domingo, 30 de novembro de 2008

Tigre de Ouro

Tigre de Ouro


"O único mistério é haver alguém que pense no mistério"
Fernando Pessoa



Lorde protector: Escrevo-te para dizer que os teus castigos não chegam aos calcanhares dos humanos.
Desculpa a sinceridade mas tenho todos os homens dentro de mim, todos eles dizem que:

Os teus prazeres são tão pequenos, as tuas frutas e flores não produzem drogas suficientemente fortes - precisam de ser modificadas pelo homem para provocar alucinações verdadeiras
E as plantas e as plantas...


O azul do céu mete-me nojo, – Tal como Papini toda a natureza me mete nojo
Esvaziem o Atlântico de mar e encham-no de lobos - Que todo o mar uive -
Que todo o mar chore - As plantas - usem-nas para enforcar os poetas e que Ovídeo


De todas as figuras de estilo a hipérbole é a que menos me enoja …
Tal como Zaratrusta tenho medo de me partir ao meio,



E Não viverei tempo suficiente para ver a musa de Clio a fritar as pernas aos historiadores pouco metódicos, antes disso arrebento de tanto acreditar no Homem

Tal como Galctus a minha fome não se sacia nem com uma galáxia inteira, principalmente depois de saber que dois corpos nunca se tocam…

E para quê O mito do eterno retorno
Se amanhã voltará a haver rojões à portuguesa?

não descansarei enquanto não for inventada uma cadeira eléctrica que aproveite o uso das marés para produzir um choque tão forte e intenso que nunca mate - mas que frite lentamente - durante mil anos - Os corações dos poetas atirem-nos aos porcos
e com os seus versos embrulhem as bolas de berlim

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Amo a inutilidade - A desintegração --- tudo que é inútil me excita violentamente

Estou triste tristíssima - por não ser a Suécia inteira
e choro lágrimas de sal que chovem sobre Copenhaga - Tapo o Sol com as minhas mãos de nuvem e trago a tristeza ao mundo...


Amo-te por seres incompleto LORDE - Por ter de ser o homem a criar-te!
Ele - Quem - Onde? - Foda-se amo-te mesmo! Tal como Sarah Kane -
amo-te mesmo - amo-te mesmo - amo-te mesmo Foda-se...


Violeta de Gand, 2008

O que há num nome?

"what's in a name?"
(William Shakespeare, Romeo and Juliet)
O que há num nome?

Beleza, matéria, poema em verso
Feito de todas as partículas do Universo
Por que chamar, a que apontar
O que tocar, por quem chorar.

Caleidoscópio, borboleta, magnólia
Uma canção que ecoa no interior
A palavra saboreada como arte
O nome de alguém para depois chamar amor.

Os grandes nomes da História
Gravados nas armas da pedra secular
Numa vénia nos dobramos a honrar
Ou lutamos, questionando sua glória.

Mas os nomes e o sangue: tudo parece pesar!
Seja rei ou marinheiro feito ao mar
Dizem que herdamos das estrelas nossas veias
Que o passado nos apanha em suas teias.

Nome, estirpe, marcação de um ponto
Porto seguro, amor despido, protecção
Ou será grade, fenda, muralha, subtil prisão,
Tentáculos de polvo, estranhos num encontro?

Como Capuletos e Montecchios: são dois nomes!
E assim se dividem sempre as gentes
E as almas onde ficam? Uma voz a perguntar
Se “Toda essa gente já desapareceu, nem uma para semente.”

Capuletos e Montecchios são dois nomes
Em duas almas a querer se transformar
E são tudo, laços, destino, noite, alvorada
São nomes, são tudo e não são nada.

sábado, 29 de novembro de 2008

sem nomes paralelos


Matisse

..........................."What's in a name"
........................................Romeo and Juliet


não tive cão só gatos -

que ronronam pelos colos lentos
descolados de pestanas
envolvidos de novelos
e que em lambidos cor de rosa
alisam mimos macios pêlos -

não tive cão só gatos -

que saltam muros e telhados
na elegância única felina
de dorsos de montanha
e que em uivos cativos
afiam as garras nos gemidos
das cascas, árvores inscritas
dentro das casas, nos sofás
e em festas de patas descuidadas -

não tive cão só gatos

em brincadeiras de iguais
rolando pelas carpetes
levantando-se como setas
e ficando parados, estudiosos
olhos de lente, orelhas de pedra lascada
focos e faróis
sempre alerta nos sinais -

não tive cão só gatos

história antiga junto ao mar
numa tenda prisma azul;
entre árvores de pinhão
e a fuga de segredo
numa praia de Verão:

"Adidas" de calções e "Kini" perdendo o "bi"
às flores
azuis, amarelas, laranja
e melão às fatias no sumo da manhã
sem toalha nem mesa
onde migalhas sem pressa
planavam até às relvas do chão -
muito depois do meio-dia
o fogareiro a gás entrava na dança
no vapor constante
de uma dura depois mole massa fina
e saladas vegetais
de alface e baldroegas
originais, puras, no rodízio
das palavras, dos carinhos
das metades, em cima, em cima
em baixo, em baixo, de lado
ao lado, adornadas numa crista
de estrelícias, rosas livres de espinhos
aromas silvestres
desafios tacteados de sentidos
sem nomes paralelos,linhas coincidentes -

não tive cão só gatos

delicados no desvio de obstáculos
no cimo dos móveis, contornando os retratos
as molduras dos fatos
vestidos longos, bigodes fartos
e nas portas das casas, nos jardins
ou em baptismos de toucas e laços
rendas largas -

não tive cão só gatos

encontrei-os ao Domingo.
na base alteada de raízes
um pouco de cartão canelado
dois nados perdidos de mãe
fracos, aflitos no miado
um de branco uma de selva
e ambos gémeos no tamanho.
salvou-os o "Corsa" castanho
de aileron e o mini-biberon
de tetina dourada -

ele e ela, os dois, sem nome -

não tive cão só gatos -

ao pôr-do-sol do último dia
sairam os pregos do pinhal
caiu o pano impermeável
ficando oculto o rádio portátil
no interior, pendurado -

anos depois
cresceram os gatos, ele e ela
juntaram mochilas, ele e ela
roubaram os nomes à peça antiga
e houve mais gatos, dele e dela -

não tive cão só gatos -

desceu o pano, sentou-se o ponto
fugiu a cena no teatro sem nome
de uma cidade anónima onde se estende a manta

e os retalhos da memória -

josé ferreira

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Nesse lugar especial

Tenho nome de princesa
quando me chamas
e sabor a ambrósia
quando me provas
sou o mais frágil cristal
quando me tocas
e a essência mais rara
quando respiras
sou poderosa Circe
quando me enfeitiças
e o mais doce bago
quando me beijas

...mas na tua ausência torno-me eclipse.

Guardei uma praia no fundo de um frasco de vidro com tampa

A praia pegou fogo
O sol deixou o céu azul
Alaranjado
As chamas de fim de tarde
Pintaram o areal.

O mar cantou uma canção para mim
Dancei com as ondas
Embalada pelas marés.

Mergulhei com as baleias brancas
Flutuei com as algas
Hesitando
Entre o destino da areia
Certo
E a linha do horizonte
Ao fundo
Onde se escondem as sereias e os capitães
Outras praias e outras coisas
Que não vejo.

Quis agarrar o momento
Como se faz a um punhado de areia nas mãos
Mas desfazia-se, todas as vezes,
Como a espuma que quebra nos rochedos
E desaparece
Como só num sonho pode ser.

Mas eu teimei.
Trouxe o salitre
Agarrado à minha pele
Trouxe o tom doirado
Dos raios límpidos da tarde
Do sol que me aqueceu a infância.

Trouxe os pedaços das conchas
Que o mar esculpiu
E búzios
Para me cantarem a canção do mar
Junto ao ouvido
Nas tardes longas e húmidas
Do Inverno da minha vida.

Guardei pedaços de uma praia
No fundo de um frasco de vidro.
E tapei-o.

Mas as coisas nunca são como as sentimos.

Na praia deixei,
Espalhados,
Restos de mim.

Por entre os cactos nas dunas,
Na ponta do anzol
Dos pescadores
Que se abrigam nas rochas,
Nas pegadas da areia
Que o mar escondeu,
No voo das gaivotas
Assustadas,
Em cada pôr-do-sol,
No riso das crianças,
No fundo de um balde
De caranguejos, lapas e mexilhões.

A vida é feita de pedaços.
De papel
De palavras
De pessoas
De encontros e desencontros
De música, vento e sal
De outras coisas
De lugares
De uma praia como esta.

Deixei o meu coração na praia
Que chorou por mim
No orvalho das manhãs frias e distantes.

Guardei a praia num frasco
Para não me perder de mim.

Por vezes,
Olho-a na estante,
Apertada no vidro do frasco com tampa,
Mas não me encontro.

É que afinal:
Mergulhei,
Agarrei,
Trouxe pedaços da praia comigo
Que guardei no fundo de um frasco de vidro com tampa,
Mas deixei lá
Nessa praia
Fragmentos de mim
Também.

É na linha do horizonte
De um céu rosado de final de tarde
Que estão guardados
Todos os sonhos da minha alma.

Elza

Obrigada Nuno, o outro, e Raquel, e José, e afinal, também, todos os outros poetas deste blog, por me terem inspirado a "poesiar" sobre um "lugar especial" muito meu. Obrigada Ana Luisa por ser o grande motor deste grupo de poetas e projecto de poetas e, sobretudo, de ensinar, e de ensinar a descobrir! (Ponto de exclamação, sem dúvida, e reticências, mas só imaginárias, para mim, por tudo aquilo que gostaria de escrever, mas fica ainda por dizer.)

Lugares Especiais

Olá a todos. Foi inaugurada uma nova etiqueta - ou, se quisermos, um novo tema - que surgiu de um desafio que o Nuno colocou no espaço de comentário ao seu poema "Um outro olhar... (7)". O convite é muito bonito e diz assim:
«Hoje, antes de regressar "ao asfalto", lembrei-me deste "lugar especial" onde tenho de ir mais vezes. A propósito, este também é um tema interessante. Quais são os vossos "lugares especiais"? Que escreveram acerca deles? Fica o desafio...»
Eu já respondi! E para todos os que queiram embarcar é só usar a etiqueta 'Lugares Especiais', para que possamos todos visitar os lugares especiais uns dos outros.
Até breve,

Raquel Patriarca
vinteeoito.novembro.doismileoito

Eu Estive Lá

eu estive lá, toquei e cheirei…
o planalto de Gizé, as ilhas do Pacífico, o cume do Everest, o deserto do Saára, as margens do Amazonas e do Mississipi, o Pólo Sul, o Jardim do Éden, a Terra Média, a Lua…

eu conheci…
Platão, Cleópatra, Gagarin, o Papa Bórgia, o Rei Artur, Alexandre Magno, a Madre Teresa, Romeu e Julieta, D. Quixote, Sherlock Holmes, Harry Potter…

eu vi, eu senti…
a Cidade de Deus de Santo Agostinho, os Astros de Galileu, a Monalisa de Da Vinci, a Nona do Bethoven, a Utopia de Thomas Morus, a estratégia de Maquiavel, o Beijo de Klimt, o Nome da Rosa de Umberto Eco…

eu vivi, eu chorei e ri…eu li…


Raquel Patriarca

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Poeta ausente poema ao lado

Ontem acordei a meio da noite (4hOO) com algumas frases na cabeça.
Não consegui adormecer com receio de as perder. Não sei se fiz bem
ou mal, mas surgiu este poema como dedicatória à nossa escrita criativa,
e a todos vós com a nossa "Prezada Mestra"... Amiga ( não resisti
a pôr umas reticências! ), aqui vai ele:



Poeta ausente poema ao lado



Dissecar. Abrir o poema.
Os versos despidos.

O autor presente.
A procura de caminhos da Nascente
entre fragas e salgueiros, a água
corrente, degelo estalado, caldo
e as gotas do orvalho no acordar
da manhã, estremunhado.

O poeta ao lado.
As letras, metáforas, suspensão
parada de segundos e de novo
vários eles descendo a encosta,
passando junto à casa de tábuas
sem portas; a escada por fora
janelas na entrada.

Alguém diz: - São mais bonitos
os cadernos, as argolas mais a
jeito. Não há quadriculado.
Brancas as folhas, os poetas.
Lembram-se: A Tabacaria.

O poema ao lado.
Aliviado. O poeta diz:"- Não é
costume desmontá-lo."mas tenta-se,
desfia-se, desaperta o cordão
assenta as emendas nas linhas,
"âncora",alisa a renda,caricia
o bordado.

O poeta revelado.
Aguém se acomoda, foge a cadeira,
o guizo dos ruídos interrompe o
juízo. A sala é de ideias régias
a mesa oval,na pintura da parede
desvela-se um pedaço de tela,
a falha no óleo granizado.

E o poeta alheado.
Olha para o chão, escuta, procura,
a ínfima partícula, a premonição:
não ter usado a palavra certa;
a estrofe manca, a ideia fraca,
as reticências, um ponto final.


A vela acesa.

Não é távola nem redonda, mas há quem mande.
Não há malhas, nem elmos, nem espadas.Os
cadernos, as canetas, nas mãos ao lado
e os espaços brancos das palavras moças.

Dez mais dez
ouvidos pendurados, no elevador dos guardanapos;
sobem e descem nos lábios dos versos,
à mesa dos poetas.

E ele ausente.
Guardando um pouco o segredo,
da musa e da semente!

Quem pode livre ser, gentil Senhora

Quem pode livre ser, gentil Senhora,
Vendo-vos com juízo sossegado,
Sabei que por vós fico assustado,
E preso estou desde a primeira hora.

A vida não é como era outrora,
Vivia descontente e enganado,
Tudo mudou, nada é tão cerceado,
Quero ter-vos comigo sem demora.

Vinde sem medo, vinde, meu amor,
Fuja, pois, de vós a sagacidade,
E vinde endoidecer-me o meu calor.

Ser preso é ser livre, é a verdade,
Do amor tão dual a que vos chamo,
Sede, amor, razão em liberdade.

Elza*José Almeida da Silva*Raquel
26.novembro.2008

The Patriarch

"what’s in a name?"
William Shakespeare, in "Romeo and Juliet" (c. 1595)


Some signs, a word, a sound
A context in which I’m found

One framed photograph in shades of black and white
The endless singing embrace on a long feverish night

Grey hair gently divided by a thin comb
Wide opened arms, welcoming me home

Caring eyes, deep and wise, looking after me
Feeding the present with their far memory

Heavy, holy like, lines across a familiar face
Meandering map roads pointing to this one place

A big cold stone where I sit and watch the trees
Voids that hurt so I curl up and hold my knees

A learnt by heart book of incredible stories
A newborn hope for great and future glories

Unspoken thoughts in a glance shared with others
The witnesses of my life: my sisters, my brothers

A root, a roof, a race. A sea world wide long
Breaking on the shore where I feel I belong

Unified as an infantry army, protective as the wolf’s pack
A gang that will always take me, unconditionally, back

One collective soul and one state of mind
Divided in parts we can all secretly find

This is my name, this is my ground
The life’s concept to which I’m bound


R. Patriarca
twentyseven.november.twothousandandeight

Poesia no Café Progresso




quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Trabalho em grupo

Deram-nos o fim, procurámos a história de verso,
de reverso e ao inverso.
Afinal eram dois e não só um e o resultado
foi assim:


I

O diário de bordo

Não havia qualquer razão para viajar.
A cidade asfixia.
No meio do mar não há fumos
apenas a clarabóia do céu límpido
e as memórias
da semana antecedente.

Ficaste do outro lado das ondas
nos limites da praia.
Fecho os olhos vejo o cais
na despedida lenta,
o rosto de pomba,
o vestido a regressar.

De volta ao convés, reabro
o diário de bordo. E o barco
continua parado
no oceano sem porto.



II


Olhar nas janelas


Vida chata esta!
Estação negra das baratas;
bicho feio!

Milhares de gente
carregando farneis,
nos sacos, nas cestas,
nos gritos desalmados
das almas pequenas
de poucas razões.

Não quero os lugares,
as vozes múltiplas.
Antes o vazio do assento.
Ser, de olhar nas janelas,
saltimbanco de olhos vendados,
sem vara e sem cautelas,
o comboio e nós dentro.


António e José

Desculpem o atraso!

No interior do meu peito
despeço-me do que
o meu amor não tem.

Até a voz do mar se torna exílio
neste momento em que me deixas dormindo
recusando o que é desfeito,
o que é passado de tão partido.

Partes sem dar importância nenhuma
à porta que se fecha, ao livro esquecido,
à cama que morre muda
na imensidão de lençóis perdidos.

O meu olhar é como um girassol
plantado nas tuas costas nuas
e a luz que nos rodeia é como grades
prendendo-me onde me não escutas.

[Nunca são as coisas mais simples que acontecem
quando as esperamos.]

Um outro olhar...(7)


“a praia do molhe…”

seria uma praia como outra qualquer
se não fosse a minha praia
aquele lugar especial
aquele lugar que não esquecemos nunca

seria uma praia como outra qualquer
se não tivesse sido aqui que cresci
e aprendi a gostar das pequeninas coisas da vida
olhar para o sol de inverno, molhar os pés na água fria

seria uma praia como outra qualquer
se não fosse aqui que eu volto sempre
para chorar ou para rir
para sonhar ou simplesmente para estar

seria uma praia como outra qualquer
se não fosse a minha praia
aquele lugar especial onde eu volto sempre
para recordar

seria uma praia como outra qualquer

PEDIDO DE DESCULPAS (e bem-hajam)

Antes de mais nada, quero dizer:

Bem-vindas e bem-vindos à nova edição do Curso de Escrita Criativa! E o meu abraço. A quem não pôde vir, mas está aqui no blogue, na alegria da escrita e da partilha, e para sempre na minha memória, o meu abraço também!

Depois, dizer ainda:

Peço muita desculpa por não ter feito comentários aos trabalhos, mas tenho estado doente. Vou tentar fazê-lo amanhã, se conseguir, mas tenho um dia complicado... Se não me for possível, imprimo os textos e falamos sobre eles na primeira meia hora.

Bem-vindos a uns, pois. Bem-permaneçam aos outros. E a todos e todas: bem-hajam!

Outro abraço,

ana luísa