quinta-feira, 14 de abril de 2011

telhados

às vezes peço ajuda aos telhados das casas da cidade. estão juntos porque as ruas aqui são estreitas. de umas janelas vê-se para dentro das outras, do outro lado da rua. não se vê bem. só os reflexos distorcidos ou as manchas de humidade. aqui é difícil ver-se uma cara de gente. quando quase se vê, está nua, não traz sorriso. os telhados escorrem-se da chuva uns nos outros e se duas pessoas saíssem às varandas, e estendessem os braços para a frente, conseguiam quase abraçar-se e trocar segredos ao ouvido. nunca aconteceu. eu daqui só vejo telhados. imagino quem neles se abriga e com o que ocupa o tempo. penso nas pessoa que estão sós e tenho pena delas mas não sei quem são nem se existem. eu daqui só vejo telhados.
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raquel patriarca | catorze.abril.doismileonze
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quarta-feira, 13 de abril de 2011

Nem brutal nem severa


Fotografia retirada da internet

Nem brutal
nem severa,
experimentas
a estranha euforia
e o ardor
do vento;
alta
e calma
e silenciosa,
por vezes perdida na
realidade resistente, sob
a resistência da luz,
para caminhares no meio da poeira,
na plena matéria viva.

Gérard de Cortanze " O movimento das coisas "

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Colhe de um corpo o carvão verde


Felix Revello

Colhe de um corpo

o carvão verde

a sua música cereal moída moída.

Abre um corpo na partitura canta-o

enquanto se parte enquanto ficam

anos por contar enquanto ficam

anjos nas pálpebras

inconfessáveis.

Como se a manhã falhasse sempre.

Como se escolhesses o comboio que pára

em todas as estações

e valesse a pena gastar outra infância

para não chegar.


Catarina Nunes Almeida Revista Cráse

A curva dos Teus olhos


Isabelle Hupert

A curva dos teus olhos dá a volta ao meu peito
É uma dança de roda e de doçura.
Berço nocturno e auréola do tempo,
Se já não sei tudo o que vivi
É que os teus olhos não me viram sempre.

Folhas do dia e musgos do orvalho,
Hastes de brisas, sorrisos de perfume,
Asas de luz cobrindo o mundo inteiro,
Barcos de céu e barcos do mar,
Caçadores dos sons e nascentes das cores.

Perfume esparso de um manancial de auroras
Abandonado sobre a palha dos astros,
Como o dia depende da inocência
O mundo inteiro depende dos teus olhos
E todo o meu sangue corre no teu olhar.

Paul Eluard,"Algumas das Palavras" Trad. de António Ramos Rosa Dom Quixote 1977

domingo, 10 de abril de 2011

Second Nature - XVII


Edouard Boubat

Dignité symétrique vie bien partagé
Entre la vieilesse des rues
Et la jeunesse des nuages
Volets fermés les mains tremblantes de clarté
Les mains comme des fontaines
Et la tête domptée.


Dignidade simétrica bem partilhada
Entre a velhice das ruas
E a juventude das nuvens
Janelas fechadas mãos trémulas de claridade
Mãos como fontes
e a cabeça dominada.

Paul Eluard "Algumas palavras" Trad. António Ramos Rosa Dom Quixote 1977

sábado, 9 de abril de 2011

Amadeo Modigliani &Jeanne Hébuterne


Amadeo Modigliani "Retrato de Jeanne"

amadeo:
certo dia, quando pintava o retrato de soutine e a mão deixara de me seguir, soutine disse-me:
- bebes para te matares.
e eu perguntei-lhe:
- e tu, soutine, o que te levou à tentativa de te enforcares?
saímos, depois, em silêncio para a rua. vimos o sena latejar sob as pontes e engolir as estrelas da imensa noite de paris.

jeanne:
soutine tinha razão. os anos passaram, não muitos, e amadeo tentara arranjar coragem para deixar de beber. foi inútil, e às vezes era violento - apesar de saber que eu nunca o abandonaria.

amadeo:
jeanne pressentiu que eu não precisaria de muito tempo para realizar a minha obra. sempre vivi como um meteoro.

soutine:
a 25 de janeiro de 1920, jeanne soube da morte de amadeo. refugiou-se num quarto em casa dos pais, num quinto andar. abriu a janela e saltou para junto dele.



Al Berto

sexta-feira, 8 de abril de 2011

as imagens na pedra rolante e redonda


Fotografia retirada da internet

as primeiras e as últimas em diálogo
imagens na pedra rolante e redonda
onde as faíscas fazem o fogo: o levantar de ombros
cérebro e mãos, pálpebras e folhas percorridas
os discursos directos do passado, os dias finitos
as conclusões quotidianas: as estrelas importantes.
os sonhos são críticos na sequência alucinante do desvio
e a vida suspensa, surpresa, incompleta, sempre, caminha
nas fragilidades verdes dos braços resistentes
nas heras ascendentes de um mundo de paredes;
e lança a semente cautelosa
o desejo das rosas, o medo dos espinhos
na hora incerta dos destinos -

José Ferreira 8 Abril 2011

quinta-feira, 7 de abril de 2011

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Um poema de Emily


Marc Chagall

A sepal, petal, and a thorn
Upon a common summer's morn --
A flask of Dew -- A Bee or two --
A Breeze -- a caper in the trees --
And I'm a Rose!

Emily Dickinson


Sépala, pétala, espinho.
Na vulgar manhã de Verão –
Brilho de orvalho – uma abelha ou duas –
Brisa saltando nas árvores –
- E sou uma rosa!

Trad. Ana Luísa Amaral

terça-feira, 5 de abril de 2011

SENTIMENTO PRIMAVERIL (SYLVIA BEIRUTE)


















SENTIMENTO PRIMAVERIL


não sei o que é este sentimento
mas se o tentar dizer
sem pensar
e com as palavras que me vierem
à boca
será um dia de semana em voz alta
na cabeça de uma criança que não
distingue os sons,
a sua respiração que se desintegra
desde a sua infância velha. intemporal.
ou então um quarto de mim mesma
na adivinhação plena e simples
do teatro negro
antes de a acção começar a interrogar-se,
ou as flores que
parecem encobrir o ar das cinco da tarde.

não sei.
não sei o que é este sentimento
mas sei o que quer dizer.

Sylvia Beirute
inédito

Psicanálise da Escrita

Mesmo que fale de sol e de montanhas,
mesmo que cante os ínfimos espaços
ou as grandes verdades,
todo o poema
é sobre aquele
que sobre ele escreve

Quando os traços de si
parecem excluir-se das palavras,
mesmo assim é a si que se descreve
ao escrever-se no texto
que é excisão de si

Todo o poema
é um estado de paixão
cortejando o reflexo
daquele que o criou

Todo o poema
é sobre aquele
que sobre ele escreve
e assim se ama de forma desmedida,
à medida do verso onde a si se contempla
e em vertigem
se afoga

Ana Luísa Amaral
in Inversos - Poesia 1990-2010 - Inéditos

A onda

a onda anda
aonde anda
a onda?
a onda ainda
ainda onda
ainda anda
aonde?
aonde?
a onda a onda

Manoel Bandeira (Recife, 1886 - Rio de Janeiro, 1968)

Fragmentos V - Adorável ou o bom humor do desejo


Isabelle Adjiani

1. Num belo dia de Setembro saí para fazer compras. Paris estava adorável nessa manhã…, etc.»
Um ror de percepções acaba por formar bruscamente uma impressão deslumbrante (deslumbrar é, afinal, impedir de ver, de dizer):o estado do tempo, a estação, a luz, a avenida, o caminho, os parisienses, as compras, tudo isso concentrado no que já tem a vocação de recordar: um quadro, em suma, o hieróglifo da boa vontade (tal como Greuze o pintaria), o bom humor do desejo.
….
Tocado por uma impressão da noite, acordo enfraquecido por um pensamento feliz:
« X… estava adorável ontem à noite. » É uma recordação de quê? Do que os gregos chamavam o charis: «o brilho dos olhos, a beleza luminosa do corpo, o esplendor do ser desejável» ; talvez mesmo, como na charis antiga, acrescente a ideia - a esperança - de que o objecto amado se entregará ao meu desejo.

Roland Barthes "Fragmentos de um discurso amoroso" Ed. 70

Sim, quero dizer sim ao inacabado


Marc Chagall

Sim, quero dizer sim ao inacabado
que é o princípio de tudo
e o que não é ainda,
sim ao vazio coração que ignora
e que no silêncio preserva o sim do início,
sim a algumas palavras que são nuvens
brancas e deslizam amplas
sobre um mundo pacífico,
sim aos instrumentos simples
da cozinha,
sim à liberdade do fogo
que adensa o vigor da consciência,
sim à transparência que não exalta
mas decanta o vinho da presença,
sim à paixão que é um ajuste ao cimo
de uma profunda arquitectura íntima,
sim à pupila já madura
que se inebria das sombras das figuras,
sim à solidão quando ela é branca
e desenha a matéria cristalina,
sim às folhas que oscilam e brilham
ao subtil sopro de uma brisa,
sim ao espaço da casa, à sua música
entre o sono e a lucidez, que apazigua,
sim aos exercícios pacientes
em que a claridade pousa no vagar que a pensa,
sim à ternura no centro da clareira
tremendo como uma lâmpada sem sombra,
sim a ti, tempestade que iluminas
um país de ausência,
sim a ti, quase monótona, quase nula
mas que és como o vento insubornável,
sim a ti, que és nada e atravessas tudo
e és o sangue secreto do poema.



António Ramos Rosa

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Todas as opiniões que há sobre a Natureza


Gustav Klimt

Todas as opiniões que há sobre a Natureza
Nunca fizeram crescer uma erva ou nascer uma flor.
Toda a sabedoria a respeito das cousas
Nunca foi cousa em que pudesse pegar como nas cousas;
Se a ciência quer ser verdadeira,
Que ciência mais verdadeira que a das cousas sem ciência?

Fecho os olhos e a terra dura sobre que me deito
Tem uma realidade tão real que até as minhas costas a sentem.
Não preciso de raciocínio onde tenho espáduas.


Alberto Caeiro