sexta-feira, 9 de março de 2012

Amor é olhar total - um poema de Fiamma Pais Hasse Brandão


Anna Karina (de um filme de Godard)

Amor é olhar total, que nunca pode
ser cantado nos poemas ou na música,
porque é tão-só próprio e bastante,
em si mesmo absoluto táctil,
que me cega, como a chuva cai
na minha cara, de faces nuas,
oferecidas sempre apenas à água.




Fiamma Hasse Pais Brandão "Elegíacos"

um sonho de Guillaume Apollinaire


Guillaume Apollinaire


um dia claro como as águas de um riacho de Coimbra
pela quinta sem lágrimas, pelos lugares secretos dos limbos
onde serás sempre ninfa –
a ilusão é uma pedra de cristal, faces que se multiplicam
brilhos, uma pequena mancha de um incêndio de sol
nos cantos do caderno e as linhas longas –
as palavras substância e os néctares de Mercúrio
o deus das asas, o mensageiro de um rio
que se lança sobre os espelhos das árvores
pelo chapéu das margens onde se sentam os pássaros
e os ramos tocam em cordas grandes, liras gigantes –

de que poderei falar agora quando cessa a luz e surge a lua branca?
talvez de Guillaume depois de Baudelaire
talvez dos poemas mais permanentes de Paul Eluard
talvez de uma filosofia de razão para equilibrar
talvez de músicas roucas e pensamentos profundos
talvez de carumas antigas e sandes nas costas dos pinheiros
talvez do mar, sim, talvez do mar –

mas são apenas fumos, aromas de ópios, incensos
olhares de lado, o soçobrar do desejo
a tarefa impossível de segurar as águas e separar o sal –

quando depois de um dia longo surge a lua branca
fechamos as janelas devagar, percorremos as garças
os rolos de linhas nas cortinas de renda
e todas as portas estão fechadas –

fazemos de conta que vamos descansar;
os pijamas e as escovas de dentes
os passos elevados na leveza dos chinelos
um resto de páginas, uma marca
a mão três vezes na abertura da boca
e depois, puxamos a roupa,
puxamos a roupa como um peso de chumbo
um peso de chumbo sobre o cansaço dos ombros
e adormecemos, adormecemos –

adormecemos os sentidos mais visíveis, os mais recentes
porque dentro do sonho há pó de caminhos
corridas, olhos, braços, crinas selvagens
o corpo, o rosto e um chapéu de abas largas
Caminha, Espinho, Vigo, Santiago, terras de França
e uma tenda de campismo sempre junto de um riacho
sempre junto de um riacho

ouvem-se as palavras –

8 de Março 2012

quinta-feira, 8 de março de 2012

As Novas Cartas Portuguesas



Livro polémico e simbólico, publicado pela primeira vez em 1973, sobre a libertação feminina pelo qual Maria Teresa Horta haveria de ser agredida e insultada em plena via pública da cidade de Lisboa. ler mais sobre o livro e as autoras "As três Marias" aqui

As três marias - um poema para o dia da mulher



Chiara Rizzolo
Titolo: Virginia
Tecnica: digital art & photography
Dimensione: 50x50 cm

"Era uma Primavera irregular. O tempo em constante mudança punha nuvens azuis e purpúreas a voar sobre a Terra. No interior, agricultores olhavam, apreensivos, para os campos. Em Londres os guarda-chuvas eram abertos e depois fechados por pessoas que olhavam para o céu. Mas em Abril era de esperar um tempo assim."

Virginia Woolf "Os Anos"



1ªMARIA

Jovem Maria

Deslizo ainda junto de ti
encolhida nessa asa
onde a pele morena
de mão maior
me espaça os dedos
em ondas soltas
distendidas
na entrega louca-

Este Sol exterior no brilho ofusca
mas na redoma ainda sinto
o morno sopro de beijos
os sussurros e arrepios
num afagar de pomba
de bico escondido
onde me aninho -

Nesta rua não sou eu...
desprovida de sombras;
sete vezes mais leve
em cada passo levito...

Mas não te vendo
em cada minuto que passa
no desejo, na saudade,
sou a personagem aflita
no filme tremido,
na nitidez certa
de te querer
uma outra vez
à minha espera-

Maria Levita



2ª MARIA

Faz-se tarde Maria


Não gosto do olhar cinzento
quando me abraças ao fim do dia.
Procuro o sorriso distante
de fugidas de jardins
entre frases aos molhos,
gotas de orvalho frescas,
melodias de silêncios
entre copas e arbustos,
às escondidas curiosas
dos chapéus vigilantes -

Soltavas beijos em qualquer hora,
perseguias os aromas,
destruías rotinas no desafio
dos sentidos...
e agora onde páras, onde estás
meu amor das Primaveras-

Quero de novo os papéis queimados
de ornadas fantasias de poemas...
ser a musa, a deusa, a louca...
Onde estás?

Tenho a pressa e o desejo
de amores-perfeitos,
margaridas, dos jacintos
colhidos nos passeios
de Domingos,
entre raios de brilho,
relâmpagos de mar -

Porque não me vens de novo,
vestido de orquídeas, de sapatinhos verdes,
de rosas brancas, vermelhas, laranjas...
(antes que venha a noite),
visitar?

Não te quero assim -

Onde estás?... Onde estás?


Maria da Esperança



3ª MARIA

Memórias de Maria


Fecho o cesto de verga,
o vime da memória da tua ausência.
Não era p'ra ser assim
"Primeiro eu, só depois tu"
Mas dizias, afagando rugas:
"...espero por ti sentado
na manta de lã, quadrados azuis,
xadrez,
num relvado, junto a uma cesta
de flores... lá...
espero por ti
a meu lado..."

Saíste de mim neste mundo
Mas sei onde estás...
no outro lado do berço,
num baloiço, num embalo,
adormecido...
no Paraíso -

Guardo alegrias, consolos,
a companhia nos colos que
partilhámos...
Aqui...ainda és meu...
Ainda estás -

Não choro mais!

Maria do Céu



josé ferreira Outubro de 2008

quarta-feira, 7 de março de 2012

A partir de "O Regresso dos Caçadores"




No Inverno o rio transbordava, a chuva
e o sangue dos matadouros traziam-no
abundante desde a nascente. Não um rio
– disseram-me depois – um pequeno afluente
contido entre os muros das casas, vagando
a face impura dos campos e dos pátios, as artes
liquefeitas no clamor da intempérie
e os homens (essa voz
nidificada em cozinhas e colheitas, em papel
de paredes fechada, e apenas vagamente
familiar) abrindo caminho entre as águas
numa irmandade de súbito criada
à distância desamparada
de um eco

Como os séculos, os rios decorrem
sem culpa, com a estase do corvo pairando
O desastre nem sempre é distinto
dos vultos que brincam no gelo
e convergem, cúmplices, na inumana
paisagem

À revelia das mães, as crianças
desciam à rua para ver
o rio transbordar. O barro sem Deus
das bestas, a fluida forma
da morte tingia-lhes o calcanhar
e voltavam para casa
como os caçadores de Bruegel, o magro cadáver
da raposa ilustrando a culpa
doravante inscrita
em todos os postais de Natal

águas de março



caíram três pedras de chuva sobre as folhas da mesa .
preocupa-me o teu olhar sobre a inconsistência
a minha a tua a de sempre.
preocupa-me a tristeza de portas fechadas
as que sentem –
tenho escrito menos palavras sossegadas
menos poemas de natureza
aqueles que se debruçam sobre jarras transparentes;
um ramo de tulipas amarelas, grandes, belas, ainda presas
nos seus corpos pendentes, como sol e sobremesas
brilhantes, luminosas, belas, grandes, amarelas, ainda presas
recolhidas num campo imaginário, um lugar de simbolismos
embora adquiridas num fim de tarde
entre a compra de quatro iogurtes e um vinho rouge
na loja útil de um supermercado -

caíram três pedras de chuva sobre as folhas dispersas
criando borbulhas de celulose, brancas
que se levantam e deformam as letras, armando-as de sal
amando-as, um pouco antes de serem de novo planas
de novo exactas e exaustas, na solidez do tampo –

caíram três pedras de chuva sobre as folhas agora âmbar.
há um oceano de silêncio e em nenhum bar soam músicas de blues
teclas de trompetes, vozes roucas de Armstrong , pianos de Casablanca –

e é março, e as águas murmuram nomes –

josé ferreira 6 de Março 2012

terça-feira, 6 de março de 2012

Já alguém sentiu a loucura vestir de repente o nosso corpo - um poema de Almada Negreiros


Almada Negreiros "Figura de Mulher com pandeireta" 1938 daqui

Já alguém sentiu a loucura
vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objectos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parece ser o fim?
Exactamente.
Como o cavalo do soneto de Ângelo de Lima?
Tal e qual.
E depois mostrar-nos o que há-de vir
muito melhor do que está?
E dar-nos a cheirar uma cor
que nos faz seguir viagem
sem paragem
nem resignação?
E sentirmo-nos empurrados pelos rins
na aula de descer abismos
e fazer dos abismos descidas de recreio
e covas de encher novidade?
E de uns fazer gigantes
e de outros alienados?
E fazer frente ao impossível
atrevidamente
e ganhar-lhe, e ganhar-lhe
ao ponto do impossível ficar possível?
E quando tudo parece perfeito
poder-se ir ainda mais além?
E isto de desencantar vidas
aos que julgam que a vida é só uma?
E isto de haver sempre ainda mais uma maneira pra tudo?

Tu só, loucura, és capaz de transformar
o mundo tantas vezes quantas sejam as necessárias para olhos individuais.
Só tu és capaz de fazer que tenham razão
tantas razões que hão-de viver juntas.
Tudo, excepto tu, é rotina peganhenta.
Só tu tens asas para dar
a quem tas vier buscar.

Almada Negreiros

domingo, 4 de março de 2012

Nesta cadeira pálida


Fotografia retirada do The Guardian

Nesta cadeira pálida, livros cheios de folhas e um ruído de vento na janela;
Punhos de força, invisíveis, baques surdos -

Descreves os maus momentos e as repetições incessantes;
A obsessão das árvores, da lua, dos pássaros
Mas não atormentes os silêncios, os momentos parados sobre as asas da alma
Não será essa a faca nem a espada que corta os enigmas
De um castelo de torres agudas de onde saem morcegos
E pousam corvos nas noites mais escuras.
Não apoquentes os sonhos que estão mortos
E ergue a voz apenas pelos mais delinquentes
Aqueles que hão-de ser vivos

Os de raízes frágeis para serem grandes –

josé ferreira 4 Março 2012

A clara noite de verão - um poema de Fernando Pessoa




A clara noite de verão


Com penugem nos sentidos
De leve pousa e afaga, e não
Dorme mais

Novos, nos ensiraram a emoção,
Crescidos, aprendemos a verdade

Resultou

Débeis de mais para buscar o verdadeiro,
Frios de mais para encaixar o sentimento.

Fernando Pessoa
In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005

sexta-feira, 2 de março de 2012

Afogo no teu ombro - um poema de David Mourão Ferreira


Gabriel Rosseti 1880

Afogo no teu ombro
tudo o que não te digo
o pânico do sonho
o resplendor do risco

É de ti que me escondo
Em ti é que me afirmo
Antes de já ser ontem
sentir que estamos vivos


David Mourão Ferreira In O corpo iluminado

quando se sente a lua como um espaço aberto


Zhu Yiyong


quando se sente a lua como um espaço aberto
dentro das costelas flutuantes
sente-se a impropriedade do tempo –

as árvores estão sossegadas no passeio claro da luz de néon
afirmam linhas profundas , perpendiculares e cruzadas
onde se reunem os nossos pensamentos
como uma valsa de fevereiro de um modo diferente
que adia a chegada de um ombro
que adia o desejo de calar o nevoeiro –

o sorriso que guardo e as emoções dos violinos abrem o incêndio.
é seguro que ardo, uma ardência intensa, junto de uma janela muda
junto com os pés congelados
junto com os corpos resguardados –

um homem pensa e uma mulher pensa –

as extremidades de um soalho não são raízes na indisciplina das células
a ciência não explica a química humana quando se desconstrói a matéria
a metafísica envolve-se de uma leveza de vento e rodeia as células pré-rafaelitas
nómadas gigantes de sensibilidades que atravessam as distâncias –

somos seres líquidos e tangíveis num mar de memórias rarefeitas –

os dias são sempre novos e são sempre grandes
um manto de paraíso escreve-se de asas
de olhos nos olhos dos pássaros –

é obrigatório seguir-lhes os passos
quando pisam o ar como se fossem leves as calçadas –
é obrigatório apertar as mãos e alargá-las
respirar o sonho pelo nascer da madrugada –

é obrigatório que sossegues que adormeças os olhos
há uma lua aberta e um quarto de ondas brancas
descansa suavemente
não magoes as raízes dos cabelos e pousa o rosto nas penas da almofada
- a leveza, os pássaros.

perde o peso das realidades, perde as lágrimas
não temas a pulsação vermelha do sangue e do oxigénio
sente os versos e os poemas, são longos como a eternidade –

descansa, os sonhos falam
as palavras vestidas de silêncio são pesadas -

não se sentam nas cadeiras não abrem os braços –



josé ferreira 29 fevereiro 2012

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

ao coração da terra desce o luar

Women In Art from Philip Scott Johnson on Vimeo.




ao coração da terra desce o luar
pressinto as quilhas dos navios romperem a cinza da manhã
(escrevo um diário
fumo
bebo
aborreço-me)
atravesso o relâmpago esquecido na veia óssea da noite
reconheço o sítio onde os corpos já não se encontram
(estou sentado numa cadeira de lona
olho o mar
é tudo o que sei fazer
olhar o mar e não pensar)
tocámo-nos apesar do que violentamente ficou dito

agora só vens no veludo manchado dos sonhos
pérola mastigada na queimadura da boca
ou quando arrumo as fotografias surges inesperadamente
do fundo da gaveta com o perfume áspero da madeira

anoitece...o ar está impregnado de iodo
um fio de luz define o rosto contra a parede
a cal retém o sussurrar antigo dos corpos
e quando a manhã se aproxima da janela
a memória seca ou dorme para sempre

(a boca
talvez fosse a boca de A. surgindo
sobre a folha de papel
respirando)

ainda continuei a escrever durante alguns dias
sem grande rigor é certo...uma aranha movia-se nos vidros
a melancolia trepava ao cimo das árvores
assustando os insectos da folhagem e os pássaros
esperei o sono com suas pálpebras vegetais e a paixão
apareceu naquele rosto orvalhado abrindo-se enfim
à constelação doutro rosto sujo de tinta e de palavras




Al Berto in O Medo

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

eu nunca guardei rebanhos - um poema de Alberto Caeiro




I



Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.

Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.

Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.

Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha.
É a minha maneira de estar sozinho.

E se desejo às vezes,
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.

Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias
Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.

Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predilecta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer cousa natural –
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.

Aberto Caeiro "O Guardador de Rebanhos" In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith, 2001

domingo, 26 de fevereiro de 2012

A morte de madrugada




Muerto cayó Federico.
Antonio Machad
o

Uma certa madrugada
Eu por um caminho andava
Não sei bem se estava bêbado
Ou se tinha a morte n'alma
Não sei também se o caminho
Me perdia ou encaminhava
Só sei que a sede queimava-me
A boca desidratada.
Era uma terra estrangeira
Que me recordava algo
Com sua argila cor de sangue
E seu ar desesperado.
Lembro que havia uma estrela
Morrendo no céu vazio
De uma outra coisa me lembro:
... Un horizonte de perros
Ladra muy lejos del río...

De repente reconheço:
Eram campos de Granada!
Estava em terras de Espanha
Em sua terra ensangüentada
Por que estranha providência
Não sei... não sabia nada...
Só sei da nuvem de pó
Caminhando sobre a estrada
E um duro passo de marcha
Que em meu sentido avançava.

Como uma mancha de sangue
Abria-se a madrugada
Enquanto a estrela morria
Numa tremura de lágrima
Sobre as colinas vermelhas
Os galhos também choravam
Aumentando a fria angústia
Que de mim transverberava.

Era um grupo de soldados
Que pela estrada marchava
Trazendo fuzis ao ombro
E impiedade na cara
Entre eles andava um moço
De face morena e cálida
Cabelos soltos ao vento
Camisa desabotoada.
Diante de um velho muro
O tenente gritou: Alto!
E à frente conduz o moço
De fisionomia pálida.
Sem ser visto me aproximo
Daquela cena macabra
Ao tempo em que o pelotão
Se dispunha horizontal.

Súbito um raio de sol
Ao moço ilumina a face
E eu à boca levo as mãos
Para evitar que gritasse.
Era ele, era Federico
O poeta meu muito amado
A um muro de pedra seca
Colado, como um fantasma.
Chamei-o: Garcia Lorca!
Mas já não ouvia nada
O horror da morte imatura
Sobre a expressão estampada...
Mas que me via, me via
Porque em seus olhos havia
Uma luz mal-disfarçada.
Com o peito de dor rompido
Me quedei, paralisado
Enquanto os soldados miram
A cabeça delicada.

Assim vi a Federico
Entre dois canos de arma
A fitar-me estranhamente
Como querendo falar-me.
Hoje sei que teve medo
Diante do inesperado
E foi maior seu martírio
Do que a tortura da carne.
Hoje sei que teve medo
Mas sei que não foi covarde
Pela curiosa maneira
Com que de longe me olhava
Como quem me diz: a morte
É sempre desagradável
Mas antes morrer ciente
Do que viver enganado.

Atiraram-lhe na cara
Os vendilhões de sua pátria
Nos seus olhos andaluzes
Em sua boca de palavras.
Muerto cayó Federico
Sobre a terra de Granada
La tierra del inocente
No la tierra del culpable.
Nos olhos que tinha abertos
Numa infinita mirada
Em meio a flores de sangue
A expressão se conservava
Como a segredar-me: - A morte
É simples, de madrugada...

A palavra - um poema de Miguel Torga




S. Martinho da Anta, 13 de Abril de 1965


Falo da natureza.
E nas minhas palavras vou sentindo
A dureza das pedras,
A frescura das fontes,
O perfume das flores.
Digo, e tenho na voz
O mistério das coisas nomeadas.
Nem preciso de as ver.
Tanto as olhei,
Interroguei,
Analisei
E referi, outrora,
Que nos próprios sinais com que as marquei
As reconheço, agora.



Miguel Torga Diário X