quinta-feira, 28 de maio de 2009
Há gritos inúteis.
Por isso, devo sondar
os movimentos,
as aventuras,
as intuições,
as montanhas verdes desdobradas...
Hoje, senti
nos meus ossos
cinco almas ferozes e confusas.
Mas não te despertei.
Dormias, entre
lençóis de tesouras entrançadas.
Dormias.
Não me atrevi a tocar-te.
As chamas e os olhares
destas cinco almas ferozes
e confusas teriam
jantado à tua mesa- e o drama
da obscuridade deve escapar-te.
Gérard de Cortanze "O movimento das coisas"
Por isso, devo sondar
os movimentos,
as aventuras,
as intuições,
as montanhas verdes desdobradas...
Hoje, senti
nos meus ossos
cinco almas ferozes e confusas.
Mas não te despertei.
Dormias, entre
lençóis de tesouras entrançadas.
Dormias.
Não me atrevi a tocar-te.
As chamas e os olhares
destas cinco almas ferozes
e confusas teriam
jantado à tua mesa- e o drama
da obscuridade deve escapar-te.
Gérard de Cortanze "O movimento das coisas"
quarta-feira, 27 de maio de 2009
O tempo O tempo
Qual o tempo que demora
a cair o botão
na camélia junto ao muro?
Qual o tempo? Qual o tempo?
Qual o tempo que demora
o aroma de uma rosa
o cair da folha seca
o voo da borboleta
o pio de uma gaivota
0 respiro de um golfinho
o arrulho de uma rola?
Qual o tempo? Qual o tempo?
O tempo da natureza
não tem relógio
não faz barulho
o tempo não demora
o tempo o tempo
na natureza
qualquer que seja
não se gasta
mais se gosta
dá-nos asas de chamas
olímpicas infindas
segue o seu ritmo.
a cair o botão
na camélia junto ao muro?
Qual o tempo? Qual o tempo?
Qual o tempo que demora
o aroma de uma rosa
o cair da folha seca
o voo da borboleta
o pio de uma gaivota
0 respiro de um golfinho
o arrulho de uma rola?
Qual o tempo? Qual o tempo?
O tempo da natureza
não tem relógio
não faz barulho
o tempo não demora
o tempo o tempo
na natureza
qualquer que seja
não se gasta
mais se gosta
dá-nos asas de chamas
olímpicas infindas
segue o seu ritmo.
terça-feira, 26 de maio de 2009
Torga
CANÇÃO DO SEMEADOR
Na terra negra da vida,
Pousio do desespero,
É que o Poeta semeia
Poemas de confiança.
O Poeta é uma criança
Que devaneia.
Mas todo o semeador
Semeia contra o presente.
Semeia como vidente
A seara do futuro,
Sem saber se o chão é duro
E lhe recebe a semente.
Miguel Torga
Na terra negra da vida,
Pousio do desespero,
É que o Poeta semeia
Poemas de confiança.
O Poeta é uma criança
Que devaneia.
Mas todo o semeador
Semeia contra o presente.
Semeia como vidente
A seara do futuro,
Sem saber se o chão é duro
E lhe recebe a semente.
Miguel Torga
Paradoxo 41
De tanto querer
Esquecer a dor que trouxeste
Não lembro agora a dor
Não lembro há muito mais
O amor inteiro que me deste.
É tanto o arrependimento
De pisar no esquecimento
A desilusão que já não és
Que hoje quase volto atrás
Procurando as feridas
Rebobinando o drama
Para amar-te,
Para que possa lembrar
O amor inteiro que me deste.
Esquecer a dor que trouxeste
Não lembro agora a dor
Não lembro há muito mais
O amor inteiro que me deste.
É tanto o arrependimento
De pisar no esquecimento
A desilusão que já não és
Que hoje quase volto atrás
Procurando as feridas
Rebobinando o drama
Para amar-te,
Para que possa lembrar
O amor inteiro que me deste.
Teatro da boneca
A menina tinha os cabelos louros.
A boneca também.
A menina tinha os olhos castanhos.
Os da boneca eram azuis.
A menina gostava loucamente da boneca.
A boneca ninguém sabe se gostava da menina.
Mas a menina morreu.
A boneca ficou.
Agora também já ninguém sabe se a menina gosta da boneca.
E a boneca não cabe em nenhuma gaveta.
A boneca abre as tampas de todas as malas.
A boneca arromba as portas de todos os armários.
A boneca é maior que a presença de todas as coisas.
A boneca está em toda a parte.
A boneca enche a casa toda.
É preciso esconder a boneca.
É preciso que a boneca desapareça para sempre.
É preciso matar, é preciso enterrar a boneca.
A boneca.
A boneca.
(in Litoral nº1)
A boneca também.
A menina tinha os olhos castanhos.
Os da boneca eram azuis.
A menina gostava loucamente da boneca.
A boneca ninguém sabe se gostava da menina.
Mas a menina morreu.
A boneca ficou.
Agora também já ninguém sabe se a menina gosta da boneca.
E a boneca não cabe em nenhuma gaveta.
A boneca abre as tampas de todas as malas.
A boneca arromba as portas de todos os armários.
A boneca é maior que a presença de todas as coisas.
A boneca está em toda a parte.
A boneca enche a casa toda.
É preciso esconder a boneca.
É preciso que a boneca desapareça para sempre.
É preciso matar, é preciso enterrar a boneca.
A boneca.
A boneca.
(in Litoral nº1)
Regresso...
Caros amigos/as poetas,
certamente ninguém se lembrará de mim porque eu fui aquele que vocês viram apenas na primeira aula, já muito e muito distante, da primeiríssima sessão, em Setembro. Percalços, imprevistos, enfim, toda uma núvem de coisas e mais coisas que me desviaram desse vosso caminho e das vossas invejadas aventuras poéticas!
Pois bem, agora estou de volta - e para o ano lá estarei, regressarei à poesia convosco! Como o título de um livro que ando a ler, estou 'perdido de volta', e às vezes, às vezes é preciso perdermo-nos para nos sabermos encontrar no sítio certo de novo!
Por isso, as minhas sinceras desculpas pelo desaparecimento.
Fica uma nova página recente: circodesombras.blogspot.com, para quem quiser saber 'mas quem é ele afinal...'.
De resto, nada mais a acrescentar. Vou ficando.
David Campos Correia
certamente ninguém se lembrará de mim porque eu fui aquele que vocês viram apenas na primeira aula, já muito e muito distante, da primeiríssima sessão, em Setembro. Percalços, imprevistos, enfim, toda uma núvem de coisas e mais coisas que me desviaram desse vosso caminho e das vossas invejadas aventuras poéticas!
Pois bem, agora estou de volta - e para o ano lá estarei, regressarei à poesia convosco! Como o título de um livro que ando a ler, estou 'perdido de volta', e às vezes, às vezes é preciso perdermo-nos para nos sabermos encontrar no sítio certo de novo!
Por isso, as minhas sinceras desculpas pelo desaparecimento.
Fica uma nova página recente: circodesombras.blogspot.com, para quem quiser saber 'mas quem é ele afinal...'.
De resto, nada mais a acrescentar. Vou ficando.
David Campos Correia
segunda-feira, 25 de maio de 2009
TEMPO DE EPITÁFIOS
I -
Aqui jaz alguém
num exílio infindável,
um espaço de paz incomensurável,
lugar do Tempo de todos os tempos,
onde apenas floresce
a Memória dos ditosos momentos.
II -
Aqui jaz alguém
em exílio absurdo por tempo incerto,
campo de batalhas sempre deserto,
lugar do Tempo de todos os tempos,
onde apenas cresce
a Memória dos vazios opulentos.
III -
Aqui jaz alguém
em pacato exílio por benquista vontade,
mar imenso sem guerreiros, liberdade,
lugar do Tempo de todos os tempos,
onde apenas se enaltece
a Memória dos actos belos, não nevoentos.
(António Luíz ; VNGaia, 21-05-2009 )
Aqui jaz alguém
num exílio infindável,
um espaço de paz incomensurável,
lugar do Tempo de todos os tempos,
onde apenas floresce
a Memória dos ditosos momentos.
II -
Aqui jaz alguém
em exílio absurdo por tempo incerto,
campo de batalhas sempre deserto,
lugar do Tempo de todos os tempos,
onde apenas cresce
a Memória dos vazios opulentos.
III -
Aqui jaz alguém
em pacato exílio por benquista vontade,
mar imenso sem guerreiros, liberdade,
lugar do Tempo de todos os tempos,
onde apenas se enaltece
a Memória dos actos belos, não nevoentos.
(António Luíz ; VNGaia, 21-05-2009 )
sábado, 23 de maio de 2009
Cidade cebola
Cidade em cebola
que pontos sem cruz
te foram bordados
que finas camadas
enrolam a aldeia
que buscas e segues
nas lágrimas falsas
daquele teu fado
segue, segue-a
mas pela estrada
que pontos sem cruz
te foram bordados
que finas camadas
enrolam a aldeia
que buscas e segues
nas lágrimas falsas
daquele teu fado
segue, segue-a
mas pela estrada
Improvável arritemia
Ponta
atravessa-me,
leva-me àquela fenda
quero amassar o magma,
dobra-me,
polvilha-me
em milhares de intenções daninhas
embrulha-me em papel de rascunho
ou castra-me
em túneis escuros de manhã,
ao léu, pode ser
mas não ao de leve,
a deslizar é que não!
atravessa-me,
leva-me àquela fenda
quero amassar o magma,
dobra-me,
polvilha-me
em milhares de intenções daninhas
embrulha-me em papel de rascunho
ou castra-me
em túneis escuros de manhã,
ao léu, pode ser
mas não ao de leve,
a deslizar é que não!
improvável antologia poética
AMOR COMO EM CASA
Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.
Manuel António Pina
Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.
Manuel António Pina
Take this Waltz
En Viena hay diez muchachas,
un hombro donde solloza la muerte
y un bosque de palomas disecadas.
Hay un fragmento de la mañana
en el museo de la escarcha.
Hay un salón con mil ventanas.
¡Ay, ay, ay, ay!
Toma este vals con la boca cerrada.
Este vals, este vals, este vals, este vals,
de sí, de muerte y de coñac
que moja su cola en el mar.
sexta-feira, 22 de maio de 2009
Vivo
Está vivo e dele se espera algo mais
ímpar sem alinhos de prumo
ímpeto de touro embravecido
nas escritas fortes em caligrafia
caudalosa de gritos e arrepios
vivo até ao último dia
sem medo da cicatriz diagonal
do esquerdo lugar da frente
ao sinal mais longo na virilha
vivo e absoluto em qualquer cruz
como o surdo que compunha sinfonias
como um cego entre as bombas de Hiroshima
como os cascos do cavalo nos infernos de Guernica
vivo e sanguíneo
rasgando o ventre dos bosques
as raízes invasivas de rotinas
vivo e resistente
nas tempestades brutas
nas marés vivas das razias
vivo e revolto
como a raiva das águas
que destrói as rochas teimosas
altivas duras
na força de espumas brancas
às ínfimas partículas
areias miméticas de vazios
vivo e dele se espera algo mais
os espirros a gripe
o catarro
a doença benigna
a pandemia das ideias
nos mastros contemplativos.
ímpar sem alinhos de prumo
ímpeto de touro embravecido
nas escritas fortes em caligrafia
caudalosa de gritos e arrepios
vivo até ao último dia
sem medo da cicatriz diagonal
do esquerdo lugar da frente
ao sinal mais longo na virilha
vivo e absoluto em qualquer cruz
como o surdo que compunha sinfonias
como um cego entre as bombas de Hiroshima
como os cascos do cavalo nos infernos de Guernica
vivo e sanguíneo
rasgando o ventre dos bosques
as raízes invasivas de rotinas
vivo e resistente
nas tempestades brutas
nas marés vivas das razias
vivo e revolto
como a raiva das águas
que destrói as rochas teimosas
altivas duras
na força de espumas brancas
às ínfimas partículas
areias miméticas de vazios
vivo e dele se espera algo mais
os espirros a gripe
o catarro
a doença benigna
a pandemia das ideias
nos mastros contemplativos.
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