domingo, 5 de abril de 2009

Um céu e nada mais

Um céu e nada mais - que só um temos,
como neste sistema: só um sol.
Mas luzes a fingir, dependuradas
em abóbada azul - como de tecto.
E o seu número tal, que deslumbrados
eram os teus olhos, se tas mostrasse,
amor, tão de ribalta azul, como de
circo, e dança então comigo no
trapézio, poema em alto risco,
e um levíssimo toque de mistério.
Pega nas lantejoulas a fingir
de sóis mal descobertos e lança
agora a âncora maior sobre o meu
coração. Que não te assuste o som
desse trovão que ainda agora ouviste,
era de deus a sua voz, ou mito,
era de um anjo por demais caído.
Mas, de verdade: natural fenómeno
a invadir-te as veias e o cérebro,
tão frágil como álcool, tão de
potente e liso como álcool
implodindo do céu e das estrelas,
imensas a fingir e penduradas
sobre abóbada azul. Se te mostrasse,
amor, a cor do pesadelo que por
aqui passou agora mesmo, um céu
e nada mais - que nada temos,
que não seja esta angústia de
mortais (e a maldição da rima,
já agora, a invadir poema em alto
risco), e a dança no trapézio
proibido, sem rede, deus, ou lei,
nem música de dança, nem sequer
inocência de criança, amor,
nem inocência. Um céu e nada mais.


Ana Luísa Amaral (Lisboa, 1956-)
in Às Vezes o Paraíso (Quetzal Editores, Lisboa, 1988)


Em jeito de Parabéns à nossa poetisa/ mentora deste blog, que festeja hoje o seu Aniversário, aqui fica mais um poema lindo de Ana Luísa Amaral. Aproveitem!

Les coquelicots

Há princípio

Nunca se sabe se tudo é tudo
ou se algo escapa
o saber é fio de horizonte
de perto se faz longe redondo
é origem de Oceanos o sítio dos mares
o destino dos rios ázimos sem o sal
o plâncton numa pressa de margens
inclinadas.
O saber é nascente sem a queda do Sol
a nuvem dupla que recebe a luz
e destila águas puras contínuas
gotas de elevador a deslizar nas folhas
em sumiço plano nas cobertas do chão;
incompleto e intermédio
construído ou inconstruído
de pressupostos que o são
válidos inválidos ou não.

Há princípio no saber bordamos origens.

Subimos na miragem da princesa no castelo
quanto mais subimos mais alta se torna torre
cresce mais e mais uma escada de cabelo.

Sorrimos subimos sorri
sorrimos continuamos-

Há muitos muitos anos era uma vez
uma pedra no caminho
era uma vez o ìnicio do saber-

Liberdade

sexta-feira, 3 de abril de 2009

A árvore inclinada e o ninho

Há uma árvore inclinada junto ao parque
em frente à Câmara. Pedra lavada
embranquecida no edifício um da Avenida.

Ressaltam relevos escurecidos de outra
época, não tão lisa, mais vária.

Só uma árvore como atleta de corrida
ângulo agudo direcção ao Sul;
promessa de partida.

Na imagem de sonho subo o tronco
acerco os ramos as crinas de folhas
e parto com ela
direcção ao cais caindo ao rio
flutuando na textura de brilho
de olhar imerso nela a árvore
na raiz da alma dela
acenando as margens pequenas
nos braços grandes do mar.

Há uma árvore inclinada junto ao parque
em frente a Câmara e só agora reparo
um ninho de plumas entrançadas
da mesma cor das pedras claras
sem ovo nem aves
e penso:
quando vierem
quando nascerem
voo com elas.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Dia Internacional do Livro Infantil



um sorriso feito de papéis


linhas desalinhadas de
palavras.

contos de contar
e versos de rimar.

desenhos às cores
pintados
em dedos de magia.
caracóis de fantasia.

sombras de música
e danças de roda
em salpicos e memórias.
coisas engraçadas
e outras histórias.

estrelas perdidas no mar,
e árvores antigas a cantar.
princesas, fadas e dragões,
mais quarenta e sete ladrões.

é fazer séria
a brincadeira.

ser criança
e ser herdeira
de contadores,
poetas,
jograis
trovadores
e menestréis.

dar-te um sorriso
feito de papéis.



raquel patriarca
dois.abril.doismilenove

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Confissão post-morten

Nasci, cresci um pouco à margem,
ou à míngua das benesses, ou do carinho,
subi tortuosos caminhos,
e desci escorregadias ladeiras;

vivi com sofreguidão a vida
e paixões as mais díspares e diversas,
e algumas tão tamanhas
que acreditei eternas;
mas perguntei-me por vezes:
- se fugazes,
porquê grandiosas e tamanhas?

Então, alheava-me da paixão,
por tudo e por nada vivia o desassossego,
e tantas vezes vivia a Vida
tão ferido de exclusão
que confesso não me entendia!...

Então, buscava a doce ternura
que quase sempre encontrava
lá longe, arredada , tão longínqua de mim,
e pegáva-a , derramando-a nos olhos
de quem me olhasse nos meus,
até me chegar a fadiga ou a exaustão,
que me subtraía a dôr
e me fazia proliferar a ilusão,
crivando-me a alma de fantasias,
e trespassando-me de luz o coração!...

Tentei estar na fila da frente,
após cumprir os meus sessenta,
esgrimindo-me contra o ódio,
a falsidade e a maledicência,
que tanta gente afugenta.

Corri atrás da liberdade,
que jamais pude atingir;

quiz ter Vida apaziguadora
de um mar revolto de emoções,
trinchei o ciúme e a cobardia
até sofrer grave mutação;

Transformei-me em alucinado ser
ao lutar pela verdade indiscutível,
mas desisti, bati no fundo,
situação gélida, inenarrável,
para mim contra-habitual, contranatura!

Preferiria ter-me afugado
numa lagoa de mel e bondade ,
ou ter-me explodido
num frondoso bosque de amôr,
equidade e de temperança!...


(António Luíz , 31-Março-2009)

quinta-feira, 26 de março de 2009

A persistência da memória



Nos ponteiros moles do tempo
a persistência da memória resiste
e assim de forma independente
em cada um molda desconforma
a cada segundo
uma única alma absorta
de água na boca.

Uma canção de Schubert

Este vídeo têm a particularidade de ter o subtítulo de "homens na cozinha" vale a pena ver até ao fim. A canção também merece a audição apesar de não ter tradução.

Os crocodilos do Nilo



A Fontana de Trevi atreve
o som de água e descreve
o discurso inaudito
que não vislumbra o turista
de colete caqui e sol poente
na pala "Panamá".

Está esgotado, suado no lenço.
Dedos cansados a mente persistente
de desertos lentos areia quente
no balanço das bossas do Egipto
e um outro ruído de águas:
os crocodilos do Nilo.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Noites

Às vezes queremos dizer tudo
rodeá-lo de palavras
e surge árido o lugar dos reflexos
o canto dos sentimentos.
Por vezes
há noites de estrelas e veludos
na casa junto ao lago
onde não falo ou escrevo
mais que a Natureza.

palavras pe(r)didas

"Não sei bem onde foi que me perdi;
Talvez nem tenha me perdido mesmo,
Mas como é estranho pensar que isto aqui
Fosse o meu destino desde o começo."
António Cicero
Terrível é o caminho que não encolhe na chuva
Onde foi que te perdeste?
Tantas vezes me perdi
Que vezes é preciso perder-se para não mais ser possível achar-se?
Quantas vezes vale desistir?
Em todos os meses depois de janeiro
Se no primeiro turno tudo ficou no irremediável perdido
No espremer da própria água
O que sobra de tudo?
Parece que chega para ti, guardiã da semente que
Um dia, um outro filho, um jovem ligeiro
Desenterrará na primavera por falir
E o velho feiticeiro
Descansar da estranha vida a
Fugir

Quando a juventude morrer de amor
E tomar de luto o pedido do impossível mar

Restarás tu a iludir a velhice das folhas nocturnas

A substituir as palavras

P e r d i d a s

Tantas vezes me perdi em ti e não contigo
Outras vezes nos perdemos connosco e não em nós

Chorará o tempo por te amar tardiamente
O tempo que não chega a tempo de outros amantes,
E o filho, morrerem de amor

Desnoções & algibeiras

para ser grilo
há que ter algibeiras
onde também caibam silêncios.
ser sorrateiro
espreitando entre dois fios de relva.
saber fazer uma teia invisível
onde o infinito se armadilhe.
encarar o universo
com demasiada intimidade
- a modos que quintal.
saber:
que as estrelas encarecem
de carinho
e brilham para mais desanonimato;
sonetar com roncos de garganta
desminando rebentamentos de coração.
para ser grilo
há que ter desnoções.
viver que:
há só uma distanciaçãozinha
entre apalmilhar um quintal
e acomodar estrelas num abraço.

Ondjaki - "Há prendisagens com o xão"

terça-feira, 24 de março de 2009

A origem do blogue

Encontrei na primeira pessoa a origem do blogue e gostei de ouvir de novo a poesia dita nas carteiras de uma sala de aula.