dentro deles –

um lenhador nas florestas de Iguaçu
lança um grito aos pássaros no último golpe do machado
inclina e parte a madeira no ruído farto
mas não cai a árvore, outras esticaram os braços.

ainda a páscoa, ainda as amêndoas de açúcar e licor
um travo gradual de um pouco de álcool –

ainda cedo nas pampas argentinas.
voam os espíritos claros que vivem livres
e são de asas os cavalos, pégasus de crinas
de cascos batidos no lado cardíaco.

não é tarde para a manta de retalhos
a visita das formigas, da joaninha.
a possibilidade de adágios de um carnaval
sem estátuas duras de camille . sobre-

sobre um guardanapo de tecido, biscoitos
tranças doces e uma termos de plástico
chá negro inglês que sempre desperta
um sopro de lábios, um ligeiro fumo
em refluxo, recolhendo de novo o bordo
e o fumo. os dedos . os dédalos de dedos
como crivos frescos de folhas, de folhas –

no brasil do rio as praias longas
no recife corais escondidos
na baía uma dança de saia de palha
um ventre molhado de oriente
solto de samba. as vozes. os ritmos.
uma chuva de gotas. gotas de pés descalços
um círculo sem poeira e um rosto
um rosto que se desenha .

não são verdes mas ruivas as folhas
raios atravessando uma caruma de versos
alinhados, paralelos, incontados, infinitos
e uma, uma caruma, aguda sobre o tornozelo
um som soprano no lóbulo, ao vento -

voou um colibri batendo asas numa acácia.
não voou mas ia jurar. a brisa. os olhos.
a brisa sobre os olhos. a velocidade.
o movimento acelerado. o riso . os cabelos -

nos mares da china anda uma jangada
e por maiores, muitos e medonhos – os medos
se voam os versos é porque há ilhas
e luas e planetas e lagos, lagos de estrelas-


have, have
a nice, a nice day
este, este é o lema de um desejo -

e um sorriso dentro dele -

quarta-feira, 21 de abril de 2010

tempos aos toques

falei com ela

disse-me que os rios tinham pressa
e havia brisas quentes que falavam

cristo não tinha nascido
e a expectativa era grande
e uma amiga muito calma
tinha sido queimada pela alma

perguntou-me pela palavra

contei-lhe de traumas
padres
inteligências emocionais
e interacções fundamentais à distância
para acalmar

a brisa ainda fala
com cuidado

apontou para trás de mim
e sorriu
sem ruído

Breve História do Fim





Passei a tarde a conversar com o meu epílogo.
Ou melhor: com um assessor do meu epílogo.
Trazia uma mala e da mala tirou más notícias
que espalhou em cima da mesa, depois de ter
pedido um café e uma água com gás natural.
Depois dos prolegómenos para uma visita
tão inesperada quanto necessária e invasiva
o assessor do meu epílogo leu uma enorme carta
onde se discutiam os meus remotos direitos à vida
entre uma e outra piada de mau gosto
e algumas considerações um pouco antiquadas
sobre a velocidade do fado na sociedade actual.

Comunicar-me o abreviamento da minha vida em dez anos –
apenas por ter fumado e bebido muito na noite anterior –
tinha sido o único motivo pelo qual teria feito aquela viagem.
Você está quase sem pátria, homem – disse-me ele
enquanto afagava um gato imaginário no seu colo protocolar.

Perdido por dez, perdido por mil.
O sol metálico da tarde encurralava-nos
aos dois numa sombra exígua e o meu homólogo
descontraiu um pouco e foi-se deixando ficar
como um empregado mal remunerado pela sua condição
e depois de ter a consciência limpa
e o estômago cheio de poemas, cervejas
e cigarros começou a falar das hierarquias temporais.
O calor era tão grande que atravessava o tempo
sem que o assessor do meu epílogo desse por isso.

Não sei quando regressou ao seu planeta fatal.
Mas o homem já tinha uma certa idade.
Estava prestes a pedir a reforma, segundo me contou,
e naquela tarde, depois de tantas cervejas, poemas e cigarros
é natural que o meu epílogo lhe tenha dado umas férias pagas
na demissão.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Demo Tape

Atravesso a nado porque o barqueiro é careiro
e lamenta o pescador que foi
de enguias de pé de porco
e sardinhas nas linhas a tecer forca
e espirra de frio e feio

E a meio de braçadas
vi o demo entrar na água
em salto sapato alto
peruca de laca teso pêlo
a cantarolar
Arrrluarrrr árvuiiiiiiyáaââ -vúáhêêê

Que horror!
Já devia ter juízo

e nisto passa zangado o barqueiro
e dá estalada de remo
e acordo na outra margem, salva pelo Demo!

Arrrluarrrr árvuiiiiiiyáaââ -vúáhêêê

E acompanhei à capela - vúáhêêê

e o barqueiro de guitarra
a dedilhar de garra desgarra:

Se não te levo eu
o diabo que te carregue
Tens medo do breu?
Foi o barqueiro que te fodeu

(Ana Janeiro)

sombra de nenúfares


Claude Monet




molhava o rosto na chuva da sua rua
conhecia pouco as trovoadas
o granizo da contrariedade- só
por dentro de personagens de capa -


aos poucos soube a razão das marés
ora descendo ora crescidas
e dos passos desenhados
grãos de areia cobertos de algas -

percebeu a imensidão do sal nas águas
o porquê da aurora e do crepúsculo
do acender de chamas luz e fumo –

era minúsculo um ser pequeno.

aprendeu o trabalho minucioso das agulhas
como rendas de espuma breves borbulhas
habitando a casa dos búzios –

quis ser invisível como as brisas.

pôs as luvas de boxe por dentro
percorreu o ringue de canto a canto
como os Lusíadas os descobrimentos
um eco da fala dos deuses na voz de Calíope:
conhece de ti ou serás perdido –

teve medo andou escondido.


acordava de olhos negros e vestia-se de branco
procurava a pele no pelo dos gatos a marca das pulgas
e regava nos jardins a sede calma das plantas -


viu um novo princípio
um grande lago
e a sombra límpida dos nenúfares -

segunda-feira, 19 de abril de 2010

um poema épico para um herói



era uma vez
um menino chamado afonso
que foi o mais bravo guerreiro
de todos os contos e histórias de encantar,
um herói tão especial
que lhe escreveram poemas épicos
daqueles que se cantam nas noites de luar;
inspirou as verdadeiras lendas
e ergueram-lhe estátuas de bronze
onde as donzelas e princesas
vinham deixar flores e outras prendas.


o seu nome ganhou um significado novo:
afonso passou a querer dizer
‘aquele que está pronto para combater’
e todos, fidalgos cavaleiros ou homens do povo,
que o viram ou conheceram a sua história
testemunharam a sua coragem
e guardaram-na, como a um tesouro,
nos cantinhos luminosos da alma
e nos corredores empoeirados da memória.


ainda hoje, acreditem em mim,
afonso é um nome sonante
de homem sábio, forte e importante
(tivemos muitos reis a quem chamaram assim).
tudo porque um menino com olhos de mel
combateu dragões, gigantes e moinhos
e até inimigos que nunca viu,
armado apenas com esperanças e carinhos
e montado no cavalo colorido de um carrossel.

– – – –

era uma vez
um menino chamado afonso
que tinha olhos profundos e doces,
com a vida para viver
e gargalhadas para dobrar.
queria ir à escola
e jogar à bola
e brincar.


era uma vez um menino
que em vez de ser só um menino
escolheu, muito cedo,
ser um exemplo a seguir:
porque ser um herói,
é ter medo
e sorrir.




dedicado ao afonso, no dia mundial da poesia. com carinho e um respeito infinito
raquel patriarca
vinteeum.março.doismiledez
________________________________________________________


o afonso é um menino de seis anos.
está a lutar pela vida contra e uma leucemia rara e muito agressiva.
precisa da nossa ajuda.
eu já estou registada como dadora de medula óssea.
vem juntar-te a este 'exército'.
o alistamento faz-se num dos centros de recruta e basta prestar voto de fidelidade e fazer um juramento de sangue, o que implica assinar um papel e fazer uma - muito pequena - recolha de sangue para análise.
e depois é possível que salvemos a vida a uma criança...


para mais lendas e poemas sobre o afonso, clicar aqui.

poesia, pataniscas e 'miguinhas'

as nossas sessões clandestinas
campo alegre - porto
raquel patriarca

domingo, 18 de abril de 2010

a m a r e l o

amarelo
o salto do som dela
a pirueta aberta
que nos chega

atirado ao pôr-do-sol
em pincel longo
queima-se de vermelho
e regressa elástico
em papagaio

esticado ao azul
para lhe estudar o voo
enrola-se nela e rola
em gargalhada

brincar de luz
em palavra
o elo entre ele e ela
no amarelo

a morte é amarela

Metus Causa




Está exento de responsabilidad criminal
el que obre impulsado por miedo insuperable.

(Código Penal Español, Art 20.6, vigente desde 24 de mayo de 1996)

I

Enquanto escrevo não pára de soar um alarme. A sua primavera propedêutica e unânime enche-me de pânico e o pânico provoca-me alergia aos limites humanos. A noite, na acidez do barulho que cumpre agora o seu vigésimo mandato, divorcia-se lentamente do continente da escuridão. As luzes participam da festa que o alarme promoveu um pouco por toda a ausência da minha coragem.
Escrevo em legítima defesa, para que o alarme se afogue depressa e a noite regresse à sua ocupação peninsular. A noite é uma península. Não obstante, enquanto se ouve um alarme soar a noite é uma ilha ilegítima dentro do sua republica das bananas, o tempo sofre febres altíssimas, e do delírio do tempo nascem palavras e talismãs.

II

Escrevo porque alguém me ataca primeiro
com a mão incognoscível que eu tanto suspeito
haver para além das duas que temos ao final do cansaço
para suportar a novidade do que nos queima sem parar.

III

O alarme actua nos tímpanos de forma pouco inovadora, previsível até, mas não é essa a sua capital. O alarme interroga-nos a pele com beliscões que o tacto jura não compreender, os olhos são destruídos pelo seu desejo inimputável de hipersónica vingança, os cabelos caem todos com a elegância árida de um mau acontecimento global, e um surto de inocência reactiva vem recolocar o nosso ser outra vez no seu lugar, agora marcado com uma cruz a vermelho na quadrícula da vida ingrata por vocação, depois da desfocagem que o alarme proporcionou no tempo para compensar uma noite sem vantagens e um texto genologicamente refractário.

IV

A modéstia impede-me de pensar na androginia do medo quando tudo está demasiadamente iluminado. Só as crianças, que vivem na idade média do medo, estão apagadas pela exaustão. O medo convoca uma inocência à força naquele que o modela com os seus sentidos a um tempo excedentes e degolados. Entretanto, rasgam-se lagos de luz no sexo da combustão. Queimaduras ou lesões de último grau respondem melhor ao disparate, onde o grito como um ícone negro governa do alto do seu idioma alarmado e uma angústia surda e cega enriquece subitamente, graças à generosidade do princípio de realidade, às custas do coro das catecolaminas em perfusão.

V

O alarme parou de soar.

Ferrugem


Gerhard Richter


longe de mim rasgam-se os séculos,
as madrugadas desertas
na permanente alucinação dos objectos.

e há um fluxo de gestos
nos corredores ilusórios
de todas as metamorfoses.

a língua das fundas fotografias do mundo.

como se tudo se tratasse de sílabas de ferrugem
porque a música inesgotável de todos os clamores
desprende-se da tinta nocturna dos livros.

há uma luz selvagem que me percorre o nome
e que enlouquece lentamente
no interior húmido da memória.

o espaço da voz
expande-se até à idade irrespirável dos objectos.

sento-me a observar a praia
e a forma como a água tem medo de se aproximar demasiado
e pousar nas perguntas.

as pálpebras escorrem-me até aos nervos.

há um frio insuportável na passagem escorregadia das horas
no gesso de cada nome,
e um sítio febril onde a inteligência consegue deteriorar
todos os vestígios indecifráveis da vida.
cada nome, no interior imóvel do seu ventre,
no sangue fervido das noites,
transporta uma luz pesada,
impronunciável.

Sara F. Costa ( Publicada na Revista de Poesia "Cráse" Dir. Nuno Brito )

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Lamentação




A loucura envilece
as cerejas
abre a porta do desvelo
com a chave dicotómica
do cansaço
entope as artérias
que irrigam os alvéolos
da contemplação.

A tarde procura nos vértices
dos últimos lugares
um critério suficientemente desonesto
para desaparecer sem deixar rasto.

Um animal promíscuo
é condecorado
fora dos catálogos
do realce.
A sua memória é agora
uma escola abandonada
de diástoles.

Restam as idades decepadas
da decepção. Um ou outro
motivo para desaprender
a perdurar.

A morte não se cansa
de me dar razão
e alguns vocábulos

água maioritariamente desigual.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

o caso benjamim




história extraordinária de um caso estranho.
durante muito tempo o fumo dos comboios
antecipava a chegada, ao contrário.
benjamim nasceu curioso e quis ser criança
tornou-se o descobridor umbílico.
lançou raízes dentro navios.os pés molhados
e uma genética singular a descer escadas.

foi um velho no mar falando sózinho.
era incapaz de matar Moby Dick - a baleia branca
e não gostava de botões que são como chaves.
preferia janelas abertas e árvores despidas
de Inverno ; os ramos como vidros quebrados
transparecendo.

acreditava em nostradamus, sabia
ser o caso extraordinário que rodava no sentido direito
quanto mais apreendia mais sucinta e pequena se tornava
a palma a perna a boca o pescoço os lábios o rosto.

essencial e puro morreu sem mágoa
ameno, muito pequeno
nos braços da bailarina -

“dorme, dorme, meu menino...”

quarta-feira, 14 de abril de 2010

A desilusão foi a minha Beatriz





Restos de expectativa acesa na estatística
moderna tornaram-me num desiludido.
Afinal a minha face ficou perfeitamente disforme
depois do acidente que tive com a poesia.
Na rua toda a gente me conhece
pela minha identidade secreta
mas todos se dirigem a mim com arrepios.
As pessoas fogem da sua desilusão a sete pés
e não têm mãos a medir os quilómetros percorridos
descalços sobre a sua sombra a ferver
na velocidade tácita do seu curto papel cumprido.

Mas quando se trata da desilusão alheia
e da sua feroz capacidade para projectar
uma desnecessária posteridade
de imagens desiludidas
quando o outro se torna numa máquina
de desilusão apenas por aparentar estar
ou ser desiludido
então ainda mais fogem ou fingem fugir
patrocinadas talvez por um qualquer compromisso
urgente, cólica ou mera deselegância formal
já muito próxima contudo das bases do canibalismo.

Quando me encontram, as pessoas são normalmente
muito simpáticas e fingem aceitar
a minha habitação desiludida
em troca de uma noite
a ouvi-las falar dos efeitos
secundários da dissimulação.

terça-feira, 13 de abril de 2010

No Princípio Era


Paul Klee


Não dormia sem o escuro absoluto.
Doíam-lhe os olhos de ter visto cidades,
de ter esquecido gente, do frio
do vidro nas palavras. Demorava tanto
a entender o mundo que agora não dormia
de muita luz que as coisas tinham
antes sequer de serem suas. Trabalhava-se tanto
nesse lugar onde vivia com outros como ela
que às vezes pensava: tão estranho nascer
(quer dizer, nascer mesmo, estar aqui)
para o dia passado com estranhos.
E por isso, no princípio, não dormia
sem procurar o amor, sem beijar na testa
a noite que acabava serena e exausta como a noite.

No princípio era.
Depois esvaziou-se com cuidado.

(Filipa Leal, Janeiro de 2007)
(retirei este poema do blog das Quintas da Leitura)