domingo, 31 de janeiro de 2010

pensamento mágico


Kasimir Malevitch "Três figuras" 1932


tens tudo o que precisas: água mineral
bolachas de passas, dois livros policiais.
colocas a almofada de rectângulo alto
postura de sofá. desligas o rádio.
um tiro fatal. um homem de chapéu inglês
um anel grande, a inconfundível bengala;
prata gravada num pescoço de cavalo.
mil e novecentos e vinte a rua gelada.
passos lentos, dispersos de som grave.
queria articular uma defesa, uma palavra.
caiu sem ruído afogado na chuva, na lama.

tens tudo o que precisas: um café forte.
no balcão de mármore abres a máquina,
colocas a cápsula, um pouco de água.
duas torradas saltam no som de Clac!
duas colheres de mel silvestre, puro
alecrim e rosmaninho ao som de twist.
a doçura atenua a premonição do crime.
criar a atmosfera. Quatro velas acesas
gordas e curtas em cima de mesas.
duas amarelas, duas vermelhas.
luz ténue sem filamentos seguros.
as chamas movem as sombras.

não sobes ainda ao quarto.
sentas-te no cotovelo da escada, junto à chávena
no propósito de caírem migalhas da torrada
sobre as tábuas. aquelas ligações absurdas
que imaginam um longo bico de cegonha
recolhendo uma a uma, colocando no pires.
mas são só os dedos de tarefa obsessiva
que preparam o clima de suspense, o momento
no rectângulo alto, na cama, no local adequado.

tens tudo o que precisas: a noite, o livro.
usava uma carteira cara de fechos amarelos.
as luvas descalças sem os fios de harpa.
quando era nova tocava a 1ª de Beethoven
ao piano de forma memorável. O maestro
gostou tanto que anotou o dia, a hora, numa pauta.
mas quis o destino que as mãos de fada,
aquele rosto saído de uma cúpula da capela antiga
aquela voz que era linda, tivesse história trágica.
um anjo de submersas memórias, inquietado:
“obrigaste-me a ler os livros que não percebia”
“a tocar no orgão sanctus, sanctus, que detestava”
“vinte e quatro horas entre paredes fechadas”
“uma boneca de corda sem anseios de alma”
um eco, um eco, um eco, tiros de uma arma.
o corpo escuro, sem fala, incómodo, a mão na bengala.

tens tudo o que precisas: o pensamento mágico.
entras dentro do livro. O braço sobre o ombro.
abraças o vestido largo de rendas.”Shu!..Shu! Tem calma!”
há muito caiu o pequeno revólver, sem utilidade.
apagas todos os indícios.batem à porta. saem pela janela.
a tempo de ouvir, em três relógios diferentes
as duas da madrugada. Tem calma. Tens calma.

a almofada escapa. o corpo horizontal
liga um pouco de música clássica. É inverno.
mas a noite passa, e cada dia é menos um
antes da primavera. depois o mar. depois a praia.

tens tudo o que precisas: um olhar de enseada
que lava nas gotas de sal todas as gotas da alma
uma cimitarra de afectos do tamanho de um castelo
e inventas histórias de cidades, aldeias, igrejas,
duendes, animais que falam, leões que são gatos,
girafas atarracadas, rinocerontes garibaldis.
falas dos desertos cheios de água e uma estrada
de coqueiros onde dançam marcianos.histórias.

tens tudo o que precisas: observas os limbos.
nos intervalos da noite lês livros da colecção vampiro
e perdes o juízo na justiça de salvar heroínas
inocentes vítimas, indefesas, os necessitados
aqueles que tropeçaram sem ninguém ao lado.
e sendo assim adormeces muito calmo, reconfortado.
embarcas em muitos universos, reais, surreais
ou pintados. em barcas de rem, rem, rem
nos sonhos escondidos de pensamentos mágicos


tens tudo o que é preciso: vestes as folhas brancas
escreves poemas, na tinta líquida dos sentimentos.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Wally (poema de Sylvia Beirute)



















WALLY


(traduzir o poema. traduzir a tradução.
traduzir a tradução da tradução.
equilibrar uma hesitação na bússola. )
há uma espécie de wally
no corpo do poema que abdica
da sua construção metódica, que se esconde
nos fotogramas dos ecos que se entrelaçam
para escurecerem
sem ceder a arrumações de ideias,
existências completas, corporeidades
absolutas.
não importa mudar as palavras, o poema
seguirá com a sua expectativa legítima,
o seu âmago azul,
a sua particular desmemória e demência,
seguirá
com a validade que dissolve sentidos latos
no interior ácido de sentidos estritos, será
como neve numa recordação invisível.
e eu? eu ainda aqui resto, na beira-mar instintiva
de uma beleza mais fluvial, meditativa,
num fósforo íntimo sobre a rasura
de uma comparação entre dois gestos,
eu procurando o meu wally ou um pequeno
modo de o encontrar,
eu insinuada sobre a importância dos instantes,
eu sobre o poema esperando
o mais fundador sinal de inspiração.
E a propósito: que horas são no poema?

Sylvia Beirute
inédito

o laço branco



a preto e branco
o condicional de uma história brilhante.

cavalo de crina ao vento tropeça no laço invisível.
parte a clavícula de um médico de rosto esquálido,
rugas de bisturi.prenúncio terrível.

um grupo de crianças
oferece ajuda, atira pedras na janela,
a promessa presente de uma escola negra.

a culpa tem origem escura
e morre uma mãe de família de braço curto.

o barão, única autoridade, desvaloriza
a orfã, o orfão, o menino atrasado.
em sua casa há músicas desconcertadas
de piano, de flauta, de um filho em surdina.

na casa ao lado o feitor, na casa ao lado o pastor.
um recém-nascido na corrente de ar.
um espírito maligno que provoca a dor,
a mágoa inocente, a morte de um clássico;
o dependurado num curral onde cede o banco
de toscas tábuas de castanho, a dez passos da igreja
onde ainda, ainda se ouvem as crianças
de vozes finíssimas, a preto e branco.


longe vai a bicicleta. a bicicleta a caminho da cidade,
o menino atrasado, a orfã, o orfão, a viúva e o pecado.
ficou o açoite trágico e um pássaro sem liberdade;
um professor incrédulo de ares enevoados
nos olhos da namorada, claros,
quando os aeroplanos desciam oceanos.
barcos e bombas em quatorze eram tantos.
morreu um prussiano.

a dúvida permanece no último plano
imaculada, nos símbolos de um laço estranho
que atava os braços à volta da cama. as crianças.
o exemplo. o laço branco. a inocência.

ninguém tem culpa formada.por baixo do pano
há um exército de prisioneiros
e uma história brilhante
a preto e branco -

Transcrição de Maria Puig : ode menor

Decidi transcrever, tal como o encontrei, o poema de Maria Puig, escrito na parte de trás de uma novela de Roberto Bolaño, “Estrela Distante”. Esqueceu-se do livro em minha casa, esqueceu-se de muitos livros em minha casa. Ou melhor, em minha casa deixou muita coisa: Muitos textos a meio ou muitos textos completos. Para ela, nada estava completo. Poemas escritos na parte de trás de um recibo, nas margens apertadas de um flier publicitário, de uma agenda cultural, aproveitando a parte branca dos anúncios. Nas margens brancas do Ípsilon e do Expresso, que são curtas e não permitem o verso livre. Os textos desenvolviam-se numa caligrafia tosca, a que já me tinha habituado. Fosse a caneta vermelha ou ao lápis grosso que estivesse mais à mão. Transcrevi por completo um caderno cheio de poemas seus. Foram muitas outras coisas que deixou em minha casa.


Transcrevi o poema, como um paleógrafo atento e imparcial. Às vezes tive de usar uma lupa em forma de régua, para perceber se determinada letra era um “a” ou um “o”: Isso era importante porque muitas, eram criações de palavras novas. Transcrevia enquanto ouvia Bil Evans, música que associava sempre à sua chegada e à sua permanência em minha casa. Esquecia-me, muitas vezes, que estava com o Gmail aberto, em estado on-line, e era consecutivamente interrompido da minha função de paleógrafo. Então parecia que se abria o mundo de dentro rede: Várias pessoas que nos chamam e de que gostamos e que esperam isto e aquilo de nós.


O poema falava de gatos e fora escrito em Portugal, país onde viveu por quatro anos, como prostituta na cidade do Porto perto do Marquês. Imaginei o quarto da pensão cheio de livros, de camionistas e advogados que entram e saem, agora com outra brasileira ou ucraniana no seu lugar. Imaginei Maria Puig, a travesti, que em breve se tornava a Hermafrodita associada à cidade do Porto. Imaginei a gaveta cheia de preservativos, cuecas e soutiens vermelhos; Com alguns poemas no fundo escritos de forma desordenada entre um ou outro cliente. A pronúncia do Recife. O portátil sempre aberto no Messenger, com várias janelas de gente do Brasil a falar, antigas companhias, ou um ou outro cliente.
A guardar em Word, um anúncio publicitário a enviar para o jornal: “Maria – Hermafrodita – Marquês – 30 beijinhos” – Às vezes actualizando, dando mais descrições: “Gulosa, Morena, Faço tudo”. Depois um número de telemóvel que era só usado para as marcações.
Imaginei todas as conversas que ela deixou na minha memória. Pensando onde estaria neste momento. Num avião, num voo Rio-Lisboa, ou morta no fundo do poço como acontece a alguns travestis europeus, perseguidos por um bando rapazes da vida e com pouca sorte, de extrema-direita ou sem qualquer ideal. Um ou outro grupo a quem correu pior a noite.
Mas havia uma certa segurança na vida de Maria enquanto esteve no Porto. Tinha a protecção de muitos e era prostituta de luxo, signifique essa palavra, seja o que for.


Perdia constantemente os cadernos cheios de poemas. Deixava-os numa mesa de café, num clube, no cabeleireiro, enquanto atendia uma chamada no telemóvel, deixando-os em cima da mesa. Daí a minha necessidade de registar tudo o que deixou escrito aqui em casa. Salvaguardar pelo menos essa parte da sua produção.
Cada dia, como um arqueólogo da escrita, descobria coisas novas, um poema nas margens de um livro de Pavese, nas traseiras de um jornal desportivo, de uma revista cor de rosa, nas colunas de um desdobrável do supermercado. Copiava o que estava escrito na sua caligrafia tosca, fosse aquilo a letra vermelha ao lado da fotografia de uma actriz famosa, de um jogador de futebol, a quem também tinha rabiscado os calções, ou feito uma tatuagem nazi com a bic azul. Tudo isso passava a computador, sem qualquer interpretação. Limitando-me a registar, segundo normas específicas de transcrição, que seguia rigorosamente: documento que havia pendurado num painel de cortiça ao lado de computador. Ouvindo sempre o mesmo disco que associava à sua vida em minha casa.



Aqui fica a útil transcrição de “Ode menor”

................................................................................


Ode menor (Gato único em queda*)
Maria Puig

If my pillow could talk, imagine what it would say

Nina Simone


*

Um jardineiro muito curioso, acabou de plantar margaridas e girassóis, depois pousou os instrumentos de jardinagem e caminhou em direcção a casa. Não encontrou o caminho de regresso a casa, e percebeu que estava no fundo do mar. Mandou os séculos em espera sentarem-se, nas cadeiras do jardim. Os séculos olharam-se ao espelho e viram um gato negro de olhos verdes. Viram-se reflectidos cheios de espuma. O jardineiro contou-lhes três histórias e eles adormeceram. Não se sabe se o seu sonho foi o de uma nova era, mas quando despertam tinham os olhos cheios de azul e alegria subaquática. O jardineiro bebeu aguardente de anémona marinha e adormeceu. Todo ele espera subaquática e monólito aceso. Acordado por um tubarão martelo ou um peixe espada, regressou para o seu jardim e não para casa.


*

Vi várias coisas de cristal que confundiam poesia e prosa e que eram também eu própria; Confundiam também noite e dia, vida e morte, homem e mulher e eram hermafroditas como todos os milénios a vir.
Vi essas coisas de cristal a olharem-se ao espelho, a porem gel com as suas mãos peludas. Pagavam-me. Penteavam-se com o orgulho de um ditador asiático já morto, que escrevia poesia nos anos oitenta e que escrevia poesia nos anos noventa. Governador de um país de nome estranho, que escrevia livros de poemas que eram de leitura obrigatória na quarta classe e que todos os meninos do país acabado em “ão” deviam recitar: Três poemas escolhidos pela professora, no início e no fim de cada aula, antes do hino nacional e depois do hino nacional. Mandou construir várias estátuas suas em ouro que ocupavam toda a capital.
Vi todos os gatos que te morderam o pescoço fino. Perversos e queridos dentro das galerias da piscina ou do inferno - Ouvi o que eles te diziam, os ossos finos que te partiam: Gatos escritores e contabilistas que me ligavam às quatro da manhã ou cinco da manhã, com uma paciência de girafa. Gatos que me fodiam na pensão de manhã e me fodiam na pensão à tarde e me fodiam à noite e nos dias seguintes, como se fosse um dia único feito de silicone - Um gato único, num milénio cheio de cio. Gatos advogados, gatos camionistas ou montadores de andaimes que poupavam todo o mês só para me foderem. Trinta euros que deixavam e não gastavam em vinho ou na alimentação dos filhos. Camionistas, empresários, traficantes, professores de informática, gatos divorciados que me pagavam em droga.
Um gato único de olhos verdes e inchados pelo cio, como se olhasse para dentro e para fora ao mesmo tempo (E nisto lembrei-me de Battaille, do seu olhar estrábico; E de me dizeres que os estrábicos são os mais inteligentes e a maior parte das vezes sobredotados, porque a própria natureza já lhes deu um olho para cada lado, uma visão múltipla, ou mais abrangente, reconhecida pela ciência). Jorge Luís Borges também o era. Nessa altura deste-me uma lista de mais de dez autores estrábicos. Nunca nenhum estrábico ganhou o Nobel, dizia o início da lista.

*

O gato parecia que olhava para um aquário de peixes dourados, mas o aquário estava dentro de si, então o gato olhava ao mesmo tempo para dentro e para fora como um vento confuso, ou um tornado que perdeu a direcção e se come a si próprio: Os peixes dourados de fora, como eu, e os de dentro; Sei de um museu de História Natural em Toronto que possui um cavalo-marinho hermafrodita conservado em etanol. Foi descoberto por uns pescadores do Quebec em 1914, e que os biólogos acharam por bem conservar. O gato único já tinha ido a esse museu e tinha pago caro para ver o cavalo-marinho, que guardou na memória e que depois apagou da memória, ou seja: A reforçou. Na memória do gato já não era só um cavalo-marinho hermafrodita, era mais do que isso. Um gato único que descobriu a América e me possuiu – Um gato que lê romances cor-de-rosa e joga pólo aquático ao fim da tarde. E depois me liga, depois do treino, ainda no balneário, pergunta se eu estou disponível. Desliga o telemóvel, vem ter comigo. Liga o telemóvel, deita-se com a mulher. Volta a ligar o telemóvel em silêncio. O seu nome aparece depois na necrologia do jornal e nos registos electrónicos do banco. O seu nome desaparece depois. O jornal extingue-se, extingue-se o uso do papel como veículo de informação, extingue-se a necessidade de suporte. Desaparece toda a memória do cavalo-marinho e do gato.

*

Gatos que metem processos e os ganham ou os perdem. Que pedem às suas avós para lhes cozerem a camisa ou para lhes cozerem os calções da equipa.
Pedem um café e possuem-me rápido e automaticamente como um avião que passa,
Gato único que desenrola todos os fios. Faz deles um só, Fio ou antena. Gato que se esqueceu da sua cara e passa sem memória:


Já não gato, mas só cio
que escreve e abraça
Cio que precisa de calor e de
Chover: tropical na queda e na descida
amigo na chegada e na partida


Cio que é fumo industrial e Gelatina de hormonas que nutre as plantas

Gatos que têm um ataque cardíaco por segundo e
se vêem para cima da novela que mais gostam, deixando
que uma marca de esperma cole duas ou três páginas de uma Obra Prima da Literatura Universal, de um trabalho de uma vida de um escritor esquecido.
Para que a leiam e construam por cima (incorporando o passado)

Gatos de montanha e gatos urbanos que desdobram e cozem os séculos para com eles fazerem uma mini-saia vermelha. Que violam de manhã e à noite (analmente e não só) os professores de História Clássica e os professores de História Contemporânea – Gatos que me possuem ao som de Nina Simone e de Dina e que vêem com os olhos a piscar, o festival da canção. Gatos-Cio que vestem a História Universal, vermelha e curta,
Que saltam milénios e telhados só para me possuírem e serem já Coisa única:

Homem e mulher, dia e noite, vida e morte – Em tudo hermafrodita, à chegada e à partida, a vontade de ser toda a coisa ao mesmo tempo – Um milénio hermafrodita e de sexo curto, com o seu bikini vermelho a mergulhar, a sair da piscina mais fresco – A possuir-me e a esquecer-me: Múltiplo.



Maria Puig

Nuno Brito

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Psiquetipia (ou Psicotipia)


Roy Lichtenstein "Ainda a vida com um aquário de peixes vermelhos" 1972



Símbolos. Tudo símbolos...
Se calhar, tudo é símbolos...
Serás tu um símbolo também?

Olho, desterrado de ti, as tuas mãos brancas
Postas, com boas maneiras inglesas, sobre a toalha da mesa.
Pessoas independentes de ti...
Olho-as: também serão símbolos?
Então todo o mundo é símbolo e magia?
Se calhar é...
E por que não há de ser?

Símbolos...
Estou cansado de pensar...
Ergo finalmente os olhos para os teus olhos que me olham.
Sorris, sabendo bem em que eu estava pensando...

Meu Deus! e não sabes...
Eu pensava nos símbolos...
Respondo fielmente à tua conversa por cima da mesa...
"It was very strange, wasn't it?"
"Awfully strange. And how did it end?"
"Well, it didn't end. It never does, you know."
Sim, you know...Eu sei...
Sim, eu sei...
É o mal dos símbolos, you know.
Yes, I know.
Conversa perfeitamente natural...Mas os símbolos?
Não tiro os olhos de tuas mãos...Quem são elas?
Meu Deus! Os símbolos...Os símbolos...

Alvaro de Campos

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Cio

Encher de Atlântico todos os países que perco, tirar
O til à expressão nacional, ser tudo o que passa e ficou por dizer,
Construir um sonho em grande angular

Rechear o Atlântico da Vontade de estar em ti
só ser tudo aquilo que te arde e se ri

A dor é o melhor gerador, porque cria e levanta:
Permite o aforismo, cria o Cio da gente


Todas as luzes laranja de Apolo se incendeiam quando te ris,
Todas as sílabas se humedecem como um cavalo marinho cheio de cio
E são só borboletas de asas azuis à procura de um emprego, com vontade
de passar os textos a Word, porque só tem sete dias. Guardar lamas no Peru, ser o eterno pastor em procura – Ser Tu e todos que ardem, ser as lamas espalhadas com meninos em cima.

Tudo o que se espelha e é espelho dentro


Nuno Brito



“A realidade provém da ficção”

Satoshi Kon


*

Os sonhos a masturbarem-se, a encherem-se de tinto
A arca de Pessoa, todas elas a Literatura abre, o irmão dos
séculos, o irmão de Kafka que por não queimar acende,
o teu riso de todos os sabores; O que é uma arca por abrir?



Nuno Brito


Carrilhão suíço

Ser um armador de mão firme e dura, tudo
O que é nó, amarração e segura
– união traço, muitas portas a abrir
Alarme de várias luzes laranja, o vento que as abre

abelha que traça a sua rota firme,
sino de bronze que nos adormeceao mesmo tempo que acorda,
menina a ouvir o carrilhão suíço
a dar à corda a manivela mecânica, como espera
ainda viva e vulcânica

Ser só alarme e traço seguro, nós,
ter sido o que não perdura, A maré aflita a levar um e outro barco
A dama que aproxima
O carrilhão que parte



Nuno Brito

atmosfera


Cartier Bresson "Brie" 1968


por hábito colocava sinais nas folhas dos livros
poderia ser aquele bilhete de um cinema francês
com muitos diálogos e declarações de alma
registado no w de uma fila, no ímpar
de um número, na cor cinza de um timbre;
um registo de futuras memórias, as duas
a página e um filme.

dizia:
as palavras dos livros têm dedos firmes
que nos chamam, têm a voz que acorda
que nos prende e agarra a que chamamos nossa
e o pressentimento de que quem escreve
sabia da nossa atmosfera, do nosso mundo;
se gostamos dos passeios na penumbra
ou das cores luminosas de uma praia;
e sabe a côr, e sabe a hora, a hora muda
a hora exacta da leitura.

dizia:
as palavras dos livros abraçam
como naquele romance de outra época
um êxtase feliz de Vladimir e Zinaida
por debaixo de um xaile ou a dobar malha
e o encontro de um rosto, e um outro rosto
e o decoro vestido de rubro a despertar o sonho.

Grande Angular

I.


Quis ser realizador de cinema mudo
e captar a
câmara negra, o registo quente e solar:
do teu sorriso, monólito aceso de obsediana e
voo perfeito, captar num ângulo Múltiplo um abraço e
tudo que é gente e Sobe
ser só ângulo de encontro e perca, tudo que queima, derrete e chove

Sonho de borboleta africana, pirilampo e urso polar;
Concerto de muitos sinos e do Chile inteiro no fundo do mar,
unir os sonhos por novelos de espuma
Recheá-los de tudo o que está por fundir,
Ser a Gente que veio e a Gente que há de vir



II.


Unir dois sonhos numa grande angular
Induzir a Pluto que se torne gente e só vontade de errar,
Comboio que acende e passa a fronteira
Comboio com todas as pontas acesas, só Desejo de Abraçar




Nuno Brito

Sunser Boullevard

II


Abrir um baú, possuir um século Inteiro
fechar-te os olhos num beijo, ver neles explodirem
e renascerem em Super Novas todas as estrelas que
abrem portas – és só as portas que elas abrem, os caminhos a percorrer, uma criança que brinca sozinha,
pensando que ninguém a vê, mas que está em directo na Sky news,
com a sua inocência exposta, uma criança que é um século que te arde no queixo e adocica o palato, uma criança que é só queixo e multidão (todos os que sobem e descem) ser o fim da tarde a beber e a vestir os seus calções justos:
os séculos e as pernas a tremerem,
só instante, como qualquer gesto humano.

Tudo é febre e dança sem controlo
ponta e mola, agulha: Tudo que acende um Abraço.


Nuno Brito

O Grande Arquitecto

Agora lembrei-me do Hélder e das suas mãos compridas,
que mais pareciam azeite e tempestade de areia fina, agora lembrei-me que o Atlântico estava sempre dele em redemoinho e o sugava para dentro concêntricamente até, um limite Negro, (Lembrei-me da sua forma inclinada – com que fazia tudo, como se estivesse a rezar: lembrei-me de nos seus olhos ver vários pinguins e atirarem-se para coisa nada, o fundo do lago, da alma, o vazio de um armazém, um raciocínio rápido – Como guardava a Foz do Rio com Mahler nos ouvidos – Como lhe corria uma rio na coluna cheio de seixos finos. Vi também uma tempestade de açúcar em todos os portos do seus pulmões aguados, cheios de serradura e cascalho no fundo - Os nós que Fazia dentro de tudo: O seu hálito virado a norte, agora lembrei-me que a amizade é de todos os arquitectos, o mais forte.




Nuno Brito

Água que espera

Às vezes acontece ser um meta-barco
ou um meta poço que desalinha a sua rota concêntrica
só para te ver sorrir, e é só fundo e água ainda por vir

o seu meta-capitão assustado e de
cara nenhuma a comprimir nos dedos finos o musgo que lhe serve de gel ao cabelo ondulado

Saber-se viagem de cais nenhum, A mulher e o relâmpago que o espera
Todos os baús que abre,

A rota que lhe adoça a boca





Nuno Brito

O Atlanta



A arte nunca é terminada, só interrompida e abandonada

Leonardo da Vinci



Lembro-me muitas vezes das histórias dos Atlantas que me contavas, na sua rota geométrica que era só tinta e malhada na espera,
esperavam virados para o mar, os europeus, Um amigo que acendesse Tudo

quero-te tornar o Atlântico num sopro,
numa Sofia que cresce num búzio e que é salgada como a voz búlgara
e é também minha mãe
o oceano que nos une, chuva que te cai na cara
que te cai no passeio, na pedra trabalhada
que incendeia Tikoman, a minha mãe, o vento
sinto pena de não te ter beijado em bombazine claro


Pensei que este poema nunca fosse escrito, porque seria sempre acrescentado
Dama aflita que uiva e grita em frente à Calvin Klein, procurei uma forma clássica
de te dizer que te Adoro, não há forma para a amizade, o que cresce está sempre incompleto, a vontade de rechear o mar de relâmpagos que sentia Luís Miguel Nava,
O abraço que te serve de Escada

Cantiga de Amigo eterna e a ser feita, Sempre em Ti

a luz está acesa


Nuno Brito

Fila para Avatar

O meu avatar fala sozinho e
tem um gorro azul feito de memória e loucura
está recheado de sombra roxa e pôr do sol, Outro dia
na fila do cinema disse-me que criou dez heterónimos,
perguntei-lhe porquê o número redondo e porque confundia
sempre poesia e prosa,

O meu avatar é só riso espalhado
Sinto nos seus olhos azuis e cabelo ondulado
a vontade de ser toda a gente, Ladrão na Austrália, pregador escocês,
professora de Yoga, Prostituta no Marquês,
vendedor de alhos filipino, sucateiro na Amadora,


O meu avatar criou dez heterónimos de olhos cansados - disse-me na fila do cinema,
que tinha medo do escuro

Medo que o escuro o recheasse por dento, como uma procissão silenciosa de virgens negras ou búfalos subaquáticos
Contou-me que os seus heterónimos são gente educada com corpos de silêncio, desejam uma boa jornada a este e àquele que passa, perguntam mutuamente a hora, mesmo sabendo sempre que hora faz.


Têm necessidade de falar, às vezes entram todos num café e pedem um copo de água. Seguem o telejornal às riscas com os seus gorros azuis e escrevem no seu gesto quadriculado um ou dez poemas de amor:

O meu avatar chama os heterónimos dos seus jogos de azar, e conta a todos eles uma história de amor, encomenda-lhes um ensaio sobre este ou aquele autor, uma corrente de vanguarda, coze-lhes os calções rotos da jornada,

Leva-os a ver o pôr do sol e a todos eles alinhados diz que a paisagem é bonita, mete-os na fila do cinema enquanto vai comprar bombocas, manda-os ir evangelizar a Escócia, enquanto fuma um cigarro em todo o lado, já só átomo com vontade de se fundir a outro átomo, para que a União seja a calma.

Vejo nos seus olhos, vária gente que escreve
Às vezes enquanto tira as meias ou as calça, pergunta-me sobre a utilidade da literatura e reparo que ele se parece uma nuvem,
Uma nuvem carregada que se olha ao espelho, guardo no vidro transparente a sua calma e chuva tropical , e vejo no espelho toda a gente com máscara e sem a Máscara,

a máscara é também gente:
O que se calca é também o que se é)

É então que ele diz: Tu és queda livre e curva que não passa mensagem nenhuma.
………………………………………………………………………………………………………...

Não tenho argumentos contra esse gorro azul

Recheio-o de medo e vamos ao cinema – Preenchemos todo o quarteirão Coppedé, esperamos que o sol se ponha, olhamos as máscaras gregas de pedra, a coluna clássica de cada varanda, vemos sem ver a gente lá dentro, descalça a ouvir o seu Tango, - às vezes atira-se de uma varanda e dá-me a mão pequena dizendo – Tu não passas mensagem nenhuma, és só queda e confusão – O Vento tira fotografias às máscaras e a nós todos, revela-nos, no musgo, nas paredes no riso, no fundo de todos os poços, no espelho – Este querer estar sempre em ti, ser já só fronteira, o avatar a comer com a boca cheia de espuma de morango, diz esta e aquela sentença, ouço-o com atenção – Pergunta-me sobre a necessidade de registar? Diz depois parecendo um triângulo – Toda a memória provém do sol –

Guarda muita coisa ao mesmo tempo e é só riso a espalhar,
escreve a negrito as sentenças de maior relevo,

Umas vezes não pergunta e é só dança outras é
fronteira e meta-susto que se alimenta,
recheia-se a si próprio de vento
Estamos na fila, na tela e no acento.



Nuno Brito