quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Psiquetipia (ou Psicotipia)


Roy Lichtenstein "Ainda a vida com um aquário de peixes vermelhos" 1972



Símbolos. Tudo símbolos...
Se calhar, tudo é símbolos...
Serás tu um símbolo também?

Olho, desterrado de ti, as tuas mãos brancas
Postas, com boas maneiras inglesas, sobre a toalha da mesa.
Pessoas independentes de ti...
Olho-as: também serão símbolos?
Então todo o mundo é símbolo e magia?
Se calhar é...
E por que não há de ser?

Símbolos...
Estou cansado de pensar...
Ergo finalmente os olhos para os teus olhos que me olham.
Sorris, sabendo bem em que eu estava pensando...

Meu Deus! e não sabes...
Eu pensava nos símbolos...
Respondo fielmente à tua conversa por cima da mesa...
"It was very strange, wasn't it?"
"Awfully strange. And how did it end?"
"Well, it didn't end. It never does, you know."
Sim, you know...Eu sei...
Sim, eu sei...
É o mal dos símbolos, you know.
Yes, I know.
Conversa perfeitamente natural...Mas os símbolos?
Não tiro os olhos de tuas mãos...Quem são elas?
Meu Deus! Os símbolos...Os símbolos...

Alvaro de Campos

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Cio

Encher de Atlântico todos os países que perco, tirar
O til à expressão nacional, ser tudo o que passa e ficou por dizer,
Construir um sonho em grande angular

Rechear o Atlântico da Vontade de estar em ti
só ser tudo aquilo que te arde e se ri

A dor é o melhor gerador, porque cria e levanta:
Permite o aforismo, cria o Cio da gente


Todas as luzes laranja de Apolo se incendeiam quando te ris,
Todas as sílabas se humedecem como um cavalo marinho cheio de cio
E são só borboletas de asas azuis à procura de um emprego, com vontade
de passar os textos a Word, porque só tem sete dias. Guardar lamas no Peru, ser o eterno pastor em procura – Ser Tu e todos que ardem, ser as lamas espalhadas com meninos em cima.

Tudo o que se espelha e é espelho dentro


Nuno Brito



“A realidade provém da ficção”

Satoshi Kon


*

Os sonhos a masturbarem-se, a encherem-se de tinto
A arca de Pessoa, todas elas a Literatura abre, o irmão dos
séculos, o irmão de Kafka que por não queimar acende,
o teu riso de todos os sabores; O que é uma arca por abrir?



Nuno Brito


Carrilhão suíço

Ser um armador de mão firme e dura, tudo
O que é nó, amarração e segura
– união traço, muitas portas a abrir
Alarme de várias luzes laranja, o vento que as abre

abelha que traça a sua rota firme,
sino de bronze que nos adormeceao mesmo tempo que acorda,
menina a ouvir o carrilhão suíço
a dar à corda a manivela mecânica, como espera
ainda viva e vulcânica

Ser só alarme e traço seguro, nós,
ter sido o que não perdura, A maré aflita a levar um e outro barco
A dama que aproxima
O carrilhão que parte



Nuno Brito

atmosfera


Cartier Bresson "Brie" 1968


por hábito colocava sinais nas folhas dos livros
poderia ser aquele bilhete de um cinema francês
com muitos diálogos e declarações de alma
registado no w de uma fila, no ímpar
de um número, na cor cinza de um timbre;
um registo de futuras memórias, as duas
a página e um filme.

dizia:
as palavras dos livros têm dedos firmes
que nos chamam, têm a voz que acorda
que nos prende e agarra a que chamamos nossa
e o pressentimento de que quem escreve
sabia da nossa atmosfera, do nosso mundo;
se gostamos dos passeios na penumbra
ou das cores luminosas de uma praia;
e sabe a côr, e sabe a hora, a hora muda
a hora exacta da leitura.

dizia:
as palavras dos livros abraçam
como naquele romance de outra época
um êxtase feliz de Vladimir e Zinaida
por debaixo de um xaile ou a dobar malha
e o encontro de um rosto, e um outro rosto
e o decoro vestido de rubro a despertar o sonho.

Grande Angular

I.


Quis ser realizador de cinema mudo
e captar a
câmara negra, o registo quente e solar:
do teu sorriso, monólito aceso de obsediana e
voo perfeito, captar num ângulo Múltiplo um abraço e
tudo que é gente e Sobe
ser só ângulo de encontro e perca, tudo que queima, derrete e chove

Sonho de borboleta africana, pirilampo e urso polar;
Concerto de muitos sinos e do Chile inteiro no fundo do mar,
unir os sonhos por novelos de espuma
Recheá-los de tudo o que está por fundir,
Ser a Gente que veio e a Gente que há de vir



II.


Unir dois sonhos numa grande angular
Induzir a Pluto que se torne gente e só vontade de errar,
Comboio que acende e passa a fronteira
Comboio com todas as pontas acesas, só Desejo de Abraçar




Nuno Brito

Sunser Boullevard

II


Abrir um baú, possuir um século Inteiro
fechar-te os olhos num beijo, ver neles explodirem
e renascerem em Super Novas todas as estrelas que
abrem portas – és só as portas que elas abrem, os caminhos a percorrer, uma criança que brinca sozinha,
pensando que ninguém a vê, mas que está em directo na Sky news,
com a sua inocência exposta, uma criança que é um século que te arde no queixo e adocica o palato, uma criança que é só queixo e multidão (todos os que sobem e descem) ser o fim da tarde a beber e a vestir os seus calções justos:
os séculos e as pernas a tremerem,
só instante, como qualquer gesto humano.

Tudo é febre e dança sem controlo
ponta e mola, agulha: Tudo que acende um Abraço.


Nuno Brito

O Grande Arquitecto

Agora lembrei-me do Hélder e das suas mãos compridas,
que mais pareciam azeite e tempestade de areia fina, agora lembrei-me que o Atlântico estava sempre dele em redemoinho e o sugava para dentro concêntricamente até, um limite Negro, (Lembrei-me da sua forma inclinada – com que fazia tudo, como se estivesse a rezar: lembrei-me de nos seus olhos ver vários pinguins e atirarem-se para coisa nada, o fundo do lago, da alma, o vazio de um armazém, um raciocínio rápido – Como guardava a Foz do Rio com Mahler nos ouvidos – Como lhe corria uma rio na coluna cheio de seixos finos. Vi também uma tempestade de açúcar em todos os portos do seus pulmões aguados, cheios de serradura e cascalho no fundo - Os nós que Fazia dentro de tudo: O seu hálito virado a norte, agora lembrei-me que a amizade é de todos os arquitectos, o mais forte.




Nuno Brito

Água que espera

Às vezes acontece ser um meta-barco
ou um meta poço que desalinha a sua rota concêntrica
só para te ver sorrir, e é só fundo e água ainda por vir

o seu meta-capitão assustado e de
cara nenhuma a comprimir nos dedos finos o musgo que lhe serve de gel ao cabelo ondulado

Saber-se viagem de cais nenhum, A mulher e o relâmpago que o espera
Todos os baús que abre,

A rota que lhe adoça a boca





Nuno Brito

O Atlanta



A arte nunca é terminada, só interrompida e abandonada

Leonardo da Vinci



Lembro-me muitas vezes das histórias dos Atlantas que me contavas, na sua rota geométrica que era só tinta e malhada na espera,
esperavam virados para o mar, os europeus, Um amigo que acendesse Tudo

quero-te tornar o Atlântico num sopro,
numa Sofia que cresce num búzio e que é salgada como a voz búlgara
e é também minha mãe
o oceano que nos une, chuva que te cai na cara
que te cai no passeio, na pedra trabalhada
que incendeia Tikoman, a minha mãe, o vento
sinto pena de não te ter beijado em bombazine claro


Pensei que este poema nunca fosse escrito, porque seria sempre acrescentado
Dama aflita que uiva e grita em frente à Calvin Klein, procurei uma forma clássica
de te dizer que te Adoro, não há forma para a amizade, o que cresce está sempre incompleto, a vontade de rechear o mar de relâmpagos que sentia Luís Miguel Nava,
O abraço que te serve de Escada

Cantiga de Amigo eterna e a ser feita, Sempre em Ti

a luz está acesa


Nuno Brito

Fila para Avatar

O meu avatar fala sozinho e
tem um gorro azul feito de memória e loucura
está recheado de sombra roxa e pôr do sol, Outro dia
na fila do cinema disse-me que criou dez heterónimos,
perguntei-lhe porquê o número redondo e porque confundia
sempre poesia e prosa,

O meu avatar é só riso espalhado
Sinto nos seus olhos azuis e cabelo ondulado
a vontade de ser toda a gente, Ladrão na Austrália, pregador escocês,
professora de Yoga, Prostituta no Marquês,
vendedor de alhos filipino, sucateiro na Amadora,


O meu avatar criou dez heterónimos de olhos cansados - disse-me na fila do cinema,
que tinha medo do escuro

Medo que o escuro o recheasse por dento, como uma procissão silenciosa de virgens negras ou búfalos subaquáticos
Contou-me que os seus heterónimos são gente educada com corpos de silêncio, desejam uma boa jornada a este e àquele que passa, perguntam mutuamente a hora, mesmo sabendo sempre que hora faz.


Têm necessidade de falar, às vezes entram todos num café e pedem um copo de água. Seguem o telejornal às riscas com os seus gorros azuis e escrevem no seu gesto quadriculado um ou dez poemas de amor:

O meu avatar chama os heterónimos dos seus jogos de azar, e conta a todos eles uma história de amor, encomenda-lhes um ensaio sobre este ou aquele autor, uma corrente de vanguarda, coze-lhes os calções rotos da jornada,

Leva-os a ver o pôr do sol e a todos eles alinhados diz que a paisagem é bonita, mete-os na fila do cinema enquanto vai comprar bombocas, manda-os ir evangelizar a Escócia, enquanto fuma um cigarro em todo o lado, já só átomo com vontade de se fundir a outro átomo, para que a União seja a calma.

Vejo nos seus olhos, vária gente que escreve
Às vezes enquanto tira as meias ou as calça, pergunta-me sobre a utilidade da literatura e reparo que ele se parece uma nuvem,
Uma nuvem carregada que se olha ao espelho, guardo no vidro transparente a sua calma e chuva tropical , e vejo no espelho toda a gente com máscara e sem a Máscara,

a máscara é também gente:
O que se calca é também o que se é)

É então que ele diz: Tu és queda livre e curva que não passa mensagem nenhuma.
………………………………………………………………………………………………………...

Não tenho argumentos contra esse gorro azul

Recheio-o de medo e vamos ao cinema – Preenchemos todo o quarteirão Coppedé, esperamos que o sol se ponha, olhamos as máscaras gregas de pedra, a coluna clássica de cada varanda, vemos sem ver a gente lá dentro, descalça a ouvir o seu Tango, - às vezes atira-se de uma varanda e dá-me a mão pequena dizendo – Tu não passas mensagem nenhuma, és só queda e confusão – O Vento tira fotografias às máscaras e a nós todos, revela-nos, no musgo, nas paredes no riso, no fundo de todos os poços, no espelho – Este querer estar sempre em ti, ser já só fronteira, o avatar a comer com a boca cheia de espuma de morango, diz esta e aquela sentença, ouço-o com atenção – Pergunta-me sobre a necessidade de registar? Diz depois parecendo um triângulo – Toda a memória provém do sol –

Guarda muita coisa ao mesmo tempo e é só riso a espalhar,
escreve a negrito as sentenças de maior relevo,

Umas vezes não pergunta e é só dança outras é
fronteira e meta-susto que se alimenta,
recheia-se a si próprio de vento
Estamos na fila, na tela e no acento.



Nuno Brito

Spritz*

A noite tem a veia inchada e a cara múltipla e acesa
que tudo guarda – a noite não trabalha os seus textos e é a realizadora
mais perversa, tem as suas próprias leias e viola as suas próprias leias,
feitas de fio grosso de ovelha com que coze a mini-saia vermelha, A noite não usa metáfora
e varre com a sua enchada todos os que a usam, faz curtas metragens que não regista, porque não é preciso registar que aquele não pagou e ficou no
fundo do rio com a barriga inchada; a noite apagou essas provas e organiza festas no Lusitano, é travesti que entra em todos os bares e pede um Spritz, perguntei o caminho para a biblioteca a vários gatos negros, todos me indicaram o caminho ou a perca, com a sua voz que parecia de Gente


As suas leis são parecidas às do voleibol com bola em chamas ou aos mais complexos jogos de Azar,

*

Toca Óscar Petterson e Carlos Parede com os seus dedos escuros e Acende-os, é apenas um cartógrafo com coragem, que traçou vários equadores no seu próprio peito para que não
Dormisse nunca e tornasse
qualquer registo fútil
A noite disse:

Tu usas a metáfora meu filho!


…………………………………………………………………………………………

Frita com areai fina
em vez de pão ralado
tatua em agulha fina, os braços magros do injectado
e as bordas dos sonhos dos que dormem Muitos na Estação Termini

A noite não permite o poema social, veste o seu soutien de estrelas ou areia Fina
Entra na Brodway – Kadoc – Na ourivesaria para roubar,
Viola as prostitutas que não aparecem no dia seguinte na Estrada Nacional,
Em que século foi? O crime da Gucci? Onde comprou esse gorro?

A noite é a fingir


Nuno Brito

Meta-Barco

Pudéssemos ser um meta-barco
ou um meta-poço no seu fundo sonho de abelha
E já nem barco nem poço - Só mel e asa torta
Te faça explodir em riso e brilhar – meta barco e meta poço,
vontade de te abraçar.



Nuno Brito

domingo, 24 de janeiro de 2010

pensando

faz-me pensar
não somos nós mais que muitos?
não somos nós seres únicos? marcas digitais únicas?
reduzidos a números, a estatísticas, a tabelas
decapitados
sem pinga de sangue

faz-me pensar
naquelas órbitas, paradas, sequer névoa
de quem já nada pede, nada quer,
ausente, irreal, na plateia de um filme de cinema
para maiores de nascidos

faz-me pensar
em cada rosto, cada ruga
um contar de histórias sem fim
desconhecidas
em cada perda, um elo se quebra
um nunca mais definitivo

faz-me pensar
todas estas vidas diminuídas em multidão
que nos entram pela casa adentro
sem sequer um "posso?"
e mantens igual o acto maquinal
de levar a comida à boca já tão cheia
de olhos postos em outras tão cheias de
nada
soltas tua culpa com um "coitados!" ocasional
e segues a tua vida
e todos seguem as suas vidas
e o mundo gira e gira e gira

e tu? onde estavas tu?
quando a terra decidiu mostrar as entranhas!
adormeceste em serviço?
esqueceste de proteger os que em ti acreditam?
os poupados agradecem-te!
e os outros? os engolidos pelo cinzento?
esses já nada dizem, só silêncio

faz-me pensar
afinal também tu és
silêncio

Clara Oliveira

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

o cálice onde molharam as cerejas


René Magritte "Os amantes" 1928

ele
subiu uma calçada de escadas escorregadias.
devia trazer outros adereços. não os sapatos de sola
que incha e embola. as botas grossas de camurça.
insistiu rodeado de cuidados, lento na sequência
de vários níveis na subida
que levava ao morro: o ponto de encontro.

ela
subiu as escadas em corrida. atrasada.
as sapatilhas ajudavam. um, dois, uma cantiga.
um desviar do tempo até chegar mais acima
ao morro: o ponto de encontro.


um corrimão esteve sempre imóvel.
aguardou. a ele, a ela, e uma vista sobre o Tejo.

os dois
límpidos sentaram-se num banco de pedra
quando ela chegou.
molharam cerejas num cálice de água. vinha com sede.
estava cansada. mas no rosto tinha um ar de tangerina
um perfume brando e dentes brancos de chiclete
no morro: o ponto de encontro -