Foi como se não tivesse aprendido que não volto, deixei rasgar-me, e levantei-me todos os dias por não querer sentir quase nada.
Por terra queria deixar a mágoa, queria também viver.
Icei
as velas do que tinha, pareceu pouco. Mas houve quem me disse ter tudo,
quem me ama. E que me perdoem ter sido eu cruel, tentarei depois
resgatar alegria para a partilhar, pois, larguei-me a deriva. Lancei-me à
tempestade.
E era, é, navegar sem destino no
deserto do mar. Aí eu senti quase tudo, até não ter palavras. Os dias
foram noites, as noites claras como dias.
Foi
como fome. Da dor, essa lâmina, sobrou sofrer. Às vezes disse, Que puta
de vida. Não foi bonito, por tudo que deixou de ser bonito. Também não
houve qualquer distorção.
E das vezes que
chegara a ânsia de dias claros, de terra firma sob os pés, vinham também
palavras à cabeça, palavras que me ditaram mal. Tenho eu de afastar
certas palavras todos os dias, estou completamente só. A solidão não faz
bem, ela só pode ser uma passagem.
Tem de
haver a serra onde viver, por onde andar descalça sobre chão de terra,
sobre chão de erva. Fazer fogueira com as tábuas, do barco partido onde
correm águas do mar.
E só estou eu, para as
compor enquanto tento que passe a saudade do bater do meu coração
tranquilo. Caí no logro por isso esta horrível parte da viagem, a saber
que é melhor não estar ninguém.
Que quero eu
chegar, meu corpo largar o barco, a nado alcançar a praia, subir a
serra. Desejo o calor da fogueira, gente que festeja à volta. Honrar a
terra, que sou terra, para depois adormecer e acordar abraçada a quem de
ser generoso.
Já estou eu... partida,
largada, fugida! Por sorte não volta. Nem sei se chegará, mas dá-me
tempo para conseguir seguir comigo em frente. Ainda sinto a
contrariedade de não querer que estas últimas palavras sejam verdade.
Ainda estou no barco, e confio que esteja só e apenas por mais algum
tempo.
("dou" este escrito ao Zémanel, claro!)
quarta-feira, 3 de outubro de 2012
domingo, 30 de setembro de 2012
De ironias
De ironias
É que no mundo das aparências... que é o mundo em geral!
Umas vezes se passa por ser a melhor pessoa;
outras, pela pior... isto na maior parte do tempo!
Vão reciclando.
E pondo de um lado os que falam, e do outro quem é falado,
como acha que foi quem é falado?
Quando do outro lado estava, desse onde ninguém é meigo (depois inofensivos se acham), onde afirmam tanto ter razão, mas escondem a cara o melhor que podem se sozinhos;
e ainda, onde cada um, achará que terá cuidado, e nunca passará a ser falado!
É extraordinário pensar ser-se assim tão especial...
assim como a surpresa de como foi possível, ser a mim que chamou caprichosa!
Adeus.
quinta-feira, 27 de setembro de 2012
só as árvores sabem
Felix Mas
os raios de sol de novo sobre a testa e as palavras.
o outono entrou pela chuva e espalhou as folhas.
mas há luminosidades
os teus olhos, os teus lábios –
escrevo-te na mágoa da ausência
na página branca
através de dedos coloridos e tinta permanente
e escrevo-te para
construir a seiva, sempre
para que ela circule e se liberte
na expansão mais célebre –
só os ouvidos das estátuas, sabem
só os versos quando escritos, sabem
só as músicas , sabem
só as cores espalhadas nas mesmas margens, sabem
só as árvores, só as árvores
sabem –
A Mulher
Matisse
Se é clara a luz desta vermelha margem
é porque dela se ergue uma figura nua
e o silêncio é recente e todavia antigo
enquanto se penteia na sombra da folhagem.
Que longe é ver tão perto o centro da frescura
e as linhas calmas e as brisas sossegadas!
O que ela pensa é só vagar, um ser só espaço
que no umbigo principia e fulge em transparência.
Numa deriva imóvel, o seu hálito é o tempo
que em espiral circula ao ritmo da origem.
Ela é a amante que concebe o ser no seu ouvido, na corola
do vento. Osmose branca, embriaguez vertiginosa.
O seu sorriso é a distância fluida, a subtileza do ar.
Quase dorme no suave clamor e se dissipa
e nasce do esquecimento como um sopro indivisível.
António Ramos Rosa, in "Volante Verde" lido aqui
Se é clara a luz desta vermelha margem
é porque dela se ergue uma figura nua
e o silêncio é recente e todavia antigo
enquanto se penteia na sombra da folhagem.
Que longe é ver tão perto o centro da frescura
e as linhas calmas e as brisas sossegadas!
O que ela pensa é só vagar, um ser só espaço
que no umbigo principia e fulge em transparência.
Numa deriva imóvel, o seu hálito é o tempo
que em espiral circula ao ritmo da origem.
Ela é a amante que concebe o ser no seu ouvido, na corola
do vento. Osmose branca, embriaguez vertiginosa.
O seu sorriso é a distância fluida, a subtileza do ar.
Quase dorme no suave clamor e se dissipa
e nasce do esquecimento como um sopro indivisível.
António Ramos Rosa, in "Volante Verde" lido aqui
terça-feira, 25 de setembro de 2012
o urgente azul
Felix Mas
é urgente
fazer crescer os
braços de uma árvore para te abraçar os cabelos
é urgente
uma girândola de aromas
a árvore e os cabelos
as flores brancas de Trás os Montes é urgente
é urgente
fazer crescer
cogumelos tão altos que se tornem seguros
um tronco alto e macio, é urgente
para proteger das poeiras e não fechar o paraíso é urgente
o céu, a lua e a incandescência das estrelas é urgente –
é urgente a urgência de navegar no lado esquerdo –
terça-feira, 18 de setembro de 2012
o frágil vidro
por vezes
pelo interstício das células faz-se o caminho
como se colocasses os pés dentro de água, impermeável
ao líquido e à escama que desliza –
a cidade não te surge como destino.
por vezes, a cidade é
uma rua deserta
não tem qualquer significado
quando caminhas sozinho –
há um banco no jardim do universo
há uma física emoldurada de tílias
há um horizonte que se constrói na planície do sonho
e uma realidade difícil
que se ultrapassa todos os dias.
sempre que a parede, muro, líquen ou vidro
se ergue como a Babel do incompreensível
procura o fio, a curiosidade de descobrir o infinito
procura o linho, a mão unida, a sede dos olhos
a luz no caminho
há sempre uma saída –
josé ferreira 18 de setembro 2012
sexta-feira, 14 de setembro de 2012
luas,marfins, instrumentos e rosas
El enamorado
Lunas, marfiles, instrumentos, rosas,
lámparas y la línea de Durero,
las nueve cifras y el cambiante cero,
debo fingir que existen esas cosas.
Debo fingir que en el pasado fueron
Persépolis y Roma y que una arena
sutil midió la suerte de la almena
que los siglos de hierro deshicieron.
Debo fingir las armas y la pira
de la epopeya y los pesados mares
que roen de la tierra los pilares.
Debo fingir que hay otros. Es mentira.
Sólo tú eres. Tú, mi desventura
y mi ventura, inagotable y pura.
Luas, marfins, instrumentos e rosas,
Traços de Dürer, lampiões austeros,
Traços de Dürer, lampiões austeros,
Nove algarismos e o cambiante zero,
Devo fingir que existem essas coisas.
Fingir que no passado aconteceram
Persópolis e Roma e que uma areia
Subtil mediu a sorte dessa ameia
Que os séculos de ferro desfizeram.
Devo fingir as armas e a pira
Da epopeia e os pesados mares
Que corroem da terra os vãos pilares.
Devo fingir que há outros. É mentira.
Só tu existes. Minha desventura,
Minha ventura, inesgotável, pura.
Devo fingir que existem essas coisas.
Fingir que no passado aconteceram
Persópolis e Roma e que uma areia
Subtil mediu a sorte dessa ameia
Que os séculos de ferro desfizeram.
Devo fingir as armas e a pira
Da epopeia e os pesados mares
Que corroem da terra os vãos pilares.
Devo fingir que há outros. É mentira.
Só tu existes. Minha desventura,
Minha ventura, inesgotável, pura.
Jorge Luís Borges
segunda-feira, 10 de setembro de 2012
azul
Matisse Le Cirque 1947
"Cheirava a maresia e a fruta.
Longas músicas pareciam suspensas das árvores e das estrelas.
E entre as casas brancas, na noite escura e azul, passava o rolar do mar."
Sophia Mello Breyner Andresen
azul, sempre azul, digo-te
como num circo de Matisse
ou numa fantasia de Chagall;
onde os peixes podem ter asas
onde a lua sabe tocar guitarra
e onde em vez de sapatos posso ter crina e ser um cavalo
que te leve no dorso nu pelas descobertas
pelos lugares e não lugares do mundo
pelos prados virgens e pelas paisagens imprevisíveis do sonho:
o sonho azul, inteiro, sem fragmentos
que faça esquecer todos os medos –
azul, sempre azul, digo-te
para que o céu exista nos ponteiros soltos do relógio
para que as estrelas sejam reais no espelho das faces
e queimem as mãos com a pele que arde
nessa pressa dolorosa do amor que não esmorece
e acontece de cada vez mais para se tornar maior –
e acontece
como células brilhantes que se acrescem
para serem enormes e únicas, de seda, sede e febre
para que se tornem doença, doce vício e urgência
a boa urgência e o sossego –
azul, sempre azul, digo-te
como o flamejante álcool de um laboratório
que flutua e inebria na destilação dos fluidos mais leves
para que as temperaturas evidenciem as essências
e ciciem poemas na ebulição mais importante –
azul, sempre azul, digo-te
com os braços distendidos e a galope
até que o mar nos leve juntos pela praias de Sofia –
josé ferreira
Marc Chagall Le Cirque Bleu 1950
sexta-feira, 7 de setembro de 2012
Em cuidado de vós
não vos debruceis nessa varanda
que é pouco segura a cascata de ferro
a tremer até ao Douro
olhai bem este sítios queridos
vede-os com derradeiro olhar
em copas de tormento tomai
o que de chão vos restar
que nesta rua não há baloiço
que não vos lance em alto mar
cinco janelas, cinco cavaleiros
a cavalo em gaivotas que relincham
levam esta carta à minha infância
e todos espreitam na rua
o candor que nela vai bordado:
o teu olhar de baloiço à janela
que outrora embalava a cidade ao meu lado
aqui regresso
em vela caída que chama
a fruta demasiado doce à mercearia
e ao rio a verdade que resvala na rua
segura em aperto de mãos
entre bons dias e passadas suspensas à noite
como o violino de uma criança
que vencesse o carrilhão dos Clérigos
ou o Outono que abandonaste
debruçado em mim até ao mar
em cuidado de vós
não quereis ser desta rua sem o serdes
que não há verdes em equilíbrio
que aqui não tombem
em murmúrio de nevoeiro quando há luar
por aqui passai de um verso a outro
como um soldado de chumbo
sem hesitar, cantai aos cavaleiros
e bailai com as gaivotas sobre o gelo
mas não pouseis, visitante, com elas
que asas não vos chegarão para levantar
a mim deixai-me quieta
que o tempo agora é este:
uma rua inclinada para as tuas mãos
(Virtudes)
quinta-feira, 6 de setembro de 2012
da importância das rosas
Salvador Dali
quando o nascer do dia proíbe o belo, procuro a molécula invisível
e habito junto do sonho, no aroma das rosas, no travo da hortelã
na cor redonda dos mirtilos –
sinto nas pestanas o vento, a sua volatilidade de mãos perfeitas
e sopro versos em ondas etéreas
para que viagem distâncias
para que se tornem poemas
para que ganhem olhos, asas e lábios
e falem sem cessar, como um papagaio das arábias
junto da curvatura da face, das rosáceas do rosto –
e embora acordado na buzina da cidade, sou imune
podem atravessar-me obuses e o cabelo é leve
leve como a mais leve das plumas -
e sei que é Setembro, o mês das vindimas
o mês de bagos doces no brilho solar das encostas -
e sei que é Setembro, e conto-te da importância das rosas
das brancas e de todas as cores, que não são cinzentas
e são aromas, de abelhas e borboletas –
e sei que é Setembro, o mês dos poetas
e falo sem cessar do belo das corolas, do seu ardor vermelho
da sua possibilidade e do seu espelho –
josé ferreira 5 Setembro 2012
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
Setembro - o bom mês dos poetas
ouço o mar, ouço as ondas, recuso as más notícias de Setembro
procuro o belo e repito como já disse antes:
o bom mês dos poetas, faz quatro anos
o bom mês dos poetas
sempre –
josé ferreira 5 de setembro 2012
sexta-feira, 31 de agosto de 2012
Hora - um poema de Sophia
Sinto que hoje novamente embarco Para as grandes aventuras, Passam no ar palavras obscuras E o meu desejo canta --- por isso marco Nos meus sentidos a imagem desta hora. Sonoro e profundo Aquele mundo Que eu sonhara e perdera Espera O peso dos meus gestos. E dormem mil gestos nos meus dedos. Desligadas dos círculos funestos Das mentiras alheias, Finalmente solitárias, As minhas mãos estão cheias De expectativa e de segredos Como os negros arvoredos Que baloiçam na noite murmurando. Ao longe por mim oiço chamando A voz das coisas que eu sei amar. E de novo caminho para o mar.
Sophia de Mello Breyner Andresen (lido aqui)
quarta-feira, 29 de agosto de 2012
nunca te disse o que penso do crepúsculo
William Turner
há um tempo para se ser diferente.
não sabemos de todas as iluminuras do sol
e quando surge o arco-íris o céu é uma fantasia..
a manhã não se revela, está coberta de neblina como um dia
do Tamisa
e os olhos caiem sobre as montras como se fossem paisagens
não o vidro duro de fronteiras, não um lugar de objectos
vê-se ao longe o verde de uma planície -
ao teu lado esquerdo pergunto se escutas os mesmos sons
o correr de águas pelas fragas lisas
ao teu lado direito se
escutas os mesmos pássaros de asas esticadas
e os patos de corpo pesado e voo atrapalhado
pergunto ao centro se nos teus olhos também não há um horizonte
que se estende e se descobre pelos segundos que surgem
que habitam e se desenvolvem cheios de raízes
numa aura luminosa e perceptível -
pergunto se sentes um chão de areia na calçada
com os pés abertos, de cinco dedos de cada lado
apesar da montra que existe e não existe
como argumento e intervalo -
pergunto se imaginas do mesmo modo as praias vazias
um envelope de maresias
e ruídos
uma carta escrita para viajar por cima
e se vês ao longe o mar na recorrência imparável das ondas
na cor branca e nos limos verdes
pergunto se vês as crinas de energia nos reflexos da superfície
e se sentes o calor no pedestal da nuca
na manhã que é manhã e quando não há crepúsculo
nunca te disse o que penso do crepúsculo
é uma aguarela de Turner para lembrar mudanças
na infinitude das águas salgadas
são segredos sussurrados de cores escondidas
na ondulação de palavras
que não se entendem, não se vêem
mas dizem, dizem numa voz que é modulada de harmonias
na explosão da cor, dizem
dizem, plenas no significado que conduz para além das fronteiras
para além dos vidros e das fogueiras de pratas e platinas
para além do ouro humano, para além do ouro perecível
que há alma e almas que voam leves
até à planície dos sentidos-
o crepúsculo como linha no fundo do mar diz o que queremos ouvir.
como esta pluma que se imobiliza na manhã vestida de Tamisa
o crepúsculo diz, assim de surpresa e sem contar
como Turner dizia:
há um tempo para se ser diferente
mesmo que não saibas a hora, o dia e o lugar -
josé ferreira 28 agosto 2012
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
A criança que pensa em fadas
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