domingo, 4 de outubro de 2009

Casa antiga


Fotografia retirada da internet


Cede a porta bordada na mão do vento
o som de surdina encosta leve o trinco
corrente de ar da porta que abriu
em frente ao fundo de um corredor
de longas tábuas de dez metros de comprido.

- as casas antigas têm tectos altos
inscritos de gesso, mantas de rendas
salientes flores de Lis, folhas
nervuras de uma àrvore de neve
a arte das gravuras, alegorias
harpas, violinos no céu próximo
nas mãos nuas de meninos -

De novo se abre a porta que fechou
elevam-se batimentos, o ritmo
nos passos brancos até acima
a cor rubra de um receio, a má sina
que não traga de volta à casa antiga
ao corredor, quem mais se espera
nas longas tábuas de dez metros de comprido ...

- nas casa antigas não há espelhos de verniz
antes o sabor das ceras em nuvem descida
do alto tecto até ao nível da cinta
como um livro de imagens que aviva
o voo cheio das abelhas, o aroma
de um campo inclinado onde dançam
as flores -

As duas portas abrem na mesma parede
dentro de um túnel luminoso, iluminado
em cada lado nos olhos húmidos finos
sonâmbulos, encantados, como ondas
de dois mares no encontro consentido
ao fundo do corredor
de longas tábuas de dez metros de comprido

- nas casas antigas há risos de cem anos
o arrastar de vestidos, as casacas de grilo
mas os lábios de dois vultos
em segredo
são redondos e tamanhos
e neles não cabe o mundo
são o sonho das estrelas
a meio das longas tábuas
de dez metros de comprido ...

sábado, 3 de outubro de 2009

Procuro-te


Magritte "O belo Mundo" 1962


Procuro a ternura súbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.

Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
do prado e de um corpo estendido.

Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.

Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças,
mas não quando se ama,
não quando apertamos contra o peito
uma flor ávida de orvalho.

Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.

Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre — procuro-te.

Eugénio de Andrade, in "As Palavras Interditas"

Sem senso


fotografia retirada da internet


Sem senso o fio da palavra
sem poema
sem ser a água de lago
transparente e acetinada
nesse jardim onde crescem e caem
as camélias.
Sem a luz das frases, preso na voz ausente
transforma-se o pêlo claro de um gato
na côr malhada: o leopardo
manchas insanas, rugido agreste.

Nas árvores felinas de silêncio
descansam as feras -

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Do fim dos segredos


Júlio Pomar "Auto-retrato, duas (ou três) laranjas e, de pernas para o ar, um macaco" 1973


Quando se conta a outrem um segredo este
desmaia: a palavra
torna-se pele
sem leão lá dentro.

Não é mais segredo e não o sendo
finge ser lembrança
de fabrico imperfeito:
um cliqueti no silêncio escancara

a dantes inamovível porta
e virada a página acha-se apenas
uma moeda
que não corre já.

Júlio Pomar, in "TRATAdoDITOeFEITO"

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

How many seas must a white dove sail



Blowin' In The Wind

How many roads must a man walk down,
Before you call him a man?
How many seas must a white dove sail,
Before she sleeps in the sand?
Yes and how many times must cannonballs fly,
Before they're forever banned?
The answer, my friend, is blowin' in the wind
The answer is blowin' in the wind
Yes and how many years can a mountain exist,
Before it's washed to the seas (sea)
Yes and how many years can some people exist,
Before they're allowed to be free?
Yes and how many times can a man turn his head,
Pretend that he just doesn't see?
The answer, my friend, is blowin' in the wind
The answer is blowin' in the wind
Yes and how many times must a man look up,
Before he can see the sky?
Yes and how many ears must one man have,
Before he can hear people cry?
Yes and how many deaths will it take till he knows
That too many people have died?
The answer, my friend, is blowin' in the wind
The answer is blowin' in the wind

Estão todas as verdades à espera em todas as coisas


Camille Pissarro " Vista de Eragny" 1888


Estão todas as verdades
à espera em todas as coisas:
não apressam o próprio nascimento
nem a ele se opõem,
não carecem do fórceps do obstetra,
e para mim a menos significante
é grande como todas.
(Que pode haver de maior ou menor
que um toque?)

Sermões e lógicas jamais convencem
o peso da noite cala bem mais
fundo em minha alma.

(Só o que se prova
a qualquer homem ou mulher,
é que é;
só o que ninguém pode negar,
é que é.)

Um minuto e uma gota de mim
tranquilizam o meu cérebro:
eu acredito que torrões de barro
podem vir a ser lâmpadas e amantes,
que um manual de manuais é a carne
de um homem ou mulher,
e que num ápice ou numa flor
está o sentimento de um pelo outro,
e hão-de ramificar-se ao infinito
a começar daí
até que essa lição venha a ser de todos,
e um e todos nos possam deleitar
e nós a eles.

Walt Whitman, in "Leaves of Grass"

terça-feira, 29 de setembro de 2009

O irreprimível delírio




O irreprimível delírio na forma de um sorriso
as flores diversas, jarros,lírios,fetos
de pés molhados na jarra de cristal junto ao piano.
A melodia muda ecoa a sala onde se guardam as pinturas
iluminuras de pequenas surpresas, pormenores escondidos
de aguarelas e óleos.
Escuta-se um mar de silêncios nas cordas surdas e clássicas
de uma "Alhambra" que observa de rosácea aberta o rosto
o olhar direito, os pés cruzados, os braços como réguas
que seguram os outros braços de veludo canelado.
Nos pulsos oscilam as mãos como borboletas presas
nos ritmos inéditos de uma sinfonia incompleta.

Sem ondas, sem espumas o desenho de um gato e uma menina
de António Carneiro, não original, mais pequeno, um pastel
mesmo assim pessoal e autêntico. Ao lado um barco sem remos
ao sabor do rio, sem qualquer fio humano, difuso, sem ruído
no poder imenso da imagem que a cada um se autoriza
de preencher nas margens da nostalgia, a sua nostalgia
em desenhos que surgem e se apagam na poeira dos dias
os dias que sucedem de outros dias
na interminável viagem
do irreprimível delírio.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Já Confúcio dizia


Arte oriental Sumi-ê; a arte do essencial (retirado da Internet)

"A melhor maneira de se ser feliz é contribuir para a felicidade dos outros."

"Ouvir ou ler sem reflectir é uma ocupação inútil." [ Confúcio ]


Hoje é o aniversário de Confúcio. Lembrei-me o quantas vezes foi citado e resolvi publicar. Ele merece!

sábado, 26 de setembro de 2009

Campos de Morango

Retrato de um Amor



René Magritte " A grande guerra" 1964

Iluminas
a sombra dos meus dias
neste mundo que abrimos devagar
entre o corpo e a alma, sempre mais
secretos no abismo que os devora.

Maior do que este amor nada haverá
até ao fim dos tempos: os teus olhos
respondem ao destino, à sua eterna
graça que paira sobre as nossas vidas
agora a transbordarem numa única
razão feita de luz. a tua boca
inunda a minha língua com o sabor
de todos os sentidos que mergulham
a noite numa água sem retorno.

Para ti absorvo o hálito de um verão
em cada beijo cego, surdo e mudo
respirando de súbito em uníssono:
enigma revelado num só frémito,
insónia submersa que , em silêncio,
regressa pouco a pouco aos nossos braços
afogados na espuma do seu mar.

Perto do teu sorriso há uma fonte
embriagada e pura- meu amor,
dá-me esse coração, essa primeira
raiz de todo o fogo, esse relâmpago
onde cresce para nós a flor de um grito;
segreda-me às escuras mais um sonho
antes de adormeceres sobre o meu ombro.

Um quadro nítido





Enquanto traço o poema
um ruído deslizante como um silvo
o perigoso movimento das coisas
a separação de estruturas
o chão treme
a clarabóia ressoa
na abóbada de vidros em cores.

Um quadro nítido.

Duas cadeiras, uma vazia.
A camisa descansa do aperto de seda.
As calças finas e cinzentas.
As lamas soltas e pulvurolentas
nos lábios das solas, caem lentamente.
Um roupão branco cinta o corpo nu.
Os pés como lapas refrescam na cerâmica
da mesma cor branca do roupão
como prolongamento de giz onde a borracha
acrescentou os pés e os tornozelos.
Um silêncio. Uma ausência.

Um quadro nítido.

Lembro-me dela. Os olhos na cor do mel.
O grande eucalipto, as folhas, o aroma.
Inspiro a ternura desse vento Sul.
Os quentes dias de Setembro
as areias lisas, limpas, disponíveis
a praia, a grande praia deserta.
Os marulhos íntimos na posição de "Leonardo"
os braços e pernas abertas, lado a lado
escutando no azul indigo o horário das aves
que passam na procura de alimento.
Eram mais belos os cabelos de sereia,lisos
sem caracóis, sem os rolos pendurados
33mm de películas, fotografias e mais
fotografias que sorriam devagar no quarto
sem luz, entre líquidos e sombras, antigas.

Um quadro nítido.

Duas cadeiras, uma vazia.
Naquela os restos de roupa e esta agora
onde me sento e traço o poema linha a linha
sem rima, em cruz emergente e singular.
Aqui o lugar original, o real, o horizontal.
Ali a história aquilina, o redemoinho
o retiro inventivo, os estilhaços de vidro
caindo, caindo, caindo do alto prédio
que arranha os céus e abre os paraísos
caindo, caindo, caindo até aos granitos
em partículas ínfimas e poeiras partidas.

Um quadro nítido.

Lembro-me dela. O primeiro dia.
Aquele de um lenço que encolhia o rosto
e era findo de nó pequeno e orelhas de coelho.
A gabardine comprida, os botôes de quatro pontos
as botas altas, o calor das malhas
a fivela muito larga de um cinto.
O meu ar rídiculo pousado no seu caminho
como um fardo de chumbo, sem saída.

Um quadro nítido.

Duas cadeiras, uma vazia.
As paredes deslizando de pés grandes
caminhando nos quatro sentidos
abatendo os quadros, encolhendo o espaço
querendo olhares de perigo.
Não! Não é possível!
Nada é mais que um destino!
Guardo a cor dos prados nos meus olhos
uma abóbada de vidros claros e coloridos
ímpares
e tenho amigos -

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Ternura


Manet "A leitura" 1868

Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada...

Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio...

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!

David Mourão-Ferreira, in "Infinito Pessoal"

Em silêncio


Marc Chagall " O poeta " 1911

Esta noite
escondi-me dentro de ti
e não me mexo.
no teu corpo em silêncio
adormeço -

Poema para Galileo


Miguel Ângelo "Criação de Adão" Vaticano 1510

Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício.
Disse Galeria dos Ofícios.)
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.
Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria…
Eu sei… Eu sei…
As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileo Galilei!

Olha. Sabes? Lá em Florença
está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.
Palavra de honra que está!
As voltas que o mundo dá!
Se calhar até há gente que pensa
que entraste no calendário.

Eu queria agradecer-te, Galileo,
a inteligência das coisas que me deste.
Eu,
e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar – que disparate, Galileo!
– e jurava a pés juntos e apostava a cabeça
sem a menor hesitação –
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.

Pois não é evidente, Galileo?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia?

Esta era a inteligência que Deus nos deu.

Estava agora a lembrar-me, Galileo,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente
um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo
a olharem-te severamente.
Estavam todos a ralhar contigo,
que parecia impossível que um homem da tua idade
e da tua condição,
se tivesse tornado num perigo
para a Humanidade
e para a Civilização.
Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.

Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram, como aves aturdidas – parece-me que estou a vê-las –,
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.
E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal.
E juraste que nunca mais repetirias
nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e escrevias
para eterna perdição da tua alma.
Ai Galileo!
Mal sabiam os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo,
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,
andavam a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.
Tu é que sabias, Galileo Galilei.
Por isso eram teus olhos misericordiosos,
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.
Por isso estoicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto inacessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão directa do quadrado dos tempos.

António Gedeão, in 'Linhas de Força'