quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

ternura - um poema de Vinicius de Moraes


imagem daqui

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente

E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não trai o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o
[olhar extático da aurora.

Vinicius de Moraes lido aqui

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

uma carta a Leonardo



admiro a tua resistência ao frio e conheço um pouco da tua vida.
o Canadá sobrevive na pele de um urso branco, a cor do teu cabelo
mas a voz não perdeu a força, talvez menos límpida nas cordas tangidas
uma garganta um pouco mais gasta, de um violoncelo ao contrabaixo
mas profunda, um veludo, uma manta por sobre o silêncio
de onde surgem outros e outras que fazem coro, ao lado e por cima
de muitos burning violin –

viajas nas Babilónias modernas e nas montanhas cálidas e mudas
pelas tuas ondas e longe de Suzana
embora a ames como nunca.
não consegues apreender este mundo
falta-lhe o feminino, a longitude solta dos cabelos
mais e mais, a parte sensível –

por vezes pareces triste.
mas outras em brasa abrindo os braços
na forma de um corpo luminoso
de uma lava imensa, acesa
e ao mesmo tempo com o musgo nos olhos
em milhares de pontos verdes –

sabes Leonardo há um charme completo que te veste o casaco
no entanto descubro um barco, uma segunda pele, uma barba rala
um cabelo despenteado num palco de 60
e acho possível, porque sinto
que houve o desconforto, o imprevisível
partidas e chegadas
portas e janelas, a ventania branca
o hibernar
e o descanso do urso em placas de oceano
para de novo mergulhar no azul das águas
pelo espaço do plâncton, ágil como os golfinhos –

a mão desliza-te no bolso como um gato que procura um peixe
uma magia e o corpo inclina por partes:
de um lado a voz projectada, profunda
e de um outro a outra mão, cheia de rugas, esticada
separando o ar e ouvindo o vento
esse teu amigo que te sopra versos pelos ouvidos
como se os teus tímpanos fossem ramos de uma árvore
grossa de raízes, e escutassem uivos, lamentos
mas também vozes femininas e a suavidade dos carinhos –

o chapéu é um adereço, por vezes também penso nele
não no mesmo formato, menos formal, já não uso a gravata –
fica-te bem e pousa-te no tempo.
prolonga e afia-te o rosto e no negro tolda um contrário
e abre um novo sabor de mosto, uma delicadeza, um apreço
um afecto quando o levantas e juntas as mãos e os olhos
os olhos soberanos, abrindo o externo num golpe extenso
e navegando por entre os seios
navegando, dentro de naked gente –

perdeste esse ar selvagem de adolescente, do
don’t care about all the man that look the same
only with love I can be a slave –

mas acredito que ainda pensas o mesmo
não pareces perdido, há uma tranquilidade infinita;
cresci contigo, e hoje escuto de um outro modo a circunstância aflita -

quando se abrem muitas brechas e se escoam alguns rios
encontro os teus poemas como ombro e como jangada de troncos
qualquer que seja o caminho, mar ou cidade de asfalto sombrio
e subo acima, no ar, acima, acima
na pele de um imitador que descobre as palavras de um mestre.

diriges pelo leme de baladas múltiplas
e conduzes com a compreensão dos anos, como só tu sabes
pelo intervalo escondido das melodias;
confundo os nomes, folk com um pouco de indie?

Leonardo tu és um artista, constróis poemas
notas e claves numa pauta de letras
apontas as chaves dentro de muitas cabeças
para abrir os quartos da mudança
da casa flexível
por vezes como cabana, por vezes como abrigo
e por vezes
como uma margem de lírios, lily
e como um rio
inesgotável e fluido -



josé ferreira 31 janeiro 2012

terça-feira, 31 de janeiro de 2012


talvez os polegares não desviem as águas
dobradas pelas raízes 
em conversas a fio
pensava nela a regressar das raízes pelas mãos
de como se lembra de toda a água que já foi
e se ouve ainda o fechar da maré 
em cada rotação dos seus olhos
ouvia repetidamente
divide a luz se te atreves
e talvez aí a sombra
cada célula 
grávida de um segredo:
não espero da água 
o que espero de mim
que no código de vez em quando 
tenha sobrado um verso:
pode levar-se uma pergunta ao infinito
ou dar-lhe um beijo

a ideia antiga (Old Idea)



.........The troubles came I saved what I could save
.....a thread of light a particle a wave
L.Cohen

recupero um poema e deito-me sobre ele
como se falasse e tivesse mãos, dedos, cabelos longos
a ideia antiga –

um poema de mulher
a mulher
de olhos ternos, eternos -

em Abril corriam os rios pelos sinais das nuvens
a janela estava fechada e os vidros tracejados de gotas;
escrevi-o como se cada palavra fosse um pedaço de roupa
a cair, a desnudar o corpo, o teu, o meu, ao mesmo tempo
e à distância:

- serás sempre, disse-o. não chovia -

reli-o na última hora de um dia.
Janeiro, não estava frio -
caiu-me no colo como Freud, o gato branco
de olho azul, não na cor de safira mas mais claro
encolhido na curva quieta da cauda e ronronando
como um motor de barco abrindo as águas e olhando o rio -
caiu-me no colo como se fosse uma canção de gôndola
um sole mio num canal de Veneza; um remo longo
uma camisola de algodão, às riscas -
caiu-me no colo e pronto, o inevitável morno rodopio
de um crepúsculo laranja macio e persistente
que pode ser miragem, pode ser desvario
pode ser tudo porque sentido -

é curioso observar a ladeira do tempo
o escorregar nas folhas dos versos como se de um Outono
e o ultrapassar dos frios polares conservando o fluir do pêndulo –

batem intensamente os batimentos de fogo
e mergulho no acaso do poema
a ideia antiga
para sentir o presente e o futuro

como um rumo

e um destino -

josé ferreira

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

sei que te cansas quando pára o vento


imagem daqui

sei que te cansas quando pára o vento
quando cessa o movimento e pára o dia
sei que te cansas quando pára a cor
quando se perde o girassol
e os campos são nítidos de vazio –

os círculos não podem perder a velocidade, dizes
não podem perder a tontura centrífuga, dizes
precisam do arco das penas e do ar de suporte, dizes
a subida a um lugar de onde se vê tudo
sem chão e sem a gravidade do cinzento
o insustentável desvanecimento
o azul é o caminho –

o lugar é único e moves-te como ninfa;
um lugar sem cartografias, de nuvens sem linhas
um algodão suspenso a meio caminho
soprado pelo vento para cima
sempre para cima –

e depois a promessa e o eterno afastamento;
um leão de ausência, a selva no vazio -

como nos noves meses de um parto
assim não se explica o rosto, a cor dos olhos
a inclinação do nariz.
como no parto antes de ser
o rosto surge como inanimado, de cera, resistindo à água
e não cresce, não abre os lábios, não faz nascer a palavra.

não temos falado é certo e hesitas decidididamente, digo –

o momento, a hora marcada, hás-de ouvir-lhe os passos, dizes.
os vidros, a janela, o corpo deitado numa cama desarrumada
e os gatos, sempre os gatos, de olhos esticados
talvez um dia, dizes –


não é possível deduzir e não se explica o azul
o intocável céu e o mar que parece impossível
o horizonte longínquo e o equador de linha invisível
a sedutora mania que se afirma
o simbolismo de um gesto, o improviso –

não é possível deduzir não se explica
porque apertamos cordas de nós que parecem infalíveis
e porque se desprendem.
qual o momento definido?

será que existe o fogo que escreves como clic?
não eternizes, digo.
a eternidade pode não existir.
não coloques o éter nos sentidos
e ilumina
o insustentável azul
e a nitidez do caminho -

josé ferreira 29 janeiro 2012

sábado, 28 de janeiro de 2012

Lugares comuns - um poema de Ana Luísa Amaral




Entrei em Londres
num café manhoso (não é só entre nós
que há cafés manhosos, os ingleses também,
e eles até tiveram mais coisas, agora
é só a Escócia e parte da Irlanda e aquelas
ilhotazitas, mais adiante)


Entrei em Londres
num café manhoso, pior ainda que um nosso bar
de praia (isto é só para quem não sabe
fazer uma pequena ideia do que eles por lá têm), era
mesmo muito manhoso,
não é que fosse mal intencionado, era manhoso
na nossa gíria, muito cheio de tapumes e de cozinha
suja. Muito rasca.

Claro que os meus preconceitos todos
de mulher me vieram ao de cima, porque o café
só tinha homens a comer bacon e ovos e tomate
(se fosse em Portugal era sandes de queijo),
mas pensei: Estou em Londres, estou
sozinha, quero lá saber dos homens, os ingleses
até nem se metem como os nossos,
e por aí fora...

E lá entrei no café manhoso, de árvore
de plástico ao canto.
Foi só depois de entrar que vi uma mulher
sentada a ler uma coisa qualquer. E senti-me
mais forte, não sei porquê, mas senti-me mais forte.
Era uma tribo de vinte e três homens e ela sozinha e
depois eu

Lá pedi o café, que não era nada mau
para café manhoso como aquele e o homem
que me serviu disse: There you are, love.
Apeteceu-me responder: I’m not your bloody love ou
Go to hell ou qualquer coisa assim, mas depois
pensei: Já lhes está tão entranhado
nas culturas e a intenção não era má, e também
vou-me embora daqui a pouco, tenho avião
quero lá saber

E paguei o café, que não era nada mau,
e fiquei um bocado assim a olhar à minha volta
a ver a tribo toda a comer ovos e presunto
e depois vi as horas e pensei que o táxi
estava a chegar e eu tinha que sair.
E quando me ia levantar, a mulher sorriu
Como quem diz: That’s it

e olhou assim à sua volta para o presunto
e os ovos e os homens todos a comer
e eu senti-me mais forte, não sei porquê,
mas senti-me mais forte
e pensei que afinal não interessa Londres ou nós,
que em toda a parte
as mesmas coisas são


Ana Luísa Amaral

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

suzana, temos mil razões para calar as fotografias



temos mil razões para calar as fotografias
na gaveta de madeira, a quarta a contar de cima
da secretária antiga onde preencho folhas, uma a uma
folhas de um livro, poemas compridos -

as últimas notícias são repetitivas
falam do naufrágio, um grande barco de muitas janelas
como um queijo suiço, e o comandante, e os heróis
e a falta de vida de algumas vidas -

o contemporâneo prende-se no subterfúgio
economias líquidas, as reformas e o umbigo
do presidente, dos directores e dos amigos
a importância ilógica de ser o mais importante
o nosso cantinho, o territóriozinho, a nossa vidinha
quando está em causa o oxigénio limitado de um planeta
quando há o perigo de um excesso de fumo
como um furo no cabedal do mundo
a esvaziar o conteúdo
a tornar-se mudo perante uma coleira
que aperta muito -

é preciso uma estrela mais abrangente, não tão pequena
não tão miúda, mais refulgente, que oriente
que dê um rumo
é preciso denunciar a inclinação recorrente dos colarinhos
brancos na superfície e de negros fios por dentro
muito escondidos -

seremos atentos perante as garras do milhafre
os voos picados da águia e a impaciência do abutre -

porque este é o quotidiano da politiquice que emaranha os dias -

quanto a nós temos mil razões para calar as fotografias
na quarta gaveta a contar de cima
menos uma
a que mais observo e ganha vida
como um quadro na fractura caiada
como uma parede branca impregnada de filme -

josé ferreira 26 Janeiro 2012

abre o sol, não há náufragos nas ilhas -


Bill Brandt

abre o sol como luz obrigatória para que corra o dia.
abre na forma de um arco a longitude clara
na metade do mundo, e é normal a rotação das rotinas
em si
e este sol que abre único e original, sempre
como estrela porosa dos frios
colocando sobre o rosto
uma dúzia de raios ou mais –

quando adormecemos lembramos o sol e fechamos a lua dentro de nós
uma lua aprisionada pelo metabolismo dos fluxos
dos labirintos e das claridades sobrepostas
as respostas daqueles limbos que espantam
quando de repente um ruído abre os olhos
e nos conta uma história, letras que ganham consistência;
frases com sentido ou pedaços náufragos de ilhas
existências antigas ou um episódio que não era assim –

foi assim na manhã dois de um amanhecer de campismo
em Espinho
onde uma tenda abria sobre uma linha de água a sua cor azul
e um rádio na estrutura de alumínio soltava um fluido de sons
teclas recolhidas na polpa dos dedos
resilientes no levantar suspenso que suportava o tempo –

foi assim no cimo da serra quando um cobertor de lã grossa
era um manto que incendiava o corpo
antes de uma correria pelas neves e tombos suaves sobre o branco;
as luvas resistiam –

foi assim pelas ruas de Madrid numa ostentação feliz de sorrisos
pelos museus de Sofia sem as indefinições de Mona Lisa
nos grandes copos de um retiro, onde não havia nuvens
apesar do frio -

é estranho este sol nesta manhã de dia de semana
um rosto distante que não se afirma
não tem olhos, nariz, lábios, ombros e pescoço
nasce na incontinuidade absoluta de sempre se despedir
como as folhas que se escrevem ou as páginas de um livro
nas capas grossas de fenómenos que se redescobrem
com um outro significado como um filme repetido –

e não há metáforas determinantes neste poema de linhas
é um discorrer de fim de inverno como se deve ver a vida
a surpreender como cor e como os rios
na direcção objectiva.
rios apertados para se libertarem e abrirem
nos lagos provisórios
ou em mares onde há ondas fortes
que os empurram de novo pelas encostas da cabeça
até aos fragmentos da memória
para rever as margens mais distantes
lugares incisivos incandescentes vivos
um pouco depois das nascentes
e de novo novos como este sol nos caminhos:
fogo, fios de chama e raízes
de essência subtil
nesta manhã de dia de semana
que podia ser domingo -

abre o sol e bate nas pedras
que viram fogueiras e se perdem dos frios
no afirmar de incidências e sem perigos
quentes, no envolvimento que vem de longe
- um afecto uterino
quentes e navegantes
do tamanho de sermos grandes e diferentes
de sermos únicos e juntos no uníssono
neste ou num qualquer dia
através de um sonho ou de um cruzar de caminhos
seguros
decididos -

precisamos procurar as certezas
o sol é bússola
e procuramos e conseguimos

não há náufragos nas ilhas -



josé ferreira 25 janeiro 2012

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Mulheres correndo, correndo pela noite - um poema de Herberto Helder


Picasso "Guernica"

Mulheres correndo, correndo pela noite.
O som de mulheres correndo, lembradas, correndo
como éguas abertas, como sonoras
corredores magnólias.
Mulheres pela noite dentro levando nas patas
grandiosos lenços brancos.
Correndo com lenços muito vivos nas patas
pela noite dentro.
Lenços vivos com suas patas abertas
como magnólias
correndo, lembradas, patas pela noite
viva. Levando, lembrando, correndo.


É o som delas batendo como estrelas
nas portas. O céu por cima, as crinas negras
batendo: é o som delas. Lembradas,
correndo. Estrelas. Eu ouço: passam, lembrando.
As grandiosas patas brancas abertas no som,
à porta, com o céu lembrando.
Crinas correndo pela noite, lenços vivos
batendo como magnólias levadas pela noite,
abertas, correndo, lembrando.


De repente, as letras. O rosto sufocado como
se fosse abril num canto da noite.
O rosto no meio das letras, sufocado a um canto,
de repente.
Mulheres correndo, de porta em porta, com lenços
sufocados, lembrando letras, levando
lenços, letras - nas patas
negras, grandiosamente abertas.
Como se fosse abril, sufocadas no meio.
Era o som delas, como se fosse abril a um canto
da noite, lembrando.


Ouço: são elas que partem. E levam
o sangue cheio de letras, as patas floridas
sobre a cabeça, correndo, pensando.
Atiram-se para a noite com o sonho terrível
de um lenço vivo.
E vão batendo com as estrelas nas portas. E sobre
a cabeça branca, as patas lembrando
pela noite dentro.
O rosto sufocado, o som abrindo, muito
lembrado. E a cabeça correndo, e eu ouço:
são elas que partem, pensando.


Então acordo de dentro e, lembrando, fico
de lado. E ouço correr, levando
grandiosos lenços contra a noite com estrelas
batendo nas patas
como magnólias pensando, abertas, correndo.
Ouço de lado: é o som. São elas, lembrando
de lado, com as patas
no meio das letras, o rosto sufocado
correndo pelas portas grandiosas, as crinas
brancas batendo. E eu ouço: é o som delas
com as patas negras, com as magnólias negras
contra a noite.


Correndo, lembrando, batendo.

Herberto Helder, A faca não corta o fogo, Assírio &Alvim,2008

A preguiça

A alma adora nadar. Para nadar, há que deitar-se de barriga. A alma despega-se e parte. Parte a nadar. (Se a vossa alma parte quando estais de pé, ou sentados, ou de joelhos, ou apoiados nos cotovelos, para cada posição corporal diferente a alma partira com uma locomoção e uma forma diferentes, segundo concluirei mais tarde).

Fala-se muito em voar. Não é isso. O que ela faz é nadar. E nada como as serpentes e as enguias, nunca de outro modo. Há imensa gente que tem assim uma alma que adora nadar. Chamam-lhes vulgarmente preguiçosos. Quando a alma deixa o corpo pelo ventre para nadar, produz-se uma tal libertação de sei lá o quê, é um abandono, um gozo, uma descontracção tão íntima.

A alma parte a nadar no vão das escadas, ou na rua, consoante a timidez ou a audácia do homem, porque ela conserva sempre um fio que a une a ele, e se esse fio se quebrasse (às vezes é muito fino, mas só uma força terrível o poderia romper) seria terrível para eles (para ela e para ele).

Então, quando ela está entretida a nadar ao longe, escoam-se, por esse simples fio que liga o homem à alma, volumes de uma espécie de matéria espiritual, como lama, como mercúrio, ou como gás – gozo interminável.

É por isso que o preguiçoso é incorrigível. Nunca mudará. É por isso que a preguiça é a mãe de todos os vícios. Pois acaso haverá coisa mais egoísta do que a preguiça?
Tem fundamentos que o orgulho não tem.

Mas as pessoas irritam-se com os preguiçosos.

Quando os vêm deitados, batem-lhes, mandam-lhes água fria à cabeça, eles têm de recolher a alma imediatamente. Olham-vos então com esse olhar de ódio, bem conhecido, que se vê sobretudo nas crianças.

HENRI MICHAUX

Fragmentos XIV - mexerico


Manet "O Bar de Folies Bergéres" 1882


Mexerico.Dor experimentada pelo sujeito apaixonado quando verifica que o ser amado está envolvido num «mexerico» e ouve falar dele de um modo vulgar.

(...)

O mexerico reduz o outro a ele/ela e uma tal redução é-me insuportável. O outro não é para mim nem ele nem ela ; apenas tem o seu próprio nome. O terceiro pronome é um pronome mau: é o pronome da não pessoa, afasta, anula.

(...)

Roland Barthes "Fragmentos do discurso amoroso", ed. 70, 1981

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

uma vaga no mar de Renoir


Renoir "La vague" 1879

não se deve usar a trovoada da razão
na rotação colada de todos os dias.
impreterível a propriedade do acto
como surpresa
como rasgo imediato
pequena porta do sonho –

tudo aconteceu como um pano largo de um teatro
o levantar no silêncio de pontas de agulha
interrogações afiadas
perante os olhos e as vozes
o movimento dos corpos
os cenários vestidos de décor e depois modernos
vazios e cheios de simbólicos
na ausência
que apenas se sugestiona
e abre o ponto por detrás da cabeça
exactamente nesse lugar incerebral
impenetrável e invulgar
como um fragmento
que mostra a parte
o visível do azul
ondas que se aproximam devagar
e uma vaga no mar de Renoir –

tudo aconteceu no imprevisível lugar
nem cedo nem tarde
a hora exacta
escrita pelo desenho na areia
como um braço de árvore
uma oliveira de paz
que escreve e apaga
e apaga e escreve
os teus olhos a tua voz a tua pele
como linhas brancas
caminhando sem pressas
sem revoltas inconfortos ou vinganças
em direcção ao areal
o visível azul
e o branco
de uma vaga no mar de Renoir -

tudo aconteceu porque era primavera
e procurávamos o sol
talvez seja vulgar de dizer
mas um sol pode ter mais valor que um mundo
mesmo que cegue e enlouqueça
na possibilidade -

não houve na pacificidade das asas que sobrevoavam
as palavras fortes que desejavas
um Herberto Hélder de garras e fluxos intermináveis
incontidos como um poema imparável que nos leva atrás
presos por uma corda no pescoço
entre a falta de ar e uma tesoura de pontas afiadas
que desce certa e corta
mesmo antes de chocar com o muro as rochas o precipício
e um corpo desfeito por todos os lados entre sensações
e dúvidas terrenas ou superstições -

tudo aconteceu
porque não há ponteiros de tempo dentro dos nossos olhos
tudo aconteceu na forma de uma insígnia de liras
uma música de cordas na voz dos búzios
tudo aconteceu porque merecíamos e fomos capazes
sem palavras
entre os ombros e os abraços
na cor azul
de um mar indizível-


josé ferreira 23 Janeiro 2012

Maria Sousa

O processo de contar histórias é sempre lento
começa-se pelo início
e há quem diga que chegar ao fim é simples
uma frase é a melhor medida
para juntar os fragmentos
e se a noite a subir pela voz
é um método de fazer silêncios
e o coração é um órgão que
espreita pelos buracos da gramática
no fundo é porque têm um corpo como fronteira


Maria Sousa, Exercícios para endurecimento de lágrimas, Língua Morta, 2010.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Blanc et Blanc


 
I.
O pastor alemão veio morar para o Centro,
Onde a releitura do ódio parece a releitura do amor
trouxe na viagem e na língua ainda o sabor das lágrimas de Heidi
elas nunca tocaram o chão -
a meio da queda ele bebia-as
como um limite, doces e citrinas, sabiam a gin tónico com muito limão
O caminho em direcção ao centro, a carreira de professor que ensina as estações
o medo vem a seguir ao Outono e o desejo a seguir ao Inverno
mas os ciclos são interiores: como as estações
a meio da queda, o frio congela as lágrimas,
 são agora flocos de neve que caem dos olhos de Heidi, parecem estrelas
cobrem os soldadinhos de chumbo de um manto branco

 
II.
despe Sebald… alguém
não é homem nem mulher
porque os géneros mentem –
A sua cara é feita de traição,
de traição os nervos, o contorno do queixo,
 o contorno das orelhas,
de traição os nervos,
 o viso, a expressão,
 de traição também o vento quente que lhe bate na cara.
Tem um derrame nos olhos por ter visto de mais,
e em todos os glóbulos a febre: Vermelha e branca -
Branca e Branca, como a ficha dos homens que fugiram -
 desenha a lápis um fundo onde morar
na expressão um afogamento interior
Desaparece como personagem, Heidi
 No lugar dela: uma memória magnética
Que acende os olhos, o derrame do centro
para onde a memória foi morar
 Ele ou ela disfarçado de noite porque os géneros mentem
Congelam na descida,
 o cair decidido no chão – rotundo,
Os nervos coloridos disfarçados de noite.



III.
Puseram uns patins no pónei branco
e empurram-no para cima do lago congelado
  os seus movimentos numa dança de susto,
O arfar do potro, o medo preso aos tendões
Uma respiração nervosa diz-lhe que sobreviva
O sangue a correr rápido
 o chão a fugir-lhe por baixo das patas
o espectador era só um: Toda a Gente.
O desenho que ficou no gelo, as marcas dos patins,
Da tracção, do espasmo, da dança dos reflexos,
as asas de uma borboleta
  no meio de um livro
 o último leitor fecha-o,
 noutra página um trevo de quatro folhas,
 outros amuletos ainda
ganham vida dentro da Montanha Mágica – Não será mais aberta.

 Falo de um entrar verdadeiro, um Entrar Magnético

IV.
Se nas mãos o mensageiro traz uma vela acesa
e se o mensageiro sofre de insensibilidade motora,
não dá conta que ela lhe queima as mãos
 e de arder todo o mensageiro se faz nova mensagem –
a expressão feita de muitas somas,
uma sede  de novo - foi toda para os olhos,
 desenha a linha da vida, o lápis, o pulso, o traço seguro
O fotógrafo da realidade pousa a máquina, sinal de abandono
 tem só agora a retina e no branco da parte de trás dos olhos,
as duas asas da borboleta, invertidas,
afogadas na representação da órbita
O coleccionador desta realidade faz uma nova cartografia do espaço,
 mas tem de ser ágil, a terra treme e muda muito rápido,
Surgem novas penínsulas, novas ilhas, novos medos onde antes era terra,
 e ao cartógrafo são exigidos reflexos rápidos,
porque também o mapa lhe foge por baixo das mãos.
O pulso seguro desenha a terra que treme
Só a velocidade lhe é permitida, como salvação e nela
a releitura do ódio parece-se com a releitura do amor.
Agudizam-se, chega-se logo aos pólos,
Talvez por isso ele foi morar para o centro.
O fotógrafo da realidade está desempregado, não porque não haja realidade (trabalho não falta) – mas porque o nosso século não permite mais a representação.
Também o cartógrafo. Resta-lhes o precário mas doce ofício de criar novos medos e neles entrarem
Dos teus olhos destilo uma Vontade Nova,
Todo o Desejo, toda a Viagem em nova anatomia
 a minha obsessão por braços, destilo das tuas mãos o caminho.
Da tua sede, a minha sede, da tua língua a minha vigília


V.
De todos os frutos se destila o prazer e o esquecimento
De todos os medos se destila a Crença – procuramos novas formas de beber
A viagem
não admite géneros, só procura -
de viagem a nova anatomia que rasga o universo à escala humana
Os dentes alinhados transmitindo coragem
os nervos tão seguros, os braços a remarem
por canais que abrimos e não se fecham

VI.
Na anatomia a minha obsessão por braços
Na geografia a minha obsessão por penínsulas:
Aquilo que entra –
E depois dos braços, as mãos, e depois os dedos
 extremidades, pontas que recebem e dão, por isso perecíveis, vulneráveis.
E depois penínsulas cada vez mais finas e estreitas,
 paredões, finíssimas línguas de areia que entram pelo mar:
parecem dedos, os Faróis,
pescadores solitários com a lancheira ao lado, namorados –
 Aqui nas pontas recebe-se e leva-se para o centro.
Ali um caminho ou uma artéria fina,
em direcção ao coração,
ao núcleo
Ele pede a sensação que as pontas lhes dão.
As flores roxas fecham-se à noite e as flores amarelas fecham-se à noite.
é no fundo das pessoas e não debaixo das botas
que se calcam os esqueletos das folhas de Outono -

VII.
os soldadinhos de chumbo que o pastor alemão deixou no chão
cobertos pelo manto branco da neve que continua ainda a cair
O frio foi todo morar para dentro, nos ossos, nas pontas dos dedos

Não é só a máquina que filtra, mas também os olhos
Deles nevam as lágrimas ou as estrelas
E elas voltam a subir para desenhar as nuvens do fundo
também da queda se faz subida:
Já não vertical – mas um espalhar-se contínuo, infiltra-se em todo o lado

Não sei de que ângulo a vi partir
Subia, subia
branca e branca era a montanha
Um moinho no cimo, um novelo dentro do moinho
Um cão a guardar o moinho – um pastor alemão
A cauda a abanar a assim que a viu, o riso foi todo para os homens
O resto da natureza ajuda a desenhá-lo
O que vi na tua cara – Mais Deus que qualquer outra coisa
Mais Criador do que tudo… o Branco cruza o Branco
Alguém me perguntou - De que falamos? De que falamos desde que nos conhecemos?
 Os faróis parecem dedos.

Nuno Brito

palavras de prefácio de um livro que se chama abraço




Os livros, esses animais opacos por fora, essas donzelas. Os livros caem do céu, fazem grandes linhas rectas e, ao atingir o chão, explodem em silêncio. Tudo neles é absoluto, até as contradições em que tropeçam. E estão lá, aqui, a olhar-nos de todos os lados, a hipnotizar-nos por telepatia. Devemos-lhes tanto, até a loucura, até os pesadelos, até a esperança em todas as suas formas

José Luís Peixoto