terça-feira, 9 de outubro de 2012

o mar e as histórias mágicas



                             John Wiliam Waterhouse


o mar pode ser reinventado e ter as cores dos poetas.
pode ter a pele eriçada de ondas que se aproximam da praia
e pode ter ao mesmo tempo o sol, o céu, o vento
escrevendo  histórias mágicas
de peixes, algas  e águas
e sereias –

josé ferreira

sábado, 6 de outubro de 2012

É por ti que escrevo





É por ti que escrevo que não és musa nem deusa 
mas a mulher do meu horizonte 
na imperfeição e na incoincidência do dia-a-dia 
Por ti desejo o sossego oval 
em que possas identificar-te na limpidez de um centro 
em que a felicidade se revele como um jardim branco 
onde reconheças a dália da tua identidade azul 
É porque amo a cálida formosura do teu torso 
a latitude pura da tua fronte 
o teu olhar de água iluminada 
o teu sorriso solar 
é porque sem ti não conheceria o girassol do horizonte 
nem a túmida integridade do trigo 
que eu procuro as palavras fragrantes de um oásis 
para a oferenda do meu sangue inquieto 
onde pressinto a vermelha trajectória de um sol 
que quer resplandecer em largas planícies 
sulcado por um tranquilo rio sumptuoso 

António Ramos Rosa, in 'O Teu Rosto'

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Assinalo para não repetir

Foi como se não tivesse aprendido que não volto, deixei rasgar-me, e levantei-me todos os dias por não querer sentir quase nada.
Por terra queria deixar a mágoa, queria também viver.
Icei as velas do que tinha, pareceu pouco. Mas houve quem me disse ter tudo, quem me ama. E que me perdoem ter sido eu cruel, tentarei depois resgatar alegria para a partilhar, pois, larguei-me a deriva. Lancei-me à tempestade.
E era, é, navegar sem destino no deserto do mar. Aí eu senti quase tudo, até não ter palavras. Os dias foram noites, as noites claras como dias.
Foi como fome. Da dor, essa lâmina, sobrou sofrer. Às vezes disse, Que puta de vida. Não foi bonito, por tudo que deixou de ser bonito. Também não houve qualquer distorção.
E das vezes que chegara a ânsia de dias claros, de terra firma sob os pés, vinham também palavras à cabeça, palavras que me ditaram mal. Tenho eu de afastar certas palavras todos os dias, estou completamente só. A solidão não faz bem, ela só pode ser uma passagem.
Tem de haver a serra onde viver, por onde andar descalça sobre chão de terra, sobre chão de erva. Fazer fogueira com as tábuas, do barco partido onde correm águas do mar.
E só estou eu, para as compor enquanto tento que passe a saudade do bater do meu coração tranquilo. Caí no logro por isso esta horrível parte da viagem, a saber que é melhor não estar ninguém.
Que quero eu chegar, meu corpo largar o barco, a nado alcançar a praia, subir a serra. Desejo o calor da fogueira, gente que festeja à volta. Honrar a terra, que sou terra, para depois adormecer e acordar abraçada a quem de ser generoso.
Já estou eu... partida, largada, fugida! Por sorte não volta. Nem sei se chegará, mas dá-me tempo para conseguir seguir comigo em frente. Ainda sinto a contrariedade de não querer que estas últimas palavras sejam verdade. Ainda estou no barco, e confio que esteja só e apenas por mais algum tempo.




("dou" este escrito ao Zémanel, claro!)

domingo, 30 de setembro de 2012

De ironias

   
De ironiashttp://sometimesaki.no.sapo.pt/Imagens/Reflexo%20Pedro%20Gomes.jpg

 
É que no mundo das aparências... que é o mundo em geral!
Umas vezes se passa por ser a melhor pessoa;

outras, pela pior... isto na maior parte do tempo!
Vão reciclando.

E pondo de um lado os que falam, e do outro quem é falado,
como acha que foi quem é falado?
Quando do outro lado estava, desse onde ninguém é meigo (depois inofensivos se acham), onde afirmam tanto ter razão, mas escondem a cara o melhor que podem se sozinhos;
e ainda, onde cada um, achará que terá cuidado, e nunca passará a ser falado!
É extraordinário pensar ser-se assim tão especial...
assim como a surpresa de como foi possível, ser a mim que chamou caprichosa!
Adeus.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

só as árvores sabem


                             Felix Mas                       

os raios de sol de novo sobre a testa e as palavras.
o outono entrou pela chuva e espalhou as folhas.
mas há luminosidades
os teus olhos, os teus lábios –

escrevo-te na mágoa da ausência
na página branca
através de dedos coloridos e tinta permanente
e escrevo-te  para construir a seiva, sempre
para que ela circule e se liberte
na expansão mais célebre –

só os ouvidos das estátuas, sabem
só os versos quando escritos, sabem
só as músicas , sabem
só as cores espalhadas nas mesmas margens, sabem

só as árvores, só as árvores
sabem –


josé ferreira 27 Setembro 2012

A Mulher

                                             Matisse
Se é clara a luz desta vermelha margem 
é porque dela se ergue uma figura nua 
e o silêncio é recente e todavia antigo 
enquanto se penteia na sombra da folhagem. 
Que longe é ver tão perto o centro da frescura 

e as linhas calmas e as brisas sossegadas! 
O que ela pensa é só vagar, um ser só espaço 
que no umbigo principia e fulge em transparência. 
Numa deriva imóvel, o seu hálito é o tempo 
que em espiral circula ao ritmo da origem. 

Ela é a amante que concebe o ser no seu ouvido, na corola 
do vento. Osmose branca, embriaguez vertiginosa. 
O seu sorriso é a distância fluida, a subtileza do ar. 
Quase dorme no suave clamor e se dissipa 
e nasce do esquecimento como um sopro indivisível. 

António Ramos Rosa, in "Volante Verde" lido aqui

terça-feira, 25 de setembro de 2012

o urgente azul


                                     Felix Mas

é urgente
fazer crescer os braços de uma árvore para te abraçar os cabelos
é urgente
uma girândola de aromas
a árvore e os cabelos
as flores brancas de Trás os Montes é urgente
é urgente
fazer crescer cogumelos tão altos que se tornem seguros
um tronco alto e macio, é urgente
para proteger das poeiras e não fechar o paraíso é urgente

o céu, a lua e a incandescência  das estrelas é urgente –

é urgente a urgência de navegar no lado esquerdo –

 josé ferreira 24 Setembro 2012

terça-feira, 18 de setembro de 2012

o frágil vidro




por vezes
pelo interstício das células faz-se o caminho
como se colocasses os pés dentro de água, impermeável
ao líquido e à escama que desliza  –

a cidade não te surge como destino.
por vezes, a  cidade é uma rua deserta
não tem qualquer significado
quando caminhas sozinho –

há um banco no jardim do universo
há uma física emoldurada de tílias
há um horizonte que se constrói na planície do sonho
e uma realidade difícil
que se ultrapassa todos os dias.

sempre que a parede, muro, líquen ou vidro
se ergue como a Babel do incompreensível
procura o fio, a curiosidade de descobrir o infinito
procura o linho, a mão unida, a sede dos olhos
a luz no caminho

há sempre uma saída –


josé ferreira 18 de setembro 2012

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

luas,marfins, instrumentos e rosas




El enamorado




Lunas, marfiles, instrumentos, rosas, 
lámparas y la línea de Durero, 
las nueve cifras y el cambiante cero, 
debo fingir que existen esas cosas. 

Debo fingir que en el pasado fueron 
Persépolis y Roma y que una arena 
sutil midió la suerte de la almena 
que los siglos de hierro deshicieron. 

Debo fingir las armas y la pira 
de la epopeya y los pesados mares 
que roen de la tierra los pilares. 

Debo fingir que hay otros. Es mentira. 
Sólo tú eres. Tú, mi desventura 
y mi ventura, inagotable y pura.



Luas, marfins, instrumentos e rosas,
Traços de Dürer, lampiões austeros,
Nove algarismos e o cambiante zero,
Devo fingir que existem essas coisas.

Fingir que no passado aconteceram
Persópolis e Roma e que uma areia
Subtil mediu a sorte dessa ameia
Que os séculos de ferro desfizeram.

Devo fingir as armas e a pira
Da epopeia e os pesados mares
Que corroem da terra os vãos pilares.

Devo fingir que há outros. É mentira.
Só tu existes. Minha desventura,
Minha ventura, inesgotável, pura.

Jorge Luís Borges

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

“É um fenómeno curioso:

O país ergue-se indignado, moureja o dia inteiro indignado, come, bebe e diverte-se indignado, mas não passa disto.

Falta-lhe o romantismo cívico da agressão.


Somos, socialmente, uma colectividade pacífica de revoltados.”

(Miguel Torga)

azul



                                                            Matisse Le Cirque 1947

     "Cheirava a maresia e a fruta. 
     Longas músicas pareciam suspensas das árvores e das estrelas. 
     E entre as casas brancas, na noite escura e azul, passava o rolar do mar."
                                                                                                                                                       Sophia Mello Breyner Andresen


azul,  sempre azul, digo-te
como num circo de Matisse
ou numa fantasia de Chagall;
onde os peixes podem ter asas 
onde a lua sabe tocar guitarra
e onde em vez de sapatos posso ter crina e ser um cavalo
que te leve no dorso nu pelas descobertas 
pelos lugares e não lugares do mundo
pelos prados virgens e pelas paisagens  imprevisíveis do sonho:
o sonho azul, inteiro, sem fragmentos  
 que faça esquecer todos os medos –

azul, sempre azul, digo-te
para que o céu exista nos ponteiros soltos do relógio
para que as estrelas sejam reais no espelho das faces
e queimem as mãos com a pele que arde
nessa pressa dolorosa do amor que não esmorece
e acontece de cada vez mais para se tornar maior –

e acontece
como células brilhantes que se acrescem
para serem enormes  e únicas, de seda, sede e febre
para que se tornem doença, doce vício e urgência
a boa urgência e o sossego –

azul, sempre azul, digo-te
como o flamejante álcool de um laboratório
que flutua e inebria na destilação dos fluidos mais leves
para que as temperaturas evidenciem as essências
e ciciem poemas na ebulição mais importante –

azul, sempre azul, digo-te
com os braços distendidos e a galope
até  que o mar nos leve juntos pela praias de Sofia –

josé ferreira




                                       Marc Chagall  Le Cirque Bleu 1950

sexta-feira, 7 de setembro de 2012


Em cuidado de vós
não vos debruceis nessa varanda
que é pouco segura a cascata de ferro 
a tremer até ao Douro

olhai bem este sítios queridos
vede-os com derradeiro olhar
em copas de tormento tomai
o que de chão vos restar
que nesta rua não há baloiço
que não vos lance em alto mar

cinco janelas, cinco cavaleiros 
a cavalo em gaivotas que relincham
levam esta carta à minha infância 
e todos espreitam na rua
o candor que nela vai bordado:
o teu olhar de baloiço à janela
que outrora embalava a cidade ao meu lado

aqui regresso 
em vela caída que chama
a fruta demasiado doce à mercearia
e ao rio a verdade que resvala na rua
segura em aperto de mãos 
entre bons dias e passadas suspensas à noite
como o violino de uma criança
que vencesse o carrilhão dos Clérigos
ou o Outono que abandonaste
debruçado em mim até ao mar

em cuidado de vós
não quereis ser desta rua sem o serdes
que não há verdes em equilíbrio
que aqui não tombem 
em murmúrio de nevoeiro quando há luar

por aqui passai de um verso a outro
como um soldado de chumbo
sem hesitar, cantai aos cavaleiros
e bailai com as gaivotas sobre o gelo
mas não pouseis, visitante, com elas
que asas não vos chegarão para levantar

a mim deixai-me quieta
que o tempo agora é este:
uma rua inclinada para as tuas mãos
        



                                                                                               (Virtudes)

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

da importância das rosas


                                                            Salvador Dali

quando o nascer do dia proíbe o belo, procuro a molécula invisível
e habito junto do sonho, no aroma das rosas, no travo da hortelã
na cor redonda dos mirtilos –

sinto nas pestanas o vento, a sua volatilidade de mãos perfeitas
e sopro versos em ondas etéreas
para que viagem distâncias
para que se tornem poemas
para que ganhem olhos, asas e lábios
e falem sem cessar, como um papagaio das arábias
junto da curvatura da face, das rosáceas do rosto –

e embora acordado na buzina da cidade, sou imune
podem atravessar-me obuses e o cabelo é leve
leve como a mais leve das plumas -

e sei que é Setembro, o mês das vindimas
o mês de bagos doces no brilho solar das encostas -

e sei que é Setembro, e conto-te da importância das rosas
das brancas e de todas as cores, que não são cinzentas
e são aromas, de abelhas e borboletas –

e sei que é Setembro, o mês dos poetas
e falo sem cessar do belo das corolas, do seu ardor vermelho
da sua possibilidade e do seu espelho –

josé ferreira 5 Setembro 2012

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Setembro - o bom mês dos poetas




ouço o mar, ouço as ondas, recuso as más notícias de Setembro
procuro o belo e repito como já disse antes:
o bom mês dos poetas, faz quatro anos
o bom mês dos poetas
sempre –

josé ferreira 5 de setembro 2012

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Hora - um poema de Sophia


Sinto que hoje novamente embarco
Para as grandes aventuras,
Passam no ar palavras obscuras
E o meu desejo canta --- por isso marco
Nos meus sentidos a imagem desta hora.

Sonoro e profundo
Aquele mundo
Que eu sonhara e perdera
Espera
O peso dos meus gestos.

E dormem mil gestos nos meus dedos.

Desligadas dos círculos funestos
Das mentiras alheias,
Finalmente solitárias,
As minhas mãos estão cheias
De expectativa e de segredos
Como os negros arvoredos
Que baloiçam na noite murmurando.

Ao longe por mim oiço chamando
A voz das coisas que eu sei amar.

E de novo caminho para o mar.



Sophia de Mello Breyner Andresen (lido aqui)